Ler com o coração

A notícia passou em todos os telejornais e foi comentado nos programas de análise criminal. Um homem, estrangeiro, foi espancado no final do dia de domingo e deixado, ensanguentado, com múltiplas fraturas e com previsão de perder uma vista, sentado numa cadeira junto a uma pastelaria. No dia seguinte, várias pessoas passaram por ali, alguns comentaram nas redes sociais terem-no visto, mas nada fizeram. Foi depois de longas horas que uma senhora ligou para o INEM e o homem foi socorrido. Está em coma no hospital.

Os psicólogos chamam a esta atitude o “efeito do espetador”, ou seja, quando um acontecimento é presenciado por muitas pessoas, a tendência é atirar para o outro a responsabilidade de pedir auxílio e todos se calam remetendo-se à indiferença. O fenómeno não é de hoje.

LEITURA I Dt 30, 10-14

Moisés falou ao povo, dizendo:
«Escutarás a voz do Senhor, teu Deus,
cumprindo os seus preceitos e mandamentos
que estão escritos no Livro da Lei,
e converter-te-ás ao Senhor, teu Deus,
com todo o teu coração e com toda a tua alma.
Este mandamento que hoje te imponho
não está acima das tuas forças nem fora do teu alcance.
Não está no céu, para que precises de dizer:
‘Quem irá por nós subir ao céu,
para no-lo buscar e fazer ouvir,
a fim de o pormos em prática?’.
Não está para além dos mares,
para que precises de dizer:
‘Quem irá por nós transpor os mares,
para no-lo buscar e fazer ouvir,
a fim de o pormos em prática?’.
Esta palavra está perto de ti,
está na tua boca e no teu coração,
para que a possas pôr em prática».

“Escuta” é a palavra sagrada no livro do Deuteronómio. Tudo começa quando o homem escuta Deus. Cumprir, pôr em prática, converter o coração, vem depois. Depois de escutar, todo o ser, o ouvido a boca e o coração, fica preenchido pela palavra para a poder pôr em prática. Aquele que assim escuta será abençoado.

Salmo 68 (69), 14.17.30-31.33-34.36ab.37 (R. cf. 33) – Salmo 18 B, 8-11 (R. 9a)

Na primeira parte do salmo 68, o salmista expõe a tragédia em que se tornou a sua vida por causa do pecado cometido. E nos versículos reunidos nesta liturgia, vem o pedido de auxílio, “respondei-me”, “ouvi-me”, “voltai-vos para mim”, “defendei-me”. Ele coloca a sua confiança no Senhor e sabe que será atendido porque é grande o seu amor. No meio da desgraça só pode contar com o Senhor, ele e todos os humildes e pobres da terra, pois “o Senhor escuta os necessitados”. O salmista espera para os seus inimigos, que o trataram sem piedade, o castigo do Senhor “descarrega sobre eles a tua indignação” (V. 25).

LEITURA II Col 1, 15-20

Cristo Jesus é a imagem de Deus invisível,
o Primogénito de toda a criatura;
porque n’Ele foram criadas todas as coisas
no céu e na terra, visíveis e invisíveis,
Tronos e Dominações, Principados e Potestades:
por Ele e para Ele tudo foi criado.
Ele é anterior a todas as coisas
e n’Ele tudo subsiste.
Ele é a cabeça da Igreja, que é o seu corpo.
Ele é o Princípio, o Primogénito de entre os mortos;
em tudo Ele tem o primeiro lugar.
Aprouve a Deus que n’Ele residisse toda a plenitude
e por Ele fossem reconciliadas consigo todas as coisas,
estabelecendo a paz, pelo sangue da sua cruz,
com todas as criaturas na terra e nos céus.

O hino cristológico que Paulo nos oferece nesta leitura é uma verdadeira profissão de fé que centra o olhar em Cristo, muito útil em tempos de incerteza. Em Cristo, torna-se visível aos nossos olhos o “Deus invisível”. Do mesmo modo a Igreja tem em Cristo a sua origem, fundamento e segurança, pois ele “é a cabeça da Igreja, que é o seu corpo”.

