Sexta-feira da Semana XXVI do Tempo Comum

Job 38, 1.12-21; 40, 3-5 

O Senhor falou a Job do meio da tempestade: «Porventura alguma vez na vida deste ordens à manhã e marcaste à aurora o seu lugar, para que ela agarre as extremidades da terra e dela sacuda os malfeitores? Deste ordens à terra para ela se moldar como a argila debaixo do sinete e tingir-se como um vestido, recusando a luz aos malfeitores e quebrando a força do braço erguido? Acaso desceste às nascentes do mar e andaste pelo fundo do abismo? Foram-te abertas as portas da morte e viste os portões do país das trevas? Abrangeste com o olhar a extensão do mundo? Fala, se sabes tudo isto. Qual é o caminho para a morada da luz e onde residem as trevas, para que as possas levar aos seus domínios e ensinar-lhes o caminho da sua casa? Certamente deves saber isto, porque então já eras nascido e é grande o número dos teus anos!…». Job respondeu ao Senhor: «Sinto-me tão pequeno: que poderei responder-Vos? Ponho a mão sobre a minha boca. Falei uma vez, não replicarei; falei duas vezes, nada mais acrescentarei».

Compreender a Palavra

Job escuta a voz de Deus que, com a sua razão, lhe mostra que ele não sabe nada diante do conhecimento de Deus. Ele criou os céus, a terra e todas as coisas que os homens podem contemplar e, onde estava Job enquanto Deus fazia tudo isto? “Fala se sabes tudo isto” diz Deus a Job. Diante das palavras do Senhor, Job não podia senão prostrar-se humilde e reconhecer a verdade. Deus é maior do que ele e diante de Deus ele é demasiado pequeno. Como pode ele discutir com Deus? Por isso, sentindo que falou demais, responde: «Sinto-me tão pequeno: que poderei responder-Vos? Ponho a mão sobre a minha boca. Falei uma vez, não replicarei; falei duas vezes, nada mais acrescentarei».

Meditar a Palavra

Diante das circunstâncias da vida entendemos que temos sempre razão porque não paramos para olhar bem dentro de nós, avaliar a situação, perceber o lugar dos outros e o lugar de Deus nas coordenadas da nossa vida. Para Job era injusto todo aquele sofrimento e Deus que o tinha permitido era o culpado, porque ele, Job, não tinha qualquer culpa. Deus fá-lo ver que não é dono da verdade e não sabe tudo. Deus conhece os mistérios de toda a criação, conhece cada criatura e conhece-o a ele. Diante de Deus ninguém é justo. Como Job, também nós devemos parar para pensar e reconhecer como somos pequenos. Tapar a boca com a mão. Calar todo o nosso ser e deixar Deus falar porque só ele tem a razão.

Rezar a palavra

Senhor, que as minhas palavras não sejam arma contra ninguém e não sirvam para discutir contigo as razões da minha vida. Que em vez de palavras eu saiba fazer o silêncio necessário para acolher a tua voz e reconhecer a verdade da tua presença na minha vida. Tapa a minha boca com a tua mão e trava o meu coração para que siga humildemente pelos teus caminhos.

Compromisso

A razão de Deus está acima das minhas decisões e das minhas exigências.


Evangelho: Lc 10, 13-16

Naquele tempo, disse Jesus: «Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque se em Tiro e em Sidónia se tivessem realizado os milagres que em vós se realizaram, há muito tempo teriam feito penitência, vestindo-se de cilício e sentando-se sobre a cinza. Assim, no dia do Juízo, haverá mais tolerância para Tiro e Sidónia do que para vós. E tu, Cafarnaum, serás elevada até ao céu? Até ao inferno é que descerás. Quem vos escuta, escuta-Me a Mim; e quem vos rejeita, rejeita-Me a Mim. Mas quem Me rejeita, rejeita Aquele que Me enviou».

Compreender a Palavra

Estas palavras de Jesus estão imediatamente a seguir ao envio dos setenta e dois discípulos. O anúncio do Reino é para todos, mas nem todos recebem esse anúncio. Muitos não querem ouvir e os que ouvem, não acolhem. Jesus lamenta-se por causa das cidades onde ele anunciou a chegada do Reino confirmada com milagres e onde não aconteceu a adesão esperada. Na sua lamentação compara estas cidades com outras, que eram tidos como cidades manchadas pelo pecado e onde proliferavam muitos pagãos que influenciavam o povo com a sua cultura e as suas ideias. Jesus aproveita para mostrar como é grave o pecado de não acolher a palavra por ele anunciada. Aquelas cidades, Tiro e Sidónia, marcadas pelo paganismo, responderiam melhor se nelas tivesse sido feito o anúncio que foi feito em Corazim, Betsaida e Cafarnaúm. A afirmação final mostra que as palavras de Jesus continuam presentes naqueles que ele envia em seu nome.

Meditar a Palavra

Diante desta palavra só posso sentir que Jesus fala para mim. Aderir de coração e colocar a vida toda na disponibilidade do serviço ao Reino de Deus que se implante em nós e entre nós, não é tarefa fácil. Jesus quer entrega total e absoluta e muitas vezes esta disponibilidade encontra-se naqueles que nunca ouviram falar dele. Para mim parece que já nada é novidade. Corro o risco de não me deixar entusiasmar com o que Jesus me diz nem com as propostas que me faz. Por mais palavras e milagres que aconteçam diante de mim, posso tornar-me insensível e não acreditar o suficiente para avançar com Jesus. Não quero rejeitar Jesus e, directamente, não o faço, mas também não me entrego totalmente ao seu projecto.

Rezar a Palavra

Ai de mim, Senhor, que não me decido em seguir-te para onde quer que fores. Ai de mim que faço contas à vida para ver se fico com uma boa posição. Ai de mim, Senhor, que não posso pensar em perder. Ai de mim que vivo satisfeito com a pequena adesão intelectual à tua palavra e não me decido a vivê-la. Ensina-me, Senhor, o segredo que dá segurança aos que te seguiram ao longo dos séculos e continua a dar segurança aos que deixaram tudo para te seguir. Também eu quero ser um desses que se entusiasmam de coração com a tua proposta de vida eterna.

Compromisso

Vou pensar seriamente na minha vida para ver o que me custa mais deixar e me está a impedir de aderir ao projecto de Jesus.

S. Miguel, S. Gabriel e S. Rafael

Daniel 7, 9-10.13-14

Eu estava a olhar,  quando foram colocados tronos e um Ancião sentou-se. Tinha vestes brancas como a neve e os cabelos eram como a lã pura. O seu trono eram chamas de fogo, com rodas de lume vivo. Um rio de fogo corria, irrompendo diante dele. Milhares de milhares o serviam e miríades de miríades o assistiam. O tribunal abriu a sessão e os livros foram abertos. Contemplava eu as visões da noite, quando, sobre as nuvens do céu, veio alguém semelhante a um Filho do homem. Dirigiu-Se para o Ancião venerável e conduziram-no à sua presença. Foi-lhe entregue o poder, a honra e a realeza, e todos os povos, nações e línguas O serviram. O seu poder é eterno, não passará jamais, e o seu reino jamais será destruído.

Compreender a Palavra

Celebramos hoje a festa dos Arcanjos S. Miguel, S. Gabriel e S. Rafael

Encontramo-nos diante da profecia de Daniel. Trata-se de uma linguagem apocalítica que apresenta Deus como o Senhor do universo, cheio de poder e glória, mais poderoso que todos os reis da terra, servido por um número incontável de anjos. É o Senhor quem se senta no trono, preside à sessão do tribunal e julga todas as nações. Ao seu encontro vem o “Filho do Homem” a quem é entregue o poder, a honra e a realeza. Diante deste “Filho do Homem” todas as nações se inclinam e o servem porque o seu reino é eterno.

