Sem lugar reservado
Não sei por onde entrou, nem sei mesmo se chegou a entrar. Sei que vivia numa barraca de papelão e gastou os dias da sua vida a recolher papel que amontoava na sua barraca e vendia de tempos a tempos. Todos o viam andando de lado para lado, sempre carregado com papel. Não entrava em nenhuma porta para não descarregar o que trazia às costas. As pessoas é que iam colocando à porta o papel para ele levar. Alguns eram generosos e colocavam sobre ele camada sobre camada, todo o papelão que tinham. Não sei se entrou em alguma porta… não sei se chegou a entrar… todas as portas eram estreitas para ele.
LEITURA I Is 66, 18-21
Eis o que diz o Senhor:
«Eu virei reunir todas as nações e todas as línguas,
para que venham contemplar a minha glória.
Eu lhes darei um sinal
e de entre eles enviarei sobreviventes às nações:
a Társis, a Fut, a Lud, a Mosoc, a Rós, a Tubal e a Javã,
às ilhas remotas que não ouviram falar de Mim
nem contemplaram ainda a minha glória,
para que anunciem a minha glória entre as nações.
De todas as nações, como oferenda ao Senhor,
eles hão de reconduzir todos os vossos irmãos,
em cavalos, em carros, em liteiras,
em mulas e em dromedários,
até ao meu santo monte, em Jerusalém – diz o Senhor –
como os filhos de Israel trazem a sua oblação
em vaso puro ao templo do Senhor.
Também escolherei alguns deles para sacerdotes e levitas».
Deus não faz distinção de pessoas. Virão todos ao monte santo de Jerusalém, judeus e não judeus, para contemplar a glória do Senhor e todos se prostrarão diante dele. Haverá, então, um novo céu e uma nova terra de onde ninguém será excluído.
Salmo 116 (117), 1.2 (R. Mc 16, 15)
O salmo 116, em poucas palavras, apresenta toda a força de um hino de louvar ao nosso Deus. O convite a louvar e exaltar o Senhor, é feito a todas as nações, sem exclusão de ninguém. O louvor será universal porque Deus é um só e o seu amor é para todos e para sempre.
LEITURA II Heb 12, 5-7.11-13
Irmãos:
Já esquecestes a exortação que vos é dirigida,
como a filhos que sois:
«Meu filho, não desprezes a correção do Senhor,
nem desanimes quando Ele te repreende;
porque o Senhor corrige aquele que ama
e castiga aquele que reconhece como filho».
É para vossa correção que sofreis.
Deus trata-vos como filhos.
Qual é o filho a quem o pai não corrige?
Nenhuma correção, quando se recebe,
é considerada como motivo de alegria, mas de tristeza.
Mais tarde, porém,
dá àqueles que assim foram exercitados
um fruto de paz e de justiça.
Por isso, levantai as vossas mãos fatigadas
e os vossos joelhos vacilantes
e dirigi os vossos passos por caminhos direitos,
para que o coxo não se extravie,
mas antes seja curado.
A carta aos Hebreus, depois de apontar para Cristo em quem devemos ter postos os nossos olhos, continua a incentivar à perseverança. As dificuldades do tempo presente, são pedagogia de Deus que nos quer santos e irrepreensíveis e age connosco como um pai que corrige o filho, para que ele se cure e faça o caminho com alegria.
EVANGELHO Lc 13, 22-30
Naquele tempo,
Jesus dirigia-Se para Jerusalém
e ensinava nas cidades e aldeias por onde passava.
Alguém Lhe perguntou:
«Senhor, são poucos os que se salvam?».
Ele respondeu:
«Esforçai-vos por entrar pela porta estreita,
porque Eu vos digo
que muitos tentarão entrar sem o conseguir.
Uma vez que o dono da casa se levante e feche a porta,
vós ficareis fora e batereis à porta, dizendo:
‘Abre-nos, senhor’;
mas ele responder-vos-á:
‘Não sei donde sois’.
Então começareis a dizer:
‘Comemos e bebemos contigo,
e tu ensinaste nas nossas praças’.
