Salvos pela obediência e pela gratidão

Será assim tão difícil engolir o orgulho e ir falar com ele? Questionava-o a mulher sabendo que uma recusa iria colocar em causa a sobrevivência de toda a família. Ela sabe que o marido tem ideias fixas e quando se sente encurralado reage mal, atitude que frequentemente os atirava para a pobreza.

Doido, no mais íntimo de si mesmo, ele resmunga entre a teimosia que o dilacera e a necessidade de se dobrar diante de outro, denunciando a sua fraqueza.

LEITURA I 2 Rs 5, 14-17

Naqueles dias,
o general sírio Naamã desceu ao Jordão
e aí mergulhou sete vezes,
como lhe mandara Eliseu, o homem de Deus.
A sua carne tornou-se tenra como a de uma criança
e ficou purificado da lepra.
Naamã foi ter novamente com o homem de Deus,
acompanhado de toda a sua comitiva.
Ao chegar diante dele, exclamou:
«Agora reconheço que em toda a terra
não há outro Deus senão o de Israel.
Peço-te que aceites um presente deste teu servo».
Eliseu respondeu-lhe:
«Pela vida do Senhor que eu sirvo,
nada aceitarei».
E apesar das insistências, ele recusou.
Disse então Naamã: «Se não aceitas,
permite ao menos que se dê a este teu servo
uma porção de terra para um altar,
tanto quanto possa carregar uma parelha de mulas,
porque o teu servo nunca mais há de oferecer
holocausto ou sacrifício a quaisquer outros deuses,
mas apenas ao Senhor, Deus de Israel».

A história de Naamã fala de cura e conversão. Este homem, um general, procura a cura para o corpo e, depois de uma luta interior, chega à humildade necessária para converter a sua vida, tornando-se adorador do Deus único. Tudo isto acontece por meio das águas, o que recorda o nosso batismo.

Salmo 97 (98), 1-4 (R. cf. 2b)

O Deus de Israel é também Deus de toda a terra. As suas maravilhas não se destinam apenas a Israel, nem a vitória é limitada às fronteiras da terra que ele ocupa. O Senhor faz maravilhas em todos os povos e governa o mundo todo.

LEITURA II 2 Tm 2, 8-13

Caríssimo:
Lembra-te de que Jesus Cristo, descendente de David,
ressuscitou dos mortos, segundo o meu Evangelho,
pelo qual eu sofro,
até ao ponto de estar preso a estas cadeias como um malfeitor.
Mas a palavra de Deus não está encadeada.
Por isso, tudo suporto por causa dos eleitos,
para que obtenham a salvação que está em Cristo Jesus,
com a glória eterna.
É digna de fé esta palavra:
Se morremos com Cristo, também com Ele viveremos;
se sofremos com Cristo, também com Ele reinaremos;
se O negarmos, também Ele nos negará;
se Lhe formos infiéis, Ele permanece fiel,
porque não pode negar-Se a Si mesmo.

Ainda que sejamos infiéis, o Senhor será sempre fiel. Esta fidelidade não dá o direito de fazermos o que nos apetece, é um chamamento a fixar o olhar em Cristo ressuscitado e a penetrar na sua palavra, pois só assim, poderemos participar da sua glória.

EVANGELHO Lc 17, 11-19

Naquele tempo,
indo Jesus a caminho de Jerusalém,
passava entre a Samaria e a Galileia.
Ao entrar numa povoação,
vieram ao seu encontro dez leprosos.
Conservando-se a distância, disseram em alta voz:
«Jesus, Mestre, tem compaixão de nós».
Ao vê-los, Jesus disse-lhes:
«Ide mostrar-vos aos sacerdotes».
E sucedeu que no caminho ficaram limpos da lepra.
Um deles, ao ver-se curado,
voltou atrás, glorificando a Deus em alta voz,
e prostrou-se de rosto em terra aos pés de Jesus,
para Lhe agradecer.
Era um samaritano.
Jesus, tomando a palavra, disse:
«Não foram dez os que ficaram curados?
Onde estão os outros nove?
Não se encontrou quem voltasse para dar glória a Deus
senão este estrangeiro?».
E disse ao homem:
«Levanta-te e segue o teu caminho;
a tua fé te salvou».

Ser curado não é o mesmo que ser salvo. Os dez leprosos suplicam a Jesus que os cure e ele cura-os da doença que os impede de participar na vida social. Se todos ficam curados, nem todos são salvos. Só um estrangeiro tem coragem de regressar para dar glória a Deus e agradecer a Jesus. E só ele foi salvo: “A tua fé te salvou” escuta ele de Jesus.

