Entre o vento e a brisa encontro a tua mão

Tem no rosto as marcas visíveis do tempo, da terra, do sol, do vento e do mar. Antes do amanhecer, lança o seu pequeno barco para enfrentar a imensidão do ruidoso mar, um mar sem fundo, um mar sem fim”. A faina é dura e, não raras vezes, o oceano mostrava-se revoltado e ameaçador.

Apesar de tudo, regressa sempre às águas porque ali está metade da sua alma. No movimento das águas aprende a coragem de regressar uma e outra vez. Na espuma das ondas encontra o refúgio e o propósito. A cada rede puxada, ele sabe que mesmo quando o seu corpo cede, a coragem da sua rotina permanece.

LEITURA I 1Rs 19, 9a.11-13a

Naqueles dias,
o profeta Elias chegou ao monte de Deus, o Horeb,
e passou a noite numa gruta.
O Senhor dirigiu-lhe a palavra, dizendo:
«Sai e permanece no monte à espera do Senhor».
Então, o Senhor passou.
Diante d’Ele, uma forte rajada de vento
fendia as montanhas e quebrava os rochedos;
mas o Senhor não estava no vento.
Depois do vento, sentiu-se um terramoto;
mas o Senhor não estava no terramoto.
Depois do terramoto, acendeu-se um fogo;
mas o Senhor não estava no fogo.
Depois do fogo, ouviu-se uma ligeira brisa.
Quando a ouviu, Elias cobriu o rosto com o manto,
saiu e ficou à entrada da gruta.

Elias encontra-se com Deus no monte Horeb. Depois de experimentar a força do vento, o terramoto e o fogo, o profeta aprende que o Senhor não se impõe pela força esmagadora, mas comunica-Se no silêncio que convida à escuta profunda e à intimidade.

Salmo 84 (85), 9ab-10.11-12.13-14 (R. 8)

Para o povo que regressa da desolação do exílio, este Salmo proclama o restabelecimento de uma harmonia entre o Céu e a terra. O salmista apresenta o encontro entre a Misericórdia e a Fidelidade, transformando a Justiça Divina num beijo de paz que fecunda a história humana, fazendo germinar da nossa própria fragilidade os ingredientes necessários para que a Glória de Deus habite definitivamente na nossa terra.

LEITURA II Rm 9, 1-5

Irmãos:
Em Cristo digo a verdade, não minto,
e disso me dá testemunho a consciência no Espírito Santo:
Sinto uma grande tristeza e uma dor contínua no meu coração.
Quisera eu próprio ser anátema, separado de Cristo,
para bem dos meus irmãos,
que são do mesmo sangue que eu,
que são israelitas,
a quem pertencem a adoção filial, a glória, as alianças,
a legislação, o culto e as promessas,
a quem pertencem os Patriarcas
e de quem procede Cristo segundo a carne,
Ele que está acima de todas as coisas,
Deus bendito por todos os séculos. Amen.

Paulo revela-se magoado ao perceber que a maioria de Israel recusa aceitar o Messias. O apóstolo enumera os privilégios históricos do Povo Eleito: a filiação, a aliança e a própria linhagem de Cristo, para salientar que o povo da promessa ignora o seu cumprimento. É este o mistério da liberdade humana e da fidelidade de Deus. A dor do apóstolo é tão grande que ele se oferece em sacrifício pela salvação do seu povo incrédulo.

EVANGELHO Mt 14, 22-33

Depois de ter saciado a fome à multidão,
Jesus obrigou os discípulos a subir para o barco
e a esperá-l’O na outra margem,
enquanto Ele despedia a multidão.
Logo que a despediu,
subiu a um monte, para orar a sós.
Ao cair da tarde, estava ali sozinho.
O barco ia já no meio do mar,
açoitado pelas ondas, pois o vento era contrário.
Na quarta vigília da noite,
Jesus foi ter com eles, caminhando sobre o mar.
Os discípulos, vendo-O a caminhar sobre o mar,
assustaram-se, pensando que fosse um fantasma.
E gritaram cheios de medo.
Mas logo Jesus lhes dirigiu a palavra, dizendo:
«Tende confiança. Sou Eu. Não temais».
Respondeu-Lhe Pedro: «Se és Tu, Senhor,
manda-me ir ter contigo sobre as águas».
«Vem!» – disse Jesus.
Então, Pedro desceu do barco e caminhou sobre as águas,
para ir ter com Jesus.
Mas, sentindo a violência do vento e começando a afundar-se,
gritou: «Salva-me, Senhor!».
Jesus estendeu-lhe logo a mão e segurou-o.
Depois disse-lhe:
«Homem de pouca fé, porque duvidaste?».
Logo que subiram para o barco, o vento amainou.
Então, os que estavam no barco prostraram-se diante de Jesus,
e disseram-Lhe:
«Tu és verdadeiramente o Filho de Deus».

