Porque sou pecador
Ser, implica uma verdade e uma transparência que não permite a tentação de esconder a fragilidade. Frágil é a condição humana, a minha e a de cada um. Uma fragilidade que se manifesta diariamente ou pelo menos em alguns momentos. Uma fragilidade que domina todas as dimensões da existência.
“Sinto-me frágil. Esta noite estou tão frágil” confessa o poeta. Uma verdade difícil de reconhecer. O mundo não aceita a fragilidade. Esconde-se a fragilidade do corpo, da alma, da mente, porque o mundo não acolhe os frágeis. Os frágeis incomodam, são um peso.
LEITURA I Sir 35, 15b-17.20-22a (gr. 12-14.16-18)
O Senhor é um juiz
que não faz aceção de pessoas.
Não favorece ninguém em prejuízo do pobre
e atende a prece do oprimido.
Não despreza a súplica do órfão,
nem os gemidos da viúva.
Quem adora a Deus será bem acolhido
e a sua prece sobe até às nuvens.
A oração do humilde atravessa as nuvens
e não descansa enquanto não chega ao seu destino.
Não desiste, até que o Altíssimo o atenda,
para estabelecer o direito dos justos e fazer justiça.
Deus não faz aceção de pessoas, afirma Ben-Sirá. Também não permite que o pobre seja prejudicado. Os oprimidos, os pobres, os órfãos e as viúvas são atendidos por Deus, a sua oração sobe aos céus.
Salmo 33 (34), 2-3.17-18.19.23 (R. 7a)
O salmo foca-se nos humildes. Destes, diz que devem escutar, que é uma maneira de dizer, devem estar atentos à ação de Deus, pois ele apaga da terra a memória dos que fazem o mal e livra os justos das angústias. Deus salva os atribulados e abatidos, defende e salva os que nele confiam.
LEITURA II 2Tm 4, 6-8.16-18
Caríssimo:
Eu já estou oferecido em libação,
e o tempo da minha partida está iminente.
Combati o bom combate,
terminei a minha carreira,
guardei a fé.
E agora já me está preparada a coroa da justiça,
que o Senhor, justo juiz, me há de dar naquele dia;
e não só a mim, mas a todos aqueles
que tiverem esperado com amor a sua vinda.
Na minha primeira defesa, ninguém esteve a meu lado:
todos me abandonaram.
Queira Deus que esta falta não lhes seja imputada.
O Senhor esteve a meu lado e deu-me força,
para que, por meu intermédio,
a mensagem do Evangelho fosse plenamente proclamada
e todas as nações a ouvissem;
e eu fui libertado da boca do leão.
O Senhor me livrará de todo o mal
e me dará a salvação no seu reino celeste.
Glória a Ele pelos séculos dos séculos. Amen.
Sentindo aproximar-se o seu dia, Paulo reconhece que gastou a vida a anunciar o evangelho de Jesus para que ele chegasse a todos os cantos da terra. Para isso, combateu o bom combate, travou batalhas espirituais consigo próprio e batalhas com quem oferecia resistência ao evangelho. Foi abandonado quando mais precisava de apoio, mas sentiu sempre a presença daquele que pode dar a coroa de glória.
EVANGELHO Lc 18, 9-14
Naquele tempo,
Jesus disse a seguinte parábola
para alguns que se consideravam justos
e desprezavam os outros:
«Dois homens subiram ao templo para orar;
um era fariseu e o outro publicano.
O fariseu, de pé, orava assim:
‘Meu Deus, dou-Vos graças
por não ser como os outros homens,
que são ladrões, injustos e adúlteros,
nem como este publicano.
Jejuo duas vezes por semana
e pago o dízimo de todos os meus rendimentos’.
O publicano ficou a distância
e nem sequer se atrevia a erguer os olhos ao Céu;
mas batia no peito e dizia:
‘Meu Deus, tende compaixão de mim,
que sou pecador’.
Eu vos digo que este desceu justificado para sua casa
e o outro não.
Porque todo aquele que se exalta será humilhado
e quem se humilha será exaltado».
A parábola de Jesus coloca frente a frente a vaidade e a verdade. Aos olhos dos homens é mais agradável o fariseu porque cumpre todas as suas obrigações do que o publicano que sente arrependimento pelo mal que fez. Deus, porém, prefere a humildade à aparência.
