Martírio de João Batista

Jeremias 1, 17-19 

Naqueles dias, o Senhor dirigiu-me a palavra, dizendo: «Cinge os teus rins e levanta-te, para ires dizer tudo o que Eu te ordenar. Não temas diante deles, senão serei Eu que te farei temer a sua presença. Hoje mesmo faço de ti uma cidade fortificada, uma coluna de ferro e uma muralha de bronze, diante de todo este país, dos reis de Judá e dos seus chefes, diante dos sacerdotes e do povo da terra. Eles combaterão contra ti, mas não poderão vencer-te, porque Eu estou contigo para te salvar».

Compreender a Palavra

Celebramos a Memória do Martírio de João Batista

Recordando o martírio de João Batista, a igreja propõe esta passagem do profeta Jeremias, por se identificar com a missão e vida do mártire precursor da vinda de Messias. Deus dirige a palavra ao profeta, enviando-o a comunicar ao povo, aos seus chefes e sacerdotes, uma palavra difícil de ouvir. Deus sabe que resistiram com violência às palavras do profeta porque são denúncia da sua conduta, mas, porque Deus não abandona aquele que envia, também não aceita que ele, por receio vacile diante da missão. As palavras do texto bíblico são claras “Não temas diante deles, senão serei eu que te farei temer a sua presença”. A presença do Senhor naqueles que são seus enviados é poderosa “Faço de ti uma cidade fortificada, uma coluna de ferro e uma muralha de bronze… não poderão vencer-te”.

Meditar a Palavra

Como Jeremias também João Batista se sentiu chamado a uma missão especial e a confiar com fortaleza até ao martírio naquele que o chamou e enviou a anunciar. Todos, hoje, diante desta página da Escritura, sentimos que Deus nos chama a comunicar a sua palavra, palavra da verdade, ao mundo que nos rodeia. Os caminhos do Senhor são diversos mas também há caminhos que não são do Senhor. Por isso, é necessário anunciar com coragem e fortaleza a verdade anunciada por Jesus, para em todos os homens se manifeste a presença de Deus e todos sejam salvos pelo reconhecimento da verdade.

Rezar a Palavra

Diante da tua palavra, Senhor, sinto que me chamas a uma vida mais autêntica, longe de qualquer fingimento. Sinto que me fortaleces para comunicar aos meus irmãos o caminho de Jesus, aquele que pode salvar os nossos corações indecisos, perdidos e confusos, diante dos muitos caminhos da vida.

Compromisso

Quero confiar na presença de Deus que me fortalece nas lutas de cada dia.


1 Coríntios 2, 1-5 

Quando fui ter convosco, irmãos, não me apresentei com sublimidade de linguagem ou de sabedoria a anunciar-vos o mistério de Deus. Pensei que, entre vós, não devia saber nada senão Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado. Apresentei-me diante de vós cheio de fraqueza e de temor e a tremer deveras. A minha palavra e a minha pregação não se basearam na linguagem convincente da sabedoria, mas na poderosa manifestação do Espírito Santo, para que a vossa fé não se fundasse na sabedoria humana, mas no poder de Deus.

Compreender a Palavra

As palavras de Paulo na Carta aos coríntios definem a atitude do apóstolo na sua missão evangelizadora. Os coríntios estavam habituados à sabedoria dos homens apreciavam as grandes argumentações filosóficas. Paulo, no entanto, vai ter com eles a tremer e como quem não sabe nada. Desta forma o apóstolo pretende que os coríntios cheguem à fé em Cristo não por causa dos seus argumentos mas pelo poder de Deus que se revela em quem anuncia e em quem escuta o anúncio. O importante para Paulo não é que se acredite em palavras convincentes mas em Cristo e a fé em Cristo não são argumentos lógicos mas encontro pessoal com Ele. A conversão dos coríntios deu-se pela manifestação do Espírito Santo e pelo poder de Deus.

Meditar a Palavra

A palavra de Paulo põe em causa a nossa atitude diante de quem nos anuncia o evangelho. Temos a tentação de escolher a mensagem a partir das qualidades do mensageiro. Fala bem, usa linguagem agradável e atraente, sabe usar das palavras para convencer ou então, não cativa, não tem discurso agradável, não é fácil escutar. Mas o importante não é aquele que fala mas a mensagem que transmite. Perdemos a mensagem quando rejeitamos o mensageiro. Foi assim que aconteceu a Herodes, em vez de acolher a mensagem mandou decapitar João Batista, o mensageiro.

Rezar a Palavra

Pelos simples e humildes instrumentos fazes chegar até mim a palavra da salvação, a força e o poder do Espírito Santo. Ensina-me a dispor o coração para te escutar e acolher a tua mensagem valorizando a humildade do mensageiro que se dispõe a gastar a vida para que a tua palavra seja ouvida em toda a terra.

Compromisso

Quero aprender a escutar a mensagem que Deus faz chegar à minha vida.