Meditar a Palavra

A linguagem apocalítica não é fácil de penetrar mas, à luz de Cristo podemos compreender melhor estas profecias que apontam para um tempo em que Deus será aceite pelos homens como o Senhor que reina sobre toda a terra e julga todos os corações. O poder, a honra e a realeza de Deus são amor, misericórdia e perdão. É segundo o amor que seremos julgados e às leis do amor serão submetidas todas as nações. O “Filho do Homem” é Jesus que vem para servir e não para ser servido, que se apresenta como o último, o servo, o que acolhe os pequeninos, vai ao encontro dos perdidos da casa de Israel. Este poder é o amor que se exerce no serviço aos outros e é a lei que julgará todas as nações e submeterá todos os poderes da terra. A profecia de Daniel realiza-se em Jesus e pode tornar-se verdade também em todos os que assumirmos os seus sentimentos e reproduzirmos os seus gestos. Este poder, o do amor, é eterno. Os Arcanjos que hoje celebramos são os braços do amor infinito de Deus que não cessa de surpreender-nos nas suas manifestações.

Rezar a Palavra

Sempre ao teu serviço, Senhor, é como os arcanjos se realizam. Também eu, apesar de experimentar em mim a impossibilidade de te ver com meus olhos, apesar da minha indignidade, sei que não há outra forma de me realizar plenamente senão no amor incondicional aos pequenos que colocas no meu caminho. Servir-te nos irmãos será a minha paixão.

Compromisso

Descobrir cada vez mais a alegria de servir Deus nos irmãos mais pequeninos.


Evangelho: Jo 1, 47-51

Naquele tempo,  Jesus viu Natanael, que vinha ao seu encontro, e disse:  «Eis um verdadeiro israelita,  em quem não há fingimento».  Perguntou-lhe Natanael: «De onde me conheces?».  Jesus respondeu-lhe:  «Antes que Filipe te chamasse,  Eu vi-te quando estavas debaixo da figueira».  Disse-lhe Natanael:  «Mestre, Tu és o Filho de Deus,  Tu és o Rei de Israel!».  Jesus respondeu:  «Porque te disse: ‘Eu vi-te debaixo da figueira’, acreditas.  Verás coisas maiores do que estas».  E acrescentou: «Em verdade, em verdade vos digo:  Vereis o Céu aberto  e os Anjos de Deus subindo e descendo  sobre o Filho do homem».

Compreender a Palavra

O evangelho de João relata-nos a missão de Filipe junto de Natanael a quem anuncia ter encontrado Jesus de Nazaré. A atitude de Natanael perante o anúncio de Jesus não é entusiasta, muito pelo contrário, mostra-se renitente em reconhecer que o Messias possa vir de Nazaré. No entanto, perante a insistência de Filipe que o convida “vem ver”, ele foi e encontrou-se com Jesus. Este encontro foi determinante para ele. O homem resistente e duro, tornou-se dócil ao olhar e às palavras de Jesus. A verdade encontrou-se com a verdade. Natanael não tinha nada a esconder e Jesus mostrou-lhe o que tinha para lhe revelar e abriu-lhe o caminho para ver coisas ainda maiores.

Meditar a Palavra

“Eu vi-te”. Esta afirmação é o centro deste episódio que narra a vocação de Bartolomeu (Natanael). Aquele que não queria acreditar, que não aceitava o testemunho de Filipe, foi convidado a ver e acabou sendo visto por aquele a quem ia ver. O segredo de Jesus é este de projectar sobre mim o seu olhar e me fazer ver o que eu julgo poder ver por mim mesmo. Ele prepara tudo para que eu possa chegar ao conhecimento da sua pessoa e faz-me acreditar que é por mim, com as minhas capacidades, pelas minhas forças que chego a conhecer. Jesus também me mostra que antes de eu o conhecer, antes de o ver, antes de o amar, já Ele me vê, me conhece e me ama.

Rezara Palavra

Quem és tu para mim, Senhor? Faço esta pergunta, perante a minha incapacidade de te conhecer e seguir entusiasmado como Filipe. Faço esta pergunta quando olho a transparência de Natanael. Na minha vida falta a verdade necessária para te poder ver. Falta-me a transparência para poder ser visto por ti. Faz-me ver, Senhor. Mostra-me o caminho pelo qual posso ver coisas ainda maiores que tudo o que já tive oportunidade de ver.

Compromisso

Quero deixar-me ver por Jesus no silêncio da oração.

Quarta-feira da Semana XXVI do Tempo Comum

Job 9, 1-12.14-16 

Job tomou a palavra e disse aos seus amigos: «Na verdade, eu sei muito bem que é assim: como pode um homem ter razão contra Deus? Se ele quisesse discutir com Deus, nem uma vez em mil poderia responder-Lhe. O coração de Deus é sábio, a sua força é grande: quem se Lhe opôs e saiu ileso? Ele desloca as montanhas sem elas saberem e as derruba no seu furor. Sacode os alicerces da terra e abala as suas colunas. Dá ordens ao sol e ele não nasce e põe um selo sobre as estrelas. Sozinho Ele estende os céus e caminha sobre as ondas do mar. Criou a Ursa Maior e o Orion, as Plêiades e as Constelações do Sul. Faz prodígios insondáveis e maravilhas sem conta. Se vier junto de mim, não O vejo, se passar a meu lado, não O sinto. Se apanhar uma presa, quem Lho impedirá? Quem Lhe dirá: ‘Que estais a fazer?’. Como iria eu então responder-Lhe e encontrar argumentos contra Ele? Embora eu tivesse razão, não devo replicar, só tenho de implorar Àquele que é meu juiz. Ainda que eu O chamasse e Ele me respondesse, não tenho a certeza de que escutasse a minha voz».

Compreender a Palavra

No diálogo com os amigos que o vêm visitar, Job faz uma profissão de fé no Senhor omnipotente. Quem é o homem para discutir com Deus? Que razões pode o homem apresentar diante de Deus para contestar as suas decisões? Afinal nada de mal se pode atribuir a Deus porque ele age a partir do coração e “o coração de Deus é sábio, a sua força é grande… faz prodígios insondáveis e maravilhas sem conta”. Não há argumentos possíveis para debater com Deus sobre as nossas razões. Não podemos replicar apenas rezar.

Meditar a Palavra

Depois de apaziguar o seu coração, embora permanecendo o sofrimento, Job encontra a atitude certa para se colocar diante de Deus sem perder nele a sua confiança. Apesar de instigado pelos amigos sobre a razão do seu sofrimento, ele não deixa de reconhecer que o coração de Deus é sábio e das suas mãos saem maravilhas. Percebe que diante de Deus a única atitude certa é da oração por isso diz “ainda que eu tivesse razão, não devo replicar, só tenho de implorar”. É este o convite para nós. Rezar a vida, os dissabores, as dificuldades, os problemas, os sofrimentos, as perdas, as incompreensões, o mal e tudo que nos quer destruir. Colocar diante de Deus a nossa história, a nossa vida, a nossa condição. Deus tem razões e a nós basta com mostrar que nem tudo nos agrada mas nele tudo suportamos porque nele colocamos a nossa confiança.

Rezar a palavra

Vinde, Senhor, em auxílio do vosso servo que se encontra prostrado diante do sofrimento imposto pela vida. A chaga contínua que dilacera o coração pode não se ver mas está viva e faz crer que é mais forte do que o teu servo. Mas tu, Senhor, fazes maravilhas, das tuas mãos saem prodígios. Tu podes curar o coração do teu servo, tu podes salvar a minha vida.

Compromisso

Rezar é já ser curado de todos os males.

 


Evangelho: Lc 9, 57-62

Naquele tempo, Jesus e os seus discípulos iam a caminho de Jerusalém, quando alguém Lhe disse: «Seguir-Te-ei para onde quer que fores». Jesus respondeu-lhe: «As raposas têm as suas tocas e as aves do céu os seus ninhos; mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça». Depois disse a outro: «Segue-Me». Ele respondeu: «Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar meu pai». Disse-lhe Jesus: «Deixa que os mortos sepultem os seus mortos; tu, vai anunciar o reino de Deus». Disse-Lhe ainda outro: «Seguir-Te-ei, Senhor; mas deixa-me ir primeiro despedir-me da minha família». Jesus respondeu-lhe: «Quem tiver lançado as mãos ao arado e olhar para trás não serve para o reino de Deus».

