Sexta-feira da Semana III do Tempo da Quaresma

1ª Leitura: Oseias 14, 2-10

Assim fala o Senhor: «Israel, converte-te ao Senhor, teu Deus, porque foram os teus pecados que te fizeram cair. Vinde com palavras de súplica, voltai para o Senhor e dizei-Lhe: “Perdoai todas as nossas faltas e aceitai o dom que Vos oferecemos, a homenagem dos nossos lábios. Não é a Assíria que nos pode salvar; não montaremos mais a cavalo, nem chamaremos ‘Nosso Deus’ à obra das nossas mãos, porque só em Vós o órfão encontra piedade”. Curarei a sua infidelidade, amá-los-ei generosamente, pois a minha ira afastou-se deles. Serei como orvalho para Israel, que florirá como o lírio e lançará raízes como o cedro do Líbano. Os seus ramos estender-se-ão ao longe, a sua opulência será como a da oliveira e a sua fragrância como a do Líbano. Voltarão a sentar-se à minha sombra, farão reviver o trigo; florescerão como a vinha, criarão fama como o vinho do Líbano. Que terá ainda Efraim de comum com os ídolos? Sou Eu que o atendo e olho por ele. Sou como o cipreste verdejante: graças a Mim darás muito fruto». Quem for sábio entenderá estas palavras, quem for inteligente poderá entendê-las. Porque são rectos os caminhos do Senhor: por eles caminham os justos e neles tropeçam os pecadores.

Compreender a Palavra

Oseias torna-se a voz de Deus que chama o povo ao diálogo e ao perdão. Um diálogo que é confissão e manifestação de arrependimento: “Vinde com palavra de súplica e dizei: ‘Perdoai todas as nossas faltas e aceitai o dom que Vos oferecemos’. O reconhecimento do pecado passa pela consciência de que só o Senhor é Deus, nem a Assíria nem os ídolos fabricados pelas mãos dos homens, podem salvar. Só o Senhor é Deus. O diálogo e o arrependimento, a confissão e o perdão serão o remédio: “Curarei”. O perdão do Senhor, não só restabelecerá o que estava antes do pecado mas provocará ainda um estado de maior abundância, bem presente nas imagens tiradas da vida agrícola e aqui usadas por Oseias. Ouvir o chamamento de Deus ao arrependimento e obedecer-lhe está ao alcance de todos mas só “Quem for sábio entenderá estas palavras, quem for inteligente poderá entendê-las”.

Meditar a Palavra

O convite à conversão está presente em todo o caminho quaresmal. Através de Oseias podemos ouvir o coração de Deus que chama o nosso coração à experiência feliz de ser perdoado, renovado e restabelecido na condição que nos pertence como filhos de Deus. O caminho do Senhor, é caminho de felicidade para aquele que atende ao chamamento de Deus, mas é perdição para o pecador obstinado que não dá ouvidos à voz de Deus. “Vinde” é a palavra do Senhor que ressoa em cada tempo. “Perdoai todas as nossas faltas” é a palavra do homem que, diante de Deus se reconhece pecador. Entre estas palavras joga-se a vida, uns entendem e encontram a alegria outros escolhem não entender e preferem submeter-se ao poder dos homens.

Rezar a Palavra

Faz ecoar, Senhor, no meu coração a tua voz e chama-me: “Vem”. Não desistas de mim porque só em ti a minha vida encontra conforto e alegria. Tu conheces a minha alma, os desejos do meu coração, as fragilidades da minha vontade. Sabes que sou surdo à voz da verdade e lento para reconhecer os meus erros. Fala, Senhor, sem descanso. Grita por mim sem te cansares. Não desistas de mim.

Compromisso

Um momento de silêncio ao longo do dia pode ser a oportunidade que o Senhor me dá para ouvir o seu chamamento.


Evangelho: Mc 12, 28b-34

Naquele tempo, aproximou-se de Jesus um escriba e perguntou-Lhe: «Qual é o primeiro de todos os mandamentos?» Jesus respondeu-lhe: «O primeiro é este: ‘Escuta, Israel: O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor: Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças’. O segundo é este: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’. Não há nenhum mandamento maior que estes». Disse-Lhe o escriba: «Muito bem, Mestre! Tens razão quando dizes: Deus é único e não há outro além d’Ele. Amá-l’O com todo o coração, com toda a inteligência e com todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo, vale mais do que todos os holocaustos e sacrifícios». Ao ver que o escriba dera uma resposta inteligente, Jesus disse-lhe: «Não estás longe do reino de Deus». E ninguém mais se atrevia a interrogá-lo.

Compreender a palavra

Jesus é interrogado sobre os mandamentos e responde de forma clara e inequívoca, que o primeiro mandamento é amar e o segundo também. Primeiro amar a Deus e depois amar o próximo. A união destes dois mandamentos na vida de cada dia aproxima-nos do Reino de Deus.

Meditar a Palavra

Todas as minhas capacidades ao serviço do amor. O meu coração, a minha alma, a minha inteligência e as minhas forças físicas, morais, espirituais, tudo ao serviço do amor ou melhor do AMOR. Ao serviço de Deus nos irmãos, na resolução dos problemas pessoais e sociais, na implantação da justiça e da verdade, na transformação do homem em Filho de Deus, na construção de um mundo novo a que se possa chamar Reino de Deus. Foi isto que o escriba entendeu e é isto que Jesus hoje me propõe. Serei capaz de me lançar nesta aventura?

Rezar a Palavra

O amor vale mais do que todos os holocaustos, Senhor. Elogiaste esta resposta do escriba. Ouvir estas palavras e a lucidez que elas demonstram faz-me pensar em mim. Faço tantas coisas ao longo de um dia. Realizo tantas tarefas. Ofereço-me em holocausto em tantos momentos, mas faço-o com amor? Senhor, que não me falte coração, alma, inteligência, forças, para te amar e para amar os irmãos nas muitas atividades que realizo no tempo de cada dia.

Compromisso

Hoje quero ser coração de amor divino para todos.

Quinta-feira da Semana III do Tempo da Quaresma

1ª Leitura: Jeremias 7, 23-28

Assim fala o Senhor: «Foi isto que ordenei ao meu povo: ‘Escutai a minha voz, e Eu serei o vosso Deus e vós sereis o meu povo. Segui sempre o caminho que vou indicar-vos e sereis felizes’. Mas eles não ouviram nem prestaram atenção: seguiram as más inclinações do seu coração obstinado, voltaram-Me as costas, em vez de caminharem para Mim. Desde o dia em que os seus pais saíram da terra do Egipto até hoje, enviei-lhes todos os profetas, meus servos, dia após dia, incansavelmente. Mas eles não Me ouviram nem Me prestaram atenção: endureceram a sua cerviz, fizeram pior que seus pais. Se lhes disseres tudo isto, não te escutarão; se chamares por eles, não te responderão. Por isso lhes dirás: Esta é a nação que não ouviu a voz do Senhor seu Deus e não quis aceitar os seus ensinamentos. Perdeu-se a fidelidade, foi eliminada da sua boca».

Compreender a Palavra

Esta palavra soa como uma flecha atingindo com o seu aguilhão aqueles a quem é dirigida. O profeta, enviado por Deus, constata a recusa do povo em relação à palavra, aos seus preceitos e à sua aliança. Há um compromisso que não foi revogado, uma aliança que perdura: ‘Escutai a minha voz, e Eu serei o vosso Deus e vós sereis o meu povo. Segui sempre o caminho que vou indicar-vos e sereis felizes’. Mas a recusa do povo é visível e o profeta deixa isso bem claro, repetindo por várias vezes que o erro é não escutar “não ouviram nem prestaram atenção… voltaram as costas… endureceram a cerviz, fizeram pior que os pais”. A acusação termina com a constatação de que, “mesmo agora, se lhes disseres tudo isto não te escutarão… não te responderão”. Esta palavra soa como um último alerta, já sem esperança de que o povo reconheça o seu erro.

