Os que resplandecem diante do sol da justiça

As grandes obras da humanidade revelam a sua fragilidade diante das forças da natureza. As ondas do mar levantam nos ares pesados Carregueiros, a força dos ventos faz baloiçar potentes aviões, um pequeno sismo faz cair edifícios bem estruturados, um simples vírus faz temer toda a humanidade. Quem pode ser arrogante diante de tanta fragilidade?

O homem é apenas um templo a ruir que a qualquer momento pode desmoronar, mesmo que seja admirado pela sua beleza, sabedoria, força, grandeza ou poder. Mesmo equipados com alta tecnologia só “Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas”.

LEITURA I Ml 3, 19-20a

Há de vir o dia do Senhor,
ardente como uma fornalha;
e serão como a palha todos os soberbos e malfeitores.
O dia que há de vir os abrasará
_ diz o Senhor do Universo _
e não lhes deixará raiz nem ramos.
Mas para vós que temeis o meu nome,
nascerá o sol de justiça,
trazendo nos seus raios a salvação.

Perante as dificuldades políticas e religiosas, o povo sente que já não vale a pena esperar e confiar na solução para os seus problemas. O profeta anuncia a chegada do “Dia do Senhor” que purificará o povo da soberba e da maldade revelando a salvação aos que temem o Senhor.

Salmo 97 (98), 5-9 (R. cf. 9)

Na perspetiva da vitória final, o salmista convida todas as forças da natureza, os seres vivos e os homens de todos os povos a virem aclamar, com instrumentos musicais, cânticos e gritos de alegria, aquele que dá a vitória, “o nosso rei e Senhor

LEITURA II 2 Tes 3, 7-12

Irmãos:
Vós sabeis como deveis imitar-nos,
pois não vivemos entre vós na ociosidade,
nem comemos de graça o pão de ninguém.
Trabalhámos dia e noite, com esforço e fadiga,
para não sermos pesados a nenhum de vós.
Não é que não tivéssemos esse direito,
mas quisemos ser para vós exemplo a imitar.
Quando ainda estávamos convosco,
já vos dávamos esta ordem:
quem não quer trabalhar, também não deve comer.
Ouvimos dizer que alguns de vós vivem na ociosidade,
sem fazerem trabalho algum,
mas ocupados em futilidades.
A esses ordenamos e recomendamos,
em nome do Senhor Jesus Cristo,
que trabalhem tranquilamente,
para ganharem o pão que comem.

Convencidos de que não valia a pena trabalhar porque Jesus está a chegar, alguns tessalonicenses dedicavam-se a coisas inúteis. Paulo exorta-os a que não vivam à custa dos outros, mas trabalhem para mão serem pesados a ninguém.

EVANGELHO Lc 21, 5-19

Naquele tempo,
comentavam alguns que o templo estava ornado
com belas pedras e piedosas ofertas.
Jesus disse-lhes:
«Dias virão em que, de tudo o que estais a ver,
não ficará pedra sobre pedra:
tudo será destruído».
Eles perguntaram-Lhe:
«Mestre, quando sucederá isto?
Que sinal haverá de que está para acontecer?».
Jesus respondeu:
«Tende cuidado; não vos deixeis enganar,
pois muitos virão em meu nome
e dirão: ‘Sou eu’; e ainda: ‘O tempo está próximo’.
Não os sigais.
Quando ouvirdes falar de guerras e revoltas,
não vos alarmeis:
é preciso que estas coisas aconteçam primeiro,
mas não será logo o fim».
Disse-lhes ainda:
«há de erguer-se povo contra povo e reino contra reino.
Haverá grandes terramotos
e, em diversos lugares, fomes e epidemias.
Haverá fenómenos espantosos e grandes sinais no céu.
Mas antes de tudo isto,
deitar-vos-ão as mãos e hão de perseguir-vos,
entregando-vos às sinagogas e às prisões,
conduzindo-vos à presença de reis e governadores,
por causa do meu nome.
Assim tereis ocasião de dar testemunho.
Tende presente em vossos corações
que não deveis preparar a vossa defesa.
Eu vos darei língua e sabedoria
a que nenhum dos vossos adversários
poderá resistir ou contradizer.
Sereis entregues até pelos vossos pais,
irmãos, parentes e amigos.
Causarão a morte a alguns de vós
e todos vos odiarão por causa do meu nome;
mas nenhum cabelo da vossa cabeça se perderá.
Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas».

A beleza do templo esconde a sua fragilidade. Colocar nas poderosas pedras que estruturam o edifício e na riqueza das pedras e metais preciosos que o embelezam é enganar-se a si mesmo, diz Jesus, pois tudo isto ruirá e “não ficará pedra sobre pedra”. A confiança dos discípulos está naquele que lhes pode dar “língua e sabedoria” nas perseguições.