Mas ele responderá:
‘Repito que não sei donde sois.
Afastai-vos de mim, todos os que praticais a iniquidade’.
Aí haverá choro e ranger de dentes,
quando virdes no reino de Deus
Abraão, Isaac e Jacob e todos os Profetas,
e vós a serdes postos fora.
Hão de vir do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul,
e sentar-se-ão à mesa no reino de Deus.
Há últimos que serão dos primeiros
e primeiros que serão dos últimos».
Sem perder de vista a universalidade da salvação, Jesus recorda aos judeus que não basta pertencer ao povo de Deus para alcançarem a salvação. É necessário reconhecer o dono da casa enquanto é tempo e praticar a justiça por ele proposta, para entrar no banquete do Reino. A decisão é tomada agora, porque depois pode ser tarde demais.
Reflexão da Palavra
As últimas palavras de Deus no livro do profeta Isaías anunciam a universalidade da salvação e definem como missionários da glória de Deus os sobreviventes de Israel. Eles irão dar a conhecer a glória de Deus a todos os povos “Eu virei reunir todas as nações… para que venham contemplar a minha glória. Eu lhes darei um sinal e de entre eles enviarei sobreviventes às nações”.
Os sobreviventes são todos que permaneceram fiéis a Deus durante o exílio e, ao contrário da maioria, não se deixaram levar pelo desânimo. Em nome de todo o povo escolhido, são enviados “às ilhas remotas que não ouviram falar de Mim nem contemplaram ainda a minha glória”, cumprindo a vocação, tantas vezes esquecida, de ser sinal entre as nações.
A missão destes enviados é trazer todos os povos “até ao meu santo monte, em Jerusalém” para fazerem o que fazem todos os judeus que, “trazem a sua oblação em vaso puro ao templo do Senhor”. A oferenda que eles hão de trazer são os judeus espalhados pelo mundo “como oferenda ao Senhor, eles hão de reconduzir todos os vossos irmãos”.
Quando todos estiverem reunidos em Jerusalém, Deus será o Senhor de toda a terra, surgirá um novo céu e uma nova terra, o nome de Israel subsistirá para sempre, todos virão prostrar-se diante do Senhor em cada festa da Lua-Nova e em cada sábado e, de todas as nações, o Senhor, escolherá sacerdotes e levitas.
O mais pequeno de todos os salmos do saltério foi incluído nesta celebração. Apesar de pequeno é muito completo. Tem no início um convite “Louvai o Senhor… acalmai-o” e apresenta o motivo para este convite, a misericórdia e a fidelidade do Senhor. trata-se de um convite universal, destinado a “todas as nações… todos os povos”.
A misericórdia e a fidelidade do Senhor para com o seu povo, Israel, é o motivo para que todos os povos venham louvar o Senhor e é também estímulo para que não tenham receio de vir, de converter os seus corações ao Senhor, pois ele será também misericordioso e fiel para com todos os povos. Conhecendo o Senhor, a sua bondade e fidelidade, todos os homens o louvarão espontaneamente.
A vida dos cristãos, a quem se dirige o autor da carta aos Hebreus, está marcada pela perseguição. Uns sofreram na própria pele a perseguição e outros sofreram em solidariedade com eles, Uns e outros precisam de ser fortalecidos para não desanimarem.
O sofrimento não é nem pode nunca ser considerado uma coisa boa e muitos menos quando ele é provocado pelo homem ao seu semelhante. No entanto, na Bíblia, o sofrimento, na sua inevitabilidade, surge muitas vezes como uma oportunidade para fortalecer a fé. Não se trata de ser uma prova imposta por Deus aos que creem, mas de os crentes aproveitarem esse momento como oportunidade para fortalecerem a confiança na presença eficaz do Senhor. É neste sentido que o autor da carta aos Hebreus recorre ao livro dos Provérbios para comparar o sofrimento à correção que os pais fazem aos filhos para que aprendam a proceder de modo justo. “Nenhuma correção, quando se recebe, é considerada como motivo de alegria”, no entanto, “mais tarde, porém, dá àqueles que assim foram exercitados um fruto de paz e de justiça”. O sofrimento dos cristãos em tempo de perseguição pode ser aproveitado para correção pessoal diante de Deus, que é um Pai que escuta o clamor dos seus filhos e os acompanha em todo o seu caminho.
