Atolados no lodo da incompreensão

Não era difícil notar que ele era diferente. Tinha uma voz doce e segura. Seus olhos muito azuis transmitiam paz. Os gestos serenos davam segurança. O sorriso provocava em todos uma atração inconsciente.

Todos gostavam dele e o convidavam para suas casas, sentindo que podia ser da família.

A desconfiança surgiu quando, uma onda de assaltos, semeou o medo na aldeia. Dali em diante, os olhares voltaram-se para ele. Mesmo sem falarem, a dúvida cresceu nos corações. Pelo bem de todos, ele pegou nas suas poucas coisas e partiu. Ninguém lhe pediu que ficasse.

LEITURA I Jr 38, 4-6.8-10

Naqueles dias,
os ministros disseram ao rei de Judá:
«Esse Jeremias deve morrer,
porque semeia o desânimo entre os combatentes
que ficaram na cidade e também todo o povo
com as palavras que diz.
Este homem não procura o bem do povo,
mas a sua perdição».
O rei Sedecias respondeu:
«Ele está nas vossas mãos;
o rei não tem poder para vos contrariar».
Apoderaram-se então de Jeremias
e, por meio de cordas,
fizeram-no descer à cisterna do príncipe Melquias,
situada no pátio da guarda.
Na cisterna não havia água, mas apenas lodo,
e Jeremias atolou-se no lodo.
Entretanto, Ebed-Melec, o etíope,
saiu do palácio e falou ao rei:
«Ó rei, meu senhor, esses homens procederam muito mal
tratando assim o profeta Jeremias:
meteram-no na cisterna, onde vai morrer de fome,
pois já não há pão na cidade».
Então o rei ordenou a Ebed-Melec, o etíope:
«Leva daqui contigo três homens
e retira da cisterna o profeta Jeremias,
antes que ele morra».

Distantes no tempo, Jeremias e Jesus estão muito próximo no seu destino. As palavras que escutamos relativamente a Jeremias, escutamo-las também no evangelho da paixão. Denunciando a infidelidade a Deus e a corrupção da classe política e religiosa, Jeremias é ameaçado de morte.

Salmo 39 (40), 2.3.4.18 (R. 14b)

O salmista traduz os sentimentos que podem encontrar-se em Jeremias ao ver-se salvo da morte, por intervenção de Deus que agiu através do etíope Ebed-Melec. Quando estava no abismo e no lamaçal, clamou ao Senhor e esperou “com toda a confiança”. O Senhor ouviu o seu clamor e “assentou os meus pés na rocha e firmou os meus passos”. O salmista reconhece a sua pobreza e infelicidade e louva o Senhor porque, apesar disso, ele transformou a sua vida e mudou o clamor dos seus lábios em cânticos e hinos de louvor. Todos os que lhe queriam mal “hão de temer” e aprenderão, também eles, a confiar no Senhor.

LEITURA II Heb 12, 1-4

Irmãos:
Estando nós rodeados de tão grande número de testemunhas,
libertemo-nos de todo o impedimento e do pecado que nos cerca
e corramos com perseverança para o combate
que se apresenta diante de nós,
fixando os olhos em Jesus,
guia da nossa fé e autor da sua perfeição.
Renunciando à alegria que tinha ao seu alcance,
Ele suportou a cruz, desprezando a sua ignomínia,
e está sentado à direita do trono de Deus.
Pensai n’Aquele que suportou contra Si
tão grande hostilidade da parte dos pecadores,
para não vos deixardes abater pelo desânimo.
Vós ainda não resististes até ao sangue,
na luta contra o pecado.

Na sequência da leitura do domingo passado a carta aos Hebreu faz referência a todos os que, no passado, viverem a fé e se tornaram verdadeiras testemunhas. Diante de tão grandes testemunhos somos todos convidados a viver na perseverança lutando contra o pecado. Mas é sobretudo com os olhos postos em Jesus, porque ele é “guia da nossa fé e autor da sua perfeição”, e imitando-o no seu despojamento, que chegaremos sem desânimo à meta que nos propomos como seus discípulos


EVANGELHO Lc 12, 49-53

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Eu vim trazer o fogo à terra
e que quero Eu senão que ele se acenda?
Tenho de receber um batismo
e estou ansioso até que ele se realize.
Pensais que Eu vim estabelecer a paz na terra?
Não. Eu vos digo que vim trazer a divisão.
A partir de agora,
estarão cinco divididos numa casa:
três contra dois e dois contra três.
Estarão divididos o pai contra o filho e o filho contra o pai,
a mãe contra a filha e a filha contra a mãe,
a sogra contra a nora e a nora contra a sogra».