Reflexão da Palavra                                                                                                     

O livro de Malaquias, cujo nome significa “meu enviado” e pode não ser o nome do profeta, é o último livro do Antigo Testamento e retrata a situação de Israel cerca do ano 450 a. C.. O livro abre com uma declaração de amor de Deus pelo seu povo “diz o Senhor: ‘Eu amei-vos’”. Com estas palavras indica-se de antemão que tudo o que vem a seguir não pode ser uma ameaça de Deus ao seu povo, mas uma manifestação do seu amor pelo povo.

A situação de pós-exílio em Jerusalém era uma desgraça, caracterizando-se por uma grande instabilidade política que deixa o povo na incerteza do presente e do futuro. Ao nível religioso vive-se um grande desleixo e desorganização por parte dos sacerdotes. O povo questiona se Deus não os abandou. Neste contexto é crucial o papel do profeta no reavivar da esperança.

O texto que lemos neste domingo fala do “Dia do Senhor”, o dia em que se realizará o sonho de Deus, que os homens vivam em harmonia, terminando com todas as guerras.

O Dia do Senhor é “ardente como uma fornalha“. O fogo atingirá a palha, que são os “soberbos” e “malfeitores“. Haverá uma destruição completa, pois o fogo do Dia do Senhor irá consumir a palha, e “não lhes deixará nem raízes nem ramos“. Será a destruição total e definitiva para os ímpios. Trata-se de um juízo em que, como Malaquias descreve em outros lugares, Deus aparece como “fundidor” e do “lavadeiro“. O juízo é uma ação de purificação destinada a eliminar as impurezas.

Em oposição aos malfeitores, o profeta dirige-se a “vós que temeis o meu nome“. Este temor não é medo, mas sim uma atitude de humildade diante de Deus, significando que se espera tudo d’Ele. Para estes fiéis, nascerá o “sol de justiça” que é o Sol de Deus. Este sol trará a salvação no seu resplendor, nos seus raios.

O salmo 97 responde à primeira leitura com um convite à alegria pela chegada do Senhor que “vem julgar a terra”. O convite é feito a toda a terra: “aclamai o Senhor, terra inteira”. Para esta aclamação são convocadas “a harpa e a lira, os cornetins e as trombetas”. Também a natureza deve aclamar o Senhor “o mar e tudo o que ele contém, o mundo e os que nele habitam”, os rios a batem palmas e as montanhas gritam de alegria. Todos cantam e gritam a vitória do Senhor. Como o profeta, também o salmista sabe que esta vitória ainda está por acontecer, mas ele já fala como se tivesse acontecido porque é uma certeza.

O texto da segunda leitura faz parte da resposta de Paulo a alguns problemas surgidos na comunidade de Tessalónica, a quem já tinha escrito uma primeira carta. Alguns membros da comunidade assumiram uma atitude ociosa, convencidos que estavam da eminente vinda do reino de Deus. A desmotivação face ao trabalho diário, levou-os a entregarem-se a “futilidades”. Paulo pretende esclarecer que, aquela atitude, não é cristã. É verdade que o reino de Deus está em marcha, mas só se realiza quando Jesus voltar. A vinda de Jesus deve encontrar os membros da comunidade no cumprimento das suas obrigações com uma vida sóbria e ativa. Jesus não quer encontrar preguiçosos.

Paulo e os companheiros enquanto estiveram junto deles não viveram à custa dos outros, não foram pesados a ninguém, não estiveram ociosos, trabalharam dia e noite, “com esforço e fadiga” e, por isso, são um exemplo para todos.

O assunto parece já ter sido abordado anteriormente, uma vez que Paulo refere que, quando ainda estavam com eles já lhes diziam “quem não quer trabalhar, também não deve comer“, mas ao ter conhecimento do que ali se passava, “alguns de vós vivem na ociosidade” e “sem fazerem trabalho algum, mas ocupados em futilidades“, impõe-se uma palavra da sua parte aos que vivem “na ociosidade” e “sem nada fazer“. Paulo “ordena e recomenda, em nome do Senhor Jesus Cristo“, que “trabalhem tranquilamente, para ganharem o pão que comem“. As palavras de Paulo soam com a autoridade de quem deu o exemplo.

Jesus está com os discípulos em Jerusalém diante do Templo. Perante a grandeza arquitetónica, alguns ficam admirados com tamanha beleza, pois estava “ornado com belas pedras e piedosas ofertas“. Restaurado por Herodes, era um magnífico exemplo da capacidade humana, mas representava também um falso valor na medida em que pertence ao “mundo que passa”.

Precisamente consciente do real valor das coisas Jesus, perante a admiração dos discípulos, faz uma declaração chocante: “Dias virão em que, de tudo o que estais a ver, não ficará pedra sobre pedra: tudo será destruído“. Chocados, os discípulos perguntam: “Mestre, quando sucederá isto? Que sinal haverá de que está para acontecer?“. Para Jesus o importante não é o “quando sucederá”, mas a atitude que havemos de ter quando suceder.

