Os invisíveis são caminho para o reino
O coração, os olhos e os ouvidos estão preparados para funcionar automaticamente. No entanto posso sempre afinar o funcionamento destes órgãos de modo que amem, vejam e escutem aquilo que mais me interessa.
Há corações que amam os pobres e corações que não sentem a desgraça do outro. Há olhos que veem as dificuldades dos que nada têm e olhos para quem eles são invisíveis. Há ouvidos que escutam o clamor dos que sofrem e ouvidos surdos para a dor. Por esse motivo muitos não encontram o caminho do reino.
LEITURA I Sir 3, 19-21.30-31 (gr.17-18.20.28-29)
Filho, em todas as tuas obras procede com humildade
e serás mais estimado do que o homem generoso.
Quanto mais importante fores, mais deves humilhar-te,
e encontrarás graça diante do Senhor.
Porque é grande o poder do Senhor,
e os humildes cantam a sua glória.
A desgraça do soberbo não tem cura,
porque a árvore da maldade criou nele raízes.
O coração do sábio compreende as máximas do sábio,
e o ouvido atento alegra-se com a sabedoria.
Bem Sira coloca diante dos nossos olhos a sorte dos soberbos e a sorte dos humildes. O soberbo só se escuta a si mesmo O humilde escuta Deus e os outros. Por isso, o humilde será estimado enquanto o soberbo permanece de coração obstinado e solitário. O humilde é sábio porque é um escutador que só vai até onde pode ir.
Salmo Responsorial Salmo 67 (68), 4-7ab.10-11 (R. cf. 11b)
Nos versículos do salmo 67 que a Igreja escolhe para a liturgia deste domingo, canta-se a preferência de Deus pelos humildes. Deus é “pai dos órfãos e defensor das viúvas”, “aos abandonados prepara uma casa”, “conduz os cativos à liberdade” e prepara uma terra para o oprimido. Diante da bondade do Senhor para com os humildes, dispersam-se e fogem os inimigos e alegram-se os justos.
LEITURA II Heb 12, 18-19.22-24a
Irmãos:
Vós não vos aproximastes de uma realidade sensível,
como os Israelitas no monte Sinai:
o fogo ardente, a nuvem escura,
as trevas densas ou a tempestade,
o som da trombeta e aquela voz tão retumbante
que os ouvintes suplicaram que não lhes falasse mais.
Vós aproximastes-vos do monte Sião,
da cidade do Deus vivo, a Jerusalém celeste,
de muitos milhares de Anjos em reunião festiva,
de uma assembleia de primogénitos inscritos no Céu,
de Deus, juiz do universo,
dos espíritos dos justos que atingiram a perfeição
e de Jesus, mediador da nova aliança.
O autor da carta aos Hebreus recorda o episódio do Sinai, quando Deus se manifestou a Moisés e ao povo. Comunicando através de manifestações da natureza provoca medo no povo, de modo que o povo pede para Deus não voltar a manifestar-se daquela forma. Os cristãos, novo povo de Deus, nascido de Cristo, vivem uma experiência nova, que não é material mas espiritual, e não assusta, pelo contrário, atrai. Os cristãos aproximaram-se “de Jesus, o mediador da nova aliança”.
EVANGELHO Lc 14, 1.7-14
Naquele tempo,
Jesus entrou, num sábado,
em casa de um dos principais fariseus
para tomar uma refeição.
Todos O observavam.
Ao notar como os convidados escolhiam os primeiros lugares,
Jesus disse-lhes esta parábola:
«Quando fores convidado para um banquete nupcial,
não tomes o primeiro lugar.
Pode acontecer que tenha sido convidado
alguém mais importante do que tu;
então, aquele que vos convidou a ambos, terá que te dizer:
‘Dá o lugar a este’;
e ficarás depois envergonhado,
se tiveres de ocupar o último lugar.
Por isso, quando fores convidado,
vai sentar-te no último lugar;
e quando vier aquele que te convidou, dirá:
‘Amigo, sobe mais para cima’;
ficarás então honrado aos olhos dos outros convidados.
Quem se exalta será humilhado
e quem se humilha será exaltado».
