Não me fiz cristão para isso…

Estava irritado até ao mais profundo de si mesmo. Sentia-se desiludido porque se considerava um bom cristão, competente, colaborador e disponível. Mas, naquele dia, sofreu um embate. Ouviu o que não queria de outro cristão e sentindo-se injustiçado, ficou tão magoado que atirou a toalha ao chão.

Perante tão grande injustiça repetia para si mesmo e para todos os que o ouviam “não me fiz cristão para isto… se é para ser assim vou para casa e abandono tudo”.

LEITURA I Sb 9, 13-19 (gr. 13-18b)

Qual o homem que pode conhecer os desígnios de Deus?
Quem pode sondar as intenções do Senhor?
Os pensamentos dos mortais são mesquinhos
e inseguras as nossas reflexões,
porque o corpo corrutível deprime a alma,
e a morada terrestre oprime o espírito que pensa.
Mal podemos compreender o que está sobre a terra
e com dificuldade encontramos o que temos ao alcance da mão.
Quem poderá então descobrir o que há nos céus?
Quem poderá conhecer, Senhor, os vossos desígnios,
se Vós não lhe dais a sabedoria
e não lhe enviais o vosso espírito santo?
Deste modo foi corrigido o procedimento dos que estão na terra,
os homens aprenderam as coisas que Vos agradam
e pela sabedoria foram salvos.

Neste texto do livro da Sabedoria identificamos claramente a incapacidade do homem conhecer, por si mesmo, os mistérios da terra e do céu. Só Deus pode conceder ao homem a sabedoria para ele seguir pelos caminhos da sua vontade. Sem a sabedoria de Deus os pensamentos do homem são mesquinhos, o corpo é um peso para a alma e uma prisão para o espírito.

Salmo 89 (90), 3-6.12-14.17 (R. 1)

O homem, segundo o salmista, tem uma existência breve, “como a erva que que de manhã reverdece e à tarde murcha e seca”. Só Deus nos pode ensinar a contar os nossos dias e a fazer com que as obras das nossas mãos produzam os frutos esperados.

LEITURA II Flm 9b-10.12-17

Caríssimo:
Eu, Paulo, prisioneiro por amor de Cristo Jesus,
rogo-te por este meu filho, Onésimo, que eu gerei na prisão.
Mando-o de volta para ti, como se fosse o meu próprio coração.
Quisera conservá-lo junto de mim,
para que me servisse, em teu lugar,
enquanto estou preso por causa do Evangelho.
Mas, sem o teu consentimento, nada quis fazer,
para que a tua boa ação não parecesse forçada,
mas feita de livre vontade.
Talvez ele se tenha afastado de ti durante algum tempo,
a fim de o recuperares para sempre,
não já como escravo, mas muito melhor do que escravo:
como irmão muito querido.
É isto que ele é para mim
e muito mais para ti, não só pela natureza,
mas também aos olhos do Senhor.
Se me consideras teu amigo,
recebe-o como a mim próprio.

De acordo com os critérios do tempo, Onésimo é um escravo de Filémon e assim deve continuar a ser. Mas Paulo gerou-o para a fé em Jesus Cristo e, por isso, já não pode ser escravo porque em Cristo todos são livres. Já não há Judeu nem Grego, homem ou mulher, escravo ou livre. Por isso, Paulo insiste com Filémon para que o receba como um irmão.  

EVANGELHO Lc 14, 25-33

Naquele tempo,
seguia Jesus uma grande multidão.
Jesus voltou-Se e disse-lhes:
«Se alguém vem ter comigo,
e não Me preferir ao pai, à mãe,
à esposa, aos filhos, aos irmãos, às irmãs
e até à própria vida,
não pode ser meu discípulo.
Quem não toma a sua cruz para Me seguir,
não pode ser meu discípulo.
Quem de vós, desejando construir uma torre,
não se senta primeiro a calcular a despesa,
para ver se tem com que terminá-la?
Não suceda que, depois de assentar os alicerces,
se mostre incapaz de a concluir,
e todos os que olharem comecem a fazer troça, dizendo:
‘Esse homem começou a edificar,
mas não foi capaz de concluir’.
E qual é o rei que parte para a guerra contra outro rei
e não se senta primeiro a considerar
se é capaz de se opor, com dez mil soldados,
àquele que vem contra ele com vinte mil?
Aliás, enquanto o outro ainda está longe,
manda-lhe uma delegação a pedir as condições de paz.
Assim, quem de entre vós não renunciar a todos os seus bens,
não pode ser meu discípulo».