EVANGELHO Lc 10, 25-37

Naquele tempo,
levantou-se um doutor da lei
e perguntou a Jesus para O experimentar:
«Mestre,
que hei de fazer para receber como herança a vida eterna?».
Jesus disse-lhe:
«Que está escrito na Lei? Como lês tu?».
Ele respondeu:
«Amarás o Senhor teu Deus
com todo o teu coração e com toda a tua alma,
com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento;
e ao próximo como a ti mesmo».
Disse-lhe Jesus:
«Respondeste bem. Faz isso e viverás».
Mas ele, querendo justificar-se, perguntou a Jesus:
«E quem é o meu próximo?».
Jesus, tomando a palavra, disse:
«Um homem descia de Jerusalém para Jericó
e caiu nas mãos dos salteadores.
Roubaram-lhe tudo o que levava, espancaram-no
e foram-se embora, deixando-o meio-morto.
Por coincidência, descia pelo mesmo caminho um sacerdote;
viu-o e passou adiante.
Do mesmo modo, um levita que vinha por aquele lugar,
viu-o e passou também adiante.
Mas um samaritano, que ia de viagem,
passou junto dele e, ao vê-lo, encheu-se de compaixão.
Aproximou-se, ligou-lhe as feridas deitando azeite e vinho,
colocou-o sobre a sua própria montada,
levou-o para uma estalagem e cuidou dele.
No dia seguinte, tirou duas moedas,
deu-as ao estalajadeiro e disse:
‘Trata bem dele; e o que gastares a mais
eu to pagarei quando voltar’.
Qual destes três te parece ter sido o próximo
daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?».
O doutor da lei respondeu:
«O que teve compaixão dele».
Disse-lhe Jesus:
Então vai e faz o mesmo».

As duas perguntas do doutor da lei fundem-se numa resposta “vai e faz o mesmo”. O evangelho não é teoria, nem ideologia para preencher as nossas reflexões académicas. O evangelho é vida que se concretiza em gestos claros a favor do próximo, e este é todo aquele que sem ajuda, não tem capacidade para viver dignamente. 

Reflexão da Palavra

Para lá de toda a problemática que envolve a redação do último livro do Pentateuco, podemos afirmar que o texto da primeira leitura surge no contexto do exílio de Babilónia, tendo em conta o que se diz em 30, 3 “então o Senhor, teu Deus, fará regressar os teus cativos e terá compaixão de ti; e de novo te reunirá dentre todos os povos, no meio dos quais te dispersou o Senhor, teu Deus”. O autor coloca as palavras na boca de Moisés para lhes conferir mais força e autoridade, pois pretende chamar o povo à fidelidade a Deus e à rotura com os ídolos.

O livro do Deuteronómio está repleto de expressões que convidam a escutar o Senhor, a cumprir os mandamentos, a ser fiel à lei de Deus, a converter o coração, a regressar ao Senhor. O texto desta primeira leitura é apenas um exemplo dessa insistência: “Escutarás a voz do Senhor”,cumprindo os seus preceitos”,“converter-te-ás ao Senhor”.

Está em causa a felicidade que só o Senhor pode dar, “o Senhor teu Deus fará prosperar todo o trabalho das tuas mãos” (v. 9). Mas a escolha é sempre do povo “coloco diante de ti a vida e o bem, a morte e o mal” (30,15). Dependendo da escolha que o homem faça assim ele será abençoado ou amaldiçoado “o Senhor, teu Deus, te abençoará… mas se o teu coração se desviar…morrereis”.

Ser fiel ao Senhor, esclarece o texto deste domingo, depende da escuta do Senhor “escutarás a voz do Senhor teu Deus”, e cumprir a sua vontade está ao alcance de todos pois, diz o texto “não está acima das tuas forças nem fora do teu alcance” e conclui, “esta palavra está perto de ti, está na tua boca e no teu coração, para que a possas pôr em prática”. Não se trata, portanto, de um jugo, um peso, uma opressão, mas uma proposta de libertação, alegria e felicidade.

O salmo 69 é uma longa súplica construída em quatro partes. Na primeira o salmista sente-se como um náufrago a quem as águas procuram submergir ou como alguém que se afunda num lamaçal sem ter um ponto de apoio. O motivo desta angústia são os inimigos que ele diz serem “mais que os cabelos da sua cabeça”. A sua única esperança é o Senhor, porque conhece a verdade e sabe que ele não cometeu nenhum crime, pelo contrário, é por causa do Senhor o seu infortúnio “por causa de ti, tenho sofrido insultos”.

