Servos por amor

Resmungava… todos os dias eram um peso… todos os dias regressava ao seu local de trabalho e todo os dias tinha os mesmos sentimentos e usava as mesmas palavras. Era frequente ouvir dizer para as paredes na tentativa de que alguém o ouvisse: “ninguém me ajuda”, “só eu é que trabalho”, “ninguém quer saber”, nem agradecem”, “parece que não veem o esforço que faço”, “podiam dar uma mãozinha ou pelo menos podiam mostrar gratidão”. Ninguém o consegue salvar daquele peso que colocou sobre si mesmo, não por causa do trabalho, mas pela falta de amor com que faz o que tem que fazer. Sem amor, nada do que faz é importante.

LEITURA I Hab 1, 2-3; 2, 2-4

«Até quando, Senhor, chamarei por Vós
e não me ouvis?
Até quando clamarei contra a violência
e não me enviais a salvação?
Porque me deixais ver a iniquidade
e contemplar a injustiça?
Diante de mim está a opressão e a violência,
levantam-se contendas e reina a discórdia?»
O Senhor respondeu-me:
«Põe por escrito esta visão
e grava-a em tábuas com toda a clareza,
de modo que a possam ler facilmente.
Embora esta visão só se realize na devida altura,
ela há de cumprir-se com certeza e não falhará.
Se parece demorar, deves esperá-la,
porque ela há de vir e não tardará.
Vede como sucumbe aquele que não tem alma reta;
mas o justo viverá pela sua fidelidade».

Diante do mal concretizado na iniquidade, a injustiça, a violência e a discórdia, o profeta pergunta-se por Deus. Porque permite Deus que isto aconteça, porque não diz nada? Será que concorda? Perante esta dúvida, Deus responde ao profeta dizendo que o seu silêncio deve provocar no crente a capacidade de esperar. A justiça divina vai manifestar-se “na devida altura”.

Salmo 94 (95), 1-2.6-7.8-9 (R.8)

Recordando os acontecimentos de Meribá e Massá, o salmista convida a escutar a voz de Deus: “Quem dera ouvísseis hoje a sua voz”. O silêncio de Deus no meio do deserto endureceu o coração do povo ao ponto de se revoltarem. O mesmo pode acontecer-nos a nós, por isso, o salmista alerta dizendo “não endureçais os vossos corações, como… vossos pais”. Pelo contrário “Vinde”, “exultai”, “aclamai”, “prostrai-vos em terra”, “adorai”, porque “O Senhor é o nosso Deus e nós o seu povo, as ovelhas do seu rebanho”.

LEITURA II 2 Tim 1, 6-8.13-14

Caríssimo:
Exorto-te a que reanimes o dom de Deus
que recebeste pela imposição das minhas mãos.
Deus não nos deu um espírito de timidez,
mas de fortaleza, de caridade e moderação.
Não te envergonhes de dar testemunho de Nosso Senhor,
nem te envergonhes de mim, seu prisioneiro.
Mas sofre comigo pelo Evangelho,
confiando no poder de Deus.
Toma como norma as sãs palavras que me ouviste,
segundo a fé e a caridade que temos em Jesus Cristo.
Guarda a boa doutrina que nos foi confiada,
com o auxílio do Espírito Santo, que habita em nós.

Consagrado pela imposição das mãos, Timóteo está cheio do Espírito Santo, que é Espírito de “fortaleza, amor e bom senso”. Paulo insiste com ele para que não deixe prevalecer o “espírito de timidez” e não se envergonhe de “dar testemunho de nosso Senhor”.

EVANGELHO Lc 17, 5-10

Naquele tempo,
os Apóstolos disseram ao Senhor:
«Aumenta a nossa fé».
O Senhor respondeu:
«Se tivésseis fé como um grão de mostarda,
diríeis a esta amoreira:
‘Arranca-te daí e vai plantar-te no mar’,
e ela obedecer-vos-ia.
Quem de vós, tendo um servo a lavrar ou a guardar gado,
lhe dirá quando ele voltar do campo:
‘Vem depressa sentar-te à mesa’?
Não lhe dirá antes:
‘Prepara-me o jantar e cinge-te para me servires,
até que eu tenha comido e bebido.
Depois comerás e beberás tu’?.
Terá de agradecer ao servo por lhe ter feito o que mandou?
Assim também vós,
quando tiverdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei:
‘Somos inúteis servos:
fizemos o que devíamos fazer’.

Para Jesus o problema do homem não é a quantidade de fé, mas a autenticidade da fé. Uma fé mesmo pequena é suficiente para realizar coisas inacreditáveis. Confiar que é Deus quem faz através de nós e servir com fidelidade é o suficiente para vencer os impossíveis.

Reflexão da Palavra                                                                                                     

A primeira leitura é tirada do livro do profeta Habacuc. Curiosamente, este profeta apenas aparece esta vez em todo o ciclo trienal dos anos litúrgicos A, B e C. Trata-se de um personagem desconhecido, do qual apenas sabemos o nome e pelas referências podemos situá-lo no século VII a. C.