Jesus recorda que os homens, quando querem construir uma torre ou empreender uma batalha empregam no seu projeto todas as suas forças, todos os seus bens e colocam todo o seu esforço serviço desse projeto. Do mesmo modo, todo aquele que quer ser seu discípulo não pode guardar nada para si nem permitir que alguma coisa ou alguém o impeça de ir com Jesus até ao fim.

Reflexão da Palavra

Desde a origem que o homem vive a preocupação por conhecer os mistérios da felicidade. Para o homem bíblico este mistério está escondido em Deus. O homem deseja ser feliz e para o conseguir faz tudo o que está ao seu alcance, por isso, muitas vezes se engana ou deixa que o enganem com falsas perceções e promessas de que a felicidade está aqui ou ali, se alcança desta ou daquela forma.

A primeira leitura recorda esse drama do homem que não consegue penetrar no íntimo de Deus para conhecer os seus desígnios e intenções. Por mais que queira não é capaz de vencer a sua cegueira para ver o que está diante de si, quanto mais o que está oculto aos seus olhos.

Se o segredo da felicidade está escondido em Deus e o homem não pode conhecer os pensamentos de Deus, como pode ele realizar esse desejo, “quem poderá então descobrir o que há nos céus? Quem poderá conhecer, Senhor, os vossos desígnios?”. Só Deus pode conceder a sabedoria, só ele pode dar ao homem o seu espírito santo. A verdade é que Deus concedeu já ao homem este dom e, por isso, a felicidade já está ao seu alcance. Se o homem acolher a sabedoria Deus, pode conhecer o que Deus conhece e agir como Ele.

O salmista reflete sobre a existência do homem diante de Deus. Enquanto Deus existe “desde sempre e para sempre” e permanece como refúgio do homem, a existência do homem está reduzida a poucos anos e se Deus disser ao homem “volta filho de Adão”, ele regressa ao pó da terra. Mais, a existência do homem está marcada pelo pecado “colocaste as nossas culpas diante de ti, os nossos pecados ocultos, à luz da tua face”.

Percebendo o quanto é periclitante a existência do homem sem Deus, termina fazendo uma súplica, “Ensinai-nos a contar os nossos dias, para chegarmos à sabedoria do coração”. Se não for Deus a ensinar ao homem o que fazer dos seus breves dias, então será ainda mais inútil a sua existência. Com esta consciência o salmista antecipa-se a Deus pedindo “Volta Senhor”, antes que Deus diga ao homem “volta filho de Adão”. E continua dizendo “sacia-nos… alegra-nos… manifesta, venham sobre nós as graças do Senhor nosso Deus”. Sem Deus, de que valem as obras das mãos do homem? “Confirma em nosso favor a obra das nossas mãos”.

É muito sensível o conteúdo da pequeníssima carta de Paulo a Filémon, um cristão abastado da cidade de Colossos. A importância que Paulo dá ao assunto revela que estamos perante um caso muito sério que pode ter um final triste para um cristão. Resumindo, temos que dizer que Filémon é um homem rico que se tornou cristãos. Onésimo é um escravo de Filémon que fugiu e provavelmente roubou o seu senhor. Paulo encontra-se com Onésimo na prisão e este converte-se. Agora estamos perante três cristãos, Paulo, Filémon e Onésimo. As relações entre eles só podem ser transparentes, por isso Paulo escreve a carta para que Filémon entenda a nova relação que existe entre ele e Onésimo.

Onésimo é agora um cristão e, por isso, escravo ou não, é um homem livre em Cristo. Filémon é cristão e foi prejudicado pelo Onésimo que, agora, é seu irmão em Cristo. Paulo que anunciou o evangelho aos dois, não pode esconder Onésimo para não se tornar cúmplice da fuga. A carta serve para iluminar o espírito de Filémon, a fim de compreender que a fé em Cristo implica uma nova relação com os homens, e que em Cristo se pode estabelecer uma amizade que arrasta consigo toda a existência, “talvez ele se tenha afastado de ti durante algum tempo, a fim de o recuperares para sempre, não já como escravo, mas muito melhor do que escravo: como irmão muito querido”. Paulo pede que Filémon “se me consideras teu amigo, recebe-o como a mim próprio”.