Jesus disse ainda a quem O tinha convidado:
«Quando ofereceres um almoço ou um jantar,
não convides os teus amigos nem os teus irmãos,
nem os teus parentes nem os teus vizinhos ricos,
não seja que eles por sua vez te convidem
e assim serás retribuído.
Mas quando ofereceres um banquete,
convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos;
e serás feliz por eles não terem com que retribuir-te:
ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos.
Como o sábio da primeira leitura e o justo do salmo, todo aquele que está aberto aos que não têm direitos nem importância ao ponto de os convidar para sua casa, será feliz porque não procura recompensa alguma, mas apenas o bem dos infelizes.
Reflexão da Palavra
O texto da primeira leitura, tirado do livro conhecido como Eclesiástico, escrito por volta do ano 180 a.C. por Jesus, filho de Sira, apresenta a humildade como a virtude fundamental no caminho para a sabedoria que é o mesmo que felicidade. A humildade bíblica não tem a conotação negativa que costuma ser-lhe atribuída. Quando o autor propõe em nome de Deus “quanto mais importante fores, mais deves humilhar-te”, não se refere a submissão ou dependência em relação a outrem, mas reconhecimento de que tudo lhe foi dado, nada lhe pertence e foi-lhe dado para pôr ao serviço de todos.
A maior desgraça do homem é a soberba. Deus resiste aos soberbos (Pr 3,34) porque eles não têm cura, deixaram enraizar neles a árvore do mal e, cheios de si mesmos, estão impedidos de se relacionarem com Deus e com os outros. Ao contrário, os humildes estão atentos a Deus e aos outros, estão de ouvido atento a Deus e meditam no seu coração (Sir 3,29).
O humilde é, curiosamente, entendido como o último, o que fica a perder, aquele que não sabe aproveitar as oportunidades. No entanto, porque não se escuta a si mesmo mas a Deus e medita sobre tudo o que o rodeia, é-lhe dada a sabedoria divina para compreender os mistérios que estão vedados aos sábios e aos e inteligentes.
O longo salmo 67 canta o poder de Deus manifestado na libertação do seu povo. O salmista apresenta Deus como ator principal. Deus aparece aqui em plena atividade salvadora, próximo do seu povo, envolvido nos seus problemas, empenhado na vitória.
Deus levanta-se, sai, avança, faz cair, esmaga, domina, faz ouvir a sua voz. Diante do Senhor os inimigos, dispersam-se, fogem e tremem. Os justos alegram-se, exultam de alegria, reconhecem o poder do Senhor, louvam, cantam. O Senhor está do lado dos mais fracos, dos humildes, é pai dos órfãos, defensor das viúvas, prepara uma casa para o pobre, reconforta-o, cuida de nós, salva, livra da morte, avança pelos céus eternos e resplandece. Diante do poder do Senhor os reis da terra virão com presentes, levantarão as mãos e cantam hinos ao Deus de Israel.
Na segunda leitura continuamos a ler a carta aos Hebreus. O autor da carta recorda aos convertidos do judaísmo o episódio do êxodo, quando o Senhor, no Sinai, se manifestou a Moisés e ao povo através do “fogo ardente, a nuvem escura, as trevas densas ou a tempestade, o som da trombeta e aquela voz tão retumbante”, estabelecendo com eles uma aliança. Perante tão grande manifestação o povo, maravilhado, encheu-se de medo e pediu a Deus nunca mais se manifestasse daquela forma, “suplicaram que não lhes falasse mais”.
Com esta afirmação, o autor da carta pretende que os seus leitores, de origem judaica, reconheçam que há uma continuidade entre aquela aliança estabelecida por Deus com o seu povo através de Moisés, e a nova aliança realizada por meio de Jesus. Simultaneamente, salienta a diferença que existe entre as duas alianças. No deserto, o povo estava impedido de subir ao monte. Mantendo-se à distância e de rosto coberto para não ver, tinha com Deus uma relação de medo, de verdadeiro temor.