Meditar a Palavra

Em tempo de quaresma somos confrontados com esta palavra que nos serve de ajuda para um exame de consciência sobre a minha relação com a palavra de Deus. A minha aliança com Deus estabelecida no batismo, fez de mim um filho e de Deus um pai. Este vínculo tem a força da eternidade. Nunca mais deixarei de ser filho e Deus não deixará de ser pai. Ele será sempre fiel ao seu compromisso para comigo, eu poderei tornar-me um mau filho. Não escutar, não prestar atenção à voz de Deus, não aceitar os seus mandamentos, endurecer o coração e seguir as más inclinações do coração obstinado, são um voltar as costas a um projeto de amor e fidelidade. Talvez não me dê conta mas é grave para a minha vida não escutar a palavra de Deus.

Rezar a Palavra

Senhor, o meu coração obstinado deixa-se seduzir pelas coisas do momento e distrai-se do essencial. Eu sei que a tua palavra é luz da minha vida e cumprir os teus mandamentos é fonte de alegria, mas a minha inclinação para o mal leva-me a voltar-te as costas. Tem compaixão e paciência comigo, sê benevolente porque, apesar da dureza do meu coração, desejo acolher o teu amor de pai e responder-te com fidelidade.

Compromisso

Vou reler o texto e deixar o meu coração arrepender-se ao ouvir as palavras: “não ouviram nem prestaram, voltaram-Me as costas, endureceram a sua cerviz, a fidelidade foi eliminada da sua boca”


Evangelho: Lc 11, 14-23

Naquele tempo, Jesus estava a expulsar um demónio que era mudo. Logo que o demónio saiu, o mudo falou e a multidão ficou admirada. Mas alguns dos presentes disseram: «É por Belzebu, príncipe dos demónios, que Ele expulsa os demónios». Outros, para O experimentarem, pediam-Lhe um sinal do céu. Mas Jesus, que conhecia os seus pensamentos, disse: «Todo o reino dividido contra si mesmo, acaba em ruínas e cairá casa sobre casa. Se Satanás está dividido contra si mesmo, como subsistirá o seu reino? Vós dizeis que é por Belzebu que Eu expulso os demónios. Ora, se Eu expulso os demónios por Belzebu, por quem os expulsam os vossos discípulos? Por isso eles mesmos serão os vossos juízes. Mas se Eu expulso os demónios pelo dedo de Deus, então quer dizer que o reino de Deus chegou até vós. Quando um homem forte e bem armado guarda o seu palácio, os seus bens estão em segurança. Mas se aparece um mais forte do que ele e o vence, tira-lhe as armas em que confiava e distribui os seus despojos. Quem não está comigo está contra Mim e quem não junta comigo dispersa».

Compreender a Palavra

A descrição de Lucas apresenta Jesus a curar um homem que tem um espírito impuro. Esta exposição funciona como introdução à reprovação que alguns dos presentes querem fazer a Jesus sobre a origem dos seus milagres. Pretendem confundir as pessoas atribuindo a Belzebu o poder de Jesus. O poder de Jesus está assim identificado com as forças do mal e não com Deus. Alguns pedem um sinal. Jesus, que sabe o que eles pensam e está acima de todas as oposições e críticas, procura fazê-los perceber que tomaram a posição errada e conclui: “Quem não está comigo está contra Mim e quem não junta comigo dispersa”. O Reino de Deus chegou e é preciso aderir a ele.

Meditar a Palavra

Ponho a mão sobre a minha boca porque experimento em mim a insensatez de muitas palavras irrefletidas a propósito dos acontecimentos mais sérios. Diante da palavra e da ação de Jesus nem sempre tenho o bom senso de acolher e deixar que o Espírito Santo me ilumine com a sua sabedoria. Preciso de receber esta tremenda reprimenda de Jesus e tomar consciência que não há meio-termo na relação com Ele. “Quem não está comigo está contra mim e quem não junta comigo dispersa”.

Rezar a Palavra

É contigo, Senhor, que quero estar. Nem sempre sei entender as tuas palavras e os teus gestos. Nem sempre entendo o modo como te relacionas comigo e a tua intervenção na minha vida. Mas sei que, hoje e sempre, quero estar contigo porque só em ti encontro a verdadeira libertação.

Compromisso

Hoje quero estar atento às minhas palavras, às minhas opiniões precipitadas e à forma como julgo os outros interpretando os seus gestos.

Quarta-feira da Semana III do Tempo da Quaresma

1ª Leitura: Deuteronómio 4, 1.5-9

Moisés falou ao povo, dizendo: «Agora, Israel, escuta os preceitos que vos dou a conhecer e põe-nos em prática, para que vivais e entreis na posse da terra que vos dá o Senhor, Deus dos vossos pais. Ensinei-vos estas leis e preceitos, conforme o Senhor, meu Deus, me ordenara, a fim de os praticardes na terra de que ides tomar posse. Observai-os e ponde-os em prática, porque eles serão a vossa sabedoria e a vossa prudência aos olhos dos povos, que, ao ouvirem falar de todas estas leis, dirão: ‘Que povo tão sábio e prudente é esta grande nação!’. Qual é, na verdade, a grande nação que tem a divindade tão perto de si como está perto de nós o Senhor, nosso Deus, sempre que O invocamos? E qual é a grande nação que tem mandamentos e decretos tão justos como esta lei que hoje vos apresento? Mas tende cuidado; prestai atenção para não esquecer tudo quanto viram os vossos olhos, nem o deixeis fugir do pensamento em nenhum dia da vossa vida. Ensinai-o aos vossos filhos e aos filhos dos vossos filhos».

Compreender a Palavra

Moisés fala ao povo saído do Egito, em nome de Deus, revelando um caminho de sabedoria e de vida. Este caminho tem nos mandamentos um guia orientador e supõe um exercício para adquirir os critérios de vida necessários a uma convivência justa na terra que o Senhor lhes vai dar. No horizonte está esta terra prometida, onde corre leite e mel, uma terra cujos habitantes serão os que põem em prática os mandamentos. Praticar ou não, não é facultativo, é fundamental, condição essencial para ser cidadão, para possuir a sabedoria, para ter Deus perto. Por isso é tão importante não esquecer e fundamental ensinar aos filhos e aos filhos dos filhos.

Meditar a Palavra

Ser grande aos olhos de Deus e aos olhos dos homens não passa por critérios de poder, riqueza ou fama, mas pela justiça nas relações. Israel será um povo admirado por todos os povos por causa da sua sabedoria e da sua prudência que lhe vêm de uma lei justa, consignada nos mandamentos do Senhor. E será admirado porque a prática dos mandamentos lhe obtém o favor de Deus que estará sempre presente. Do mesmo modo somos hoje confrontados com a decisão de querer ser admirados pelos critérios dos homens que colocam a sua admiração nas coisas deste mundo ou pela prática dos mandamentos que nos abrem o horizonte do amor a Deus e ao próximo como fonte da vida e da felicidade. O caminho dos mandamentos não oferece o êxito imediato, mas consolida uma vida que passa de pais para filhos, em opções sólidas e estáveis, que serão reconhecidas no seu devido tempo.

Rezar a Palavra

Os teus mandamentos, Senhor, são luz para os meus passos. Que eu saiba acolher esta verdade e seguir pelo caminho que me propões de amor a Deus e ao próximo. Ensina-me, Senhor, os teus decretos, prepara-me para abraçar a tua lei e não permitas que as seduções do mundo ofusquem em mim a sabedoria para que possa habitar em tua casa.

Compromisso

Que mandamentos tenho dificuldade em cumprir?


Evangelho: Mt 5, 17-19

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogar, mas completar. Em verdade vos digo: Antes que passem o céu e a terra, não passará da Lei a mais pequena letra ou o mais pequeno sinal, sem que tudo se cumpra. Portanto, se alguém transgredir um só destes mandamentos, por mais pequenos que sejam, e ensinar assim aos homens, será o menor no reino dos Céus. Mas aquele que os praticar e ensinar será grande no reino dos Céus».