As palavras de Paulo são o convite a uma progressiva conversão de Filémon. Não basta recuperar Onésimo como escravo, precisa de o recuperar pelo perdão, depois recebê-lo como um irmão e finalmente reconhecer nele um amigo como o é Paulo. Para Paulo, embora legalmente Filémon tenha direito de castigar Onésimo e continuar a trata-lo como escravo, uma vez que se tornou cristão não pode continuar a tratar como escravo aquele que o evangelho reconhece como filho de Deus.

O evangelho guarda algumas afirmações de Jesus sobre os critérios para ser seu discípulo e duas parábolas com o mesmo objetivo de ilustrar as suas afirmações. O discípulo de Jesus não é aquele que anda atrás dele, mas aquele que é capaz de deixar tudo e de tudo suportar para viver como o Mestre. Jesus não pretendem que os seus discípulos deixem de amar a sua família e os seus amigos, mas pretende que o afeto aos outros não impeça a missão que lhe corresponde como discípulo. Do mesmo modo nenhuma riqueza pode ser obstáculo para o discípulo seguir o caminho do Mestre, “quem de entre vós não renunciar a todos os seus bens, não pode ser meu discípulo”. O caminho do Mestre também guarda dificuldades para os discípulos, por isso, “quem não toma a sua cruz para Me seguir, não pode ser meu discípulo”.

O discípulo não é obrigado a seguir o Mestre. O verdadeiro discípulo é aquele que livremente foi ter com o Mestre “se alguém vem ter comigo”. O que está em causa é a intenção com que alguém vem ter com o Mestre. Vem para o seguir, aceitando o seu caminho, a sua missão e assumindo as opções do Mestre, ou vem em busca da sua satisfação pessoal? A resposta está dada atrás, “o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça” (9,58).

As parábolas ajudam a compreender a proposta de Jesus. Todo aquele que tem por diante uma tarefa de grande valor senta-se primeiro para fazer contas à vida. Quem quer construir uma torre tem que ver primeiro se tem dinheiro suficiente e quem tem que enfrentar um exército tem que verificar se tem homens e armas capazes de vencer o inimigo. Também aquele que quer ser discípulo de Jesus tem que avaliar primeiro as condições e as consequências.

Seguir Jesus tem critérios e muitas vezes o afeto às pessoas e aos bens são um impedimento para concluir aceitar o desprendimento. Também a cruz, as incompreensões, as perseguições e injustiças vividas por causa de Jesus podem tornar-se um impedimento para levar até ao fim a decisão de seguir Jesus.

Meditação da Palavra

Esse homem começou a edificar, mas não foi capaz de concluir”.

A liturgia da palavra deste domingo coloca-nos diante do maior projeto da vida: a nossa felicidade. Trata-se de uma torre que se constrói ao longo de toda a vida e que precisa ser concluída, trata-se de uma batalha que é necessário travar e que é preciso ganhar. Sabendo disto, Jesus recorda que é possível, se não medirmos bem as consequências das nossas decisões, abandonar o projeto a meio, “não foi capaz de concluir”, tornando-nos motivo de chacota para todos.

Todo o projeto exige escolhas acertadas, opções exigentes, cálculos arriscados, renuncias calculadas. Por vezes é necessário alterar o projeto inicial, rever as circunstâncias, reavaliar as possibilidades, alterar os meios, mudar de critérios, medir os riscos. É uma tarefa permanente numa vida que mais parece um estaleiro de obra onde todos parecem saber o que é melhor e onde nós mesmos não entendemos nada do que está a acontecer.

A primeira leitura diz que a vida do homem é isso mesmo, um estaleiro de obra onde “mal podemos compreender o que está sobre a terra e com dificuldade encontramos o que temos ao alcance da mão”. Diz também que há um arquiteto que tudo conhece, mas o homem não pode penetrar no íntimo de Deus para “conhecer os seus desígnios”, nem “sondar as suas intenções”. Sendo assim, como pode o homem alcançar a realização do seu projeto se não conhece os desenhos e cálculos do projetista?

À primeira vista não pode, mas o livro da Sabedoria deixa perceber uma forma de conhecer os mistérios da vida. O homem por si mesmo não consegue, mas Deus “dá a sabedoria e envia o Espírito Santo” com os quais o homem pode chegar a conhecer. Ou seja, a felicidade do homem depende de Deus, do conhecimento que só ele pode dar, do mistério que só ele pode revelar.

No domingo passado dizíamos que o humilde sabe escutar, está de ouvido atento. O caminho da felicidade passa por esta humildade de escutar para querer o que Deus quer e como Deus quer. Jesus alerta para o facto de podermos desistir do projeto da nossa vida por causa de pessoas ou coisas ou sucumbir ao peso das dificuldades, por não sermos capazes de renunciar.