Evangelho: Mc 6, 17-29

Naquele tempo, o rei Herodes mandara prender João e algemá-lo no cárcere, por causa de Herodíades, a mulher do seu irmão Filipe, que ele tinha tomado por esposa. João dizia a Herodes: «Não podes ter contigo a mulher do teu irmão». Herodíades odiava João Baptista e queria dar-lhe a morte, mas não podia, porque Herodes respeitava João, sabendo que era justo e santo, e por isso o protegia. Quando o ouvia, ficava perturbado, mas escutava-o com prazer. Entretanto, chegou um dia oportuno, quando Herodes, no seu aniversário natalício, ofereceu um banquete aos grandes da corte, aos oficiais e às principais personalidades da Galileia. Entrou então a filha de Herodíades, que dançou e agradou a Herodes e aos convidados. O rei disse à jovem: «Pede-me o que desejares e eu to darei». E fez este juramento: «Dar-te-ei o que me pedires, ainda que seja a metade do meu reino». Ela saiu e perguntou à mãe: «Que hei-de pedir?». A mãe respondeu-lhe: «Pede a cabeça de João Baptista». Ela voltou apressadamente à presença do rei e fez-lhe este pedido: «Quero que me dês sem demora, num prato, a cabeça de João Baptista». O rei ficou consternado, mas por causa do juramento e dos convidados, não quis recusar o pedido. E mandou imediatamente um guarda, com ordem de trazer a cabeça de João. O guarda foi à cadeia, cortou a cabeça de João e trouxe-a num prato. A jovem recebeu-a e entregou-a à mãe. Quando os discípulos de João souberam a notícia, foram buscar o seu cadáver e deram-lhe sepultura.

Compreender a Palavra

O texto evangélico apresenta uma série de relações estabelecidas a partir do pecado e as consequências a que podem levar os compromissos estabelecidos por causa do mesmo pecado. Actuam aqui duas forças claramente opostas e de diferente poder, de um lado o mal com todas as suas características e insídias e de outro, a verdade. As forças do mal parecem vencer porque levam à morte do adversário, mas o texto deixa entrever que o justo não termina a sua vida nem a sua influência com a morte. Em concreto a história mostra-nos que Herodes tomou como esposa a mulher de seu irmão. João Baptista condena esta ligação e ganha o ódio de Herodíades. O rei parece acalmar o seu remorso ao ouvir João que o chama à razão, mas a força do pecado é mais forte que as palavras de João. A ocasião surge e Herodes não foi capaz de se comprometer com as palavras de João, mas compromete-se com as suas próprias palavras que o levam a mandar cortar a cabeça do profeta. Como em todas as situações de pecado, a morte de João está embrulhada na ilusão de uma festa, escondida na noite do mal e deve ser executada sem demora. Do outro lado estão os discípulos de João que recolhem o corpo e lhe dão sepultura.

Meditar a Palavra

Dentro de mim existem continuamente duas forças antagónicas que reclamam a minha atenção e dedicação. A liberdade parece imperar apenas do lado do bem. As forças do mal mostram-se sensatas, libertadoras, apaziguadoras da consciência. Parece fácil entregar-lhes a vida. As forças do bem parecem sem sentido, esmagadoras da minha liberdade, opressoras e limitadoras da vida que se apresenta promissora. No final as consequências são sempre a morte de alguém. A minha morte, a morte dos que estão perto ou a morte dos inocentes. Alguém fica mal quando eu peco e o sabor final da vitória mostra-se na sua total verdade como uma derrota. Quando não me comprometo com a palavra de Deus comprometo-me com a minha palavra. Quando não entro na alegria de Deus mergulho na algazarra da festa dos homens. Quando não entro na luz termino rodeado de trevas. O pecado chama-me sem demora e não resisto se não estiver comprometido com Deus.

Rezar a Palavra

É tão difícil ouvir estas palavras “não podes”. Porque será, Senhor, que me deixo seduzir tão facilmente por aquilo que “não posso”? Porque questiono tanto os porquês da proibição? Queria ser sensato e procurar as razões que fundamentam a vida livre e feliz dos que procuram o bem, dos que desejam a verdade, dos que se alegram com a tua vontade. Mostra-me, Senhor, como é escorregadio o caminho do mal.

Compromisso

Vou analisar a minha vida para cortar com todas as minhas decisões que são compromisso com o mal.

Sexta-feira da Semana XXI do Tempo Comum

Evangelho: Mt 25, 1-13

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se a dez virgens, que, tomando as suas lâmpadas, foram ao encontro do esposo. Cinco eram insensatas e cinco eram prudentes. As insensatas, ao tomarem as suas lâmpadas, não levaram azeite consigo, enquanto as prudentes, com as lâmpadas, levaram azeite nas almotolias. Como o esposo se demorava, começaram todas a dormitar e adormeceram. No meio da noite ouviu-se um brado: ‘Aí vem o esposo; ide ao seu encontro’. Então, as virgens levantaram-se todas e começaram a preparar as lâmpadas. As insensatas disseram às prudentes: ‘Dai-nos do vosso azeite, que as nossas lâmpadas estão a apagar-se’. Mas as prudentes responderam: ‘Talvez não chegue para nós e para vós. Ide antes comprá-lo aos vendedores’. Mas, enquanto foram comprá-lo, chegou o esposo: as que estavam preparadas entraram com ele para o banquete nupcial; e a porta fechou-se. Mais tarde, chegaram também as outras virgens e disseram: ‘Senhor, senhor, abre-nos a porta’. Mas ele respondeu: ‘Em verdade vos digo: Não vos conheço’. Portanto, vigiai, porque não sabeis o dia nem a hora».