Compreender a Palavra

Jesus apresenta-se diante dos homens como uma novidade tão absoluta que muitos dos seus ouvintes e dos seus discípulos julgam que ele vem alterar o que está na Lei e que tinha sido anunciado pelos profetas. Perante isto, Jesus tem a preocupação de lhes dizer que não é assim. Ele, de facto, é a última palavra de Deus aos homens, Ele é a Palavra do Pai que vem esclarecer toda a palavra da Lei e dos profetas, mas não vem abolir nada do que Deus tinha dito anteriormente.

Meditar a Palavra

Hoje sou convidado a desejar que se cumpra em mim toda a palavra de Deus. Nada se pode perder desta palavra que salva o meu coração atribulado com as preocupações da vida. Acolher a Palavra é acolher Jesus, pô-la em prática e ensiná-la aos outros é a garantia para entrar no Reino dos céus.

Rezar a Palavra

A tua palavra, Senhor, é o alimento para a minha vida. Que se cumpra em mim toda a palavra que sai da tua boca. Que a minha vida seja lugar onde a tua palavra germina e cresce manifestando o poder da salvação que ofereces a todos os homens. Ilumina o meu coração para que deseje cada vez mais este alimento de vida eterna.

Compromisso

Hoje vou guardar um pouco mais de tempo para acolher a palavra de Deus e permitir que ela aconteça, em mim, como uma verdade que se torna vida

Terça-feira da Semana III do Tempo da Quaresma

Daniel 3, 25.34-43
Naqueles dias, levantando-se no meio da fornalha ardente, Azarias fez a seguinte oração: «Por amor do vosso nome, Senhor, não nos abandoneis para sempre e não anuleis a vossa aliança. Não nos retireis a vossa misericórdia, por amor de Abraão vosso amigo, de Isaac vosso servo e de Israel vosso santo, aos quais prometestes multiplicar a sua descendência como as estrelas do céu e como a areia das praias do mar. Mas agora, Senhor, tornámo-nos o mais pequeno de todos os povos e somos hoje humilhados em toda a terra, por causa dos nossos pecados. Não temos chefe, nem guia nem profeta, nem holocausto nem sacrifício, nem oblação nem incenso, nem lugar onde apresentar-Vos as primícias para alcançar misericórdia. Mas de coração arrependido e espírito humilhado sejamos por Vós recebidos como se viéssemos com um holocausto de touros e carneiros e milhares de gordos cordeiros. Seja hoje este nosso sacrifício agradável na vossa presença, porque jamais serão confundidos aqueles que em Vós esperam. E agora Vos seguimos de todo o coração, Vos tememos e buscamos o vosso rosto. Não nos deixeis ficar envergonhados, mas tratai-nos segundo a vossa bondade e segundo a abundância da vossa misericórdia. Livrai-nos pelo vosso admirável poder e dai glória, Senhor, ao vosso nome».

Compreender a Palavra
Estamos diante de uma oração penitencial que tem na base a aliança entre Deus e o seu povo, a infidelidade do povo à aliança por causa do pecado e a sempre permanente fidelidade de Deus. A oração é de Azarias, quando estava na fornalha ardente, onde foi lançado por Nabucodonosor, com os seus companheiros. Esta oração procura comover o coração de Deus, iniciando com uma súplica “não nos abandoneis” e recordando a aliança feita a Abraão, Isaac e Israel de multiplicar a sua descendência. Israel é agora, ao tempo do desterro de Babilónia, o mais pequeno de todos os povos o que contradiz a promessa de Deus. É claro que é um povo “humilhado por causa dos nossos pecados”, perderam tudo não por culpa de Deus que é fiel, mas por culpa própria. A segunda parte da oração mostra o arrependimento através de expressões como “de coração arrependido e espírito humilhado sejamos recebidos por vós”, “Vos seguimos de todo o coração, vos tememos e buscamos o vosso rosto”. Azarias traduz nesta oração o sentimento do povo que sofre a causa do seu pecado, a humilhação pela infidelidade e o desejo de regresso a Deus.

Meditar a Palavra
Em tempo de quaresma e mergulhados no espírito batismal, somos convidados à penitência. Esta experiência não é apenas um lamento pelo pecado cometido, mas uma tomada de consciência da misericórdia de Deus e da nossa infidelidade. O nosso pecado é concreto e não abstrato. A penitência exige o reconhecimento da pobreza existencial por causa do pecado que levou ao afastamento de Deus. É a consciência de que a liberdade sem Deus nos despojou da nossa dignidade, nos esvaziou do sentido da vida e nos deixou envergonhados e desprotegidos, à mercê de homens sem coração. Agora, qual pródigo, faminto, sujo, roto, descalço, queremos regressar suplicando “tratai-nos segundo a vossa bondade e segundo a abundância da vossa misericórdia” não porque mereçamos mas para a vossa glória porque sois um Deus misericordioso.

Rezar a Palavra
Envergonha-me o meu pecado, Senhor, quando, experimentando o vazio interior e me recordo dos dias em que vivi a alegria de estar contigo, frente a frente, cara ca cara, como um amigo. Recordo o teu olhar, o teu amor, as tuas palavras, a alegria partilhada e sinto saudade, porque aqui “morro de fome”. Na tua casa, Senhor, há pão sobre a mesa e até os criados podem saciar-se à vontade. Eu, porém, sendo filho, nem as alfarrobas dos porcos posso comer. Levanta-me, Senhor, pela tua misericórdia, e dá-me de novo a alegria da tua salvação.

Compromisso
Sim, hoje, levantar-me-ei e irei ter com meu Pai e dizer-lhe: “Pai, pequei contra o céu e contra ti, já não sou digno de ser chamado teu filho. Trata-me como um dos teus trabalhadores”.


Evangelho: Mt 18, 21-35
Naquele tempo, Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou-Lhe: «Se meu irmão me ofender, quantas vezes deverei perdoar-lhe? Até sete vezes?» Jesus respondeu: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. Na verdade, o reino de Deus pode comparar-se a um rei que quis ajustar contas com os seus servos. Logo de começo, apresentaram-lhe um homem que devia dez mil talentos. Não tendo com que pagar, o senhor mandou que fosse vendido, com a mulher, os filhos e tudo quanto possuía, para assim pagar a dívida. Então o servo prostrou-se a seus pés, dizendo: ‘Senhor, concede-me um prazo e tudo te pagarei’. Cheio de compaixão, o senhor daquele servo deu-lhe a liberdade e perdoou-lhe a dívida. Ao sair, o servo encontrou um dos seus companheiros que lhe devia cem denários. Segurando-o, começou a apertar-lhe o pescoço, dizendo: ‘Paga o que me deves’. Então o companheiro caiu a seus pés e suplicou-lhe, dizendo: ‘Concede-me um prazo e pagar-te-ei’. Ele, porém, não consentiu e mandou-o prender, até que pagasse tudo quanto devia. Testemunhas desta cena, os seus companheiros ficaram muito tristes e foram contar ao senhor tudo o que havia sucedido. Então, o senhor mandou-o chamar e disse: ‘Servo mau, perdoei-te tudo o que me devias, porque me pediste. Não devias, também tu, compadecer-te do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?’ E o senhor, indignado, entregou-o aos verdugos, até que pagasse tudo o que lhe devia. Assim procederá convosco meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar a seu irmão de todo o coração».

Compreender a Palavra
A força das palavras de Jesus, arrasam a pergunta com que Pedro ilustra a sua opinião face ao perdão. “Setenta vezes sete” diz Jesus e acrescenta uma parábola onde a força das palavras é igualmente poderosa: “ajustar contas” “apresentaram-lhe um homem”, “mandou que fosse vendido, com a mulher, os filhos e tudo…”, “Prostrou-se”, “concede-me um prazo”, “deu-lhe a liberdade e perdoou-lhe a dívida”, “Paga o que me deves”, “servo mau”, “não devias, também tu…?”. Estas expressões mostram a violência da situação quando falta a capacidade de perdoar. O contraste entre o perdão do Senhor e a nossa incapacidade de perdoar aos “companheiros”.