Na segunda parte, início do texto que se recolhe nesta liturgia, dirige ao Senhor uma súplica, “a Vós, Senhor, elevo a minha súplica”, e insiste com o Senhor mostrando a urgência da sua situação “responde-me depressa porque estou angustiado” e solicitando a bondade do Senhor “ouvi-me, Senhor, pela bondade da vossa graça, voltai-Vos para mim pela vossa grande misericórdia”.

Na terceira parte, atira para os inimigos as mais diversas ameaças no desejo de que o Senhor os castigue sem piedade, “não permitas que tenham acesso ao teu perdão”.

A última parte é uma ação de graças antecipada, “louvarei com cânticos o nome de Deus
e em ação de graças O glorificarei
”. Assistido pelo Senhor, o salmista tornar-se-á um modelo para os humildes e os pobres, que ao ver o que o Senhor fez por ele, se hão de alegrar e encher de coragem para procurarem o Senhor.

Durante os próximos quatro domingos escutaremos a teologia de Paulo sobre Cristo. Conhecemos a paixão de Paulo pela cruz de Cristo e é nessa perspetiva que nos convida a contemplar o mistério de Deus nela revelado. Para Paulo, contemplar a Cristo é contemplar simultaneamente o homem, tal como Deus o pensou e criou, à sua imagem e semelhança e é contemplar a Deus.

No texto deste domingo, Paulo, parte da afirmação, “Cristo Jesus é a imagem de Deus invisível”. Cristo é o homem como Deus o queria desde o início e que, por causa do pecado não chegou a concretizar-se. Cristo, porém, é o “Primogénito de toda a criatura”, o paradigma de tudo o que foi criado. Em todas as coisas se encontra refletido o seu rosto, a sua presença, “n’Ele tudo subsiste”. Do mesmo modo que nele podemos contemplar aquele que é invisível, “quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,9).

Nele podemos contemplar igualmente a Igreja porque, “Ele é a cabeça da Igreja, que é o seu corpo”. Deste modo Paulo afirma que nós somos o corpo de Cristo, membros do mesmo corpo do qual Jesus é a cabeça. Como imagem de Deus, primogénito de toda a criatura e cabeça da Igreja, Cristo é o lugar onde somos reconciliados com Deus. Ele é, “pelo sangue da sua cruz”, o lugar onde o ódio dos homens é vencido e transformado pelo amor de Deus. Na cruz ele oferece o sacrifício que estabelece a paz “com todas as criaturas na terra e nos céus”.

O evangelho desenrola-se à volta de uma pergunta ousada de um doutor da lei. A pergunta é atrevida e feita de má fé, “para O experimentar”, no entanto, serve para Jesus mostrar ao doutor da lei que não anda a ler bem o que a escritura diz sobre proximidade, compaixão e misericórdia. Na parábola, Jesus explica ao doutros da lei que nenhum homem pode ser estranho e nenhuma lei pode impedir a compaixão e a misericórdia. O modo como o sacerdote e o levita leem a lei impede-os de se aproximarem e cuidarem do homem em situação de moribundo. Com esta atitude, mostram que, apesar de irem a caminho do templo, estão longe de Deus, porque Deus usa de compaixão aproximando-se dos homens.

Com a atitude do samaritano, Jesus recorda ao doutor da lei que todo o homem pode adquirir os sentimentos de Deus e compadecer-se do seu semelhante, mesmo que não seja do seu povo, da sua família, do seu sangue. Até os nossos inimigos podem ser homens de coração compadecido.

A resposta ao doutor da lei tem implícita uma outra pergunta: até onde estás disposto a ir para receberes como herança a vida eterna? Até onde te permite e lei? Até onde é razoável tendo em conta a raça, o sangue ou a amizade? Ou até onde o coração te levar, isto é, sem colocar limite algum?

Para Jesus o próximo mede-se a partir de Deus e não do homem. Aquele que está próximo de Deus está sempre próximo de todos os homens e não encontra entraves para ir em auxílio, porque vê com o coração de Deus e atua segundo o critério da compaixão e da misericórdia.