Compreender a Palavra

No Evangelho de Mateus, Jesus insiste nesta ideia da vigilância perante a incerteza da chegada do esposo. Esta parábola é muito significativa porque oferece os ingredientes para a reflexão sobre a vigilância. As dez virgens encontram-se em pé de igualdade. Todas foram convocadas para esperar o esposo. Todas tiveram oportunidade para preparar as lâmpadas e sabiam que podiam fazer falta se o esposo se atrasasse. Todas experimentaram o cansaço e todas ouviram o mesmo grito de alerta: “Aí vem o esposo”. Na hora da verdade revelou-se uma grande diferença entre as virgens: cinco eram prudentes e cinco eram insensatas. A diferença manifestou-se no facto de cinco destas virgens, apesar de saberem tudo e terem condições para se prepararem bem, não o quiseram fazer. Pegaram nas lâmpadas e nas almotolias mas não cuidaram de trazer o azeite necessário. Este pequeno pormenor, foi o suficiente para que não entrassem no banquete porque não foram reconhecidas pelo esposo.

Meditar a Palavra

“Aí vem o esposo”. Este grito de alerta soa no limite de todas as possibilidades de preparar a chegada do esposo. Até que se ouve o grito de anúncio, há tempo para preparar as lâmpadas e encher as almotolias. A minha vida é essa lâmpada e essa almotolia que não pode estar às escuras. Não pode haver sombras em mim porque sou um vigilante que espera o esposo. Tudo em mim tem que ser luz que mostra o meu verdadeiro rosto àquele que faz entrar no banquete nupcial. Preciso cuidar muito da minha vida para que ela seja lugar onde Deus me conhece e deseja encontrar-se comigo.

Rezar a Palavra

“Não te conheço”. São duras as tuas palavras, Senhor. Pelas minhas opções posso transformar-me em alguém tão desfigurado que nem tu me conheces. Ensina-me a cuidar da minha vida para que possa restaurar em mim a imagem divina à semelhança da qual fui criado e concede-me o dom da prudência para que não me perca pelos caminhos da insensatez que me impedem de estar contigo para sempre.

Compromisso

Quero deixar-me iluminar por Jesus para orientar os meus passos pelo caminho da eternidade.

Quinta-feira da Semana XXI do Tempo Comum

Evangelho: Mt 24, 42-51

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Vigiai, porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor. Compreendei isto: se o dono da casa soubesse a que horas da noite viria o ladrão, estaria vigilante e não deixaria arrombar a sua casa. Por isso, estai vós também preparados, porque na hora em que menos pensais, virá o Filho do homem. Quem é o servo fiel e prudente, que o senhor pôs à frente da sua casa, para lhe dar o alimento em tempo oportuno? Feliz aquele servo que o senhor, ao chegar, encontrar procedendo assim. Em verdade vos digo que lhe confiará a administração de todos os seus bens. Mas se o servo for mau e disser consigo: ‘O meu senhor demora-se’, e começar a espancar os companheiros e a comer e beber com os ébrios, quando o senhor daquele servo chegar, em dia que ele não espera e à hora que ele não pensa, expulsá-lo-á e lhe dará a sorte dos hipócritas. Aí haverá choro e ranger de dentes».

Compreender a Palavra

Jesus apresenta muitas advertências sobre a necessidade de estar vigilantes, atentos, preparados, porque não sabemos o dia nem a hora. Este tema é recorrente. No texto de hoje, fala-se dos que estão à frente da sua casa, os responsáveis pelas comunidades, mas pode aplicar-se à vida de cada um. Podemos exercer as nossas funções e viver a nossa vida como homens prudentes que sabem da responsabilidade de prestar contas ao Senhor ou viver como insensatos que se julgam donos de tudo esquecendo que o Senhor vem. A sorte dos sensatos é a felicidade: “Feliz o servo que o Senhor encontrar procedendo assim”. A sorte dos insensatos é a dos hipócritas: “expulsá-lo-á”.

Meditar a Palavra

Sinto o grito do Senhor que me chama a viver a responsabilidade diante da vida. O Senhor virá e eu serei chamado a prestar-lhe contas de tudo o que me confiou. Não posso deixar-me dormir e muito menos ultrapassar os limites da sensatez vivendo como senhor de mim mesmo e dos meus irmãos, devassando os bens do Senhor depositados nas minhas mãos para o bem de todos. O aviso do Senhor é sério e está em causa o meu lugar junto dele. Preciso de estar atento e vigilante para não me deixar vencer pelo mal que me faz cair na insensatez.

Rezar a Palavra

Senhor Jesus faz-me ouvir o teu grito de alerta para que a minha vida não caia na hipocrisia nem me desleixe nos meus compromissos para contigo e para com os irmãos. Mostra-me o caminho da felicidade que brota da fidelidade à missão que me confiaste. Ensina-me a agir com verdade e justiça para que todos recebam os dons que lhes ofereces através do meu trabalho.

Compromisso

Quero viver do trabalho digno das minhas mãos e assistir os meus irmãos nas suas dificuldades.

S. Bartolomeu, Apóstolo

Apocalipse 21, 9b-14
O Anjo falou-me, dizendo: «Vou mostrar-te a noiva, a esposa do Cordeiro». Transportou-me em espírito ao cimo de uma alta montanha e mostrou-me a cidade santa de Jerusalém, que descia do Céu, da presença de Deus, resplandecente da glória de Deus. O seu esplendor era como o de uma pedra preciosíssima, como uma pedra de jaspe cristalino. Tinha uma grande e alta muralha, com doze portas e, junto delas, doze Anjos; tinha também nomes gravados, os nomes das doze tribos dos filhos de Israel: três portas ao oriente, três portas ao norte, três portas ao sul e três portas ao ocidente. A muralha da cidade tinha na base doze reforços salientes e neles doze nomes: os dos doze Apóstolos do Cordeiro.