Reflexão da Palavra
Jesus Ben-Sira foi um sábio judeu do século II a.C. que compilou em Jerusalém o livro que tem o seu nome, também conhecido como Eclesiástico. A sua obra reúne um vasto conjunto de ensinamentos práticos para quem deseja ter uma vida reta e temente a Deus, tendo como fundamento a Lei judaica, o verdadeiro caminho para a sabedoria. Escrito num período de forte influência helenística, o livro procura reforçar a identidade e as tradições do povo judeu frente à cultura e filosofia gregas.
Neste contexto, o capítulo 35 é particularmente significativo, pois estabelece uma ligação direta entre o culto a Deus e a justiça social. Ben-Sira argumenta que os rituais e sacrifícios religiosos não têm valor se não forem acompanhados de uma conduta justa. Mais do que a materialidade das ofertas, o que agrada a Deus é a prática da justiça, a esmola e o afastamento do mal. Observar a Lei e ser misericordioso são os verdadeiros sacrifícios, pois Deus não aceita oferendas que vêm da injustiça. Um sacrifício fruto do roubo ou da opressão é um insulto a Deus.
A primeira leitura de hoje apresenta Deus como um juiz que não se deixa levar pelas aparências e que ouve o clamor do oprimido, do órfão e da viúva. Esta atenção de Deus para com os mais frágeis é a garantia de que a sua oração, como afirma o autor, “atravessa as nuvens” e chega até Ele. Esta certeza consolida a necessidade de uma conduta reta, pois Deus conhece a verdade dos corações.
No mesmo sentido, o Salmo 33, afirma que o Deus de Israel não é indiferente. O salmista louva o Senhor e convida todos os humildes a juntarem-se a ele, porque sabe que Deus está presente e próximo do seu povo. O Senhor está perto, salva e defende os justos, os humildes, os atribulados e os abatidos. Isto não significa que aqueles que confiam em Deus não sofram, mas sim que Ele está ao seu lado e os defende.
É precisamente desta consciência que nos fala o apóstolo Paulo na sua carta a Timóteo. Prisioneiro em Roma, Paulo, sabe que o fim da sua vida se aproxima, e declara: “O tempo da minha partida está iminente”. Por isso, aproveita esta carta para deixar o seu testamento espiritual. Desde a sua conversão, ele fixou os olhos no grande horizonte da vida cristã — Cristo — e, com os olhos n’Ele, fez da sua vida um combate. Lançou-se na corrida como um atleta no estádio: não desistiu, foi determinado e corajoso, concentrando-se no essencial da sua missão. Por isso pode afirmar com confiança: “Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé”.
Depois de uma vida dedicada a proclamar o Evangelho, atravessando momentos de solidão, Paulo vive na esperança de que “o Senhor me livrará de todo o mal e me dará a salvação no seu reino celeste”. Ele confia que, assim como o Senhor esteve ao seu lado quando todos o abandonaram, também estará com ele no último combate. E esta esperança não é só para si, mas para “todos aqueles que tiverem esperado com amor a sua vinda”.
Depois de nos ter recordado no domingo passado a importância de rezar sempre, Jesus volta ao tema da oração para nos ensinar como nos devemos apresentar diante de Deus. Para isso, serve-se de duas figuras muito presentes na sociedade do seu tempo: o fariseu e o publicano.
Através destes personagens, Jesus reforça o que as leituras anteriores já anunciavam: Deus “não favorece ninguém em prejuízo do pobre e atende a prece do oprimido”. O fariseu parte do princípio de que está acima dos outros, pelo facto de cumprir escrupulosamente a lei. Ele próprio afirma não ser como os outros homens — “ladrões, injustos e adúlteros” — e concretiza, olhando para o lado: “…nem como este publicano”. O fariseu representa aqui a figura do autossuficiente, que, cego pelo orgulho, vive apenas para si mesmo.
O olhar do Senhor, no entanto, volta-se para o pobre. Na parábola, o pobre é o publicano. Embora pudesse ser rico através dos impostos, ele é pobre de espírito por causa do seu pecado, e o seu coração é humilde ao ponto de reconhecer a sua condição. Com este personagem, Jesus vem recordar a importância da pobreza de coração: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus”.