Meditar a Palavra
Ao escutar esta passagem do evangelho fixei-me neste pormenor: “apresentaram-lhe um homem”. Para Deus eu sou um homem, interlocutor, responsável, com capacidade de assumir e responder perante Ele. Por isso me pede contas. Por outro lado, sempre que não estou em condições de responder, isso arrasta comigo outros, “mandou que fosse vendido, com a mulher, os filhos e tudo…”. Não sou só eu, mas todos à minha volta sofrem com a minha irresponsabilidade. Posso ainda viver a mentira do arrependimento e julgar que todos são como eu quando se prostram para implorar o perdão, e tornar-me desumano para com os outros. Nem sempre sou “homem”. Repetem-se em mim as palavras “não devias, também tu…?”

Rezar a Palavra
Devia Senhor. Devia eu também compadecer-me dos meus irmãos. Receber o teu perdão é para mim fonte de alegria. O teu perdão renova a minha vida e restaura em mim a tua alegria. Mas é tão difícil aceitar o outro, dar-lhe tempo, esperar que ele chegue a ser o homem que eu espero. Ensina-me, Senhor, a tua compaixão, para que também eu liberte os meus irmãos.

Compromisso
A minha oração de hoje vai ser a tomada de consciência desta responsabilidade de ser homem. Por isso vou repetir muitas vezes “não devias, também tu…?”

S. José, Esposo da Virgem Santa Maria

(Solenidade Transferida)

2 Samuel 7, 4-5a.12-14a.16
Naqueles dias, o Senhor falou a Natã, dizendo: «Vai dizer ao meu servo David: Assim fala o Senhor: Quando chegares ao termo dos teus dias e fores repousar com os teus pais, estabelecerei em teu lugar um descendente que nascerá de ti e consolidarei a tua realeza. Ele construirá um palácio ao meu nome e Eu consolidarei para sempre o seu trono real. Serei para ele um pai e Ele será para Mim um filho.

Compreender a Palavra
O texto do segundo livro de Samuel está tirado do contexto particular que relata o desejo que o rei David tem de construir uma casa para o Senhor. O rei edificou uma casa para si mesmo e instalou-se nela. Depois mandou chamar o profeta, Natã e manifestou-lhe o seu desejo, ao qual o profeta anuiu reconhecendo como boa essa intenção. No entanto, o Senhor, falou a Natã nessa noite e recusou a oferta do rei declarando “És tu que me vais construir uma casa?… o Senhor faz hoje saber que será Ele próprio quem edificará uma casa para ti… manterei depois de ti a descendência que nascerá de ti e consolidarei o teu reino”. Este é um texto claramente messiânico. O “descendente que nascerá de ti” é claramente Jesus, filho de Maria e de José. José descendente de David coloca Jesus na linhagem de David. Ele, O messias, “será para mim um filho”. José a quem a Igreja celebra hoje, situa-se, deste modo, na história da salvação, na promessa de Deus, como um marco imprescindível que é necessário reconhecer.

Meditar a Palavra
As palavras do livro de Samuel que servem à reflexão de hoje, colocam diante de nós uma figura que está profundamente ligada a Jesus. José é o descendente de David que coloca Jesus como aquele em quem se cumpre a promessa de manter viva para sempre a casa de David. A casa que David queria construir para Deus era de madeira, a casa que Deus prometeu a David era a casa real. A casa de que fala este pequeno texto, que será construída para Deus pelo descendente de David, é o seu próprio corpo como Jesus dirá “Derrubai este templo e eu o reconstruirei em três dias… falava do seu corpo”. Para nós, hoje, este texto há de fazer referência à presença de Deus em cada casa, em cada família. Deus não desampara aquele que dá nome a uma casa, a uma família, o pai. Como José, que deu a Jesus, a estabilidade de uma casa e a capacidade de se compreender a si mesmo como lugar onde Deus habita, os pais, que têm hoje o seu dia, compreendem que Deus está na sua casa, assegura a sua descendência, mantém o seu lugar na família, garante o seu futuro e dá continuidade a esta família nos filhos, lugar onde Deus habita. José é o justo amado por Deus e, do mesmo modo, os pais, podem ser os justos a quem Deus ama.

Rezar a Palavra
Peço-te, hoje Senhor, por todos os pais. A sua missão imprescindível, está rodeada de muitas incertezas. Levantam-se grandes tempestades à missão que lhes confiaste e precisam da tua ajuda. Ampara cada pai, aproxima os pais dos filhos e os filhos dos pais. Que o amor não permita que nenhum pai seja abandonado mesmo na velhice e que o mesmo amor faça permanecer os pais junto dos filhos como garantes da tua presença ao longo de toda a vida.

Compromisso
Hoje é dia de honrar o pai com gestos e com palavras.


Evangelho Mt 1, 16.18-21.24ª
Jacob gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo. O nascimento de Jesus deu-se do seguinte modo: Maria, sua Mãe, noiva de José, antes de terem vivido em comum, encontrara-se grávida por virtude do Espírito Santo. Mas José, seu esposo, que era justo e não queria difamá-la, resolveu repudiá-la em segredo. Tinha ele assim pensado, quando lhe apareceu num sonho o Anjo do Senhor, que lhe disse: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é fruto do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho e tu pôr Lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados». Quando despertou do sono, José fez como lhe ordenara o Anjo do Senhor.

Compreender a Palavra
O texto de Mateus vem na continuação da genealogia que apresenta Jesus como um membro do seu povo mas, simultaneamente, mostra-o como aquele que vem de Deus. Está connosco porque Deus assim o quis e o realizou pelo seu Espírito e não por qualquer acção dos homens. O Espírito, que tem já uma acção importante na criação, está presente na vida de Jesus desde o início, dando início a uma nova criação. Pode ver-se, ainda, como a intervenção de Deus na história dos homens afecta a humanidade em geral, mas afecta algumas pessoas em particular. O nascimento de uma criança, filho de uma mãe solteira, vai interferir com a norma estabelecida entre os homens, mas interfere particularmente na vida de Maria e de José. Maria vê alterada a sua atitude diante de Deus e diante dos homens e José vê posta em causa toda a sua arquitectura existencial. Deus, porém, não abandona o homem à sua sorte, revela-se, mostrando os seus desígnios de salvação e de que modo, cada um pode colaborar com Ele na salvação do mundo.

Meditar a Palavra
A história de Deus com os homens é uma história de salvação, que começa na criação e não termina nunca. Em Cristo, com o seu nascimento, muda radicalmente a forma de o homem se relacionar com Deus e mudam os critérios pelos quais os homens são chamados a ler a realidade. Em José podemos ver como, mesmo que seja difícil, é possível mudar a nossa análise, para ver como Deus vê e de que modo Ele se serve das pessoas concretas para se tornar presente e realizar a salvação dos homens. Cada um de nós é chamado a ser José, no silêncio do seu coração, onde podem ser acolhidos todos os que à primeira vista parecem estar fora da lei dos homens e da lei de Deus. Amados, todos os homens podem tornar-se lugar de esperança e de vida como Maria.

Rezar a Palavra
Senhor Jesus, Deus connosco, que em Maria te fizeste próximo de cada homem e em José, nos mostras o silêncio como lugar onde cada um se pode encontrar com o teu plano de salvação, dá-nos a coragem de acolher as circunstâncias da vida para as transformar em sinais de Deus para o mundo. Faz-nos compreender o mistério da tua acção nas entrelinhas da nossa vida e transforma em nós os critérios de observação da realidade para podermos ver e amar como tu vês e amas.

Compromisso
Quero olhar os acontecimentos e as pessoas com os olhos de Deus salvador.