Compreender a Palavra
Celebramos a Festa de S. Bartolomeu, Apóstolo
O texto escolhido, do Apocalipse apresenta a Igreja como a noiva, a esposa do Cordeiro. É identificada também com a cidade santa de Jerusalém. Está na presença de Deus e resplandece com a sua glória. É uma cidade forte, com portas para todos os lados. Nela estão gravados os nomes das doze tribos de Israel mas é sustentada por doze reforços onde se inscrevem os nomes dos apóstolos, os escolhidos por Jesus para andarem com ele e para serem enviados em missão. Estes, não só cumpriram a missão que lhes foi confiada, como também se identificaram com o Cordeiro no mistério da paixão, sofrendo o martírio pelo nome de Jesus, por isso são chamados apóstolos do Cordeiro.

Meditar a Palavra
Ao olhar para a Igreja vemos muitas vezes a sua configuração exterior, tal qual aparece aos nossos olhos e se mostra ao mundo na cúria romana. A Igreja, porém, é muito mais do que o que os nossos olhos podem ver, podemos até dizer que ela é mesmo outra coisa que os nossos olhos não veem. Ela é a esposa do Cordeiro, nascida do amor de Deus e do lado aberto de Cristo na cruz, purificada, lavada no sangue do Cordeiro para ser apresentada sem mancha nem ruga àquele que a desposou. O martírio está na sua origem e configura-a continuamente na sua história. Começa no martírio de Cristo, continua no martírio dos apóstolos e é mantida na sua graça original através do sangue dos mártires de todos os tempos também dos que hoje continuam a dar a vida pelo evangelho. Ver apenas o exterior, a riqueza do Vaticano ou as liturgias cheias de beleza que se celebram pelo mundo fora é ver apenas uma pequena parte deste mistério. Os nossos olhos devem abrir-se para o mistério que as celebrações da Igreja revelam, feito de vidas que se dão até à morte.

Rezar a Palavra
O apóstolo Bartolomeu, à semelhança dos seus companheiros, deu a vida por ti depois de incansavelmente anunciar o evangelho que lhe confiaste, Senhor. Ele é hoje para nós um desafio a anunciar, com palavras e com a vida, a verdade do teu amor e da tua salvação. Dá-nos a coragem de avançar pelo mundo com o mesmo entusiasmo e a mesma decisão de viver para ti e para o evangelho em favor dos irmãos que não te conhecem e não te amam e, por isso, não vivem na esperança que vem do teu amor.

Compromisso
Quero ser sinal de uma Igreja que dá a vida pela salvação dos homens.


Evangelho: Jo 1, 45-51
Naquele tempo, Filipe encontrou Natanael e disse-lhe: «Encontrámos Aquele de quem está escrito na Lei de Moisés e nos Profetas. É Jesus de Nazaré, filho de José». Disse-lhe Natanael: «De Nazaré pode vir alguma coisa boa?». Filipe respondeu-lhe: «Vem ver». Jesus viu Natanael, que vinha ao seu encontro, e disse: «Eis um verdadeiro israelita, em quem não há fingimento». Perguntou-lhe Natanael: «De onde me conheces?». Jesus respondeu-lhe: «Antes que Filipe te chamasse, Eu vi-te quando estavas debaixo da figueira». Disse-lhe Natanael: «Mestre, Tu és o Filho de Deus, Tu és o Rei de Israel!». Jesus respondeu: «Porque te disse: ‘Eu vi-te debaixo da figueira’, acreditas. Verás coisas maiores do que estas». E acrescentou: «Em verdade, em verdade vos digo: Vereis o Céu aberto e os Anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do homem».

Compreender a Palavra
O evangelho de João relata-nos a missão de Filipe junto de Natanael a quem anuncia ter encontrado Jesus de Nazaré. A atitude de Natanael perante o anúncio de Jesus não é entusiasta, muito pelo contrário, mostra-se renitente em reconhecer que o Messias possa vir de Nazaré. No entanto, perante a insistência de Filipe que o convida “vem ver”, ele foi e encontrou-se com Jesus. Este encontro foi determinante para ele. O homem resistente e duro, tornou-se dócil ao olhar e às palavras de Jesus. A verdade encontrou-se com a verdade. Natanael não tinha nada a esconder e Jesus mostrou-lhe o que tinha para lhe revelar e abriu-lhe o caminho para ver coisas ainda maiores.

Meditar a Palavra
“Eu vi-te”. Esta afirmação é o centro deste episódio que narra a vocação de Bartolomeu (Natanael). Aquele que não queria acreditar, que não aceitava o testemunho de Filipe, foi convidado a ver e acabou sendo visto por aquele a quem ia ver. O segredo de Jesus é este de projectar sobre mim o seu olhar e me fazer ver o que eu julgo poder ver por mim mesmo. Ele prepara tudo para que eu possa chegar ao conhecimento da sua pessoa e faz-me acreditar que é por mim, com as minhas capacidades, pelas minhas forças que chego a conhecer. Jesus também me mostra que antes de eu o conhecer, antes de o ver, antes de o amar, já Ele me vê, me conhece e me ama.

Rezara Palavra
Quem és tu para mim, Senhor? Faço esta pergunta, perante a minha incapacidade de te conhecer e seguir entusiasmado como Filipe. Faço esta pergunta quando olho a transparência de Natanael. Na minha vida falta a verdade necessária para te poder ver. Falta-me a transparência para poder ser visto por ti. Faz-me ver, Senhor. Mostra-me o caminho pelo qual posso ver coisas ainda maiores que tudo o que já tive oportunidade de ver.

