Uma casa aberta a todos

Levantaram-se muros invisíveis mas eficazes entre os homens da aldeia. Ninguém sabe porquê, nem quando tudo começou, mas as barreiras tornaram-se tão altas que os olhares já não se cruzam. As mãos fecharam-se em indiferença e os corações, trancados em mágoas antigas, deixaram de se procurar. Não se conhecem, não se falam, apenas se temem. As casas fecham-se por dentro, a desconfiança é a lei e o preconceito a norma. Podia ser diferente? Podia!

LEITURA I Is 56, 1.6-7
Eis o que diz o Senhor:
«Respeitai o direito, praticai a justiça,
porque a minha salvação está perto,
e a minha justiça não tardará a manifestar-se.
Quanto aos estrangeiros que desejam unir-se ao Senhor
para O servirem, para amarem o seu nome e serem seus servos,
se guardarem o sábado, sem o profanarem,
se forem fiéis à minha aliança,
hei de conduzi-los ao meu santo monte,
hei de enchê-los de alegria na minha casa de oração.
Os seus holocaustos e os seus sacrifícios
serão aceites no meu altar,
porque a minha casa
será chamada ‘casa de oração para todos os povos’».

Deus declara que a sua Casa será uma «casa de oração para todos os povos». Desta forma antecipa a universalidade da salvação, convidando-nos a acolher a alegria de um Deus que não exclui ninguém e que faz da oração o lugar de encontro de toda a humanidade. Os critérios para pertencer ao povo do Senhor e entrar na casa de Deus são a retidão de vida: respeitar o direito, praticar a justiça e guardar a fidelidade à Aliança no serviço amoroso ao Senhor.

Salmo 66 (67), 2-3.5.6.8 (R. 4)
O salmista apresenta Deus como o justo juiz que governa as nações com equidade, transformando o louvor num convite para que todos os povos se alegrem e exultem sob o seu olhar providente. Pelo olhar do salmista unimo-nos à esperança de que a face de Deus brilhe sobre a humanidade, para que a terra dê o seu fruto e o mundo inteiro reconheça a fonte de toda a vida e santidade.

LEITURA II Rm 11, 13-15.29-32
Irmãos:
É a vós, os gentios, que eu falo:
Enquanto eu for Apóstolo dos gentios,
procurarei prestigiar o meu ministério,
a ver se provoco o ciúme dos homens da minha raça
e salvo alguns deles.
Porque, se da sua rejeição resultou a reconciliação do mundo,
o que será a sua reintegração
senão uma ressurreição de entre os mortos?
Porque os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis.
Vós fostes outrora desobedientes a Deus
e agora alcançastes misericórdia,
devido à desobediência dos judeus.
Assim também eles desobedecem agora,
de modo que, devido à misericórdia obtida por vós,
também eles agora alcancem misericórdia.
Efetivamente, Deus encerrou a todos na desobediência,
para usar de misericórdia para com todos.

Paulo defende que os «dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis», assegurando que a eleição de Israel permanece viva mesmo diante da sua resistência, pois os planos divinos são capazes de transformar a própria desobediência em caminho para a misericórdia universal. Ao contemplarmos este desígnio, somos confrontados com a pedagogia de um Deus que «encerrou a todos na desobediência» para que ninguém se glorie por mérito próprio, mas todos se reconheçam necessitados de uma graça que reconcilia o mundo inteiro.

EVANGELHO Mt 15, 21-28
Naquele tempo,
Jesus retirou-Se para os lados de Tiro e Sidónia.
Então, uma mulher cananeia, vinda daqueles arredores,
começou a gritar:
«Senhor, Filho de David, tem compaixão de mim.
Minha filha está cruelmente atormentada por um demónio».
Mas Jesus não lhe respondeu uma palavra.
Os discípulos aproximaram-se e pediram-Lhe:
«Atende-a, porque ela vem a gritar atrás de nós».
Jesus respondeu:
«Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel».
Mas a mulher veio prostrar-se diante d’Ele, dizendo:
«Socorre-me, Senhor».
Ele respondeu:
«Não é justo que se tome o pão dos filhos
para o lançar aos cachorrinhos».
Mas ela insistiu:
«É verdade, Senhor;
mas também os cachorrinhos
comem das migalhas que caem da mesa de seus donos».
Então Jesus respondeu-lhe:
«Mulher, é grande a tua fé.
Faça-se como desejas».
E, a partir daquele momento, a sua filha ficou curada.