Compreender a Palavra

Lucas apresenta Jesus e os discípulos a fazer o caminho de Jerusalém, o caminho de Jesus, único caminho. Ao ver Jesus subir, muitos vão experimentando a sedução por Jesus e querem segui-lo, outros são chamados por Jesus, mas todos sentem receio na hora de decidir. Podemos imaginar a cena. Lucas relata-nos três situações. A primeira e a terceira falam de homens que se dirigem a Jesus manifestando o seu desejo de o seguir, mas colocam também as dificuldades em fazê-lo imediatamente. O segundo é chamado por Jesus mas, também ele, faz o pedido de deixar para mais tarde a decisão. Em todas as situações está presente a consciência de que é necessário deixar para trás o que se tem, o que fez parte da vida até então. Por isso todos pedem alguma coisa a Jesus, mostrando a dificuldade de deixar tudo. Quem quer seguir Jesus tem que perceber a urgência de largar tudo e segui-lo.

Meditar a Palavra

Quando olho para Jesus no seu caminho sinto uma grande sedução, uma atracção, pelo radicalismo da sua entrega e do seu desprendimento. Simultaneamente experimento o receio, o medo, de largar tudo o que tenho e me impede de o seguir livremente. Vou sempre guardando alguma coisa, algum afecto, alguma relação, algo que me satisfaça a aridez humana para que não me sinta desprotegido, despojado, inseguro. Jesus devia ser a minha única segurança, mas tenho tanta dificuldade em esvaziar-me totalmente das minhas seguranças humanas. Como os homens do Evangelho, encontro sempre alguma coisa que me impede de ser totalmente livre diante de Jesus.

Rezar a Palavra

“Seguir-te-ei, Senhor, para onde quer que fores”. Desejo dizer-te estas palavras, Senhor, com toda a liberdade do meu coração. Desejo traduzir com verdade na minha vida a vontade de te seguir para toda a parte, mesmo para a cruz. Quero ser capaz de unir a minha vida à tua e fazer dela uma dádiva total ao teu reino. Liberta-me, Senhor, de tudo o que me impede de dizer um sim total.

Compromisso

Vou fazer uma experiência de desprendimento de mim mesmo e de dedicação a alguém que precisa de auxílio.

Terça-feira da Semana XXVI do Tempo Comum

Job 3, 1-3.11-17.20-23 

Job abriu a boca e amaldiçoou o dia do seu nascimento. Tomou a palavra e disse: «Desapareça o dia em que eu nasci e a noite em que se anunciou: ‘Foi concebido um homem’. Porque não morri no ventre de minha mãe, ou não expirei ao sair do seio materno? Porque houve dois joelhos para me acolherem e dois seios para me amamentarem? Estaria agora deitado e tranquilo, dormiria o sono da morte e teria descanso, como os reis e os grandes da terra, que edificaram os seus túmulos sumptuosos, ou como os poderosos, que possuem ouro e enchem de prata os seus mausoléus. Ou porque não fui eu como o aborto escondido, que já não existiria, como as crianças que não chegaram a ver a luz? Ali acaba a agitação dos maus, aí repousam os homens extenuados. Porque se dá luz ao infeliz e vida aos corações amargurados, que suspiram pela morte que tarda em chegar e a procuram mais avidamente que um tesouro? Ficariam contentes diante de um túmulo, exultariam à vista de um sepulcro. Porque se dá vida ao homem que não vê o seu caminho e que Deus cerca por todos os lados?».

Compreender a Palavra

Job, diante do sem sentido do sofrimento, vai levantando perguntas que só por si mostram o quanto destroçado está o seu coração e como se apagou a luz do horizonte da sua vida. São perguntas que todo o homem faz no meio do sofrimento. Perder tudo num só dia, levanta muitas questões, mas perder tudo injustamente, sem qualquer culpa que lhe pudesse ser apontada aumenta ainda mais o sofrimento. As suas perguntas, no entanto, não apagaram Deus da sua vida. Por isso termina afirmando a presença de Deus, mesmo que o faça negativamente dizendo-se um homem cercado por Deus.

Meditar a Palavra

O sofrimento faz-nos questionar sobre o sentido da vida. Todas as verdades existenciais adormecidas em nós levantam-se como um exército quando surge o sofrimento. Tudo é posto em causa. A riqueza, o poder, a força, o prestígio, a fama, o conforto, a saúde, os amigos, tudo perde importância diante do sofrimento. Não podemos fazer o elogio do sofrimento, mas a verdade é que ele nos coloca no lugar certo da existência, mostra-nos o nosso verdadeiro tamanho e faz-nos olhar para a nossa verdadeira condição. Julgamo-nos deuses, senhores, donos, todo poderosos diante da vida, dos outros e das circunstâncias. Só quando começamos a perder e a rastejar diante das nossas impossibilidades é que nos damos conta de que somos pó e percebemos que o nosso valor não está na arrogância com que nos colocamos diante da vida. O sofrimento faz-nos humildes e dá-nos a dimensão do nosso estatuto diante de Deus, dos outros e de nós mesmos. Quando não percebemos isto, então pensamos que todos estão contra nós, até Deus e como Job dizemo-nos “cercados por Deus”.

Rezar a palavra

Cerca-me, Senhor, com a tua presença no meio do sofrimento que atingiu a minha vida e faz-me compreender que a tua presença não é a causa da minha dor mas o sinal da minha libertação. Tu vens à minha vida como o fogo que queima mas purifica, a lixívia que arde mas branqueia, a espada que rasga mas limpa todo o mal.

Compromisso

Deixar-se amar no meio do sofrimento, vencendo a arrogância, é acolher Deus que nos salva.


Evangelho: Lc 9, 51-56

Aproximando-se os dias de Jesus ser levado deste mundo, Ele tomou a decisão de Se dirigir a Jerusalém e mandou mensageiros à sua frente. Estes puseram-se a caminho e entraram numa povoação de samaritanos, a fim de Lhe prepararem hospedagem. Mas aquela gente não O quis receber, porque ia a caminho de Jerusalém. Vendo isto, os discípulos Tiago e João disseram a Jesus: «Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu que os destrua?». Mas Jesus voltou-Se e repreendeu-os. E seguiram para outra povoação.

Compreender a Palavra

Estamos diante de uma referência importantíssima no evangelho de Lucas. Este é o momento em que se definem os passos seguintes. Jesus inicia um caminho que é de subida a Jerusalém. Porém esse caminho não termina naquela cidade, nem na morte que ali vai sofrer, termina no céu. O primeiro versículo dá logo essa indicação. Subir a Jerusalém é uma decisão de Jesus que, como sabemos, é resposta à vontade do Pai. O caminho começa com a recusa de Jesus pelos samaritanos. Foram preparar-lhe um lugar mas ninguém o recebeu. Não é a primeira vez que Lucas nos dá esta indicação. O mesmo aconteceu aquando do seu nascimento. Jesus é recusado porque vai para Jerusalém, a cidade onde se manifestará a salvação mas também a cidade que mata os profetas e nenhum profeta morre fora de Jerusalém. Perante a recusa os discípulos Tiago e João intervêm, convencidos de que Jesus é o Senhor que se vai manifestar em todo o seu poder em Jerusalém: “Queres que mandemos descer fogo do céu e os destrua?” Jesus volta-se para indicar outro caminho. Não basta seguir fisicamente atrás de Jesus, o discípulo tem que traçar um outro caminho dentro de si, o caminho da cruz.