Compromisso
Quero deixar-me ver por Jesus no silêncio da oração.

Terça-feira da Semana XXI do Tempo Comum

Evangelho: Mt 23, 23-26

Naquele tempo, disse Jesus: «Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, porque pagais o dízimo da hortelã, do funcho e do cominho, mas omitis as coisas mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Devíeis praticar estas coisas, sem omitir as outras. Guias cegos! Coais o mosquito e engolis o camelo. Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, porque limpais o exterior do copo e do prato, que por dentro estão cheios de rapina e intemperança. Fariseu cego! Limpa primeiro o interior do copo e do prato, para que também o exterior fique limpo».

Compreender a Palavra

Jesus fala para os Fariseus e os Escribas. Estes grupos da sociedade judaica tinham grande exigência no cumprimento das mais pequenas indicações da lei, mas faltava-lhes o mais importante, a capacidade de ver a verdade e procurar a justiça. Faltava-lhes um olhar de amor sobre o mundo, a vida e o homem. Não estavam abertos à presença e acção misericordiosa de Deus no mundo. Por essa razão andavam perdidos em coisas insignificantes. Como Jesus diz “coais o mosquito e engolis o camelo”. Chama-lhes hipócritas porque esta atitude é tudo menos inocente, está manchada pelos interesses humanos e individuais que acabam na injustiça face aos mais frágeis e desprezados da sociedade. Preocupam-se com o exterior e não com o interior.

Meditar a Palavra

Sinto estas palavras de Jesus como uma proposta de análise da minha própria vida. Toca-me esta expressão de Jesus “Ai de vós”. Sou chamado a um exame de consciência para não deixar que o meu esforço siga na direcção errada do parecer aos olhos dos outros, em vez de ser de verdade aquilo que Deus espera de mim e me propõe como caminho de justiça, verdade e vida. Posso cair na tentação de armar uma imagem atraente aos olhos dos homens e acabar com o meu interior cheio de podridão e malícia. Posso tornar-me cego que quer guiar os outros sem saber para onde ir.

Rezar a Palavra

Senhor Jesus, as tuas palavras chamam-me a procurar a verdade, a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Não é fácil aceitar a tua proposta de amor. Não é fácil resistir à tentação do parecer. É muito fácil fazer da aparência um lugar de felicidade. Mostra-me, Senhor, a alegria da fidelidade ao teu evangelho para que não me satisfaça com pequenas emoções e mesquinhos encantamentos, mas te busque a ti como resposta total para a minha vida.

Compromisso

Hoje é dia de limpar o meu interior de algum mal que ainda possa estar a chamar-me para longe da verdade que é Cristo.

Segunda-feira da Semana XXI do Tempo Comum

Evangelho: Mt 23, 13-22

Naquele tempo, disse Jesus: «Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, porque fechais aos homens o reino dos Céus: vós não entrais nem deixais entrar os que o desejam. Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, porque dais volta ao mar e à terra, para fazerdes um convertido, mas, tendo-o conseguido, fazeis dele um merecedor da Geena, duas vezes mais do que vós. Ai de vós, guias cegos, que dizeis: ‘Quem jurar pelo santuário a nada se obriga; mas quem jurar pelo ouro do santuário tem de cumprir’. Insensatos e cegos! Que vale mais: o ouro ou o santuário que santifica o ouro? Dizeis também: ‘Quem jurar pelo altar a nada se obriga; mas quem jurar pela oferenda que está sobre o altar tem de cumprir’. Cegos! Que vale mais: a oferenda ou o altar que santifica a oferenda? Na verdade, quem jura pelo altar jura por tudo o que está sobre ele. E quem jura pelo Santuário jura por ele e por Aquele que o habita. E quem jura pelo Céu jura pelo trono de Deus e por Aquele que nele está sentado».

Compreender a Palavra

Estamos perante a segunda parte do discurso de Jesus narrado por Mateus no capítulo 23. Esta parte é formada pela repetição da expressão “Ai de vós” expressão que revela tristeza e aplicada aos escribas e fariseus a quem depois se apelida de hipócritas. O discurso é constituído ainda pela apresentação do motivo pelo qual se manifesta a tristeza e desmascara-se a cegueiras destes guias mostrando-se a insensatez das suas teorias.

Meditar a Palavra

No discurso de Jesus mostra-se como o desconhecimento da verdade, por ignorância ou por maldade, conduz a atitudes e circunstâncias que oprimem e deprimem o homem, as relações com os outros e as relações com Deus. Os escribas e fariseus do tempo de Jesus podiam até nem ser muito culpados porque receberam aqueles ensinamentos e orientações, aquela forma de pensar a vida, a fé e a relação com Deus, dos seus antepassados. Não estão, no entanto, totalmente isentos de culpa porque deviam procurar a verdade e com ela libertar-se e libertar os outros da mesquinhez de um pensamento opressor e desumano. A fé não pode resumir-se a uma prática de hábitos e normas recebidas da tradição. É fácil manobrar a tradição descaracterizando-a do essencial, tornando em lei o exterior das práticas religiosas ou ditas religiosas, fazendo delas o mais importante da relação com Deus. Hoje muitas práticas tradicionais estão tão vazias que realizá-las é um ato de hipocrisia tão condenável como as práticas dos escribas e fariseus. Estamos cegos perante muitas circunstâncias de uma fé ignorante que encontra nas festas e romarias a única expressão à qual não se pode faltar. Talvez Jesus hoje nos chamasse hipócritas perante determinadas manifestações de cariz religioso que se realizam nas nossas aldeias e cidades.