Sexta-feira da Semana II do Tempo da Quaresma

1ª Leitura: Genesis 37, 3-4.12-13a.17b-28

Jacob gostava mais de José que dos seus outros filhos, porque ele era o filho da sua velhice; e mandou fazer-lhe uma túnica de mangas compridas. Os irmãos, vendo que o pai o preferia a todos eles, começaram a odiá-lo e não eram capazes de lhe falar com bons modos. Um dia foram para Siquém apascentar os rebanhos do pai. Jacob disse a José: «Os teus irmãos apascentam os rebanhos em Siquém. Vem cá, pois quero mandar-te ir ter com eles». José partiu à procura dos irmãos e encontrou-os em Dotain. Eles viram-no de longe e, antes que chegasse perto, combinaram entre si a sua morte. Disseram uns aos outros: «Aí vem o homem dos sonhos. Vamos matá-lo e atirá-lo a uma cisterna e depois diremos que um animal feroz o devorou. Veremos então em que vão dar os seus sonhos». Mas Rúben ouviu isto e, querendo livrá-lo das suas mãos, disse: «Não lhe tiremos a vida». Para o livrar das suas mãos e entregá-lo ao pai, Rúben disse aos irmãos: «Não derrameis sangue. Lançai-o nesta cisterna do deserto, mas não levanteis as mãos contra ele». Quando José chegou junto dos irmãos, eles tiraram-lhe a túnica de mangas compridas que trazia, pegaram nele e lançaram-no dentro da cisterna, uma cisterna vazia, sem água. Depois sentaram-se para comer. Mas, erguendo os olhos, viram uma caravana de ismaelitas que vinha de Galaad. Traziam camelos carregados de goma de tragacanto, resina aromática e láudano, que levavam para o Egipto. Então Judá disse aos irmãos: «Que interesse haveria em matar o nosso irmão e esconder-lhe o sangue? Vamos vendê-lo aos ismaelitas, mas não lhe ponhamos as mãos, porque é nosso irmão, da mesma carne que nós». Os irmãos concordaram. Passando por ali uns negociantes de Madiã, tiraram José da cisterna e venderam-no por vinte moedas de prata aos ismaelitas, que o levaram para o Egipto.

Compreender a Palavra

O relato da história de José oferece uma mensagem muito forte dirigida a Israel, uma história que encontra hoje um paralelo em Jesus, descrita de forma clara na parábola dos vinhateiros. José e Jesus estão no mesmo caminho. O relato pretende mostrar a providência de Deus na história dos homens. Uma presença discreta e silenciosa mas eficaz. Ali onde tudo parece dirigir-se para o fracasso, para a desgraça, onde a maldade parece vencer, abre-se um caminho novo de possibilidades inesperadas. Os poderosos são derrubados e passam fome e os pobres abrem as mãos cheias de trigo. É assim que vai terminar o relato. Tudo se concentra numa túnica de mangas largas. Esta túnica é sinal da predileção de Jacob pelo seu filho mais novo e do ciúme que germina e cresce no coração dos irmãos de José. O ciúme transforma-se em ódio e o ódio quer vingança que pede a morte. O sangue, porém, mancha as mãos e todos concordam em não o matar decidindo vendê-lo por vinte moedas de prata e deram-no como morto.

Meditar a Palavra

A história de José repete-se com Jesus e repete-se na vida de muitas pessoas. O ciúme cega o olhar e impede o discernimento. Começa com pequenas manifestações sem importâncias e cresce até se transformar em ódio e provocar a morte. O ciúme domina o coração porque deseja tomar o lugar do amor, mas falha radicalmente. Ao querer agarrar para possuir, domina e força, prende e esmaga, de tal modo que perde a pessoa e fica com a túnica nas mãos, muitas vezes, uma túnica cheia de sangue. A história de José repete-se. Afinal José é apenas um dos filhos, o filho mais novo. Afinal Jesus é apenas um homem. Deus feito homem, sim, mas um homem igual a todos. O olhar sobre as pessoas é que transforma o amor em ódio e provoca a morte. Mas Deus, no silêncio das vidas, faz surgir um bem maior através daqueles que passaram pelas mãos assassinas do ciúme.

Rezar a Palavra

Senhor, o meu olhar sobre o meu irmão pode estar ferido de ciúme. Ele parece colher mais atenções, mais reconhecimento, mais êxitos do que eu. Nem sempre sei apreciar o sucesso dos outros. Vejo-me injustiçado pela vida porque creio merecer mais pelo esforço que realizei. Parece que os outros alcançam mais com menos esforço e eu não alcanço os meus objetivos. Senhor, cura o meu olhar e salva o meu coração do ciúme que mata. Não permites que mate o amor apenas por vinte moedas de prata.

Compromisso

Quero libertar o meu coração experimentando a alegria pelo sucesso dos meus irmãos.


Evangelho: Mt 21, 33-43.45-46

Naquele tempo, disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo: «Ouvi outra parábola: Havia um proprietário que plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar e levantou uma torre; depois arrendou-a a uns vinhateiros e partiu para longe. Quando chegou a época das colheitas, mandou os seus servos aos vinhateiros para receber os frutos. Os vinhateiros, porém, lançando mão dos servos, espancaram um, mataram outro e a outro apedrejaram-no. Tornou ele a mandar outros servos, em maior número que os primeiros, e eles trataram-nos do mesmo modo. Por fim mandou-lhes o seu próprio filho, pensando: ‘Irão respeitar o meu filho’. Mas os vinhateiros, ao verem o filho, disseram entre si: ‘Este é o herdeiro; vamos matá-lo e ficaremos com a sua herança’. Agarraram-no, levaram- no para fora da vinha e mataram-no. Quando vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros?» Os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo responderam-Lhe: «Mandará matar sem piedade esses malvados e arrendará a vinha a outros vinhateiros que lhe entreguem os frutos a seu tempo». Disse-lhes Jesus: «Nunca lestes na Escritura: ‘A pedra rejeitada pelos construtores tornou-se a pedra angular; tudo isto veio do Senhor e é admirável aos nossos olhos’? Por isso vos digo: Ser-vos-á tirado o reino de Deus e dado a um povo que produza os seus frutos». Ao ouvirem as parábolas de Jesus, os príncipes dos sacerdotes e os fariseus compreenderam que falava deles e queriam prendê-l’O; mas tiveram medo do povo, que O considerava profeta.

Compreender a Palavra

Perante uma grande assembleia constituída pela multidão e os discípulos, de um lado, e pelos príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo, de outro, Jesus conta uma parábola muito forte e incisiva. A Parábola fala da vinha que é a Casa de Israel, os chefes do povo bem o sabiam. Esta vinha arrendada aos vinhateiros que são as autoridades, os governantes. Não são donos mas arrendatários com a obrigação de entregar os frutos a seu tempo. Estes, querem viver como se fossem donos por isso espancam e matam os servos que o Senhor lhes envia. Por fim matam o filho, o herdeiro, com a convicção de que poderão tornar-se donos. A conclusão de Jesus, porém, é outra e os sacerdotes bem o entenderam.

Meditar a Palavra

Perceber que não sou dono nem do mundo nem da vida deve levar-me a viver com sentido de responsabilidade. Primeiramente sei que não sou dono de mim mesmo, pertenço ao Senhor e, portanto, hei de procurar harmonizar a minha vida com a sua vontade. Depois percebo que não sou dono dos outros e devo respeitá-los na sua vida inviolável e nos seus bens. Não sou dono do mundo e o sentido de responsabilidade deve levar-me a respeitar e cuidar da natureza e a gerir bem todo o património que foi posto à minha disposição para que todos possam usufruir dele. Finalmente, não sou dono de Deus e devo colocar-me humildemente ao seu serviço, dando-lhe os frutos que Ele espera.

Rezar a Palavra

Dá-me, Senhor, o sentido da responsabilidade para comigo, os outros e o mundo. Que eu possa encontrar alegria em colaborar contigo e com os outros na transformação do mundo e da sociedade num lugar onde todos podemos ser mais felizes. E que a minha satisfação esteja em servir-te nos irmãos.

Compromisso

Vou encontrar em todos os trabalhos uma oportunidade para servir a Deus e aos irmãos.

