Administrador do bens de Deus
Sentado na cadeira da sua miséria, sentia-se o dono do mundo. Construiu um estrado, degrau a degrau, acreditando que a altura lhe daria o respeito, o poder e a confiança para dominar. Serviu-se de uma inteligência fina e ardilosa para enganar a todos, julgando-se merecedor de todas as honras.
Na sua arrogância, não percebeu que, quanto mais alto o trono, mais isolado o rei. Sem notar, a sua busca por domínio tornou-se a sua própria cela; o que julgava ser o pedestal da sua importância era, afinal, o limite da sua própria liberdade. Acabou refém do trono que ele próprio ergueu para se sentir grande.
LEITURA I Is 22, 19-23
Eis o que diz o Senhor a Chebna, administrador do palácio:
«Vou expulsar-te do teu cargo, remover-te do teu posto.
E nesse mesmo dia chamarei o meu servo Eliacim,
filho de Elcias.
Hei de revesti-lo com a tua túnica,
hei de pôr-lhe à cintura a tua faixa,
entregar-lhe nas mãos os teus poderes.
E ele será um pai para os habitantes de Jerusalém
e para a casa de Judá.
Porei aos seus ombros a chave da casa de David:
há de abrir, sem que ninguém possa fechar;
há de fechar, sem que ninguém possa abrir.
Fixá-lo-ei como uma estaca em lugar firme,
e ele será um trono de glória para a casa de seu pai».
O Senhor depõe Chebna da administração do palácio e investe de poder Eliacim, filho de Elcias. A entrega da túnica, da faixa e, sobretudo, das «chaves da casa de David» são símbolos de uma autoridade que deve ser exercida com atitude paterna e em favor do povo. Esta investidura prefigura a autoridade definitiva do Messias, que exercerá a justiça plena em nome de Deus.
Salmo 137 (138), 1-2a.2bc-3.6. 8bc (R. 8bc)
O salmista compromete-se com Deus a louvá-lo com todo o coração porque não há ninguém acima de Deus nem mais forte do que ele. E ainda, porque apesar de ser grande ele se faz próximo dos humildes e atende a sua oração.
LEITURA II Rm 11, 33-36
Como é profunda a riqueza, a sabedoria e a ciência de Deus!
Como são insondáveis os seus desígnios
e incompreensíveis os seus caminhos!
Quem conheceu o pensamento do Senhor?
Quem foi o seu conselheiro?
Quem Lhe deu primeiro,
para que tenha de receber retribuição?
D’Ele, por Ele e para Ele são todas as coisas.
Glória a Deus para sempre. Amen.
Ao proclamar que tudo pertence a Deus, tem nele a sua origem e para ele se orienta, Paulo convida-nos a uma atitude de humildade e espanto, lembrando-nos de que a nossa única resposta adequada perante o mistério de Deus é o louvor e a entrega absoluta.
EVANGELHO Mt 16, 13-20
Naquele tempo,
Jesus foi para os lados de Cesareia de Filipe
e perguntou aos seus discípulos:
«Quem dizem os homens que é o Filho do homem?».
Eles responderam:
«Uns dizem que é João Batista,
outros que é Elias,
outros que é Jeremias ou algum dos profetas».
Jesus perguntou: «E vós, quem dizeis que Eu sou?».
Então, Simão Pedro tomou a palavra e disse:
«Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo».
Jesus respondeu-lhe:
«Feliz de ti, Simão, filho de Jonas,
porque não foram a carne e o sangue que to revelaram,
mas sim meu Pai que está nos Céus.
Também Eu te digo: Tu és Pedro;
sobre esta pedra edificarei a minha Igreja,
e as portas do Inferno não prevalecerão contra ela.
Dar-te-ei as chaves do reino dos Céus:
tudo o que ligares na terra será ligado nos Céus,
e tudo o que desligares na terra será desligado nos Céus».
Então, Jesus ordenou aos discípulos
que não dissessem a ninguém
que Ele era o Messias.
Em Cesareia de Filipe, ao proclamar que Jesus é o Messias e o Filho de Deus, Pedro não fala por si mesmo, mas instruído pelo Pai, o que lhe confere a missão de ser a rocha visível sobre a qual Cristo edifica a Sua Igreja. O dom das «chaves do Reino» e o poder de ligar e desligar estabelecem uma autoridade de serviço e comunhão, garantindo que, apesar das provações, a comunidade dos discípulos permanecerá em Cristo.