Meditar a Palavra

Jesus apresenta-me um caminho novo que sou chamado a seguir. Esse caminho é uma subida que não termina na cidade dos homens mas na cidade de Deus. Ao longo do caminho sou enviado a bater de porta em porta, para que todos acolham o Mestre que segue à frente. Mas o caminho passa necessariamente pela rejeição dos homens que não entendem porque vou a subir, porque vou por este caminho e não por outro, porque me sujeito a estes vexames quando tenho tudo para ser respeitado, até tenho poder para mandar vir fogo do céu. Este caminho que passa pela morte é caminho de salvação se tiver a coragem de o percorrer todo com a mesma valentia do Mestre a quem sigo.

Rezar a Palavra

Atrás de ti vou colocando os meus pés em passos indecisos de quem preferia ver cair fogo do céu sobre os inimigos, os indiferentes e os que recusam dar-te guarida. Sigo, nem sempre com o coração, mas com meus passos, incansavelmente. Decidido que estou a ir contigo, não te perco no horizonte da minha vida, mas perco-te tantas vezes na vontade, no amor, na fidelidade. Ensina-me o caminho interior que conduz ao céu e mostra-te a meus olhos como Senhor, para que se torne mais fácil a subida.

Compromisso

Quero conhecer cada dia melhor este caminho que é o evangelho.

Segunda-feira da Semana XXVI do Tempo Comum

Job 1, 6-22 

Um dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se diante do Senhor, Satanás apareceu também no meio deles. O Senhor disse-lhe: «De onde vens?». Satanás respondeu: «Venho de percorrer a terra, de rondar por toda ela». O Senhor disse-lhe: «Reparaste no meu servo Job? Não há ninguém como ele na terra: é um homem íntegro e reto, que teme a Deus e se afasta do mal». Satanás respondeu ao Senhor: «Porventura teme Job a Deus de maneira desinteressada? Não o cercastes Vós com um muro protetor, a ele, à sua casa e a todos seus bens? Abençoastes o trabalho das suas mãos e os seus rebanhos cobrem toda a região. Mas estendei a mão e tocai nos seus bens e vereis que Vos amaldiçoa frente a frente». Disse então o Senhor a Satanás: «Pois bem, tudo o que lhe pertence fica sob o teu poder, mas não estenderás a mão sobre ele». E Satanás saiu da presença do Senhor. Ora um dia em que os filhos e as filhas de Job comiam e bebiam vinho em casa do irmão mais velho, um mensageiro veio dizer a Job: «Estavam os teus bois a lavrar e as jumentas a pastar junto deles, quando os sabeus arremeteram contra eles e os levaram e passaram os teus servos ao fio da espada. Só eu escapei, para te vir dar a notícia». Ainda ele estava a falar, quando outro veio dizer: «Caiu do céu o fogo de Deus e queimou e reduziu a cinzas as ovelhas e os teus servos. Só eu escapei, para te vir dar a notícia». Ainda ele falava, quando chegou outro e lhe disse: «Os caldeus, divididos em três grupos, lançaram-se sobre os teus camelos e levaram-nos e passaram os teus servos ao fio da espada. Só eu escapei, para te vir dar a notícia». Ainda ele falava, quando outro entrou e lhe disse: «Os teus filhos e as tuas filhas estavam a comer e a beber vinho em casa do irmão mais velho, quando um vento impetuoso veio do lado do deserto e abalou os quatro cantos da casa. A casa desabou sobre os jovens e morreram todos. Só eu escapei, para te vir dar a notícia». Então Job levantou-se, rasgou o manto e rapou a cabeça. Depois prostrou-se por terra e disse: «Saí nu do ventre de minha mãe e nu para ele voltarei. O Senhor deu, o Senhor tirou: bendito seja o nome do Senhor». Em tudo isto, Job não cometeu pecado, nem disse contra Deus nenhuma blasfémia.

Compreender a Palavra

O livro de Job coloca diante de nós através da figura de um homem reconhecidamente justo a possibilidade do sofrimento e a resposta do homem e de Deus a esse sofrimento. O início do livro mostra como Job é um homem justo diante de Deus e como Deus sente orgulho nele. Satanás, porém, não deixa ninguém sossegado e provoca Deus para que permita que o sofrimento entre na vida deste homem, dizendo a Deus que a justiça de Job não é genuína, mas devida ao facto de ter sido protegido por Deus e rodeado de todas os bens. Deus permite que satanás toque nos seus bens e na sua família para ver se job permanece justo diante do Senhor. De facto, num só dia, Job perdeu todos os seus bens e toda a sua família, mas da sua boca não saiu uma única palavra de injúria nem contra Deus ou contra qualquer dos seus inimigos. Job, “prostrou-se por terra e disse: «Saí nu do ventre de minha mãe e nu para ele voltarei. O Senhor deu, o Senhor tirou: bendito seja o nome do Senhor». A conclusão é simples “Em tudo isto, Job não cometeu pecado, nem disse contra Deus nenhuma blasfémia”.

Meditar a Palavra

O livro de Job pretende colocar diante de nós o exemplo do homem justo quando surge o sofrimento injusto e sem sentido. Job não tinha cometido qualquer pecado e não merecia um castigo de tão elevado preço. Perder todos os bens e toda a família era um castigo injusto. Diante de tal situação qualquer homem se revoltaria contra Deus, contra a vida e contra todo aquele que lhe falasse em paciência. Mas Job, porque é justo diante de Deus, nem mesmo nesta situação cai na tentação de culpar os outros ou a Deus pela sua desgraça. Simplesmente confia e reconhece que nada lhe pertence. Perdeu, sim, mas apenas o que lhe tinha sido dado. Nada é seu, tudo veio das mãos de Deus. “o Senhor o deu, o Senhor o tirou: bendito seja o nome do Senhor”. É difícil, mesmo para os crentes assumir esta atitude diante de Deus. Nós não somos como Job. Somos pecadores e mesmo assim, reclamamos quando temos que pagar pelos nossos erros. Procuramos culpados fora de nós e revoltamo-nos contra Deus. Julgamos que tudo nos pertence, as coisas e as pessoas e ficamos caídos na revolta, na desilusão em vez de tomarmos a atitude sensata e serena de Job que prefere sofrer uma injustiça a pecar diante de Deus.

Rezar a palavra

Dá-me Senhor a fortaleza da fé para suportar as injustiças da vida, o mal imposto sobre mim sem razão e sem sentido. E mostra-me o caminho da serenidade para viver tudo com alegria.

Compromisso

A paz interior é o suporte para todo o sofrimento. Perder a paz é cair no vazio e na revolta.


Evangelho: Lc 9, 46-50

Naquele tempo, houve uma discussão entre os discípulos sobre qual deles seria o maior. Mas Jesus, que lhes conhecia os sentimentos íntimos, tomou uma criança, colocou-a junto de Si e disse-lhes: «Quem acolher em meu nome uma criança como esta acolhe-Me a Mim; e quem Me acolher acolhe Aquele que Me enviou. Na verdade, quem for o mais pequeno entre vós esse é que será o maior». João tomou a palavra e disse: «Mestre, vimos um homem expulsar os demónios em teu nome e quisemos impedi-lo, porque ele não anda connosco». Mas Jesus respondeu-lhe: «Não lho proibais, pois quem não é contra vós é por vós».

Compreender a Palavra

O texto surge na sequência da expulsão de um demónio e do segundo anúncio da paixão. Jesus está perplexo com a incapacidade que os discípulos demonstram em entender o que lhes vai ensinando com as suas palavras e com os seus gestos. O texto que agora escutámos, mostra-nos esta dificuldade em entender. Depois de anunciar que vai ser entregue às mãos dos homens, os discípulos discutem sobre qual deles é o maior. Jesus pega numa criança para os fazer entender que a lógica do reino não é a lógica humana. No reino os maiores são os mais pequenos, os que sabem acolher os mais pequenos. No final surge a questão de um homem que expulsa demónios em nome de Jesus sem autorização.