Quinta-feira da Semana II do Tempo da Quaresma

1ª Leitura: Jeremias 17, 5-10

Assim fala o Senhor: «Maldito o homem que confia no homem e põe na carne a sua esperança, afastando o seu coração do Senhor. Será como o cardo na estepe, que nem percebe quando chega a felicidade; habitará na aridez do deserto, terra salobre e inóspita. Bendito o homem que confia no Senhor e põe no Senhor a sua esperança. É como a árvore plantada à beira da água, que estende as raízes para a corrente: nada tem a temer quando vem o calor e a sua folhagem mantém-se sempre verde; em ano de estiagem não se inquieta e não deixa de produzir os seus frutos. O coração é o que há de mais astucioso e incorrigível. Quem o pode entender? Posso Eu, que sou o Senhor: penetro os corações, sondo os mais íntimos sentimentos, para retribuir a cada um segundo o seu caminho, conforme o fruto das suas obras».

Compreender a Palavra

Jeremias experimentou na pele as consequências da astúcia do coração dos homens. Ele sabe que não pode confiar nem na própria família. Saiu-se mal sempre que confiou nos homens. O coração é astucioso e incorrigível e deixa-se cativar pelo mal. Um coração apegado ao mal não tem limites, é capaz de tudo. A confiança deve ser colocada apenas no Senhor. Aquele que confia no Senhor é como uma árvore plantada à beira da água e nada teme. Mas aquele que confia em si mesmo, ou põe a sua confiança no outro homem, torna-se como um “deserto, terra salobre e inóspita”. O Senhor é quem conhece os corações e pode conduzir nos seus caminhos aqueles que nele confiam.

Meditar a Palavra

É muito interessante esta palavra de Jeremias. Encontramo-la também em alguns salmos. Fala das profundidades do ser. O coração é o lugar onde se esconde o mais importante do ser. Eu sou o que tenho guardado no meu coração. Jesus dirá mais tarde “a boca fala da abundância do coração” e ainda “o que torna o homem impuro é o que sai de dentro do seu coração”. O coração é difícil de dominar, quando se orienta para o mal, apega-se de tal modo que transtorna a visão, distorce o conhecimento e desvia do caminho da vida. Apegado ao mal, o coração, apresenta a mentira como verdade e altera a escala de valores e de prioridades. É muito fácil perder a razão diante do coração. Orientado para o bem e para a verdade, o coração, é capaz de servir, de se entregar, de morrer pelo outro. O Senhor, que conhece os corações é quem o pode educar e mostrar-lhe o bem pelo qual se deve apaixonar. A palavra de Deus é útil para educar o coração na verdade.

Rezar a Palavra

Educa o meu coração, Senhor, porque tantas vezes se dispersa pelo deserto. Corrige-me com a tua palavra e seduz-me com o teu amor, para que deseje o bem, a verdade, a justiça, o perdão. Mostra-me os prados verdejantes, os rios de água viva, as fontes da salvação, os caminhos glória para que o meu coração se prenda a ti por amor como árvore plantada à beira da água.

Compromisso

Hoje vou parar para ouvir a voz de Deus que chama por mim no deserto do meu coração.


Evangelho:  Lc 16, 19-31

Naquele tempo, disse Jesus aos fariseus: «Havia um homem rico, que se vestia de linho fino e se banqueteava esplendidamente todos os dias. Um pobre chamado Lázaro jazia junto do seu portão, coberto de chagas. Bem desejava ele saciar-se com os restos caídos da mesa do rico; mas até os cães vinham lamber-lhe as chagas. Ora sucedeu que o pobre morreu e foi colocado pelos Anjos ao lado de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado. Na mansão dos mortos, estando em tormentos, levantou os olhos e viu Abraão com Lázaro a seu lado. Então ergueu a voz e disse: ‘Pai Abraão, tem compaixão de mim. Envia Lázaro, para que molhe em água a ponta do dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nestas chamas’. Abraão respondeu-lhe: ‘Filho, lembra-te que recebeste os teus bens em vida e Lázaro apenas os males. Por isso, agora ele encontra-se aqui consolado, enquanto tu és atormentado. Além disso, há entre nós e vós um grande abismo, de modo que, se alguém quisesse passar daqui para junto de vós, não poderia fazê-lo’. O rico exclamou: ‘Então peço-te, ó pai, que mandes Lázaro à minha casa paterna – pois tenho cinco irmãos – para que os previna, a fim de que não venham também para este lugar de tormento’. Disse-lhe Abraão: ‘Eles têm Moisés e os Profetas: que os oiçam’. Mas ele insistiu: ‘Não, pai Abraão. Se algum dos mortos for ter com eles, arrepender-se-ão’. Abraão respondeu-lhe: ‘Se não dão ouvidos a Moisés e aos Profetas, também não se deixarão convencer, se alguém ressuscitar dos mortos’».

Compreender a Palavra

As riquezas são para Jesus uma preocupação. Não é que ele considere que as riquezas seja um mal, mas é difícil para o rico entrar na vida eterna. Esta parábola apresenta um homem que vive assente em vestes de linho fino e banquetes esplêndidos, mas que apesar disso não tem nome. Apresenta também um pobre que apenas tem nome. Tudo o resto é sofrimento: está doente, tem fome, vive na rua e é ignorado. Os dois morrem, sendo iguais na morte não são iguais na sorte. Um é enterrado e o outro levado pelos anjos. Na nova situação o rico vê, pela primeira vez, o pobre Lázaro e até sabe o nome dele. Conhece Abraão e chama-lhe pai, mas apesar disso existe um abismo entre eles que não lhes permite passar de um lado para o outro. A conclusão é simples “lembra-te que recebeste os teus bens em vida e Lázaro apenas os males”. Para todos fica o aviso, “Se não dão ouvidos a Moisés e aos Profetas, também não se deixarão convencer, se alguém ressuscitar dos mortos”.

Meditar a Palavra

Jesus convida-me a perceber que os bens não têm como destino a posse mas a partilha. Os bens em si mesmos não são bons nem maus, mas podem tornar-se maus para mim se, por causa deles, me tornar egoísta e pensar apenas em mim, ao ponto de nem sequer ver o meu irmão. Crer em Deus e reconhecê-lo como Pai, não me adianta muito se não reconhecer o meu semelhante como um irmão. De facto, o caminho para o reino passa pelo irmão, é isto que a Palavra, (Moisés e os profetas), me revelam.

Rezar a Palavra

Que pobreza, Senhor, se um dia me conhecem como aquele que veste roupas de marca e participa em grandes banquetes. Que pobreza, Senhor, não ter outro nome que o das roupas que visto e dos importantes com quem me banqueteio. De facto é muito pouco ser conhecido pelo que se tem e não pelo que se é. Ensina-me, Senhor a descobrir a essência da vida no coração partido dos irmãos em especial dos que sofrem. Que o meu coração se ajoelhe junto dos mais pequenos para entrar com eles na vida eterna.

Compromisso

Hoje vou dar uma atenção especial a alguém que sofre. Se possível vou a sua casa ou ao hospital para que se sinta amado.

Quarta-feira da Semana II do Tempo da Quaresma

1ª Leitura: Jeremias 18, 18-20

Os inimigos de Jeremias disseram entre si: «Vamos fazer uma conspiração contra Jeremias, pois não nos faltará a instrução de um sacerdote, nem o conselho de um sábio, nem o oráculo de um profeta. Vamos feri-lo com a difamação, sem fazermos caso do que ele disser». «Ajudai-me, Senhor, escutai a voz dos meus adversários. Porventura assim se paga o bem com o mal? Eles abrem uma cova para me tirar a vida. Lembrai-Vos que me apresentei diante de Vós, para Vos falar em seu favor, para deles afastar a vossa ira».

Compreender a Palavra

Jeremias, vê-se rodeado de inimigos que atentam contra a sua vida. Ele percebe as manobras dos seus adversários e sabe que está só no meio da conspiração. As armas são desproporcionais. Jeremias intercede pelos adversários diante do Senhor, mas estes não pretendem reconhecer o bem que lhes é feito, estão dispostos a acabar com o profeta e escolhem uma arma letal: a difamação. Na desproporcionalidade revela-se fragilidade do profeta. Jeremias sabe que não tem mais ninguém a quem recorrer senão ao Senhor. Na situação de Jeremias podemos contemplar Jesus na sua paixão.