Na nova aliança estabelecida por Deus com o seu novo povo, formado pelos que aderem ao evangelho, todos se podem aproximar, “Vós aproximastes-vos”, mas não de realidades palpáveis. Na aliança realizada no sangue de Jesus, todos podem aproximar-se e participar de Deus, da sua intimidade, e viver com ele uma experiência espiritual. Todos se podem aproximar de “Jesus, mediador da nova aliança”.
O evangelho apresenta Jesus numa das várias situações em que ele é convidado para comer em casa de alguém. Em todas estas situações Jesus aproveita para ensinar. Esta refeição acontece num dia de Sábado e em casa de um fariseu importante, pelo que, aparecem muitos convidados. Há um pormenor neste acontecimento que o texto litúrgico não inclui e que faz a diferença. A chegada dos convidados é interrompida pela pergunta de Jesus “é permitido ou não curar ao sábado?”, por causa de um homem doente que ali se encontrava e que Lucas narra nos versículos 2 a 6. Sem resposta da parte deles, Jesus curou o homem.
Após este acontecimento, o texto de Lucas volta a nossa atenção para os convidados que procuram os melhores lugares à mesa e é aí que a liturgia apresenta a mensagem de Jesus. As refeições são uma oportunidade para falar do Reino de Deus. São muitas as imagens da Escritura e parábolas de Jesus que associam o Reino de Deus a um banquete.
Jesus aproveita, precisamente esta refeição para chamar a atenção para o comportamento dos presentes. Escolher o melhor lugar significa julgar-se mais digno do que os outros. Com a sua chamada de atenção Jesus quer dizer que é o dono da casa, o dono do Reino, quem distribui os lugares, pois só ele conhece a dignidade de cada um. O humilde sabe isso e vai para o último lugar, enquanto o soberbo assume-se com direito ao primeiro lugar e não deixa que ninguém lho tire. Jesus deixa bem clara a sua visão ao concluir “Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado”.
A segunda parte do texto dirigida àquele que o convidou, insinua precisamente um caminho novo proposto por Jesus. O fariseu que tinha convidado os seus amigos e pessoas da sua categoria social, compreende que Jesus lhe propõe esse outro caminho ao dizer-lhe “Quando ofereceres um almoço ou um jantar… convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos”, ou seja, aqueles que são sinal da chegada do Reino que se destina em primeiro lugar para eles “e serás feliz por eles não terem com que retribuir-te: ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos”.
Meditação da Palavra
“Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado”.
A palavra deste domingo ensina um caminho para chegar até Deus. No centro do capítulo 14 de Lucas está a parábola do grande banquete do Reino de Deus para o qual todos estão convidados, mas só participam os pobres, os estropiados, os cegos e os coxos, porque os outros encontram sempre uma desculpa para não comparecer.
Com o olhar neste banquete do Reino dos céus, podemos compreender aquele dia na casa do fariseu importante que convidou Jesus para uma refeição. Alguns convidados entendem ter o direito de escolher o lugar e lançam-se apressadamente na corrida pelos lugares mais importantes, porque não lhes basta estar presentes é necessário que sejam reconhecidos como importantes.
Jesus recorda o que já está escrito no livro dos Provérbios 25,6-7, “quando fores convidado para um banquete nupcial, não tomes o primeiro lugar”. Não se trata apenas de uma regra de boa educação, mas uma recomendação para a vida toda, como ensina Ben Sira na primeira leitura, “em todas as tuas obras procede com humildade”. O ensinamento de Jesus segue esta orientação, pois ele mesmo conclui “quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado”.
A humildade, porém, esbarra com os interesses pessoais. Para muitos a humildade é a arma dos fracos, que se deixam pisar, que se submetem à vontade de outros, que não têm autoestima nem amor próprio. Ser humilde implica ser o último e ninguém quer ser o último, por isso correm para os melhores lugares a fim de serem considerados pelos homens. Jesus, porém, recorda que o valor do homem não está no prestígio, no poder nem no reconhecimento dos homens. O prestígio está no coração com que se tomam as decisões fundamentais da vida. Já Ben Sira dizia: “Quanto mais importante fores, mais deves humilhar-te e encontrarás graça diante do Senhor”, porque o humilde conhece a sabedoria que vem de Deus e reconhece que tudo o que é e tem é dom de Deus, e não fruto das suas mãos.