Rezar a Palavra

Senhor Jesus, quando vejo o esforço de homens e mulheres que incansavelmente tentam manter vivas tradições que não permitem a entrada do evangelho, pergunto-me se não estamos perante a hipocrisia dos escribas e fariseus que se agarraram ao exterior e esqueceram o coração. O cumprimento de tradições que não se formam à luz do evangelho mas na manutenção de práticas exterior que se esgotam numa escassa hora de sacrifício, será a fé que nos revelaste no mistério da cruz com que nos redimiste? Ilumina as nossas inteligências e os nossos corações para não nos tornarmos cegos.

Compromisso

Vou esclarecer a minha fé reunindo-me com os meus irmãos à volta da palavra, lida, meditada e rezada em conjunto.

Sexta-feira da Semana XX do Tempo Comum

Evangelho: Mt 22, 34-40

Naquele tempo, os fariseus, ouvindo dizer que Jesus tinha feito calar os saduceus, reuniram-se em grupo, e um doutor da Lei perguntou a Jesus, para O experimentar: «Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?». Jesus respondeu: «‘Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu espírito’. Este é o maior e o primeiro mandamento. O segundo, porém, é semelhante a este: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’. Nestes dois mandamentos se resumem toda a Lei e os Profetas».

Compreender a Palavra

O texto, de configuração simples, vem na sequência de vários encontros de Jesus com diversos grupos sociais daquele tempo. Estão em cena os fariseus que ouvindo falar do insucesso dos saduceus querem experimentar Jesus. A questão colocada é simples mas tem um objetivo destrutivo, é para o experimentarem. «Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?». A resposta de Jesus também é simples e reclama a autoridade da Lei e dos Profetas: “Amarás…”

Meditar a Palavra

Saduceus e fariseus aproximam-se de Jesus, enviados de Herodes e doutores da Lei questionam-no porque reconhecem nele uma autoridade doutrinal que não encontram em mais ninguém, pois eles estão em oposição uns com os outros. Jesus surge no centro das discussões, religiosas, sociais e políticas. Todos gostavam de contar com Jesus do seu lado, mas todos perceberam que ele não está do lado de ninguém. Quem quiser, há de segui-lo e não o contrário. As perguntas são lhe feitas como armadilhas mas também por reconhecimento da sua autoridade. A questão que é colocada pelo fariseu é importante, porque pergunta a Jesus sobre qual é o mandamento que deve estar no centro de uma vida a dar-lhe sentido e orientação. Todos os mandamentos são importantes, mas qual é o que estrutura uma vida? A resposta de Jesus esclarece uma vez mais que ele não veio revogar a Lei mas dar-lhe pleno cumprimento. O desafio é colocar todos os mandamentos, todas as leis e preceitos em poucas palavras. Jesus aponta para o centro da pessoa, para as suas dimensões fundamentais, “o coração, a alma e a mente”. A dimensão afetiva, espiritual e intelectual do homem estão centradas em Deus e no próximo numa relação de amor. O segundo mandamento não devia ser necessário referi-lo porque no amor a Deus já está incluído o amor a si mesmo e ao próximo. Jesus explicita-o para que fique claro que não é possível um sem o outro.

Rezar a Palavra

Amar a Deus, parece um exercício fácil, Senhor, porque basta um olhar sincero sobre a vida para perceber que de Deus tudo o que nos chega é bom e a ele devemos tudo o que somos e temos. Mesmo os não crentes reconhecem que não são os autores de tantas maravilhas e que o mais importante nos chega gratuitamente. Amar o irmão, numa sociedade que se rege pela rivalidade, a concorrência num ambiente de individualismo feroz, isso sim, é difícil. Amar parece ser um exercício de loucura, sobretudo quando temos a sensação nítida de estar a gastar o nosso tempo e a perder a nossa vida por causa dos outros e, tantas vezes, inutilmente. Ensina-me, Senhor, a amar sem esperar o lucro e a deixar que a força do amor domine toda a minha vida, coração, alma e mente.

Compromisso

Hoje quero aprender a amar.

Quinta-feira da Semana XX do Tempo Comum

Evangelho: Mt 22, 1-14

Naquele tempo, Jesus dirigiu-Se de novo aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo e, falando em parábolas, disse-lhes: «O reino dos Céus pode comparar-se a um rei que preparou um banquete nupcial para o seu filho. Mandou os servos chamar os convidados para as bodas, mas eles não quiseram vir. Mandou ainda outros servos, ordenando-lhes: ‘Dizei aos convidados: Preparei o meu banquete, os bois e cevados foram abatidos, tudo está pronto. Vinde às bodas’. Mas eles, sem fazerem caso, foram um para o seu campo e outro para o seu negócio; os outros apoderaram-se dos servos, trataram-nos mal e mataram-nos. O rei ficou muito indignado e enviou os seus exércitos, que acabaram com aqueles assassinos e incendiaram a cidade. Disse então aos servos: ‘O banquete está pronto, mas os convidados não eram dignos. Ide às encruzilhadas dos caminhos e convidai para as bodas todos os que encontrardes’. Então os servos, saindo pelos caminhos, reuniram todos os que encontraram, maus e bons. E a sala do banquete encheu-se de convidados. O rei, quando entrou para ver os convidados, viu um homem que não estava vestido com o traje nupcial e disse-lhe: ‘Amigo, como entraste aqui sem o traje nupcial?’ Mas ele ficou calado. O rei disse então aos servos: ‘Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-o às trevas exteriores; aí haverá choro e ranger de dentes’. Na verdade, muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos».