Meditar a Palavra

Os filhos das trevas são mais espertos que os filhos da luz. Enquanto Jeremias intercede junto de Deus pelos seus adversários, estes maquinam a sua desgraça. A difamação é a arma escolhida. A difamação é uma arma muito usada para destruir o outro. É uma arma que destrói sem que se possa retaliar. Aquele que usa esta arma esconde-se no anonimato, insinua, acrescenta, deturpa, pede segredo mas sabe que a falsidade se vai espalhar como fogo em palha. Ninguém chegará a saber quem levantou a difamação. Aquele que é alvo da difamação vê-se só, perdido, sem argumentos. Quanto mais se defende mais se enterra. Quanto mais foge mais se condena. Até o seu silêncio será usado contra ele. O único refúgio é o Senhor que conhece e acolhe os corações atribulados.

Rezar a Palavra

Livra-me, Senhor, dos meus inimigos. Livra-me da difamação fácil, da língua perversa e do coração ardiloso que condena os inocentes à morte. Preserva-me da tentação de falar dos outros, de julgar e condenar pelas aparências, de ficar pelas primeiras impressões. Não permitas que recorra nunca à difamação para salvar a minha pele condenando os inocentes.

Compromisso

Quero desfazer mal entendidos pela busca da verdade e lutar pela justiça que defende os inocentes.


Evangelho: Mt 20, 17-28

Naquele tempo, enquanto Jesus subia para Jerusalém, chamou à parte os Doze e durante o caminho disse-lhes: «Vamos subir a Jerusalém e o Filho do homem vai ser entregue aos príncipes dos sacerdotes e aos escribas, que O condenarão à morte e O entregarão aos gentios, para ser por eles escarnecido, açoitado e crucificado. Mas ao terceiro dia Ele ressuscitará». Então a mãe dos filhos de Zebedeu aproximou-se de Jesus com os filhos e prostrou-se para Lhe fazer um pedido. Jesus perguntou-lhe: «Que queres?» Ela disse-Lhe: «Ordena que estes meus dois filhos se sentem no teu reino um à tua direita e outro à tua esquerda». Jesus respondeu: «Não sabeis o que estais a pedir. Podeis beber o cálice que Eu hei-de beber?» Eles disseram: «Podemos». Então Jesus declarou-lhes: «Haveis de beber do meu cálice. Mas sentar-se à minha direita e à minha esquerda não pertence a Mim concedê-lo; é para aqueles a quem meu Pai o designou». Os outros dez, que tinham escutado, indignaram-se com os dois irmãos. Mas Jesus chamou-os e disse-lhes: «Sabeis que os chefes das nações exercem domínio sobre elas e os grandes fazem sentir sobre elas o seu poder. Não deve ser assim entre vós. Quem entre vós quiser tornar-se grande seja vosso servo e quem entre vós quiser ser o primeiro seja vosso escravo. Será como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção dos homens».

Compreender a Palavra

Este relato do evangelho é uma catequese muito profunda para os discípulos e para nós. Jesus sobe a Jerusalém e, a meio do caminho, sente a necessidade de chamar à parte os doze para os instruir. De um lado a multidão e de outro Jesus com os doze. ‘Olhai que todos sobem a Jerusalém mas a nossa subida é diferente da subida de todos os outros. Eu subo para ser entregue às mãos dos homens’. Mais à frente Jesus é interrompido pela mãe dos irmãos Zebedeu. Ali gera-se uma nova distinção. Agora são dois que se afastam dos outros dez. “Ordena que estes dois…” diz a mãe. Jesus ensina que é preciso beber um cálice e que mesmo assim, nada é garantido. Logo a seguir são dez que se distanciam dos dois irmãos e mergulham na indignação. Jesus tem que educar agora para o serviço. “Os chefes das nações exercem domínio… não deve ser assim entre vós”. A medida é a de Cristo, servir e dar a vida.

Meditar a Palavra

O texto oferece-me imensos elementos de reflexão. Hoje fiquei ali com Jesus a meio do caminho, na subida para Jerusalém. Sinto que Ele me retira do meio da multidão e me pede que tome consciência do que me espera à chegada. O ruído da multidão, as conversas, os comentários sobre Jesus, os interesses particulares, a mesquinhez das promoções e tantas outras realidades humanas, não podem fazer-me esquecer do verdadeiro objetivo: “dar a vida pela salvação dos homens”.

Rezar a Palavra

Contigo subo a Jerusalém, Senhor. Este momento de encontro a sós contigo, nesta subida para o alto, faz-me tomar consciência da decisão que implica cada dia na minha vida, como entrega total, de todo o meu ser, para o bem de todos os homens. O teu cálice e o teu batismo desafiam-me a esquecer o que sou e a pensar decididamente no “para quem sou” de modo que tudo tenha sentido e termine em ressurreição. Lava-me de toda a mesquinhez humana, no cálice da tua cruz, Senhor.

Compromisso

Vou unir-me a Jesus no mistério da cruz meditando na terceira estação da Via Sacra para aprender que o caminho para Deus se faz descendo.

Terça-feira da Semana II do Tempo da Quaresma

1ª Leitura: Isaías 1, 10.16-20

Escutai a palavra do Senhor, chefes de Sodoma; dai ouvidos à lei do nosso Deus, povo de Gomorra: «Lavai-vos, purificai-vos, afastai dos meus olhos a malícia das vossas ações, deixai de praticar o mal e aprendei a fazer o bem. Respeitai o direito, protegei o oprimido, fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva. Vinde então para discutirmos as nossas razões, – diz o Senhor. Ainda que os vossos pecados sejam como o escarlate, ficarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como a púrpura, ficarão brancos como a lã. Se fordes dóceis e obedientes, comereis os bens da terra. Mas se recusardes e fordes rebeldes, sereis devorados pela espada». Assim falou a boca do Senhor.

Compreender a Palavra

O povo chegou a uma situação de vazio diante de Deus. Realizam sacrifícios e holocaustos, oferecem cordeiros e bois, realizam assembleias e reuniões mas têm as mãos manchadas do sangue dos pobres e dos oprimidos. De facto, Deus recusa-se a aceitar estes sacrifícios enquanto eles não significarem a justiça para com os pobres, as viúvas e os órfãos. O culto sem a justiça social não significa nada aos olhos de Deus. Muitos oprimiam os pobres, exploravam os fracos e vinham depois oferecer sacrifícios a Deus. A resposta de Deus, através do profeta, é um chamamento à conversão: “deixai de praticar o mal e aprendei a fazer o bem. Respeitai o direito, protegei o oprimido, fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva. Vinde então para discutirmos as nossas razões”. O auxílio aos oprimidos abre as portas da misericórdia divina. Por isso, “Ainda que os vossos pecados sejam como o escarlate, ficarão brancos como a neve”.

Meditar a Palavra

Hoje como ontem, o coração de Deus bate ao ritmo do lamento dos pobres e oprimidos. Prestar culto a Deus há de significar aprender a misericórdia porque de nada servem os atos religiosos, os sacrifícios, penitências e renúncias, se não significarem a ação libertadora dos oprimidos. A oração é importante, a celebração litúrgica é até imprescindível mas têm que ser consequência do bem realizado em favor dos últimos, dos esquecidos e dos marginalizados. A fé tem uma responsabilidade social que não pode ser esquecida nem camuflada pelas práticas religiosas. Converter-se significa vencer a indiferença e abrir o coração aos irmãos.

Rezar a Palavra

“Lavai-vos”. Esta é a tua palavra para hoje, Senhor. O meu afastamento dos irmãos, as mãos fechadas para o pobre, o coração esquecido dos que sofrem, essa é a injustiça de que falas e que esvazia as minhas orações, as minhas celebrações, o culto que pratico. Lava-me, purifica-me, ensina-me a misericórdia para que meus pecados sejam lavados no bem que faço aos meus irmãos.