O autor da carta serve-se também das palavras do profeta Isaías, para recordar que os cristãos em situação de perseguição são como os cativos de Babilónia. Ali, longe da sua pátria não tinham vontade de cantar os cânticos da sua terra, o que é uma atitude compreensível. Manifestar a tristeza pelo sofrimento provocado pela maldade é uma atitude correta, mas revelar fraqueza não é digno de quem coloca a sua esperança no Senhor. Por isso recorda as palavras de Isaías “levantai as vossas mãos fatigadas e os vossos joelhos vacilantes e dirigi os vossos passos por caminhos direitos”.
O autor da carta pretende que a fortaleza da fé, a segurança da esperança, e a confiança na fidelidade do Senhor, mantenha viva a comunidade cristã e seja para os perseguidores um sinal da grandeza da fé dos discípulos de Cristo no meio das aflições do mundo. Foi esse o propósito das palavras de Jesus “Felizes sereis, quando vos insultarem e perseguirem… Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus” (Mt 5, 11-12).
Participar no Reino de Deus não é nem uma conquista do homem nem um privilégio de alguns, mas um dom do próprio Deus ao homem. Quando um anónimo pergunta a Jesus, no caminho para Jerusalém, “Senhor, são poucos os que se salvam?”, podemos perceber que havia a convicção de que os judeus, por serem povo de Deus, já estavam pré-selecionados para participarem no Reino e que não eram muitos, apenas os cumpridores da Lei.
Em vez de responder à questão do número, Jesus aproveita para ensinar que o Reino não está garantido para ninguém. Há uma porta que todos os que quiserem participar têm que atravessar. E Jesus diz que esta porta é estreita, portanto, não se passa sem fazer dieta nem com muitas malas ou fardos às costas.
Aos autoconfiantes, por serem descendentes de Abraão, Jesus alerta para a possibilidade de encontrarem a porta fechada e não serem reconhecidos pelo Senhor apesar de todos os pergaminhos, justificações ou circunstâncias que possam apresentar como garantia. E apresenta um motivo para que sejam postos fora: “praticais a iniquidade”. Para além de toda a maldade que o coração do homem pode praticar, Jesus refere-se aqui àquela atitude de soberba que faz os judeus pensar que eles têm garantido o lugar no Reino porque são o povo escolhido.
No entendimento de Jesus a escolha deste povo por parte de Deus não significa um privilégio mas uma missão a que foram chamados Abraão, Isaac, Jacob e os profetas, que é a de serem sinal entre as nações. Chamamento que eles não concretizaram por terem entendido como privilégio e não como missão. Por isso não são reconhecidos “Não sei donde sois… Afastai-vos de mim”, apesar da sua origem abraâmica, enquanto que outros “Hão de vir do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e sentar-se-ão à mesa no reino de Deus”.
A única forma de entrar pela porta estreita é a adesão ao evangelho que significa seguir Jesus pela porta que ele em breve terá de atravessar, a cruz. Pela cruz temos acesso ao reino.
Meditação da Palavra
A experiência humana, verificável na história, diz que há uma grande dificuldade em entender que Deus é Deus de todos os povos. O meu Deus é o teu Deus e esse Deus é meu Pai e Pai de todos, como haveria de dizer Jesus.
A história de Israel, o povo escolhido, dá conta desta dificuldade. Escolhido por Deus com uma vocação universal, Israel esqueceu-se da missão que lhe foi confiada, de ser sinal da bondade e da misericórdia de Deus entre todas as nações. O profeta Isaías e o salmo 116 revelam esta universalidade da fé. Apesar de Israel se esquecer, Deus não abandona o seu projeto de ser conhecido por todos os povos e manifestar a todos, de igual modo, a sua glória. Por isso, através do profeta o Senhor anuncia que vai enviar os sobreviventes, aqueles que permaneceram fiéis no meio das adversidades do exílio de Babilónia, a todas as nações “que não ouviram falar de Mim nem contemplaram ainda a minha glória”, para que venham todos a Jerusalém trazer “a sua oblação em vaso puro ao templo do Senhor,” como fazem os filhos de Israel. A oblação destes povos, diz o Senhor, serão “todos os vossos irmãos” que se encontram dispersos entre as nações.