Reflexão da Palavra                                                                                                     

O segundo livro dos Reis conta que, no tempo do profeta Eliseu, um general sírio, de nome Naamã, com lepra — uma condição que implicava não só doença, mas também impureza social e religiosa — vai a Israel à procura de cura. Tendo sabido que o profeta o podia curar, desloca-se com grande aparato e uma fortuna em ouro, prata e vestuário, com o intuito de “comprar” o milagre.

Sabemos que o profeta Eliseu nem sai da tenda para o ver, mandando um servo dizer-lhe para ir ao rio Jordão banhar-se sete vezes. Perante aquela situação, o general enfurece-se, habituado que está a ser honrado pela sua importância. A atitude do profeta parece-lhe desrespeitosa e o tratamento receitado, um simples banho no modesto rio Jordão, uma prova à sua humildade que ele inicialmente rejeita.

A sorte do general é estar acompanhado por servos que o persuadem a cumprir a ordem do profeta, argumentando com sensatez: “Meu pai, mesmo que o profeta te tivesse mandado uma coisa difícil, não a deverias fazer? Quanto mais, agora, ao dizer-te: ‘lava-te e ficarás curado’”. Compreendendo a situação, Naamã depõe o seu orgulho, desce às águas do Jordão e banha-se sete vezes, num gesto de fé e obediência.

Admirado ao ver-se curado, o general quer cumprir a segunda parte do seu plano: pagar pelo dom recebido. Mas o profeta deixa-o novamente desarmado, recusando qualquer pagamento. Este gesto é teologicamente decisivo: ensina que o dom de Deus é gratuito, não pode ser comprado nem merecido, apenas acolhido.

O general percebe, então, que a sua cura não é uma transação. A única resposta válida perante um dom tão grande não é o pagamento, mas o reconhecimento. Assim, professa a sua fé: “Agora reconheço que em toda a terra não há outro Deus senão o de Israel” e dispõe-se a adorá-lo como único Deus, comprometendo-se a nunca mais oferecer sacrifício a outros deuses. A sua cura física culmina numa conversão espiritual, livre de qualquer imposição, espontânea e pessoal.

No seguimento da primeira leitura, o Salmo 97 funciona como a resposta litúrgica, afirmando a universalidade da salvação que a história de Naamã acaba de encarnar. Construído em três partes, o salmo faz um convite crescente ao louvor: começa por Israel, “Cantai ao Senhor um cântico novo”, alarga-se a todos os povos, “aclamai o Senhor, terra inteira” e culmina no convite a toda a criação, “ressoe o mar e tudo o que ele contém”. Para o salmista, a ação salvadora de Deus não conhece fronteiras e, como prova o sírio Naamã, destina-se a todos os que habitam o mundo.

Paulo recorda a Timóteo a sua situação de prisioneiro por causa do evangelho. Perante esta situação a atitude correta é olhar para Cristo ressuscitado e não lamentar-se como se a missão estivesse impossibilitada de se concretizar. Na sua afirmação, “a Palavra de Deus não está acorrentada”, ecoa a certeza de que o evangelho vai mais longe do que o apóstolo. Embora o mensageiro possa ser preso, a força do Evangelho é livre e eficaz. Paulo exorta Timóteo a perseverar com base naquilo que sustenta a sua própria esperança: a fidelidade inabalável de Deus. O hino que o texto cita — “Se somos infiéis, Ele permanece fiel” — indica a rocha segura, sobre a qual se apoia a fé e a motivação para uma vida de testemunho, mesmo no sacrifício.

O Evangelho de Lucas coloca-nos com Jesus no caminho para Jerusalém, entre a Galileia e a Samaria — um território de influência pagã, de cultura duvidosa e de gente excluída. É ali que Jesus se encontra com dez leprosos. Eles suplicam de longe: “Tem piedade de nós”.

Jesus, tal como Eliseu, cura-os à distância, exigindo um ato de fé e obediência: “Ide mostrar-vos aos sacerdotes“. A ordem já continha a promessa da cura, pois de que serviria irem aos sacerdotes — a autoridade que podia certificar a cura e reintegrá-los na comunidade — se não por lhes ter sido concedida cura?

É no caminho, enquanto cumprem a palavra de Jesus, que ficam curados. O objetivo deles é alcançado. No entanto, um deles, um samaritano — o estrangeiro, o herege, aquele de quem menos se esperava — “voltou para trás, glorificando a Deus em alta voz, e prostrou-se de rosto em terra aos pés de Jesus, para Lhe agradecer“.

Prostrar-se, dar glória e agradecer são gestos de adoração que revelam que este homem não viu em Jesus apenas um curandeiro, mas o próprio lugar da ação salvadora de Deus. Os outros nove receberam o dom, mas este samaritano reconheceu o Doador. Para ele, o centro da sua vida altera-se; já não precisa de ir ao Templo, porque encontrou em Jesus a presença de Deus. Por isso, ouve de Jesus a confirmação não da sua cura, mas da sua salvação: “A tua fé te salvou”.