Compreender a Palavra

O texto oferece-nos o tema do reino dos céus e descreve-o como um banquete para o qual o rei manda entregar convites aos convidados. A festa está preparada, são as bodas do filho do rei, os convidados são essenciais para que haja festa, mas os convidados não comparecem e tomam uma atitude de força frente ao rei, não são dignos. Ainda assim, o rei insiste no convite mas obtém a mesma resposta porque os convidados estavam ocupados com as suas coisas, não são dignos. Alguns dos convidados foram mais longe e mataram os servos do rei. O rei manda então matar os assassinos e decide mudar de convidados enviando convites a todos os que encontrarem, maus e bons. A festa tem que se realizar porque são as bodas do filho do rei e os convidados são essenciais para a festa. Se os primeiros não eram dignos convidam-se os últimos. A sala enche-se mas o rei dá pela presença de alguém que não tem o traje nupcial. Os convidados são todos os que se puderam encontrar, foram apanhados de surpresa, diz o texto que são bons e maus. O rei pede agora um traje nupcial. “Como entraste aqui…? Seria o único que não tinha o traje próprio. Mas os convidados eram os pobres, os desprevenidos, os bons e maus. O rei não recebe resposta e isso é sintomático. Aquele homem, não se preparou para a festa com o traje nupcial porque a festa não lhe interessa. Não participa, Não faz festa com o rei. Não se alegra com os outros. Foi por ir e come à custa do rei sem valorizar o convite que lhe foi feito.

Meditar a Palavra

A força da parábola interroga a minha vida. Por um lado sou questionado sobre as ocupações da minha vida que me impedem de participar na festa das núpcias do filho do rei, nas bodas do Cordeiro que é Jesus. Reduzo a minha vida às minhas ocupações e reajo até mal, contra os que me chamam para a festa. Por outro lado questiono-me sobre o meu desinteresse quando vou ao banquete. A minha presença não é de qualidade, não me preparo porque não quero e a festa não significa nada para mim.

Rezar a Palavra

A tua festa, Senhor, não se faz sem convidados. De muitos modos e através de muitas pessoas mostras-me a alegria que tens pela minha presença, mas eu ando demasiado ocupado para te ouvir, para aceitar o teu convite. No fundo o meu interesse é pouco. Parece que não dou grande importância ao banquete que preparas para mim. Ajuda-me, Senhor, a desprender-me dos meus interesses para procurar a alegria da tua festa.

Compromisso

Quero experimentar a alegria de participar na festa de Deus.

Quarta-feira da Semana XX do Tempo Comum

Evangelho: Mt 20, 1-16a

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se a um proprietário, que saiu muito cedo a contratar trabalhadores para a sua vinha. Ajustou com eles um denário por dia e mandou-os para a sua vinha. Saiu a meia manhã, viu outros que estavam na praça ociosos e disse-lhes: ‘Ide vós também para a minha vinha e dar-vos-ei o que for justo’. E eles foram. Voltou a sair, por volta do meio-dia e pelas três horas da tarde, e fez o mesmo. Saindo ao cair da tarde, encontrou ainda outros que estavam parados e disse-lhes: ‘Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?’. Eles responderam-lhe: ‘Ninguém nos contratou’. Ele disse-lhes: ‘Ide vós também para a minha vinha’. Ao anoitecer, o dono da vinha disse ao capataz: ‘Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário, a começar pelos últimos e a acabar nos primeiros’. Vieram os do entardecer e receberam um denário cada um. Quando vieram os primeiros, julgaram que iam receber mais, mas receberam também um denário cada um. Depois de o terem recebido, começaram a murmurar contra o proprietário, dizendo: ‘Estes últimos trabalharam só uma hora e deste-lhes a mesma paga que a nós, que suportámos o peso do dia e o calor’. Mas o proprietário respondeu a um deles: ‘Amigo, em nada te prejudico. Não foi um denário que ajustaste comigo? Leva o que é teu e segue o teu caminho. Eu quero dar a este último tanto como a ti. Não me será permitido fazer o que quero do que é meu? Ou serão maus os teus olhos porque eu sou bom?’. Assim, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos».

Compreender a Palavra

O texto está composto por uma introdução e uma parábola que se desenrola em três cenas. Trata-se do reino dos céus. Há um senhor, uma vinha, um capataz e uns trabalhadores. O senhor precisa de muitos trabalhadores e, por isso, sai muitas vezes à praça pública para os contratar. Vai até em horas não prováveis, como a última hora, o que mostra a necessidade urgente de trabalhadores mas também identifica os trabalhadores como aqueles a quem ninguém contratou, talvez pela sua inabilidade ou incapacidade. A pergunta do senhor ‘Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?’ denota essa limitação dos trabalhadores. Este senhor ajusta um denário com os primeiros, o que é justo com os outros e com os últimos não fala de salário. Estes últimos são os que não têm nada a esperar. No final ao pagar o salário a começar pelos últimos dá oportunidade a todos de verem que o salário é igual para todos independentemente das horas de trabalho. Os que começaram no princípio do dia esqueceram que a medida do salário é o senhor e não eles por isso reclamam ‘deste-lhes a mesma paga que a nós, que suportámos o peso do dia e o calor’. Nós trabalhámos mais, eles trabalharam menos e o salário é o mesmo. A conclusão vem nas palavras do senhor ao colocar tudo no lugar certo: ajustei um denário, faço o que quero com o que é meu, sou bom e os teus olhos são maus, por isso, os primeiros são os últimos, segui o vosso caminho.