Meditar a Palavra

O Reino de Deus anunciado por Jesus tem critérios diferentes dos humanos. Eu penso muito na possibilidade de ser conhecido, estimado, tido como importante. Quero ser o primeiro. Os critérios do reino passam pela humildade e pelo serviço. Estas atitudes requerem aprendizagem e tempo de exercitação. Ser criança é aquela que está numa etapa da vida em que se deixa educar, orientar, para adquirir os critérios de acção da família e da sociedade a que pertence. Os discípulos hão-de aprender também os critérios do reino. Devem deixar-se educar por Jesus. Como discípulo também eu necessito desta aprendizagem, vencendo os critérios humanos dominadores da minha vida, para adquirir os critérios do reino que Jesus me propõe. Só os que tiverem critérios de humildade e serviço são capazes de entender Jesus, de o acolher e de o imitar.

Rezar a Palavra

É difícil ser o último numa sociedade que nos convida a ocupar o primeiro lugar, passando à frente de todos e usando todas as armas que estiverem ao nosso alcance, sem pensar em ninguém. Pedes que me esqueça de mim e pense nos outros, que tenha os outros como mais importantes. Bem sei, Senhor, que és um modelo de entrega e desprendimento, mas não é fácil ver como se aproveitam de mim para alcançar interesses pessoais e atingir uma posição que podia ser eu a atingir. Traduzir em mim os teus critérios de acção, os teus sentimentos, não é fácil. Mostra-me, Senhor, a alegria de viver na dedicação total aos outros, para que me deixe educar por ti nos critérios do teu reino e não sinta o desejo do primeiro lugar.

Compromisso 

Vou estar atento aos meus irmãos mais humildes para que se sintam valorizados na minha presença.

Sexta-feira da Semana XXV do Tempi Comum

Coelet 3, 1-11

Tudo tem o seu tempo, tudo tem a sua hora debaixo do céu: Há tempo para nascer e tempo para morrer, tempo para plantar e tempo para arrancar; tempo para matar e tempo para curar, tempo para demolir e tempo para construir; tempo para chorar e tempo para rir, tempo para gemer e tempo para dançar; tempo para atirar pedras e tempo para as juntar, tempo para se abraçar e tempo para se separar; tempo para ganhar e tempo para perder, tempo para guardar e tempo para deitar fora; tempo para rasgar e tempo para coser, tempo para calar e tempo para falar; tempo para amar e tempo para odiar, tempo para a guerra e tempo para a paz. Que aproveita ao homem com tanto trabalho? Tenho observado a tarefa que Deus atribuiu aos homens, para nela se ocuparem. Ele fez todas as coisas apropriadas ao seu tempo e pôs no coração do homem a sucessão dos séculos, sem que ele possa compreender o princípio e o fim da obra de Deus.

Compreender a Palavra

A visão sobre a vida, o tempo e as circunstâncias que nos apresenta Coelet revela a caducidade das coisas. Tudo é passageiro e tudo parece estar desprovido de razão e de sentido. Há um vazio que nada pode preencher. A existência do homem sobre a terra sofre desta caducidade, desta limitação e deste vazio. O homem não consegue dar às coisas e aos acontecimentos um sentido e não consegue dar sentido à própria vida. De que vale trabalhar se não chega a compreender o princípio e o fim da tarefa que Deus colocou nas suas mãos?

Meditar a Palavra

Se o homem do antigo testamento tem dificuldade em entender o vazio presente em toda a experiência existencial, porque lhe falta o elemento essencial que pode preencher a existência e mostrar que ela é mais do que a sucessão do tempo e a alternância dos acontecimentos, nós temos a possibilidade de encontrar o verdadeiro sentido porque lemos a vida à luz de Cristo. Se tudo parece aos nossos olhos, vaidade, ilusão e vazio, aos olhos de Cristo tudo se transforma. A vida tem sentido no amor. Quando olhamos apenas para nós na busca egoísta da felicidade, encontramos muitas desilusões porque as circunstâncias parecem estar contra nós como adversários que impedem a nossa felicidade. Ora o sentido da vida não está em ser feliz ou, se preferirmos, em sermos amados. O sentido da vida, a razão da alegria e da felicidade está em sair de nós para que outros sejam felizes por serem amados ainda que nunca correspondam a esse amor ou até se mostrem contra nós apesar do amor que lhes dedicamos. A felicidade ao jeito de Jesus está em dar, em amar, em perdoar e morrer pelo outro. De acordo com esta visão, a alternância do tempo e a circunstâncias não afetam a alegria, nem a felicidade, porque o sentido das coisas está no amor de Deus no qual também nós amamos e esse não morre.

Rezar a palavra

Senhor, se gastar a minha vida a olhar para mim, para o meu bem estar, para a felicidade a que julgo ter direito deparo-me com uma insatisfação, um vazio, que não consigo superar com as minhas forças. Mas tu ensinaste-me que a alegria, a felicidade não está em conquistar para mim o que desejo ou satisfazer as minhas vontades de cada momento. O sentido da minha vida hei de encontra-lo amando e dando a vida como tu, para que outros tenham a vida, para que outros encontrem sentido que o tempo parece querer roubar-nos.

Compromisso

Preocupar-se com a felicidade dos outros pode trazer dissabores e incompreensões mas também traz uma grande liberdade diante do tempo que passa.

Evangelho: Lc 9, 18-22

Um dia, Jesus orava sozinho, estando com Ele apenas os discípulos. Então perguntou-lhes: «Quem dizem as multidões que Eu sou?». Eles responderam: «Uns, João Baptista; outros, que és Elias; e outros, que és um dos antigos profetas que ressuscitou». Disse-lhes Jesus: «E vós, quem dizeis que Eu sou?». Pedro tomou a palavra e respondeu: «És o Messias de Deus». Ele, porém, proibiu-lhes severamente de o dizerem fosse a quem fosse e acrescentou: «O Filho do homem tem de sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas; tem de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia».

Compreender a Palavra

Após a multiplicação dos pães Lucas apresenta este diálogo entre Jesus e os discípulos sobre a mesma questão colocada por Herodes e pela multidão. Quem é Jesus? Agora é Jesus quem pergunta, após um momento de oração a sós: “Quem dizem a multidões que eu sou?”. A pergunta depois atinge o grupo dos doze: “E quem dizeis vós que eu sou?”. A resposta de Pedro revela a identidade de Jesus, Ele é o Messias, mas não conhece os contornos dessa identidade. Por isso Jesus os manda calar. E para que não fabriquem nenhuma imagem errada do Messias, anuncia-lhes a sua morte e ressurreição.

Meditar a Palavra

Jesus é o Messias, mas a sua identidade não pode ficar fechada em chavões que a nossa imaginação fabrica, de modo a satisfazer os nossos caprichos. Dava-nos jeito um Messias que fizesse por nós o que nos compete como homens, cidadãos e cristãos. A vida fácil foi sempre um desejo e a fuga às dificuldades e sofrimentos, outro dos nossos anseios. Um Messias que faz por nós era tudo o que podíamos desejar. Jesus não é assim. Pelo contrário, ele apresenta-se como o que carrega a cruz e passa pelos sofrimentos e pela morte. Então é preciso fazer silêncio diante de Jesus e calar as vozes interiores que nos impedem de ouvir o que Jesus nos revela de si mesmo, para que a nossa fé se concentre no mistério da Paixão e não se deixe enganar por falsos profetas que em nada se parecem com o Messias.

Rezar a Palavra

Senhor, quero contemplar-te no mistério da Paixão, para encontrar, no sofrimento do corpo entregue e do sangue derramado, os sinais do Messias salvador. Quero prender-me ao mistério que me salva e reconhecer-te como caminho de ressurreição e de vida. Não quero seguir pelo caminho fácil dos que sabem tudo sobre ti mas não te reconhecem no crucificado, nem quero viver sem a cruz que me ofereces como caminho de vida eterna.

Compromisso

No silêncio de uma Igreja ou do meu quarto, contemplo Cristo na Cruz na busca do Messias que me salva.