Compreender a Palavra
No reinado de Ezequias (século VIII a.C.), quando Israel é ameaçado pela Assíria, Chebna, o administrador do palácio, ocupa-se com a construção de um túmulo luxuoso para si próprio, em vez de se ocupar das coisas de Deus num tempo de crise profunda.
Deus, o verdadeiro Rei de Israel, é quem depõe o administrador, «vou expulsar-te… remover-te», e é ele quem nomeia outro em seu lugar. A escolha recai sobre o «meu servo», palavra que diz muito sobre como deve ser exercido o poder: como serviço e como «um pai para os habitantes de Jerusalém».
Para isso, Deus investe de poder o novo administrador, atribuindo-lhe as insígnias correspondentes: a túnica, a faixa e as chaves da Casa de David. As chaves da Casa de David significam o poder de abrir e fechar o acesso ao Rei e ao tesouro real, representando o poder de gerir a herança messiânica de David.
Eliacim será colocado no lugar de governo como uma estaca, bem firme e estável, como uma segurança para todo o Israel. Será honra para a sua família, ao contrário de Chebna, que se tornou uma vergonha. Eliacim é apresentado, assim, como figura do Messias, aquele que, em plenitude, será o verdadeiro administrador da Casa de Deus.
O Salmo 137 afirma o poder de Deus diante de todos os poderes da terra e do Céu. Diante dele, o salmista compromete-se a manter indiviso o seu coração: «de todo o coração, Senhor, eu vos dou graças», sem receio de nenhum poder, nem dos anjos do Céu, nem dos ídolos, pois a sua vida está orientada para o Senhor, «voltada para o vosso templo santo».
No Senhor, encontra a segurança que não se pode esperar de nenhum outro poder, pois só Deus é Misericórdia e Fidelidade. No meio da angústia, só o Senhor o atende: «Quando Vos invoquei, me respondestes», e dá-lhe a força de que precisa: «aumentastes a fortaleza da minha alma».
Reconhecendo que Deus se aproxima do humilde e detesta os soberbos, o salmista suplica ao Senhor que não abandone a obra das suas mãos.
No final da primeira parte da Carta aos Romanos, depois de abordar a resistência de Israel em aceitar a fé em Jesus, Paulo serve-se da Escritura (Dt 4, 32-35; Is 40, 13; Jb 41, 3) para manifestar a absoluta autonomia de Deus. Ele não precisa de conselheiros para realizar o seu projeto universal de salvação, nem fica em dívida para com ninguém, pois não recebeu de outrem nada que tenha de retribuir. Em Deus, a riqueza, a sabedoria e a ciência possuem uma profundidade tal que o homem não pode, por si só, perscrutar os desígnios nem os caminhos do Senhor.
É de Deus que vêm todas as coisas e todas lhe pertencem. Ele é a origem de tudo o que existe, é ele quem tudo sustenta e é ele o fim para onde tudo se dirige; nada escapa ao seu domínio. O homem recebe desta abundância gratuitamente; por isso, Deus deve ser glorificado eternamente. Com o Ámen final, Paulo sela a sua adesão plena e a sua convicção profunda relativamente a este conhecimento de Deus.
Jesus encontra-se em território de forte influência pagã, numa região dedicada ao imperador: Cesareia de Filipe. Ali, Jesus interroga os discípulos afirmando-se como o «Filho do Homem», numa clara referência ao Livro de Daniel sobre a vinda do Messias. A pergunta de Jesus incide sobre a Sua identidade: numa região onde é visível o poder dos homens, o imperador e o filho de Herodes, Jesus quer saber o que as multidões pensam dele. As opiniões dividem-se, mas mantêm sempre uma referência profética: «João Batista, Elias, Jeremias ou algum dos profetas». Os discípulos, porém, pela boca de Pedro, confessam a missão e a filiação divina de Jesus: ele é o Messias e o Filho de Deus.