O seu pequeno livro, três capítulos que perfazem cinquenta e seis versículos, não segue a habitual forma de profetismo que consistia em transmitir o que Deus mandava dizer ao povo. Habacuc dialoga com Deus, interroga-o, põe objeções, interpela e exige uma resposta que projete luz sobre a realidade histórica.

Percebe-se que o profeta está atento aos acontecimentos do seu tempo e analisa o andamento da história, com as decisões dos homens e com a ação de Deus. Em muitas circunstâncias dá-se conta de que a violência dos homens não encontra o merecido castigo de Deus. Este, parece preferir o silêncio.

Por detrás do texto que escutámos está um acontecimento histórico. A elite de Israel com as suas lutas internas provoca sofrimento em todo o povo. Deus decide castigar estes injustos e violentos, “vou suscitar os caldeus, aquele povo feroz e impetuoso que se espalha pela superfície da terra para se apoderar das habitações que não são suas” (Hab 1,6). Trata-se do exército de Nabucodonosor que vem sobre Israel como castigo de Deus. Mas este castigo torna-se ainda mais insuportável do que a situação anterior e o profeta volta-se de novo para Deus dizendo-lhe, de forma agressiva, com contornos acusatórios, o que escutamos na primeira parte da leitura: “Até quando, Senhor?”não me ouvis?”, “não me enviais a salvação?”, obrigais-me a ver “iniquidade e contemplar a injustiça… a violência… contendas e… discórdias”, “porque contemplas, em silêncio, os traidores, quando devoram os que são mais justos do que eles?”.

À interpelação de Habacuc, Deus responde com a segunda parte do texto: “Põe por escrito esta visão e grava-a em tábuas com toda a clareza, de modo que a possam ler facilmente”. De que visão se trata? Deus não diz, apenas afirma que se trata de uma “visão só se realize na devida altura”, mas que “há de cumprir-se com certeza e não falhará”, pois Deus é o Senhor da história e tudo do que ele diz, até o que diz em silêncio, se cumpre inteiramente.

Perante esta certeza o homem há de assumir uma atitude de espera “Se parece demorar, deves esperá-la”, pois aquele que souber esperar será encontrado na fidelidade e viverá “o justo viverá pela fidelidade”, já aquele que não tem alma reta como é o caso de Babilónia, há de sucumbir.

O salmo 94 está composto por duas partes, sendo a primeira um convite não universalista, apenas para Israel, para louvar o Senhor “vinde, aclamemos, vamos à sua presença, demos graças”. As razões pelas quais Israel deve louvar o Senhor são claras: Foi Deus quem nos criou, ele é Deus, é grande, é Rei, mas principalmente ele é o “rochedo da nossa salvação”.

Perante este Deus o mínimo que o homem pode fazer, o que lhe é exigido, é que seja fiel. Por isso o salmista avança dizendo “Quem dera ouvísseis hoje a sua voz”. O hoje está aqui para dar força a essa urgência de fidelidade, pois um Deus assim, merece essa atitude da parte do homem. E logo de seguido, o salmista recorda a infidelidade dos pais colocando as palavras na boca de Deus. Os pais também estavam convencidos de que eram fiéis e olhem o que aconteceu, os “vossos pais Me tentaram e provocaram, apesar de terem visto as minhas obras”, o que provocou a ira divina “não entrarão no lugar do meu repouso”.

Damos início este domingo à leitura da segunda carta de Paulo a Timóteo. Paulo está preso em Roma e isso é um obstáculo por diversas razões. Estar preso significa, para Paulo, uma sentença de morte e, por isso, resta-lhe pouco tempo, não pode acompanhar de perto as comunidades por ele fundadas como fazia e as próprias comunidades sentem-se perdidas e alvo do aproveitamento de falsos mestres que têm como objetivo dividir as comunidades e retirar a autoridade dos seus responsáveis.

Timóteo é o responsável pela comunidade de Éfeso e está a viver o drama desta divisão e as intermináveis discussões sobre assuntos sem importância que lhe tiram o entusiasmo que viveu quando recebeu o Espírito através da imposição das mãos de Paulo.

As duas cartas de Paulo têm por objetivo dar instruções para a comunidade, mas sobretudo animar Timóteo para que se afirme como responsável e guia da comunidade, fazendo frente àqueles que querem impor as suas doutrinas.

No texto deste domingo, Paulo exorta Timóteo “Exorto-te a que reanimes o dom de Deus”. O dom de Deus é o Espírito Santo. Paulo recorda que não se trata de “um espírito de timidez”, mas do Espírito Santo que é “fortaleza, de caridade e moderação”. Timóteo há de manter-se firme na doutrina que recebeu de Paulo sem motivo de vergonha por ele estar preso, e “dar testemunho de Nosso Senhor”.

O evangelho de Lucas recolhe uma série de afirmações de Jesus que podemos agrupar em dois blocos. O primeiro é motivado pelo pedido dos apóstolos: “Aumenta em nós a fé”. Nesta afirmação compreendemos que, para os apóstolos ter fé, muita fé, é o mais importante. Parece que sentem que a missão que Jesus lhes confia terá mais êxito se tiverem muita fé. Jesus, porém, na sua resposta revela que basta uma fé pequenina para fazer coisas inacreditáveis.