Quinta-feira da Semana XXV do Tempo Comom

Coelet 1, 2-11

Vaidade das vaidades – diz Coelet – vaidade das vaidades, tudo é vaidade. Que aproveita ao homem todo o esforço com que trabalha debaixo do sol? Passa uma geração, vem outra geração e a terra permanece sempre. Nasce o sol e põe-se o sol; depressa volta ao ponto de partida, donde volta a nascer. O vento sopra do sul, depois sopra do norte; num vaivém constante, retoma os seus caminhos. Todos os rios vão ter ao mar e o mar nunca se enche; e embora cheguem ao seu termo, jamais deixam de correr. Todas as coisas se afadigam, mais de quanto se pode explicar; o olhar não se farta de ver, nem o ouvido se cansa de ouvir. O que foi será outra vez e o que se deu voltará a acontecer: nada de novo debaixo do sol. Se de alguma coisa se disser: «Vede que isto é novidade», o certo é que já foi assim nos tempos que nos precederam. Mas nenhuma memória ficou dos tempos antigos, nem haverá lembrança dos acontecimentos futuros entre aqueles que vierem depois.

Compreender a Palavra

O livro de Coelet faz parte do conjunto dos livros da sabedoria e apresenta uma leitura da vida e da realidade. O sofrimento é um tema importante em todas as épocas porque toca o homem de perto, na sua pele e no seu espírito. O autor tem uma visão pessimista da realidade e da vida. Tudo é vaidade… é vão o trabalho do homem…tudo volta ao ponto de origem… não há novidade porque tudo já foi e volta a ser. Esta visão negativa, é fruto da contemplação de tempos difíceis e da experiência de sofrimento que atinge o homem parecendo viver num labirinto que o faz retornar uma e outra vez ao ponto de partida, numa vida sem retorno.

Meditar a Palavra

O pessimismo de Coelet choca-nos porque em Cristo encontrámos o caminho a verdade e a vida. Encontrámos a saída para este contínuo retorno ao ponto de partida, o sofrimento. Agora, olhamos o mundo a partir da novidade permanente que é Cristo na sua ressurreição como fonte de vida e de alegria. Em Cristo o homem, mesmo no sofrimento, pode ser feliz porque tem caminho e tem destino. Sem Cristo, a dor, o sofrimento e a morte, provocam a angústia porque são o fim do qual não se pode sair. Em Cristo não há fim, a morte é caminho de vida eterna. Apesar de tudo, com o seu pessimismo, Coelet faz-nos pensar na realidade deste mundo e como é passageiro este cenário. A vaidade de pensar ter aqui morada permanente, de escapar ileso ao passar do tempo e a veleidade de se julgar acima das forças do vento, mostram a nossa pequenez diante do mistério da vida que em definitiva é o mistério de Deus que nos acompanha.

Rezar a palavra

Os ventos sopram, Senhor contra esta casa que sou eu e que é a vida e o mundo e nada podem contra ela porque está edificada sobre a rocha que és tu, no mistério que salva, a morte e a ressurreição. Caminhar por mim, encontrar o caminho da vida apenas com as minhas visões da realidade é pretensão que me leva ao abismo. Ensina-me, Senhor, que sou pó e nada nos ventos que fazem girar o tempo sobre mim e que só em ti, senhor do tempo, a minha vida encontra plenitude.

Compromisso

Olhar através de Cristo é encontrar um caminho e uma resposta para a dor, o sofrimento e a morte.

Evangelho: Lc 9, 7-9

Naquele tempo, o tetrarca Herodes ouviu dizer tudo o que Jesus fazia e andava perplexo, porque alguns diziam: «É João Baptista que ressuscitou dos mortos». Outros diziam: «E Elias que reapareceu». E outros diziam ainda: «É um dos antigos profetas que ressuscitou». Mas Herodes disse: «A João mandei-o eu decapitar. Mas quem é este homem, de quem oiço dizer tais coisas?». E procurava ver Jesus.

Compreender a Palavra

O texto que escutamos hoje vem na sequência do envio dos discípulos com poder para curar e expulsar demónios e anunciar a Boa Nova. Jesus tem uma atitude clara diante dos homens e os discípulos são ensinados a viver de acordo com essa atitude de Jesus. O texto de hoje mostra que a acção de Jesus e dos discípulos desperta a curiosidade de todos sobre a identidade de Jesus. Herodes questiona-se e a multidão inventa identidades para Jesus, nos profetas já mortos. Herodes tem razão para não seguir as vozes que chegavam ao seu palácio, porque tinha sido ele a mandar matar João. Quem será então Jesus? Esta interrogação cria em Herodes o desejo de ver Jesus.

Meditar a Palavra

Os discípulos de Jesus seguem pelo seu caminho, imitando-o nos seus gestos e palavras. Desta forma, anunciam a Boa Nova, curam os doentes e expulsam demónios. Mas há outro caminho, o dos que preferem identificar Jesus com os mortos, quer dizer, querem vê-lo como um personagem do passado. Também há quem, por curiosidade, queira ver Jesus. Estas três atitudes colocam-se diante de mim e questionam-me. Qual a minha posição diante de Jesus? Fico a dissertar sobre a sua identidade como quem procura saber de um morto? Tenho desejo de ver Jesus por curiosidade face ao que se diz dele? Ou sigo-o, imitando-o, como os discípulos, assumindo que Jesus está vivo e me envia a continuar a sua missão?

Rezar a Palavra

Muitos perguntam quem tu és, Senhor. Às vezes até me fazem essa pergunta a mim. Tenho sempre muita dificuldade em dar uma resposta e sobretudo tenho receio de errar na resposta, não dizendo tudo quanto é importante dizer. Hoje ensinas-me que a resposta às perguntas das pessoas sobre a tua identidade está na minha vida. Se eu me lançar na aventura de realizar os gestos e anunciar as palavras que tu nos deixaste, o mundo vai entender quem tu és. Tu és aquele que liberta o homem das suas enfermidades, das suas prisões e abre caminhos novos de esperança para os que, ouvindo a tua palavra, crêem em ti. Dá-me coragem para fazer da minha vida um verdadeiro testemunho para que todos queiram ver-te.

Compromisso

Quero assumir um compromisso na minha comunidade, pondo-me ao serviço de Jesus e da sua Boa Nova.

S. Mateus, Apóstolo e Evangelista

Efésios 4, 1-7.11-13

Irmãos: Eu, prisioneiro pela causa do Senhor, recomendo-vos que vos comporteis segundo a maneira de viver a que fostes chamados: procedei com toda a humildade, mansidão e paciência; suportai-vos uns aos outros com caridade; empenhai-vos em manter a unidade do espírito  pelo vínculo da paz. Há um só Corpo e um só Espírito, como existe uma só esperança na vida a que fostes chamados. Há um só Senhor, uma só fé, um só Batismo. Há um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos,  atua em todos e em todos Se encontra. A cada um de nós foi concedida a graça, na medida em que recebeu o dom de Cristo. Foi Ele que a uns constituiu apóstolos, a outros evangelistas e a outros pastores e mestres, para o aperfeiçoamento dos cristãos, em ordem ao trabalho do ministério, para a edificação do Corpo de Cristo, até que cheguemos todos à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, ao estado de homem perfeito, à medida de Cristo na sua plenitude.

Compreender a Palavra

Celebramos hoje a festa de São Mateus, Apóstolo e Evangelista

O texto de Paulo aos efésios, escolhido para a festa de São Mateus, apóstolo e evangelista, salienta três aspetos interessantes em quatro partes em que podemos dividir o texto. Primeiro é um chamamento à perfeição cristã “procedei com toda a humildade, mansidão e paciência; suportai-vos uns aos outros com caridade; empenhai-vos em manter a unidade do espírito  pelo vínculo da paz”. Depois apresenta a razão desta perfeição “Há um só Corpo, um só Espírito, uma só esperança, um só Senhor, uma só fé, um só Batismo, um só Deus e Pai de todos”. Em terceiro lugar o dom de Deus que é ministério e serviço aos outros e ao Corpo de Cristo “A cada um de nós foi concedida a graça” de ser “apóstolo, evangelista, pastor ou mestre… para o aperfeiçoamento dos cristãos e edificação do Corpo de Cristo”. Tudo isto tem como intenção realizar em nós o convite inicial, a perfeição cristã, “para a unidade da fé, conhecimento de Filho de Deus e atingir o estado de homem perfeito à imagem de Cristo.