A resposta de Pedro manifesta um conhecimento que não é acessível apenas pelo esforço humano; só Deus pode instruir o homem para que reconheça a natureza de Jesus. Por isso, o Senhor lhe diz: «não foram a carne nem o sangue» quem to revelou; foi um dom do Pai, e essa revelação é causa de bem-aventurança: «És feliz, Simão!».
O dom do Pai faz de Pedro alvo de um chamamento que altera a sua condição, a começar pelo nome. Ele é a rocha sobre a qual se edifica a Igreja, o garante da unidade e da fidelidade ao projeto de Deus. As chaves pertencem ao Messias, mas são entregues a Pedro para que seja o mordomo, o administrador da Casa de Deus; aquele a quem se confiam os tesouros, o homem de confiança que decide em nome do Senhor. Por fim, Jesus impõe silêncio sobre a sua identidade, para evitar mal-entendidos políticos desnecessários sobre a natureza do seu messianismo.
Meditar a Palavra
Em território marcadamente político, Cesareia de Filipe, Jesus exige dos discípulos um compromisso com ele, desafiando-os a dizer quem ele é, numa confissão de fé que vai além do que as pessoas dizem a seu respeito. Jesus começa por perguntar: «quem dizem os homens que Eu sou?», e os discípulos respondem baseados no que ouvem do mundo. Para Jesus, porém, a opinião da multidão não é o essencial; interessa-lhe o olhar daqueles que privam com ele, os que ele escolheu e que estão por perto.
Pedro toma a iniciativa e responde algo que nem ele mesmo entendeu plenamente na altura: «tu és o Messias, o Filho de Deus vivo!». A identidade de Jesus escapa à mera compreensão humana e só é manifestada àqueles a quem o Pai a quiser revelar. A sua missão é difícil de entender porque o messianismo, naquela época, ganhara contornos políticos que nada tinham a ver com os critérios de Cristo.
Perante a resposta de Pedro, Jesus declara-o «feliz», porque «não foi a carne nem o sangue» quem lho revelou. Jesus insiste que há verdades que escapam ao homem e que este só conhece por dom do Alto. As palavras de Pedro são o conteúdo de uma fé que não é fruto de um raciocínio, nem conquista da inteligência humana, mas puro dom de Deus.
Deus pode edificar a Sua Igreja sobre um homem frágil como Pedro, mas não sobre um homem a quem não tenha sido revelado o mistério da fé. Pedro recebeu o dom de Deus e foi investido de uma missão. O seu nome novo constituiu-o como rocha da Igreja, e as chaves que recebe investem-no do poder para administrar os bens de Deus, a «casa de David», como se refere na primeira leitura, a fim de que o inferno não prevaleça contra a Sua Igreja e esta permaneça como elo de ligação entre o Céu e a terra. Pedro é o administrador fiel que o Senhor coloca à frente de todos os seus bens para dar a cada um o necessário (Lc 12, 42).
A Igreja não pertence a Pedro, mas a Cristo («Minha Igreja»), e a sua missão é ser o espaço onde o Céu e a terra se ligam através da confissão de fé e do exercício da misericórdia. Se um administrador se tornar soberbo como Chebna, cuidando de si próprio e não da Casa de Deus, será destituído do seu cargo em favor de outro que agrade a Deus pela sua humildade e misericórdia no trato com os irmãos.
Esta é a misteriosa riqueza, sabedoria e ciência de Deus, que o homem só conhece por revelação e recebe como dom, e não como mérito, porque tudo pertence ao Senhor, nele tem a sua origem e o seu fim. Diante de tão profunda sabedoria, ao homem resta o maravilhamento, para que glorifique a Deus eternamente.
Rezar a Palavra
Senhor Jesus, que em Cesareia de Filipe desafiaste os teus amigos a olhar para além das vozes do mundo, concede-nos hoje a graça de uma fé que não nasce da carne nem do sangue, mas do teu Espírito. Dá-nos a luz para confessar a tua identidade com a mesma coragem de Pedro, reconhecendo que a nossa força não reside na inteligência humana, mas no dom que vem do Alto. Livra-nos da autossuficiência e ensina-nos a administrar com misericórdia os bens que nos confiaste. Ámen.
Compromisso semanal
Confesso com humildade a minha confiança no Senhor que escuta a minha prece.