Na segunda parte do evangelho percebe-se que a origem das coisas inacreditáveis não está na fé, nem nas pessoas de fé, mas naquele a quem estas pessoas confiam e ao serviço de quem colocaram as suas vidas. Assim, a parábola dos servos inúteis, esclarece a nossa situação. Os apóstolos receberam a mesma missão de Jesus, mas não a realizam por si mesmos. Tudo o que fazem não é mais do que obedecer a Jesus, ao evangelho, aos critérios do Reino que anunciam. Como pessoas eles não são o ideal, pois todos estão cheios de fragilidades e a sua fé é demasiado pequena. Mas estas limitações não são nenhum impedimento para Deus, o dono da missão. Para ele não há impossíveis, por isso, basta uma fé do tamanho de um grão de mostarda para que, fazendo o que Jesus manda, o reino chegue até nós com sucesso.

Meditação da Palavra

“Até quando, Senhor?”. A pergunta do profeta Habacuque surge em muitas circunstâncias da história e também na nossa vida. Podemos dizer que é uma pergunta que atravessa a história da humanidade. O profeta faz-se eco do sentimento de todos nós. Quantas vezes, perante a injustiça, a violência ou o sofrimento pessoal, não gritamos o mesmo, sentindo a aparente ausência de Deus? A liturgia deste domingo não ignora este grito; pelo contrário, toma-o como ponto de partida para nos ensinar a verdadeira medida da fé.

Habacuque é a voz da nossa impaciência. Ele vê o mal e exige uma intervenção divina imediata. A resposta de Deus é desconcertante. Em vez de uma solução, Deus oferece uma visão e uma promessa: a salvação “há de cumprir-se com certeza e não falhará“. Há apenas uma certeza, vai acontecer, mas não tem data marcada. Haverá certamente um tempo de espera que deve ser aproveitado para confirmar a fidelidade e exercitar a paciência por maior que seja o caos pois, “o justo viverá pela sua fidelidade”.

A resposta de Deus não fala de “fé” no sentido de acreditar em algo, mas “fidelidade” que implica confiança, constância e perseverança. Deus não nos pede para não sentirmos a angústia, mas para permanecermos fiéis, confiando que a Sua promessa se cumprirá.

Se a fidelidade é o caminho, de onde vem a força para percorre-lo? São Paulo, na sua carta a Timóteo, dá a resposta: “Deus não nos deu um espírito de timidez, mas de fortaleza, de caridade e moderação”. A fé não é um refúgio passivo, mas uma força ativa que recebemos como um dom. É o Espírito Santo que habita em nós que nos capacita a “guardar a boa doutrina” e a “sofrer pelo Evangelho”.

Esta “fortaleza” não é arrogância. É a coragem de viver de acordo com a promessa de Deus, mesmo quando o mundo à nossa volta parece desmenti-la. É a força para continuar a servir, a amar e a dar testemunho.

Chegamos, assim, ao Evangelho. Os apóstolos, sentindo talvez a mesma incerteza de Habacuque, pedem: “Aumenta a nossa fé”. Eles pensam em termos de quantidade, algo que se pode acumular.

Jesus altera a lógica do pensamento dos apóstolos. Primeiro, diz-lhes que a questão não é o tamanho da fé, a quantidade de fé de cada um. Uma fé minúscula, “como um grão de mostarda”, se for genuína, tem o poder de realizar o impossível. Portanto, não precisamos de “mais” fé, mas de ativar a fé que já nos foi dada.

Depois, e de forma ainda mais radical, Jesus ensina qual a postura correta daquele que tem fé: a do servo. O servo não trabalha a pensar na recompensa ou no agradecimento. Ele simplesmente faz o que tem a fazer. “Somos inúteis servos: fizemos o que devíamos fazer”. Esta frase, que pode soar dura, é na verdade libertadora. Liberta-nos da ansiedade de ter de “merecer” o amor de Deus ou de apresentar resultados espetaculares do nosso trabalho. A nossa fidelidade manifesta-se no serviço humilde e quotidiano, feito por amor, sem esperar nada em troca. Trata-se de fidelidade e não de quantidade. Servir sempre sem desanimar, sem desistir, valorizando a missão que nos foi atribuída, amando o lugar onde o Senhor nos colocou e servindo com humildade e perseverança aqueles a quem o Senhor nos enviou, é mais importante do que ter muita fé.

Rezar a Palavra

Senhor, que o teu Espírito de fortaleza me ajude a passar do grito de impaciência à serenidade do servo fiel, que encontra a sua alegria não nos resultados, mas na certeza de viver e servir sob o olhar atento do seu Senhor.

Compromisso semanal

Peço a Deus a graça de saber usar a fé que tenho para realizar as pequenas coisas da minha vida com amor, na certeza de que assim elas ganham o poder de mudar o mundo.