Meditar a Palavra

A dimensão pessoal da fé tem uma correspondência eclesial e teológica. Viver a fé é uma experiência que nos leva desde o batismo até à consciência de Deus como Pai de todos que habita em todos e em todos atua. Esta consciência conduz-nos à união fraterna pelo vínculo da caridade e ao serviço em favor do Corpo de Cristo no exercício de um ministério recebido do próprio Senhor, até que todos, nós e os outros, pelo dom recebido do Senhor cheguemos à perfeição da vida cristã, ao homem perfeito, à medida de Cristo, que é a perfeição na caridade. Por causa disto é que o batismo não é um acontecimento perdido num momento da nossa vida, mas uma realidade permanente e presente em cada momento da vida. Ele atua em nós para que continuamente nos aperfeiçoemos mutuamente na caridade e edifiquemos o Corpo de Cristo.

Rezar a Palavra

Senhor, nas palavras de Paulo percebo uma experiência de fé que se abre para os outros numa dedicação plena em ordem à perfeição. Viver para ti como Senhor e pai de todos é acolher os outros na caridade que tudo suporta para que todos cheguem a plena realização do Corpo de Cristo que é a Igreja e atinjam a estatura do homem perfeito que é Cristo. Dá-nos a humildade, a mansidão e a paciência para suportarmos as dificuldades do caminho que leva à perfeição do amor.

Compromisso

Compreender a vida como caminho que há de chegar à perfeição e a fé como uma abertura a Deus como Pai de todos e aos outros como experiência de vida em Igreja.


Evangelho: Mt 9, 9-13

Naquele tempo, Jesus ia a passar, quando viu um homem chamado Mateus, sentado no posto de cobrança dos impostos, e disse-lhe: «Segue-Me». Ele levantou-se e seguiu Jesus. Um dia em que Jesus estava à mesa em casa de Mateus, muitos publicanos e pecadores vieram sentar-se com Ele e os seus discípulos. Vendo isto, os fariseus diziam aos discípulos: «Por que motivo é que o vosso Mestre come com os publicanos e os pecadores?» Jesus ouviu-os e respondeu: «Não são os que têm saúde que precisam do médico, mas sim os doentes. Ide aprender o que significa: ‘Prefiro a misericórdia ao sacrifício’. Porque Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores».

Compreender a Palavra

Mateus conta-nos como ele próprio foi chamado por Jesus e se tornou seu discípulo passando a segui-lo para toda a parte. O texto conta que Mateus estava sentado no lugar de cobrador de impostos. Ele recebia dos outros os impostos pesados que devia entregar ao poder político que dominava sobra aquele território. Ao passar por ele, Jesus levanta-o desse posto e passamos a vê-lo sentado junto de Jesus rodeado de pecadores. Ali, Mateus aprende o que significa misericórdia. Ao contrário dos fariseus que estão de pé sobre as suas ideias e convicções e não sabem sentar-se com os outros, ao lado de Jesus, o mestre da misericórdia. Por isso Jesus lhes diz: “Ide aprender”. Já que não querem sentar-se com Jesus, devem ir aprender nas Escrituras que eles tanto dizem preservar.

Meditar a Palavra

A proposta de Jesus para mim, hoje, é a mesma que fez a Mateus: “Segue-me”. Quer dizer, levanta-te desse lugar, desse estilo de vida, dessa opção que fizeste há tanto tempo, deixa esse capricho, sai de ti e segue-me numa aventura nova. Senta-te em outro lugar, junto de mim, e aprende uma nova forma de gastar a vida. Aprende a viver na misericórdia, de coração disponível para compreenderes os outros e seres para eles caminho de libertação do mundo que acusa e condena. Senta-te comigo para aprenderes de mim a seres médico e não juiz.

Rezar a Palavra

“Come com os publicanos e os pecadores”. Estas palavras ditas pelos fariseus lembram-me tantas palavras que discriminam e afastam os homens uns dos outros, impedindo a realização daquelas palavras tuas: “amai-vos como eu vos amei”. Escuto estas palavras e percebo que também eu, como Mateus, estou sentado no meu posto de cobrança. Cobro da vida de todos, faço exigências a todas as pessoas, não entendo o que é misericórdia e termino, só, a contar o resultado das minhas cobranças. Tu pedes que me levante e ocupe um outro lugar, junto de ti, para aprender contigo a misericórdia. Faz-me sensível, Senhor, aos pecadores que são apontados e julgados pelo mundo de hoje, mas podem e devem ser amados por mim.

Compromisso

Vou quebrar em mim as cadeias que não me deixam compreender os pecadores e ser, para eles, sinal da misericórdia de Deus.

Terça-feira da Semana XXV do Tempo Comum

Provérbios 21, 1-6.10-13 

O coração do rei está nas mãos do Senhor, como curso de água que Ele dirige para onde quer. Aos olhos do homem todos os caminhos parecem retos, mas o Senhor é que pesa os corações. Praticar a justiça e o direito vale mais do que o sacrifício aos olhos do Senhor. Olhar altivo, coração soberbo: assim é a lâmpada dos ímpios, que é o pecado. Os projetos do homem ativo trazem lucro, mas os planos do impaciente trazem miséria. Acumular tesouros com língua mentirosa é sopro que passa, é laço de morte. A alma do ímpio deseja o mal; nem para o amigo tem olhar benévolo. O homem simples adquire a sabedoria, quando vê o castigo do insolente, e adquire a ciência, quando ouve a instrução do sábio. Se o insolente for castigado, o ingénuo torna-se prudente; se ao homem prudente se der instrução, ele acolhe a ciência. O Deus justo observa a casa do ímpio e precipita na desgraça os homens perversos. Quem fecha os ouvidos ao clamor do pobre também clamará, mas sem que lhe respondam.

Compreender a Palavra

Esta passagem do livro dos provérbios é uma coletânea de frases tiradas da reflexão sobre a vida real. O homem que observa a vida, os acontecimentos e as situações de cada dia, adquire um conhecimento profundo que o leva pelo caminho da verdade e da justiça e o livra da desgraça. Aquele que não reflete e não presta atenção à sabedoria dos homens prudentes vê-se mergulhado nas trevas e na hora da desgraça encontra-se só. Vale a pena refletir sobre o conhecimento do homem que pensa a vida à luz da palavra de Deus, pois nessa luz encontra a vida. Aquele que julga saber tudo só se ouve a si mesmo e cai facilmente na desgraça.

Meditar a Palavra

A leitura de hoje é composta por pequenas afirmações construídas a partir da reflexão de homens que se deixam iluminar pela voz de Deus. São leituras tiradas da vida real, das circunstâncias concretas e que servem a todo o homem que pensa. Deste modo percebemos que o rei, por ser rei não está acima de Deus, que os nossos olhos não Veem como os de Deus, que a fé não passa por sacrifícios mas pela justiça. O coração soberbo está nas trevas. A língua mentirosa conduz à morte. A impaciência traz a miséria. Mas a prudência traz a sabedoria do coração. Atender a estas verdades, iluminadas com a sabedoria de Deus que se revela na vida e torna o nosso coração sábio, evita que o mal caia sobre nós e entre em nossa casa, porque ao ver o que acontece ao outro prevenimos o que pode acontecer connosco se seguirmos pelo mesmo caminho. Deus vê, não o que nós lhe queremos mostrar mas a verdade que está nos nossos corações.