O caminho da felicidade não é fácil. Quem escolhe o caminho mais fácil não chega lá e quem escolhe o caminho mais difícil mas não se prepara, corre o risco de ficar pelo meio. Para Jesus há três condições essenciais para empreender a construção e travar a batalha da felicidade. A primeira é aproximar-se dele “se alguém vem ter comigo”, o que supõe liberdade. Ele não força, não exige, apenas espera. A segunda condição é não permitir que os outros, mesmo aqueles por quem temos grande amor, interfiram na nossa decisão e não permitirmos que os bens deste mundo se tornem demasiado sedutores a ponto de nos fazer crer que sem eles não seremos felizes. A terceira condição é assumir a cruz. Tornar-se discípulo de Jesus implica aceitar o seu caminho que tem incompreensões, injustiças, perseguições, condenações e morte por causa do seu nome. Sem aceitar estas condições ninguém resiste ao desafio.

Jesus propõe que nos preparemos para adquirir estas capacidades. Ninguém está preparado de antemão, por isso ele diz, “senta-te primeiro a calcular a despesa”, “senta primeiro a considerar se és capaz”.

Para ilustrar o que significa ser discípulo de Jesus temos hoje a carta de Paulo a Filémon. Paulo que anunciara a Filémon o evangelho e Filémon que acolhei Cristo na sua vida e se decidiu a ser seu discípulo, vivem uma situação complexa do ponto de vista social e do ponto de vista da sua relação de amizade.

Onésimo, o escravo de Filémon, fugiu ao seu senhor e ma fuga cruzou-se com Paulo que lhe anunciou o mesmo evangelho que tinha anunciado a Filémon. Agora, a situação de todos alterou-se, porque no encontro com Cristo já não há lugar para posições dúbias. Paulo não pode esconder de Filémon que tem com ele Onésimo, Onésimo não pode continuar fugido do seu amo e Filémon já não pode tratar Onésimo como um escravo.

A carta de Paulo, que Onésimo entrega pessoalmente a Filémon é um desafio para todos. Paulo não pode esconder de Filémon que o seu escravo é um homem livre em Cristo e que deve ser perdoado, recebido como um irmão e acolhido reconhecendo nele a presença de Cristo que habita os três. Do ponto de vista humano, todos poderão criticar Filémon por não ser rígido com o escravo, castigando-o como a lei prevê, mas do ponto de vista do evangelho, Filémon, se quer ser discípulo de Cristo, se quer construir a torre e travar a batalha da sua vida, tem que perdoar e acolher o escravo como um irmão.

Se renunciar aos seus critérios humanos, se escutar a voz daquele que fala no evangelho, Filémon descobre o caminho da verdadeira felicidade e reconhece que “muito melhor do que escravo” é receber Onésimo “como irmão muito querido”. É uma cruz pesada, à qual ele pode reagir dizendo “se é para isto não quero ser cristão”.

Diante desta palavra fica-nos uma pergunta: até onde é que eu estou disponível a ir na amizade com Cristo? Se não receber a sabedoria divina de que fala a primeira leitura, o projeto da minha felicidade segue os meus critérios e a torre será como eu decidir. Se não me aproximar de Cristo posso ter na minha vida quem eu quiser e os bens que entender. Antes de ser cristão eu posso tratar os outros como me apetecer porque a lei me permite fazê-lo. A sabedoria de Deus mostra-me o caminho da verdadeira felicidade e isso exige novos critério na minha vida. Aproximando-me de Cristo nada nem ninguém pode interferir na minha relação com ele e tenho que assumir o risco de ser maltratado como o Mestre. Depois de ser cristão os outros são meus irmãos e não meus escravos e sou chamado a perdoar.

Rezar a Palavra

Deixar tudo para ser teu discípulo, sem reservas, sem condições, na liberdade total, apenas com a cruz de cada dia. Grande desafio colocas à minha vida, Senhor. Aprender a sabedoria do coração na escuta humilde, sabendo que apenas possuo pensamentos mesquinhos e não sei processar mais do que reflexões inseguras. Alcançar a verdadeira felicidade, eu que tenho uma existência breve como a da erva do campo. Dá-me a tua sabedoria, dá-me o teu Espírito para compreender aquilo que te agrada.

Compromisso semanal

Aprendo a ler a minha vida a partir da minha relação com Jesus.