Compromisso

Hoje quero tocar a carne daquele que sentem na pele a injustiça dos homens para nele me encontrar com a misericórdia de Deus.


Evangelho: Mt 23, 1-12

Naquele tempo, Jesus falou à multidão e aos discípulos, dizendo: «Na cadeira de Moisés sentaram-se os escribas e os fariseus. Fazei e observai tudo quanto vos disserem, mas não imiteis as suas obras, porque eles dizem e não fazem. Atam fardos pesados e põem-nos aos ombros dos homens, mas eles nem com o dedo os querem mover. Tudo o que fazem é para serem vistos pelos homens: alargam as filactérias e ampliam as borlas; gostam do primeiro lugar nos banquetes e dos primeiros assentos nas sinagogas, das saudações nas praças públicas e que os tratem por ‘Mestres’. Vós, porém, não vos deixeis tratar por ‘Mestres’, porque um só é o vosso Mestre e vós sois todos irmãos. Na terra não chameis a ninguém vosso ‘Pai’, porque um só é o vosso pai, o Pai celeste. Nem vos deixeis tratar por ‘Doutores’, porque um só é o vosso doutor, o Messias. Aquele que for o maior entre vós será o vosso servo. Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado».

Compreende a Palavra

Jesus recomenda à multidão e aos discípulos o cumprimento do que está prescrito na Lei de Moisés exigido, agora, pelos escribas e fariseus. Mas recomenda simultaneamente a verdade na ação. Que as palavras correspondam às ações e estas revelem perfeita adesão às palavras. Esta verdade é interior e profunda e não mera fachada ou aparência. Não se trata de um título que se traz ao peito mas de uma vida encarnada na humildade e no serviço de quem não espera outra recompensa.

Meditar a Palavra

Fixo-me facilmente no exterior, na aparência, nas vestes, na posição social, nos títulos que identificam as pessoas. Desejo muitas vezes esta importância que é dada aos homens. Dá gosto ser importante e receber o trato correspondente. A humildade não parece atrair, mas é o que Jesus me propõe hoje. Nada de títulos honoríficos, nada de vestes deslumbrantes, nada de lugares de relevo. Se quero ser o maior tenho que me tornar servo, se quero ser exaltado tenho que me humilhar. Preciso de aprender a alegria do serviço e da humilhação.

Rezar a Palavra

Como Tu, Senhor, quero aprender a ser filho na obediência mesmo que esta me leve a suportar o peso da cruz. Que eu não sobrecarregue os outros com os fardos da minha impertinência e da minha importância, mas que, aprendendo contigo, seja capaz de aliviar os irmãos carregando os seus fardos tantas vezes desumanos.

Compromisso

Vou estar atento para ajudar alguém que se sinta sobrecarregado pelo peso da vida.

Segunda-feira da Semana II do Tempo da Quaresma

Daniel 9, 4b-10

Senhor, Deus grande e terrível, que sois fiel à aliança e à misericórdia para com os que Vos amam e observam os vossos mandamentos! Nós pecámos, cometemos injustiças e iniquidades, fomos rebeldes, afastando-nos dos vossos mandamentos e preceitos. Não escutámos os profetas, vossos servos, que em vosso nome falavam aos nossos reis, aos nossos chefes e antepassados e a todo o povo da nação. Em Vós, Senhor, está a justiça; em nós recai a vergonha que sentimos no rosto, como sucede neste dia aos homens de Judá, aos habitantes de Jerusalém e a todo o Israel, aos que estão perto e aos que estão longe, em todos os países para onde os dispersastes por causa das infidelidades que contra Vós cometeram. Sobre nós, Senhor, recai a vergonha que sentimos no rosto, sobre os nossos reis, chefes e antepassados, porque pecámos contra Vós. No Senhor, nosso Deus, está a misericórdia e o perdão, porque nos revoltámos contra Ele e não escutámos a voz do Senhor, nosso Deus, seguindo as leis que nos dava por meio dos profetas, seus servos.

Compreender a Palavra

O livro de Daniel situa-nos num ambiente de grande sofrimento provocado pela dispersão do povo que foge das perseguições ou é levado para o exílio de Babilónia. O capítulo nove apresenta, em concreto, uma oração na qual se descreve a situação geral de calamidade e em que o autor se mostra em comunhão com todo o povo. Ao contrário do que poderia ser previsível, a culpa dos acontecimentos dramáticos não é atribuída a Deus mas ao pecado do povo. Deus é grande e terrível, fiel e misericordioso, mas o povo não deixou a Deus outra alternativa, porque o povo pecou, foi infiel, injusto e rebelde e não escutou a voz dos profetas. Deus, pelo contrário, é misericórdia e perdão.

Meditar a Palavra

A situação do povo retratada por Daniel é bem a situação de cada um de nós. Pecadores a necessitar de conversão neste tempo de Quaresma, percebemos, ao escutar atentamente a voz de Deus, que as nossas decisões ultrapassaram todos os limites do razoável e colocámos Deus numa situação difícil, entre a sua misericórdia e a nossa rebeldia. Precisamos enfrentar a realidade, reconhecer os nossos pecados, não sacudir as culpas para cima dos outros nem da situação geral, como se fossemos inocentes. É tempo de assumir a nossa culpa, pessoal e coletiva, perceber a profundidade e extensão do nosso pecado, para que a misericórdia de Deus venha sobre nós e nos salve. O primeiro passo é mesmo ouvir a voz de Deus que fala nos profetas.

Rezar a Palavra

“Senhor, pequei contra o céu e contra ti, já não mereço ser chamado teu filho, trata-me como um dos teus trabalhadores”. Como pródigo, maltratado pelas minhas decisões erradas, despojado da dignidade pelas opções de liberdade assumida, em solidão por causa da minha obsessão em viver só para mim, vejo-me caído, faminto, despojado e desprotegido. Caminho para ti cansado. Nem sempre convicto de que quero voltar, nem sempre certo de que vou ser recebido, abraçado, beijado por ti, Senhor. Dá-me vontade e coragem para enfrentar o teu olhar. Pequei, abandonei o teu amor, desviei-me dos teus mandamentos… tem piedade de mim, Senhor.

Compromisso

Preciso de fazer com urgência um exame de consciência que me coloque diante do olhar de Deus.


EVANGELHO Lc 6, 36-38

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso. Não julgueis e não sereis julgados. Não condeneis e não sereis condenados. Perdoai e sereis perdoados. Dai e dar-se-vos-á: deitar-vos-ão no regaço uma boa medida, calcada, sacudida, a transbordar. A medida que usardes com os outros será usada também convosco».

Compreender a Palavra

Jesus adverte os seus discípulos para uma disciplina de vida. Quem quiser identificar-se com o coração do Pai tem que ser misericordioso como Ele. O hábito da crítica condenatória não destrói apenas o outro mas volta-se contra nós, porque receberemos na medida do que dermos aos outros. Por isso, Jesus aconselha a ser misericordioso, a perdoar e a repartir, se queremos ser tratados com benevolência.

Meditar a Palavra

“A mesma medida”, diz Jesus aos seus discípulos. A consciência de que recebo na medida com que dou e a partir daquilo que dou. Gasto a minha vida com críticas, julgamentos, condenações, receberei críticas, julgamentos e condenações. Gasto a minha vida a perdoar e a repartir, receberei perdão e verei as minhas mãos encherem-se de dádivas. Cem vezes mais promete Jesus e cem vezes mais posso eu experimentar na realidade

Rezar a Palavra

Não me julgues, Senhor, pelos meus pecados. Não recordes as minhas faltas. Na minha miséria, vem em meu auxílio com a tua misericórdia e salva-me perdoando os meus pecados. Que eu possa estar na tua presença com tranquilidade de coração e encontrar em ti acolhimento e aprender de ti que és manso e humilde de coração, sempre pronto a compadecer-te de mim.

Compromisso

Hoje, quero experimentar a grandeza do coração de Deus usando de misericórdia para com os irmãos que me tornam a vida mais difícil.