Meditação da Palavra

O evangelho é tudo menos simples. Uma pergunta feita com má intenção, “para O experimentar” põe um doutor da lei em apuros. À pergunta do doutor da Lei: “Mestre, que hei de fazer para receber como herança a vida eterna?”, Jesus responde com outra pergunta: “Que está escrito na Lei? Como lês tu?”. No fundo, Jesus pergunta àquele homem, e a nós também: Que andas a ler? O que anda a influenciar a tua vida? Porque critérios conduzes os teus pensamentos, palavras e ações? Um doutor da Lei deve andar a ler a Lei, mas como a lê? Com que critérios, com que valores? Em que direção percebe o seu conteúdo e a sua intenção originária? É que, não basta cumprir a Lei, é necessário conhecer o seu sentido originário. Porque se trata da Lei de Deus, ela nasce do coração, do amor de Deus pelos homens, por todos os homens. Quando se lê esta lei como arma para excluir, não se está a ler bem. A parábola de Jesus vem completar a pergunta inicial, questionando aquele homem e a nós também, sobre o que está disposto a fazer para alcançar a vida eterna.

Portanto, dependendo do que lê e de como lê, ele e nós, dispõe-se a ir ao encontro ou a ficar à distância daquele que é o próximo. Fará ele como o sacerdote? Fará como o Levita? Terá ele um coração livre como o de Deus que não faz distinção de pessoas e atende a todos?

A pressa do sacerdote e do levita está mais motivada pelo afastamento daquele homem que pode contaminá-los e impedi-los de entrar no templo, do que pela pressa de chegar ao santuário para o encontro com Deus. Está mais motivada pelos critérios dos homens do que pelos critérios de Deus, pela lei como a leem os homens do que pelo seu sentido originário.

Se a Lei que indica o caminho da eternidade for bem lida ela leva ao encontro de Deus que está presente naquele que, por culpa própria ou não, se encontra em situação de infelicidade e, por incapacidade não consegue ajudar-se a si mesmo sem o auxílio de quem se faz próximo.

Com isto, Jesus quer dizer que Deus não está fechado no templo, que o templo é cada homem e que nos encontramos com ele no santuário sagrado da pobreza de cada homem. Podemos, assim, ser o templo de Deus que se faz próximo dos homens a quem a vida, a sociedade, os critérios do mundo, retiraram a dignidade e deram um rosto que não corresponde a sua condição de filho de Deus.

No homem ‘Jesus’ esconde-se a “imagem do Deus invisível”, para que “n’Ele residisse toda a plenitude e por Ele fossem reconciliadas consigo todas as coisas”. Esta reconciliação opera-se pela ação da Igreja que é corpo de Cristo, do qual ele é a cabeça. Também para a Igreja pode ser mais fácil realizar atos de culto, promover encontros e manifestações de fé, inventar formas de atrair os homens para os seus templos e proclamar o evangelho como força e poder de Deus que salva os homens. Mas a missão da Igreja não se realiza enquanto não der a vida pelos que não têm rosto, não têm nome, não são reconhecidos, pelos que passam na vida invisíveis aos olhos da maioria.

Tornar verdade a palavra do evangelho: “Vai e faz tu o mesmo” não é uma impossibilidade inalcançável. Esta possibilidade “está perto de ti, está na tua boca e no teu coração, para que a possas pôr em prática”. É este o caminho para a vida eterna e atravessam-no os que se fazem próximos dos pobres, porque “O Senhor ouve os pobres”. Portanto, “sede testemunhas do amor de Deus no mundo, socorrendo os pobres e todos os que sofrem, para que eles vos recebam um dia, agradecidos, na eterna morada de Deus.

Rezar a Palavra

Está tão perto, Senhor, o caminho da vida eterna. Tão perto, que passo e não vejo. Está à distância de um olhar, de um gesto, de uma palavra, de uma presença, de um minuto de atenção. Está tão perto e tão longe, se o meu coração não sente como seu a desgraça do irmão. Se os sós, os abandonados, os esquecidos, os que se perderam na vida, os que entregaram tudo e abraçaram a miséria, não me pertencem. Faz-me compreender que “no pobre que ali vai, vou eu, se não fosse a graça de Deus”.

Compromisso semanal

Quero ler a partir do coração de Deus a realidade que os meus olhos se recusam a ver.