O encontro entre Jesus e a mulher cananeia representa a vitória da universalidade do reino de Deus sobre a fronteira erguida pela inimizade entre o povo eleito e os pagãos. Jesus que, inicialmente se mostra focado na missão em Israel, deixa que a mulher o confronte diretamente através de uma fé sólida, que não exige um direito, mas aguarda a abundância da misericórdia divina. Ao exaltar a «grande fé» desta mulher, o Evangelho ensina que a salvação não é um privilégio, mas um dom acessível a todos os que se aproximam de Deus com confiança absoluta e desarmada.

compreender a Palavra

No capítulo 56 do Livro de Isaías, começa uma nova etapa da profecia, que a exegese bíblica classifica como Trito-Isaías (ou Terceiro Isaías). O contexto é o recente regresso de Babilónia e a reconstrução do Templo e da identidade do povo. Está sobre a mesa a definição de «povo» e os seus limites: para uns, as fronteiras devem estar abertas a todos; para outros, privilegia-se o nacionalismo judaico.

O texto defende a primeira posição, permitindo que os estrangeiros se unam ao Senhor para «o servirem, para amarem o seu nome e serem seus servos». Ficam, contudo, obrigados a «guardarem o Sábado» e a serem «fiéis à Minha Aliança». Se assim fizerem, terão lugar no monte do Senhor, o Sião, experimentarão a alegria do encontro com o Senhor e os seus holocaustos serão aceites.

O texto proclama que a salvação do Senhor «está perto» e é destinada a todos os povos da terra; do mesmo modo que o Templo, a Casa do Senhor, é proclamada como «casa de oração para todos os povos».

O salmista faz-se voz daqueles que compreendem o universalismo da fé. Ele está convencido de que, se todos os povos virem a luz do rosto de Deus, hão de louvar o Senhor.
Israel é o povo escolhido; e, se for abençoado por Deus, pode tornar-se o lugar onde todos os povos veem o Senhor, a sua justiça e a sua salvação. Seguindo os passos de Israel, todas as nações temerão o Senhor ao contemplarem a sua santidade. Por isso, o salmista repete: «Que todos te louvem, ó Deus! Que todos os povos te louvem!».

Na continuação do último domingo, Paulo reafirma aos cristãos de Roma, especialmente aos de origem pagã, a sua esperança na conversão dos judeus, ao verem a bênção de Deus manifestar-se nos gentios. Com isto, Paulo vive a convicção de que a recusa inicial de Israel não é um fracasso, mas um caminho pelo qual a graça do Evangelho chegou a todas as nações.
Um dia, também os judeus serão plenamente chamados à fé. Deus não recusa a ninguém a possibilidade aberta por Jesus para todos os homens. Paulo sustenta esta certeza: «Os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis». Quando Israel aderir ao projeto de Cristo, será como uma ressurreição. Deus salva a todos, judeus e gentios, da desobediência, por meio da Misericórdia que está sempre disponível para uns e outros, de modo que ninguém se possa gloriar.

Jesus dirige-se a um lugar onde, para a mentalidade da época, todos os homens eram impuros por serem pagãos. Ele tinha acabado de discutir com os fariseus e doutores da Lei sobre a impureza, devido ao facto de os discípulos não realizarem os rituais de lavagem das mãos antes das refeições. Jesus esclarece que a impureza vem de dentro, das intenções, e não da prática ritual ou do cumprimento de preceitos humanos. O ritual em questão prendia-se com a suposta contaminação na praça pública pelo contacto com os pagãos. Na região de Tiro e Sidónia, habitavam os cananeus, antigos habitantes de Canaã e adversários históricos dos israelitas, sendo, por isso, considerados gente impura.

A cena apresenta uma mulher deste povo, uma cananeia, que reconhece em Jesus o «Senhor» e o «Filho de David», precisamente quando os fariseus e doutores da Lei tinham dificuldade em aceitar esta verdade. As súplicas da cananeia, que clama «Tem piedade de mim!», obtêm da parte de Jesus um silêncio que poderia parecer indiferença para com aquela mãe que intercede pela sua filha: «A minha filha está cruelmente atormentada por um demónio». O silêncio de Jesus, porém, serve um propósito pedagógico: fortalecer a fé daquela mulher e ensinar os discípulos.

De facto, os discípulos insistiam com Jesus para que a atendesse, pois ela vinha a gritar atrás deles. Jesus chama a atenção para o facto de ela ser cananeia e de que, em primeiro lugar, estão os «filhos da Aliança». As palavras de Jesus não pretendem excluir, mas esclarecer o espírito dos doze, que ainda não compreendiam a universalidade da sua missão. Indiferente às questões de prioridade, a mulher insiste novamente, ao que Jesus responde com as palavras mais difíceis de ouvir: «não é justo que se tome o pão dos filhos para o lançar aos cachorrinhos». Ainda assim, ela não desiste e dá a resposta que, para Jesus, seria definitiva: «mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos».