Meditar a Palavra

O Senhor confronta-me com a verdade do reino. Eu não sou dono, sou contratado e não sou dos primeiros, mas dos últimos, dos mais débeis e incapazes para o trabalho de reino, sou daqueles que já não têm nada a esperar, mas o Senhor não exclui ninguém do seu reino. O salário do Senhor é justo e não tem como medida as horas de trabalho, nem as minhas expectativas, a medida é a sua bondade, por isso me contratou e me paga o salário. Eu, porém, sou tocado pela maldade que subverte as normas do reino e quer a justiça dos homens que tem como igualdade a diferença entre os homens. Para Deus todos são iguais não pelo que fazem mas porque são seus.

Rezar a Palavra

Ao ler esta parábola percebo, Senhor, que tudo é dom gratuito da tua bondade. Não fosse essa bondade infinita que olha para todos de igual modo e eu ficava todo o dia inativo sem ser contratado para o trabalho da vinha. Débil e inapto como me encontro, só tu poderias chamar-me a incorporar nos que pertencem ao teu reino. O meu olhar perde-se nas expectativas do meu coração e não deixo de fazer comparações. Subverto o teu reino com as minhas apreciações e considero tantas vezes que és injusto. Que o meu olhar seja puro para ver a tua bondade ao cuidar de mim, o último a quem queres tornar primeiro.

Compromisso

Quero vencer a tentação de avaliar as pessoas pelo que têm ou fazem e não pelo que são aos olhos de Deus.

Segunda-feira da Semana XX do Tempo Comum

Evangelho: Mt 19, 16-22

Naquele tempo, aproximou-se de Jesus um jovem, que Lhe perguntou: «Mestre, que hei-de fazer de bom para ter a vida eterna?». Jesus respondeu-lhe: «Porque Me interrogas sobre o que é bom? Bom é um só. Mas se queres entrar na vida, guarda os mandamentos». Ele perguntou: «Que mandamentos?». Jesus respondeu-lhe: «Não matarás, não cometerás adultério; não furtarás; não levantarás falso testemunho; honra pai e mãe; ama o teu próximo como a ti mesmo». Disse-lhe o jovem: «Tudo isso tenho eu guardado. Que me falta ainda?». Jesus respondeu-lhe: «Se queres ser perfeito, vende o que tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro nos Céus. Depois vem e segue-Me». Ao ouvir estas palavras, o jovem retirou-se entristecido, porque tinha muitos bens.

Compreender a Palavra

Mateus oferece-nos neste encontro de Jesus com o jovem uma grande oportunidade de reflexão sobre nós mesmos. O jovem do evangelho tem uma inquietação que é a vida eterna e quer saber o que há-de fazer de bom para a alcançar. No diálogo com Jesus percebe-se que o que é bom não tem limites e deve fazer-se sempre. Há um mínimo necessário para alcançar a vida eterna que é cumprir os mandamentos. Portanto, o jovem já cumpre os mandamentos e já pode alcançar a vida eterna e assim acontece com todos os que cumpram os mandamentos. Mas ser perfeito é mais do que ser bom e o reino dos céus é mais do que a vida eterna. Todo o que faz o que é bom entra na vida eterna mas entrar no reino exige algo mais. Jesus propõe ao jovem que seja perfeito para entrar no reino. Este algo mais tem dois aspectos importantes que são, vender tudo e dar aos pobres e seguir Jesus. A primeira, vender e dar aos pobres dá direito ao tesouro no reino dos céus. A segunda, seguir Jesus, é o máximo que se pode pedir, é a perfeição.

Meditar a Palavra

Muitas vezes a vontade de alcançar a vida eterna reduz-se aos mínimos e canso-me depressa porque entendo que já fiz muito. Jesus diz-me que o bem, o que é bom, não pode ter limites e há de ser preocupação permanente. Este desejo de entrar na vida eterna deve transformar-se em desejo de ser perfeito de tal modo que chegue a ser capaz de deixar tudo para alcançar, não apenas um tesouro no reino dos céus, mas alcançar o tesouro que é o próprio Jesus. Os mínimos são para todas as pessoas de todos os lugares e religiões. Cumprir uns quantos mandamentos está ao alcance de todos. Ser perfeito é uma exigência feita por Jesus apenas a alguns. Os mais determinados, os que sentem dentro de si o apelo do reino. Cultivar este desejo de perfeição passa pelo despojar-se de si, da mentalidade geral, dos critérios habituais de vida, das opções comuns, numa palavra, das riquezas e deixá-las para os pobres, para os que apenas desejam os mínimos.

Rezar a Palavra

Senhor Jesus, o teu apelo desperta em mim o desejo da perfeição. Chegar ao teu reino e encontrar-te como único tesouro da minha vida, pelo qual vendi tudo para poder comprar este campo onde o tesouro se esconde aos meus olhos, é tudo quanto o meu coração deseja. Depois de ver, de contemplar e saborear o mistério deste teu reino, o meu coração não descansa enquanto não chegar a ter-te como sumo bem. Sustém com a tua graça este desejo de perfeição para que não resvale para o fracasso dos que se contentam com fazer o que é bom.

Compromisso

Quero descobrir em Jesus o tesouro pelo qual vale a pena deixar tudo.