Jesus fala de um fogo, um batismo e de divisão. São palavras enigmáticas com as quais nos diz que a sua vida foi toda ela uma experiência radical forjada no fogo do amor e que este fogo virá para todos com o Espírito Santo. A batismo é a sua radical entrega que implica uma morte que será fonte de vida. E a divisão é provocada pela incompreensão de todos os que não entenderem a opção radical dos discípulos de Cristo.

Reflexão da Palavra

Jeremias, já o sabemos de outras reflexões, foi um profeta muito perseguido por causa da missão que o Senhor lhe confiou. Exerceu o seu ministério na sua terra, o que, à partida não augura nada de bom, e num tempo difícil em que, tanto o poder político como o poder religioso, viviam na infidelidade e na corrupção. Por diversas vezes se vê ameaçado de morte por aqueles contra quem fala em nome de Deus.

Experimentando a angústia, a solidão e o abandono, lamenta-se, chegando a amaldiçoar o dia em que nasceu. No meio da desgraça volta-se para Deus e pede-lhe contas pela forma como ele exerce a justiça, deixando-o à mercê dos inimigos, quando lhe prometeu estar com ele e não permitir que os inimigos o dominassem.

As palavras de Jeremias despertam os piores sentimentos, “este homem não procura o bem do povo”, “semeia o desânimo entre os combatentes”. Ao longo do seu livro são frequentes expressões como estas e piores, mais violentas e agressivas. Os chefes do povo não resistem às suas críticas e procuram dar-lhe a morte: “Esse Jeremias deve morrer”. Diante disto, o rei, que não tem personalidade, deixa-se convencer facilmente, “Ele está nas vossas mãos; o rei não tem poder para vos contrariar”.

Diante deste panorama Deus parece estar em silêncio, mas na verdade está atento ao seu sofrimento e envia-lhe um estrangeiro, o etíope Ebed-Melec que intercede junto do rei e consegue a sua libertação. Deus cumpria, assim, a sua promessa inicial “eu estou contigo para te salvar” (Jr 1,19).

Os poucos versículos do salmo 40, que aqui se reúnem, traduzem de modo bem explícito a situação de Jeremias. Como o profeta, também o salmista se encontra numa situação de “abismo e lamaçal”. Também ele invocou o Senhor, “invoquei o Senhor com toda a confiança” e foi atendido, “Ele inclinou-se para mim e ouviu o meu clamor”. A ação do Senhor foi libertadora “retirou-me do abismo e do lamaçal, assentou os meus pés na rocha e firmou os meus passos” e transformou as suas palavras de suplica, lamentação e angústia, em “cântico novo, um hino de louvor ao nosso Deus”, de modo que todos ficam admirados e cheios de temor ao ver um “pobre e infeliz” encontrar em Deus proteção. Perante isto, o salmista só pode afirmar, “Feliz o homem que confia no Senhor” e não se coloca ao lado dos poderosos que são “idolatras… que seguem a mentira”.

Perante a fragilidade dos cristãos em tempo de perseguição, o autor da carta aos Hebreus incita-os a olhar para os testemunhos do Antigo Testamento, mas sobretudo para Jesus, “guia da nossa fé e autor da sua perfeição”, para encontrar no seu sofrimento, “Ele suportou a cruz”, a força para resistirem “até ao sangue, na luta contra o pecado”.

Na escalada da fé não estamos sós, envolvem-nos todos os que perseveraram e temos sobretudo Jesus que é origem e fim da nossa fé. Com o incentivo da sua perseverança, também nós “corremos para o combate que se apresenta diante de nós”.

O evangelho apresenta três ideias aparentemente enigmáticas que estão ligadas pela pessoa de Jesus. É ele quem traz o fogo, é ele quem recebe o batismo e é ele a causa da divisão entre os membros a família.

O fogo é toda a vida de Jesus animada pelo Espírito, é o fogo do evangelho vivido e anunciado por ele, e é o Espírito Santo quem faz com que a novidade de Jesus se espalhe pela terra. É importante que este fogo não se apague.

O batismo que Jesus tem que receber é a paixão “o Filho do Homem vai ser entregue aos gentios. Vai ser escarnecido, maltratado e coberto de escarros; e, depois de o açoitarem, vão dar-lhe a morte” (Lc 18, 31-32).

A divisão entre os membros da família acontece por causa da opção radical que fazem aqueles que se convertem, os que aderem ao evangelho. A proposta de Jesus põe em causa toda a estrutura social e religiosa do seu tempo, de tal modo que judeus e gentios encontram no evangelho uma oposição ao modo de entender a vida, as relações, os estratos sociais, a exclusão dos mais fracos, dos pobres e dos doentes. E provoca uma oposição dentro da família de cada convertido. A proposta de Jesus não pode ser aceite por quem não se deixou transformar no coração, como bem recordam as parábolas do remendo e dos odres “Ninguém recorta um bocado de roupa nova para o deitar em roupa velha… E ninguém deita vinho novo em odres velhos… Mas deve deitar-se vinho novo em odres novos”.