Deste diálogo, tiramos várias conclusões. Em primeiro lugar, os «filhos» representam os israelitas, enquanto os «cachorrinhos» representam os pagãos. Teoricamente, não seria correto dar aos segundos o pão dos primeiros, mas estamos numa dimensão diferente: aqui, o Pai é Deus, e as migalhas do Pão de Deus dado aos judeus são suficientes para salvar os pagãos, que também são filhos. A cananeia, apesar de pagã, revela-se uma mulher que não desiste da convicção de que Jesus pode atender o seu pedido, tal como ele ensinara nas parábolas do amigo que pede pão e da viúva que pede justiça. Ao mesmo tempo, revela um coração generoso, como generoso é o coração de Deus, pois o que pede não é para si, mas para a filha, do mesmo modo que o pão dado aos filhos da promessa se destina a ser distribuído por toda a humanidade.

Meditar a Palavra

Diante da Palavra de Deus proclamada neste domingo, somos chamados a examinar a nossa fé, a alargar a tenda para que todos caibam à mesa do Senhor e a superar os preconceitos que nos impedem de ver a fé daqueles sobre quem levantamos alguma desconfiança.

Em todas as leituras, proclama-se a universalidade da salvação e a fé como condição para nela participar. Isaías diz que a Casa de Deus será «casa de oração para todos os povos», incluindo os estrangeiros. O Salmo proclama a alegria das nações porque a salvação chega até elas. Mateus ensina que a fé da cananeia rompe a barreira de exclusão dos pagãos do projeto messiânico ao alcançar de Jesus a cura da filha. Paulo fala do misterioso desígnio de Deus que, na sua misericórdia, não privilegia ninguém, mas a todos, judeus e gentios, revela a salvação como dom gratuito, porque todos estão encerrados na mesma desobediência.

A Palavra derruba as barreiras que preconceituosamente levantamos, separando e catalogando os homens de acordo com parâmetros que não passam de definições humanas sem sentido. Deus não é como o homem; para ele não há distinção de pessoas e, se escolhe uns, não é em detrimento de outros, mas para que todos colaborem para o pleno conhecimento da sua misericórdia.

Diante da tendência, hoje ainda mais visível, de discriminação, racismo e xenofobia, faz todo o sentido a visão inclusiva de Isaías. Iluminados pelo rosto de Deus que brilha sobre nós, podemos ver um caminho novo para a humanidade, em que os estrangeiros são acolhidos na Casa de Deus, aberta a todos os que o procuram com um coração sincero. Esta é também a visão de Jesus que, se inicialmente se mostra pedagogicamente indiferente para com a mulher cananeia, com as suas palavras finais derruba o muro que impede o reconhecimento da fé naqueles que pertencem a outra cultura, religião ou nacionalidade, estabelecendo a fé como o único requisito para a salvação. Na atitude daquela mulher, percebe-se a consciência clara de que a salvação não é um direito, mas um dom; e que saber esperar o tempo de Deus é um sinal de humildade que confia no Dono da Casa e aguarda o momento em que as portas se abrem para entrar e sentar-se à mesa como filho.

O Evangelho ensina ainda que, tal como Paulo refere na Carta aos Romanos, as portas se abrem para uns a fim de que outros percebam que ninguém fica excluído. A mulher cananeia serve para que os fariseus, os doutores da Lei e os discípulos entendam que o Reino lhes é oferecido em primeiro lugar; mas, se eles não o aceitarem por se julgarem superiores, as portas estão abertas e outros entrarão à sua frente.

Não valorizar a generosidade de Deus, que não dá apenas o pão aos filhos, mas oferece generosamente as «migalhas», remédio suficiente para curar a cegueira da fé, é ficar fechado na bolha da própria importância. É impedir que outros conheçam o caminho do Senhor e permanecer na tristeza de não ter espaço para que outros se abriguem, como irmãos, na tenda comum que é a Casa de Deus.

Que o Senhor, que se deixou «vencer» pela fé de uma estrangeira, nos conceda uma fé assim: uma fé que não conhece fronteiras, que não desiste perante os obstáculos e que se alimenta da certeza de que a mesa do Senhor é tão abundante que as suas migalhas bastam para salvar o mundo. Que ele nos ensine que a nossa meritocracia não salva ninguém; apenas nos impede de ver a gratuidade do Dom de Deus.

Rezar a Palavra

Senhor, ensina-nos a alargar a tenda do nosso coração, para que a tua casa seja, verdadeiramente, uma casa de oração para todos os povos e culturas. Derruba os muros do nosso preconceito e da indiferença, para que aprendamos com a fé da mulher cananeia que a tua misericórdia é um dom gratuito e sem fronteiras. Concede-nos a humildade de reconhecer que não somos donos da tua graça, mas servos que aguardam com confiança as migalhas de amor que bastam para salvar o mundo. Que as nossas comunidades sejam um reflexo da tua bondade, onde a inclusão e a fraternidade superem qualquer divisão, celebrando a alegria de sermos todos filhos do mesmo Pai. Ámen.

Compromisso semanal

Vou derrubar os muros que o meu coração levanta quando faz distinção de pessoas.