Esquecer que vêm de Deus todos os bens de que se pode usufruir significa uma desgraça, e o soberbo sofre desta desgraça, da qual não pode curar-se porque, “a desgraça do soberbo não tem cura”, deixou que a raiz da maldade dominasse o seu coração.
Jesus vai mais além quando desafia o dono da casa a considerar importantes “os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos” e não os que habitualmente tem por costume convidar, “os teus amigos, os teus irmãos, os teus parentes, os teus vizinhos ricos”, pois estes podem retribuir o convite criando um círculo do qual não se pode sair porque é socialmente aceite. No banquete do Reino dos céus entram primeiro, “os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos” que são considerados os últimos entre os homens.
Já não é a primeira vez que Jesus fala destes que não podem retribuir o convite, em Lucas 6, 32-36 ele diz “se amais os que vos amam, que agradecimento mereceis?…se fazeis bem aos que vos fazem bem, que agradecimento mereceis?… e se emprestais àqueles de quem esperais receber, que agradecimento mereceis?… amai os vossos inimigos, fazei bem e emprestai, sem nada esperar em troca. Então a vossa recompensa será grande e sereis filhos do Altíssimo”. A afirmação de Jesus, no final do texto deste domingo, corresponde a esta, “serás feliz por eles não terem com que retribuir-te: ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos”.
O que está em jogo nas palavras de Jesus é sempre a condição daquele que o escuta. Queres ser meu discípulo? Queres ser filho do Altíssimo? Queres entrar no reino? Então, tens que ir mais além, a proposta do evangelho é para ti. És tu o bem-aventurado que pensa nos pobres, nos humildes, nos injustiçados, nos peregrinos, nos doentes e nos presos. És tu o bem-aventurado que ama os inimigos e reza pelos que o perseguem.
Perante as palavras de Jesus, um dos convidados mostra entender o que Jesus acaba de dizer afirmando “Feliz o que comer no banquete do Reino de Deus”.
De facto, Jesus está claramente a dizer que é feliz quem entra no Reino, mas no Reino de Deus não se entra pela ordem de importância dos convidados aos banquetes humanos. No Reino entram os humildes, os pobres, os que não são reconhecidos, os que ficam à porta dos senhores deste mundo, os que não são considerados dignos nem tidos como pessoas. Numa palavra, no Reino não entram os soberbos que se julgam acima de toda e qualquer suspeita. No Reino entram os que têm o coração livre da maldade e desapegado das coisas deste mundo, sempre disponíveis para escutar.
Perante a palavra deste domingo, todos os que participamos na celebração eucarística, somos convidados à humildade. A humildade permite reconhecer que tudo o que somos e temos vem de Deus e não há de servir para nos vangloriarmos, mas para reconhecer o que somos, filhos do Altíssimo. Há de servir para nos tornarmos mais humanos e aceitarmos o último lugar, deixando aos coxos, aos cegos, aos pobres e aos sem prestígio, o primeiro lugar, na disposição permanente de os servirmos a exemplo de Cristo, de quem nos aproximámos pela fé recebida no batismo.
Rezar a Palavra
Hoje, Senhor, sinto-me convidado para participar no banquete do Reino. As tuas palavras na casa do fariseu alertam-me para a ordem de entrada, primeiro os últimos e depois os primeiros. Não sou eu quem escolhe o lugar onde devo sentar-me, mas o Pai, é ele quem conhece o coração de cada um e sabe indicar o lugar certo para participar do teu banquete. Aprendo também que a ordem do Reino depende daqueles que eu convido para a minha mesa. Se escolho aqueles que me podem convidar já tenho a minha recompensa. Mas se escolho aqueles que não me podem retribuir, receberei no teu Reino a recompensa. Mostra-me, Senhor, o caminho da humildade, para chegar ao teu reino acompanhado daqueles que beneficiaram da minha dedicação e generosidade.
Compromisso semanal
Abro os olhos para aqueles que são invisíveis no mundo das importâncias.