O texto de Lucas não deve ser compreendido à letra. Como um profetas, Jesus, não está a fazer previsões. O seu objetivo não é predizer o futuro, mas ensinar e ajudar-nos a superar as provas do presente. A atitude correta é a da vigilância para distinguir o verdadeiro do falso, pois “muitos virão em meu nome, dizendo “sou eu” ou “o tempo está próximo“.

Os acontecimentos são oportunidades para os discípulos e não fatalidades. Guerras e revoltas não devem alarmar, sinais cósmicos e terrestres também não devem perturbar os discípulos. O que verdadeiramente devem ter em conta são as perseguições por causa do nome de Jesus, pois aí são chamados a dar testemunho, oportunidade que não podem perder. Nesta circunstância há uma atitude clara a ser tomada, diz Jesus: “Tende presente em vossos corações que não deveis preparar a vossa defesa“, e a razão é muito simples “Eu vos darei língua e sabedoria a que nenhum dos vossos adversários poderá resistir ou contradizer“. A vigilância é fundamental, “tende presente em vossos corações”, estai preparados, avisados de antemão, pois a perseguição pode vir de onde menos se espera, “até pelos vossos pais, irmãos, parentes e amigos”.

Meditação da Palavra

“Não ficará pedra sobre pedra”. As palavras de Jesus sobre a destruição do Templo e os sinais cósmicos podem soar alarmantes. Guerras, terramotos, perseguições… A linguagem apocalíptica facilmente gera ansiedade e especulações. No entanto, a intenção de Jesus não é dar-nos um roteiro do fim do mundo para satisfazer a nossa curiosidade. O seu objetivo é formar o coração dos seus discípulos, preparando-os para atravessar as inevitáveis crises da história — e da nossa história pessoal — com uma virtude fundamental: a perseverança alicerçada na fé.

Para compreender o discurso de Jesus, ajuda-nos a visão do Antigo Testamento. O profeta Malaquias anuncia o “dia do Senhor” como um fogo purificador que consumirá a arrogância e o mal, como palha numa fornalha. Mas, para os que vivem na fidelidade a Deus, esse mesmo dia será luminoso: “nascerá o sol de justiça, trazendo nos seus raios a salvação”. O juízo de Deus não é destruição cega, mas a restauração da ordem e da verdade.

O Salmo transforma esta certeza numa explosão de alegria. Toda a criação — mares, rios, montanhas — exulta, porque o Senhor vem para governar o mundo com justiça e os povos com equidade. Para o justo, o dia do juízo não é um dia de terror, mas o dia em que o bem triunfará definitivamente.

É com este pano de fundo que escutamos Jesus. Ele não nega a dureza da história. Haverá caos, conflitos e perseguições. Seremos traídos e odiados “por causa do seu nome“. Mas o ponto central do Seu ensinamento não é este. É o que vem a seguir: “tereis ocasião de dar testemunho“. Para Jesus, a crise não é fatalidade, é uma oportunidade. A tribulação torna-se o lugar do testemunho do discípulo.

E não estamos sozinhos nesta missão. Jesus promete a sua assistência divina: “Eu vos darei língua e sabedoria“. Garante a sua proteção providente: “nenhum cabelo da vossa cabeça se perderá“. E, por fim, entrega-nos o segredo da vitória, não uma fórmula mágica, mas uma atitude do coração: “Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas“. A salvação não está em fugir da realidade, mas em atravessá-la com uma fidelidade constante.

Mas em que consiste esta perseverança? São Paulo, na sua carta aos Tessalonicenses, oferece-nos a sua aplicação mais concreta e, talvez, mais desafiadora. Alguns na comunidade, pensando que o fim estava iminente, tinham deixado de trabalhar e viviam na ociosidade, ocupados em futilidades e à custa dos outros. Paulo é severo: “quem não quer trabalhar, também não deve comer“.

A sua lição é fundamental: a espera vigilante pelo Senhor não é uma desculpa para a alienação ou a irresponsabilidade. Pelo contrário, a perseverança que salva é a que se manifesta na fidelidade às tarefas de cada dia, no trabalho honesto, no serviço silencioso, no empenho em não ser um fardo, mas uma ajuda para a comunidade. Trabalhar com tranquilidade é uma forma sublime de testemunhar a nossa esperança: confiamos tanto na vinda do Senhor que nos dedicamos a cuidar do mundo e dos irmãos que Ele nos confia no tempo presente.

Rezar a Palavra

Engano-me tantas vezes a mim mesmo. Olho para o espelho e vejo uma beleza que não existe. Como se os anos não passassem por mim. Invento mil e uma coisa para me apresentar forte, seguro, com bom aspeto e bem ornamentado com as mais belas roupas e adereços. Na realidade, Senhor, já não sou o que fui nem interessa muito o que pareço. Toda a minha existência ameaça ruir, desmoronar, se não permanecer, se não perseverar, se não puser em ti a minha total confiança.

Compromisso semanal

Olho o mundo que desaparece e afirmo a minha confiança naquele que sustenta a minha vida sem que o possa ver.