Rezar a palavra

Livrai-me, Senhor, do coração soberbo que se julga a si mesmo acima de toda a verdade e se crê iluminado e a salvo de qualquer censura. Mostra-me o caminho do humilde que sabe escutar a voz da sabedoria para evitar os males que acontecem pela imprudência de quem vive ao acaso.

Compromisso

Pensar dá trabalho mas evita o risco de voltar atrás no caminho da vida.


Evangelho: Lc 8, 19-21

Naquele tempo, vieram ter com Jesus sua Mãe e seus irmãos, mas não podiam chegar junto d’Ele por causa da multidão. Então disseram-Lhe: «Tua Mãe e teus irmãos estão lá fora e querem ver-Te». Mas Jesus respondeu-lhes: «Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática».

Compreender a Palavra

Lucas narra um episódio simples da vida quotidiana, muito natural, na medida em que Jesus estava sempre rodeado por multidões. O facto é que a mãe de Jesus chegou ao local onde ele se encontrava, acompanhada por alguns parentes (aos parentes podia chamar-se irmãos) e não consegue aproximar-se de Jesus por causa da multidão. A mesma multidão que informa Jesus da chegada de sua mãe é a multidão que não permite o encontro entre ambos, impedem que o vejam.

Este acontecimento natural, é aproveitado por Jesus para ensinar à multidão algo muito importante. Com Jesus nasce uma comunidade de discípulos que estão unidos por laços mais fortes que os laços do sangue e da carne. São laços que nascem da escuta da palavra e do seguimento que é cumprimento da palavra. Para estes, não é necessário ver Jesus, mas é fundamental a fé que nasce da escuta da Palavra. Maria é aquela que estabeleceu laços com Jesus que vão além dos laços da maternidade.

Meditar a Palavra

As palavras de Jesus não desprezam os laços familiares, mas põem em evidência outros laços mais importantes e mais fortes, contra os quais nem a família se pode opor. De facto, aquele que, pela escuta da Palavra, encontra a fé em Jesus, estabelece com ele e com os outros crentes, uma nova família caracterizada pela fé e pela obediência a Cristo. A Palavra só está suficientemente assimilada quando faz brotar em mim esta relação familiar com Cristo e com os irmãos. Agora, as pessoas já não se unem porque são da mesma carne e do mesmo sangue, mas porque experimentam e vivem a mesma fé em Jesus. Estou disponível para aceitar os outros como irmãos?

Rezar a Palavra

Sei que não posso ver-te, Senhor, embora meus olhos o desejem. Sei que entre nós se levanta o impedimento do tempo que me ofusca a tua imagem. Só posso ver-te na Palavra do evangelho e na comunidade dos irmãos. Ensina-me a comunicação da fé, a partilha da palavra, o empenhamento na acção, para que saiba ser família com os irmãos. Ajuda-me a vencer os meus impedimentos interiores que não me permitem aceitar os outros como membros da tua família.

Compromisso

Vou rezar pela minha comunidade cristã, por todos e cada um dos seus membros procurando na oração acolher com amor os irmãos de quem estou mais afastado.

Segunda-feira da Semana XXV do Tempo Comum

Provérbios 3, 27-34 

Meu filho: Não negues um favor a quem o merece, quando estiver na tua mão fazê-lo. Se tens para dar, não digas ao teu próximo: «Vai-te embora e volta depois. Amanhã te darei». Não maquines o mal contra o teu próximo, se ele mora ao teu lado e confia em ti. Não discutas sem motivo com homem nenhum, se ele não te fez qualquer mal. Não tenhas inveja do homem violento, nem imites nenhum dos seus processos; porque o Senhor abomina os homens perversos, mas reserva a sua intimidade aos corações rectos. A maldição do Senhor pesa sobre a casa do ímpio, mas Ele abençoa a morada dos justos. O Senhor zomba dos zombadores, mas concede o seu favor aos humildes. Os sábios alcançarão a glória, mas os insensatos receberão a ignomínia.

Compreender a Palavra

O livro dos provérbios mostra que já antes de Jesus o amor era mais importante que o ódio, a vingança, a inveja ou a violência. Há um caminho para os que maquinam o mal e um caminho para os que procuram a paz, um caminho para os retos de coração e um coração para os perversos. O Senhor abençoa a morada dos justos mas a sua maldição está sobre a casa do ímpio. Estas máximas, fruto da sabedoria continuam a indicar o caminho ao homem de hoje.

Meditar a Palavra

Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti e pelo contrário faz aos outros o que gostavas que te fizessem a ti. Ama até os inimigos, aqueles que te perseguem e tratam mal. Estas palavras de Jesus estão em sintonia com as dos provérbios que lemos hoje. O mal está dentro do homem e não fora. Não é o que ouvimos, vemos ou comemos que faz mal, mas o que está dentro do nosso coração. A partir do coração é que se constroem as leituras da realidade. A árvore má dá mau fruto e a árvore boa dá bom fruto, como diz Jesus. Se queremos ser abençoados pelo Senhor vivamos com sabedoria afastando o mal dos nossos olhos e a maldade dos nossos corações

Rezar a palavra

Senhor, que o mal não tome conta da minha casa, do meu coração, do meu olhar. Não se turve a minha inteligência com o desejo de vingança, mas assiste-me, Senhor com a sabedoria para chegar ao amor que abraça até inimigos e reza pelos que me perseguem para que permaneça em mim a tua bênção.

Compromisso

A paz é um dom que se pede e se recebe de Deus.


Evangelho: Lc 8, 16-18

Naquele tempo, disse Jesus à multidão: «Ninguém acende uma lâmpada para a cobrir com uma vasilha ou a colocar debaixo da cama, mas coloca-a num candelabro, para que os que entram vejam a luz. Não há nada oculto que não se torne manifesto, nem secreto que não seja conhecido à luz do dia. Portanto, tende cuidado com a maneira como ouvis. Pois àquele que tem, dar-se-á; mas àquele que não tem, até o que julga ter lhe será tirado».

Compreender a Palavra

O texto de hoje apresenta três ideias muito claras relativamente à Palavra de Deus. A primeira ideia é a da luz: A Palavra é luz e é para se colocar em lugar onde todos tenham luz. A segunda ideia é a do segredo, do oculto: os mistérios de Deus revelados pela Palavra devem ser proclamados por cima dos telhados, para que sejam conhecidos. E finalmente a exigência do escutar bem: a Palavra pode ser escutada por ouvidos e por corações distorcidos que não buscam a verdade mas justificações para as suas próprias ideias.

Meditar a Palavra

Jesus fala comigo, hoje, para me dizer que a sua Palavra deve tornar-se luz para os meus passos e não apenas uma palavra bonita que guardo como qualquer outro conhecimento. Não posso esconder a Palavra e a verdade que nela me é comunicada mas torná-la evidente para todos os que entram na “minha casa”. Deus revela-se a mim e revela-me os seus mistérios ocultos desde sempre mas agora revelados em Cristo. Eu sou, pela minha vida, lugar onde Deus se revela a todos. Não posso ofuscar a verdade de modo que os outros em vez da revelação de Deus encontrem caminhos de engano e de mentira. A Palavra que Deus me revela, é para ser entendida com a inteligência e com o coração para não ensinar aos outros a minha opinião mas a verdade revelada por Deus.

Rezar a Palavra

Tu és a minha luz, Senhor. A tua Palavra é luz para os meus passos e revela-me os teus caminhos de verdade e de vida. Preenche, Senhor, o meu coração com a tua verdade para que não sacie a minha vida com as palavras enganosas com que o mundo me seduz para viver longe de ti. Que eu saiba preservar em mim, a verdade que desde pequeno me foi transmitida como verdade de fé e seja exigente comigo para não inventar justificações que me levam a ficar satisfeito com palavras bonitas que encantam mas não saciam, que brilham mas não iluminam.

Compromisso

Num momento de oração vou pedir a Jesus que ilumine o meu coração para conhecer a verdade que me revela na sua palavra.