O evangelho coloca-nos entre a confiança de Jesus no silêncio da oração e a agitação da barca de Pedro, açoitada pelo vento e pelas ondas. Ao chegar caminhando sobre as águas, Jesus revela aos discípulos que ele é mais forte que todas as forças adversas que eles venham a enfrentar. A audácia de Pedro seguida da vacilação é um aviso para todos os cristãos, que confiam mais em si mesmos do que em Jesus.

Reflexão da Palavra

No capítulo 19 do Primeiro Livro dos Reis, inicia-se o ciclo de Elias. A preocupação deste livro não é a mera narração histórica, mas, sobretudo, a reflexão sobre a fidelidade à Aliança. Elias vive um tempo difícil, em que o culto a Baal afastou os israelitas de Iahvé. O profeta luta com todas as forças contra a idolatria: desafia os profetas de Baal e vence-os. Perante esta derrota, a rainha Jezabel, seguidora de Baal, lança uma perseguição implacável contra ele. Na fuga, o profeta, exausto, sente que é preferível morrer a continuar a fugir como um animal escorraçado. Contudo, Deus orienta os seus passos para o monte Horeb, num regresso às origens da fé de Israel e, ali, ele vive a experiência profunda da Presença Divina.

O povo libertado por Moisés do Egito fez o caminho do Horeb à Terra Prometida. Elias faz o caminho inverso e entra na gruta onde Moisés se tinha refugiado para contemplar a Glória de Deus (Ex 33, 22). A preocupação pela fidelidade à Aliança e ao cumprimento da Lei faz de Elias um novo Moisés.

O texto da primeira leitura enumera diversas situações em que Deus não está presente, para revelar um modo novo e mais eficaz da Sua manifestação. O vento forte, o terramoto e o fogo, sinais com que Deus se manifestara no tempo de Moisés, já não são os meios adequados para os tempos novos. Deus já não se serve da força da natureza para se impor ao homem; em vez disso, Elias faz uma nova experiência de Deus através de uma brisa suave, um sopro de silêncio, um murmúrio: uma presença de qualidade. É na interioridade, no coração, que o Senhor se manifesta, num silêncio que fala apenas àquele que sabe escutar.

Apesar de ser algo estranho para quem usou da força para vencer os profetas de Baal, Elias reconhece o Senhor que passa por ele e cobre o rosto, pois ninguém pode ver a Deus e continuar vivo (Ex 33, 20). Perante esta presença, revitaliza-se o ânimo do profeta: ele já não deseja a morte, mas está pronto para continuar a sua missão, levando agora consigo o Espírito do Senhor.

versículo 9 do Salmo 84, que lemos neste domingo, começa com palavras que manifestam uma atitude semelhante à do profeta Elias no Horeb: «Prestarei atenção ao que diz o Senhor Deus». O salmista afirma que o Senhor fala de paz, uma paz que tem origem em Deus, brota da Sua presença no mundo e não meramente das ações humanas. É uma paz que se adquire no silêncio e na escuta, acontecendo no íntimo dos corações. Esta paz será total quando Deus montar a Sua tenda entre nós (Jo 1, 14).

Quando se encontrarem a Misericórdia de Deus e a Fidelidade do homem, como amigas de longa data, então também a Justiça e a Paz, como dois apaixonados, se beijarão. Nesse momento, haverá felicidade, abundância e harmonia plena.

Depois de ter afirmado que o amor de Deus por nós é inabalável, ao ponto de nada nem ninguém nos poder separar do Amor de Cristo, Paulo expressa a sua perplexidade perante a atitude do povo de Israel em relação a Jesus. Por que razão Israel, o povo da promessa, não acredita que Jesus é o Messias?

Deus concedeu-lhes todos os privilégios: tratou Israel como filho, estabeleceu com ele, por diversas vezes, uma Aliança, deu-lhe uma Lei, uma liturgia e uma promessa messiânica; constituiu-o como povo desde Moisés e fez nascer do seu seio o próprio Messias. Para Paulo, a única explicação para a recusa de Israel reside na liberdade humana. O problema não está na Palavra de Deus que lhes foi anunciada, mas no modo como cada um usa a sua liberdade.

Esta atitude de Israel causa em Paulo uma tristeza tão profunda que ele chega a afirmar que preferiria ser ele próprio a separar-se de Cristo, desde que, com isso, os seus irmãos se encontrassem com Ele na fé. Já Moisés fizera o mesmo em prece pelo povo (Ex 32, 32). A terminar, Paulo proclama a divindade de Jesus numa doxologia final: «Cristo… Deus bendito por todos os séculos. Ámen».

Depois da multiplicação dos pães, o ambiente era favorável a manifestações políticas em favor de Jesus. Talvez por isso, Mateus afirma que Jesus «obrigou» os discípulos a seguir para a outra margem, afastando-os da possível confusão, e despediu a multidão.

A partir desta primeira referência, o texto enche-se de simbolismo. Jesus sustenta com a Sua oração, no silêncio e na quietude da noite, a barca de Pedro, onde os discípulos lutam contra o vento e contra o mar.