Com estas palavras, Lucas ensina que não basta encontrar-se com Jesus; é necessário reconhecê-Lo. Não basta ficar curado; é preciso deixar-se salvar. A pergunta final de Jesus, “Não foram dez os que ficaram curados? Onde estão os outros nove?”, continua a ecoar no evangelho para todos os leitores.

Meditação da Palavra

“Não foram dez os que ficaram curados? Onde estão os outros nove?”. A pergunta de Jesus ecoa com uma tristeza serena no final do Evangelho. É uma pergunta que não se dirige apenas aos ausentes daquele dia, mas a cada um de nós. Perante a generosidade divina manifestada na vida, na saúde, na família, no trabalho e até a própria fé, com que frequência paramos, voltamos atrás e nos prostramos em agradecimento? As leituras deste domingo convidam-nos a descobrir que, nesse gesto de voltar para agradecer, reside a diferença entre ser simplesmente curado e ser verdadeiramente salvo.

A liturgia apresenta-nos dois protagonistas improváveis: Naamã, um general sírio, e um leproso samaritano. Ambos são “estrangeiros” diante do povo judeu, ambos sofrem de lepra, uma doença que os isolava social e religiosamente. A sua cura passa por um ato de humildade e obediência: Naamã tem de abandonar o seu orgulho e mergulhar nas águas simples do Jordão; os dez leprosos têm de se pôr a caminho para se mostrarem aos sacerdotes, confiando na palavra de Jesus.

Até aqui, as histórias são semelhantes. Mas o que os torna exemplos de fé é o que acontece depois da cura. Naamã volta à tenda do profeta Eliseu e percebe que diante do milagre a resposta não é pagar, mas proclamar a sua fé: “Agora reconheço que em toda a terra não há outro Deus senão o de Israel”. O samaritano, ao ver-se curado, volta também atrás, “glorificando a Deus em alta voz”, e prostra-se aos pés de Jesus. Em ambos os casos, a cura física abre caminho a uma conversão do coração.

Aqui está o núcleo da mensagem. Os dez leprosos receberam a cura. A sua pele ficou limpa, a sua vida social foi restaurada. Receberam um milagre. Mas nove deles seguiram o seu caminho, talvez felizes, mas inalterados na sua relação com aquele que os curou.

Apenas um, o estrangeiro, compreendeu que o dom apontava para o Doador. Ao voltar, ele não procura apenas agradecer por um benefício; ele procura Aquele que lho concedeu. Por isso, só a ele Jesus diz: “Levanta-te e segue o teu caminho; a tua fé te salvou”. A salvação é mais do que a ausência de doença; é a presença de uma relação. É a comunhão restaurada com Deus. A gratidão foi a ponte que o levou da cura física à salvação integral.

Ao escutarmos este evangelho, talvez nos reconheçamos, com vergonha, entre os nove ausentes. Quantas vezes a nossa oração é um pedido e, uma vez atendido, seguimos em frente sem olhar para trás? É aqui que a segunda leitura nos traz um consolo imenso. São Paulo, mesmo acorrentado, lembra-nos de uma verdade fundamental: “se Lhe formos infiéis, Ele permanece fiel, porque não pode negar-Se a Si mesmo”.

A fidelidade de Deus não depende da nossa. Ele está sempre à nossa espera, como Jesus esperou pelos outros nove. O seu amor não se retrai perante a nossa ingratidão. No entanto, esta certeza não deve acomodar-nos, mas sim motivar-nos a voltar sempre, sabendo que a Sua misericórdia está pronta para nos acolher e completar em nós a obra da salvação.

A palavra “Eucaristia” significa, precisamente, “Ação de Graças”. Em cada missa, somos convidados a ser como o samaritano: a voltar ao altar para agradecer, reconhecer e louvar a Deus pela salvação que nos oferece em Jesus. Por isso sentimos a necessidade de vir sempre, cada domingo, porque todos os domingos temos razões, novas e menos novas razões, para agradecer e reconhecer que só Jesus nos pode salvar.

Rezar a Palavra

Senhor Jesus, ensina-me a voltar atrás. No meio das angústias da minha vida, quando não tenho mais a quem recorrer e percebo que só tu podes vir em meu auxílio, que eu não fique apenas feliz porque me socorreste e libertaste da aflição e da dor. Que eu queira ser salvo e volte de novo a ti, reconhecendo-te como Senhor e Messias, o ressuscitado que me dá vida.

Compromisso semanal

Nesta semana quero dizer como o salmista “o Senhor fez maravilhas”.