A opção por Jesus é radical, atinge todo o ser, transforma o coração e estabelece novos laços, uma nova família, que não nasce do sangue, mas do Espírito, “Aquilo que nasce da carne é carne, e aquilo que nasce do Espírito é espírito… ‘Vós tendes de nascer do Alto’” (Jo 3,6), ou, como Jesus diz em outro lugar, “minha mãe e meus irmãos são aqueles que escutam a palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 8, 21).

Jesus é sinal de contradição no meio do mundo. Ele que veio como Messias para trazer a paz, não pode implantar a paz se ela não significar mudança de coração, por isso, os critérios da paz que são critérios do evangelho vão provocar a divisão e não a paz. O evangelho anunciado no meio do mundo provoca esta oposição entre os que aderem e os que não aderem ao projeto de Jesus.

Meditação da Palavra

A difícil experiência dos que creem.

“Fixando os olhos em Jesus”, como nos recomenda a carta aos Hebreus, percebemos que não tem vida fácil todo aquele que se deixa tomar pelo fogo do evangelho. A boa notícia trazida por Jesus é a força do amor que domina o coração, a mente, as articulações, a medula e a respiração daquele que, ouvindo, se deixa converter.

A conversão, que tem no batismo o seu momento mais determinante, é uma experiência de fé que começa no encontro com Cristo e termina quando nos dissolvemos nele pela morte, realidade que a carta aos Hebreus exprime dizendo que Jesus é o “guia da nossa fé e autor da sua perfeição” querendo dizer que Jesus está na origem e no fim da nossa fé.

O fogo que nos devora não pode ficar em nós como não ficou em Jesus, tem que ser comunicado para chegar a todo o mundo, mesmo que para isso seja necessário o batismo do martírio, à semelhança do que viveu Jesus, o mestre. É disso exemplo Jeremias que, tendo sido chamado e enviado por Deus para falar em seu nome, se viu perseguido até se atolar no lodo, sem terra firme onde assentar os pés, experimentando a angústia de se sentir só e abandonado. Ele que anunciava a palavra da paz, vê-se envolvido pelas trevas do erro que interpretam mal a sua mensagem, para não inverterem o caminho pensado sem Deus. Enquanto ele propõe o regresso à fidelidade a Deus eles insinuam que “semeia o desânimo”, quer “a sua perdição” e “não procura o bem do povo”.

Foi também este o caminho que conduziu Jesus à cruz. As suas palavras foram interpretadas como subversivas, e o caminho por ele proposto, como uma ameaça à segurança, até que, a única saída foi dar-lhe a morte “convém que morra um só homem pelo povo, e não pereça a nação inteira” (Jo 11,50).

O grito dos ministros do rei ecoa juntamente com o grito da multidão diante de Pilatos “deve morrer”. O abandonado Jeremias vê-se salvo por Deus através de um estrangeiro, o etíope Ebed-Melec e Jesus é salvo pela força do amor que vence a morte, como ele próprio anunciara, “mas ao terceiro dia ressuscitará”.

Os cristãos perseguidos, a quem se dirige a carta aos Hebreu, encontram nos patriarcas, nos homens grandes de Israel, nos profetas e, particularmente, em Jesus, o incentivo para enfrentarem a adversidade como uma oportunidade para perseverarem, resistindo até ao sangue na “luta contra o pecado”.

Os cristãos de hoje, experimentando tantas vezes a divisão de que fala Jesus no evangelho, são chamados a confiar, como Jeremias e o salmista, e a renunciar como Jesus, a fim de não se deixarem abater pelo desânimo, viverem animados pelo fogo do evangelho e dispostos ao receber o batismo de Jesus que os mártires protagonizaram com serenidade.

Rezar a Palavra

No tempo presente, em muito lugares do mundo, há homens que sofrem o horror da perseguição por causa do evangelho. Outros, mesmo não cristãos, sentem o peso da incompreensão pela diferença cultural, religiosa, sexual ou outra. Por vezes julgamos ser detentores da verdade. Escutamos pouco o que dizes nos nossos corações e perdemos a humanidade. Tornamo-nos frios, insensíveis e incapazes de conviver sem violência e ódio. Continua a ensinar os nossos pobres corações e a confortar com a tua presença aqueles que são alvo da perseguição.

Compromisso semanal

Penso em tantos homens e mulheres privados de liberdade devido ao ódio e à violência discriminação.