Na mesma hora em que os filhos de Israel saíram do Egito e Jesus saiu do túmulo, na quarta vigília da noite, Ele vai ter com eles caminhando sobre as águas. As águas representam as forças do mal que só Deus pode dominar; Jesus caminha sobre elas porque Ele é Deus, e não um fantasma, como os discípulos começam por acreditar.

Para que O reconheçam, Jesus diz: «Sou Eu», usando a expressão revelada por Deus a Moisés: «Eu Sou». Com esta afirmação, eles perdem o medo e recuperam a confiança. A cena de Pedro revela o desejo de seguir Jesus. Se este desejo for transformado em busca de poder pessoal, torna-se incapaz de resistir aos ventos; Pedro afunda-se e, com ele, a barca. Só Jesus o pode salvar, por isso a Igreja não cessa de clamar com Pedro: «Salva-me, Senhor!».

Meditação da Palavra

A Palavra de Deus deste domingo coloca-nos diante das nossas tempestades: o mundo com as suas convulsões, os conflitos geopolíticos e militares, a economia selvagem, a instabilidade social, a crise da verdade e os problemas climáticos, acrescidos da sensação de que as instituições internacionais (como a ONU) perderam a capacidade de mediação, deixando o mundo num estado de «cada um por si». Somam-se a estes os conflitos pessoais, como a ansiedade provocada pelo medo do futuro: o receio de, mesmo trabalhando muito, perder a autonomia financeira; o medo do desemprego por inutilidade perante a novidade da Inteligência Artificial; a débil saúde mental e o isolamento; a perda da privacidade e a incerteza face à verdade; e, finalmente, o medo da guerra e a incapacidade de controlar tudo.

Elias experimenta a exaustão perante a perseguição movida pela rainha Jezabel; Paulo experimenta a tristeza perante a recusa dos judeus em relação ao Evangelho; os doze discípulos lutam contra o vento e o mar enfurecidos. No meio destas tempestades, os atores bíblicos mostram-se tão humanos quanto nós, fazendo-nos perceber a nossa pequenez diante dos grandes desafios da vida. Mas a Palavra de Deus revela algo mais importante do que as dificuldades humanas: mostra a presença do Senhor e a força daqueles que se deixam conduzir pela fé.

Efetivamente, no Evangelho, Jesus, ao fazer-Se presente, põe termo ao medo dos apóstolos e salva Pedro de se afundar nas suas falsas seguranças, convidando-o a confiar na mão protetora do Mestre. Na primeira leitura, Elias ensina-nos onde Deus não está e convence-nos de que a Sua ação é eficaz, mas silenciosa e interior, pois, como diz o Salmo, Ele fala ao coração. E a segunda leitura dá-nos a consciência de que mesmo os homens de fé não estão isentos de sofrimento.

A compreensão dos textos bíblicos deste domingo desperta em nós a consciência de que as tempestades fazem parte da vida; que andar à deriva é, por vezes, uma consequência de estarmos no mundo empenhados na sua construção e transformação; e que, é normal experimentarmos a angústia de sentir que Deus está ausente. Por outro lado, a Palavra ensina-nos que é necessário aprender a discernir a presença de Deus na realidade concreta, e não fabricar a ilusão de uma presença à medida dos nossos desejos. A Sua manifestação mais eficaz é suave e discreta, quase impercetível, mas real; inaudível, mas transformadora; invisível, mas reconfortante.

Também compreendemos que, mesmo quem vive a fé com audácia e determinação, como Pedro, experimenta-se frágil nas situações de maior provação. Se nos focamos demasiado nas dificuldades, se a nossa preocupação se concentra nos ventos contrários e na força das vagas, acabaremos por sucumbir, por não percebermos onde reside a nossa verdadeira segurança. Fixar o olhar em Jesus, que é mais forte que todos os ventos e sabe caminhar sobre as ondas mais ameaçadoras, é o segredo para manter viva a esperança.

As grandes dificuldades da vida são a oportunidade para firmar a confiança na mão protetora e solícita de Jesus. A oração de súplica, como ensina Pedro ao gritar «Salva-me, Senhor!», é sempre escutada, mesmo que a nossa fé seja pouca. Nas vidas de Elias, Paulo e Pedro, e na vida da Igreja, qual barca de Pedro, aprendemos que não há vidas sem tempestades, mas que a presença de Deus faz toda a diferença no momento de as enfrentar. A fé, ainda que frágil, é suficiente para manter n’Ele o olhar e levantar a voz em súplica Àquele que nos pode salvar quando as forças nos faltam.

Rezar a Palavra

Senhor, guia-me sobre as águas agitadas e firma a minha mão perante os ventos da dúvida. Que a Tua presença no meu coração sustente a minha esperança. Que o sopro suave do Teu espírito me proteja da dureza do mundo, mantendo-me firme na fé de que é possível contruir um mundo de paz e justiça.

Compromisso semanal

Enfrento o desafio da fé como Pedro, segurando na mão de Jesus.