De facto, como já vimos noutras parábolas, são os humildes que alcançam o Reino: Lázaro vai para o seio de Abraão e a viúva persistente é atendida. Agora, o publicano regressa a casa justificado. Pelo contrário, o rico, o juiz e o fariseu, na sua autossuficiência, nada receberam.
Meditação da Palavra
Dois homens sobem ao Templo para rezar. Esta cena, apresentada por Jesus, é mais do que uma história; é um espelho. É um convite a que cada um examine o seu próprio coração e se pergunte: quando me apresento diante de Deus, com quem me pareço mais? Com o fariseu, seguro da sua própria justiça, ou com o publicano, consciente da sua miséria e necessitado de misericórdia? A resposta a esta pergunta, como mostra a liturgia de hoje, determina se a nossa oração é um diálogo com Deus ou apenas um eco da nossa própria vaidade.
O fariseu representa a piedade impecável aos olhos do mundo. Cumpre a lei, jejua mais do que o exigido, paga o dízimo de tudo. A sua vida é um exemplo de retidão. No entanto, a sua oração revela um coração doente. Ele não fala com Deus, fala sobre si mesmo para Deus. O seu discurso está cheio de “eu”: “eu não sou”, “eu jejuo”, “eu pago”. O seu ponto de referência não é a santidade de Deus, mas a inferioridade dos outros, incluindo o publicano que ele despreza ali mesmo, no lugar sagrado. A sua oração é uma barreira de auto-suficiência que o impede de receber qualquer coisa de Deus.
Em nítido contraste, o publicano, um cobrador de impostos considerado pecador público, “ficou a distância”. O seu gesto físico revela a sua atitude interior. Ele não ousa levantar os olhos, reconhecendo a sua indignidade. A sua oração é curta, direta e teocêntrica: “Meu Deus, tende compaixão de mim, que sou pecador”. Ele não tem méritos para apresentar, não tem desculpas a dar. A sua única riqueza é a sua pobreza, o seu único argumento é a sua necessidade. E é precisamente este coração contrito que Deus acolhe. Jesus é taxativo: “este desceu justificado para sua casa e o outro não”.
A conclusão chocante de Jesus não é uma novidade, mas a confirmação de uma verdade que atravessa toda a Escritura. O livro de Ben-Sirá já ensinava que Deus “atende a prece do oprimido” e que “a oração do humilde atravessa as nuvens“. O Salmo que cantamos hoje repete como um refrão esta certeza consoladora: “O pobre clamou e o Senhor ouviu a sua voz“.
O publicano do Evangelho é a personificação deste “pobre” e deste “humilde”. A sua justificação não acontece por ele ser pecador, mas por ele se reconhecer pecador. Ser humilde é caminhar na verdade do que somos diante de Deus. O orgulho do fariseu, pelo contrário, é uma mentira. Ele constrói uma imagem de si mesmo que não precisa da graça, e por isso, a graça não o pode alcançar.
No final da sua vida, São Paulo faz um balanço. “Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé“. Poderiam estas palavras soar a orgulho farisaico? Absolutamente não. O segredo está na fonte da sua força. Paulo recorda que, no momento mais difícil, “ninguém esteve a meu lado… O Senhor esteve a meu lado e deu-me força“.
Esta é a humildade do apóstolo. A sua confiança não está nas suas próprias capacidades, que falharam, nem na lealdade dos homens, que o abandonaram. A sua rocha é o Senhor, que o livrou “da boca do leão“. Ele espera a “coroa da justiça“, não como um salário que mereceu por si mesmo, mas como um dom gratuito do “justo juiz“, recebido com amor e fidelidade. A vida de Paulo é a prova de que a verdadeira grandeza cristã floresce no terreno da humildade e da total dependência de Deus.
Rezar a Palavra
Concede-me, Senhor, a graça de descer do templo da minha oração, com o coração aliviado pela justificação que só a tua misericórdia pode oferecer.
Compromisso semanal
Confiado na bondade do Senhor continuo a correr para a meta que é o encontro com Cristo.