Os sobreviventes são um sinal para todos os povos. Neles todos contemplarão a misericórdia e a bondade do Senhor, como diz o salmo num convite universal que deve chegar a todos. De entre os que aderirem ao convite, diz o Senhor, “escolherei alguns deles para sacerdotes e levitas”, manifestando assim, também a universalidade do sacerdócio.
O problema da separação religiosa dos povos, incapazes de se encontrarem todos diante do mesmo e único Senhor, que é Deus de todos, permanece apesar da pregação dos profetas. Israel continua a considerar-se privilegiado, excluindo todos os outros da presença de Deus. No tempo de Jesus a questão não se coloca apenas em relação aos outros povos, mas também aos judeus, separados entre os que cumprem e os que não cumprem a Lei. Esta mentalidade está presente na pergunta feita a Jesus por um anónimo: “Senhor, são poucos os que se salvam?”. A própria pergunta já contém a ideia da exclusão, pois indicia que são pouco e não muitos os que se salvam, fazendo crer que há alguns privilegiados que já têm o lugar garantido e outros, muito poucos, que conseguirão chegar lá.
Jesus não coloca a questão da salvação no número e exclui toda a possibilidade de lugares cativos e de privilegiados. A palavra de Jesus indica que todos, sem exclusão de nenhuma raça nem nação, têm as mesmas possibilidades. A porta é estreita para todos e passar por ela será a única forma de entrar. O orgulho de se julgar privilegiado, superior, merecedor, preferido ou com direito a entrar no Reino é tudo o que, no final, se irá revelar como impedimento para entrar. O orgulho é um fardo demasiado grande para poder passar a porta estreita.
Desta forma, Jesus apela à humildade de reconhecer que não nos pertence a nós, mas a Deus, a avaliação das condições necessárias para participar do Reino. Ninguém pode alegar qualquer direito ou prioridade, por ser descendente de Abraão ou exigir o reconhecimento da sua superioridade moral ou religiosa pelo cumprimento estrito da Lei. Todos estão sob o olhar de Deus que pode abrir a porta e fazer sentar à mesa do Reino os que vêm do “Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul” e deixar de fora com uma sentença severa, “Afastai-vos de mim”,os que julgam ter direito, porque “praticais a iniquidade”.
Por isso, enquanto não chega o momento de atravessar a porta, é tempo de deixar Deus curar as nossas imperfeições, como diz a Carta aos Hebreus, aproveitando todas as oportunidades, até os sofrimentos que nos são impostos injustamente, para nos corrigirmos e sermos considerados dignos, por aquele que, por ser Pai, sabe usar de misericórdia para com os seus filhos. Este tempo de purificação dos corações não pode tornar-se um peso, ao ponto de nos desanimar e chegarmos à porta do Reino como derrotados. Pelo contrário, como diz o profeta Isaías, humilhados pelo sofrimento imposto pelas perseguições, injustiças e incompreensões dos homens, devemos levantar-nos: “levantai as vossas mãos fatigadas e os vossos joelhos vacilantes e dirigi os vossos passos por caminhos direitos”.
Rezar a Palavra
Pedes-me, Senhor, para ser missionário da tua bondade e da tua misericórdia para que todos te conheçam e venham à tua presença. Ensinas-me que o orgulho de me julgar privilegiado ou merecedor me impede de entrar na porta estreita. Dizes-me que os sofrimentos do tempo presente podem ser caminho de perfeição. Quero louvar-te por esta palavra que me ensina a viver de cabeça erguida por ser teu filho.
Compromisso semanal
Descubro em mim o que me impede de ser sinal da bondade e da misericórdia de Deus no meio do mundo.






