A Sabedoria: Tesouro escondido
No cimo do monte, está escondido um tesouro. Toda a aldeia o sabe. Diz-se que, no dia em que alguém o encontrar, a aldeia ficará rica, mas aquele que lhe tocar será transformado numa lágrima. Ninguém sabia ao certo se era verdade que ali, no alto do monte que guarda a aldeia, existia mesmo um tesouro. Alguns tentaram subir e poucos chegaram perto, mas todos acabaram por desistir.
Um dia, apareceu na aldeia um jovem aventureiro que perguntou: — Onde está o Tesouro da Lágrima?
Os velhos, sentados no banco da praça, olharam-no com desconfiança. Ele adiantou-se: — Ouvi dizer que havia um tesouro no cimo de um destes montes. É verdade?
Timidamente, os anciãos apontaram-lhe o caminho, em silêncio. O jovem nunca mais apareceu, mas, desde aquele dia, um riacho de água cristalina passou a atravessar a aldeia, fazendo brotar as mais lindas flores nas suas margens.
LEITURA I 1Rs 3, 5.7-12
Naqueles dias,
o Senhor apareceu em sonhos a Salomão durante a noite
e disse-lhe:
«Pede o que quiseres».
Salomão respondeu:
«Senhor, meu Deus,
Vós fizestes reinar o vosso servo em lugar do meu pai David,
e eu sou muito novo e não sei como proceder.
Este vosso servo está no meio do povo escolhido,
um povo imenso, inumerável,
que não se pode contar nem calcular.
Dai, portanto, ao vosso servo um coração inteligente,
para governar o vosso povo,
para saber distinguir o bem do mal;
pois, quem poderia governar este vosso povo tão numeroso?».
Agradou ao Senhor esta súplica de Salomão
e disse-lhe:
«Porque foi este o teu pedido,
e já que não pediste longa vida, nem riqueza,
nem a morte dos teus inimigos,
mas sabedoria para praticar a justiça,
vou satisfazer o teu desejo.
Dou-te um coração sábio e esclarecido,
como nunca houve antes de ti nem haverá depois de ti».
A oração de Salomão é oferecida como modelo para a nossa própria oração. Nela, o jovem rei reconhece a sua pequenez perante a grandeza da missão que lhe é confiada: governar o Povo de Deus. Reconhecendo a sua impreparação, em vez de pedir privilégios mundanos, Ele suplica por um «coração que escuta», revelando que a verdadeira sabedoria não reside nas riquezas nem no poder, mas na capacidade espiritual de discernir o bem do mal e praticar a justiça. Na resposta de Deus, percebemos que esta é a oração que realmente Lhe agrada.
Salmo 118 (119), 57.72.76-77.127-128.129-130 (R . 97a )
Para o salmista, a Lei do Senhor vale mais do que «milhares de moedas de ouro e prata», sugerindo que a felicidade não reside na posse material, mas na adesão interior aos preceitos divinos que iluminam a inteligência. O homem sensato procura nos preceitos do Senhor, na Sua «Lei», a verdadeira sabedoria pela qual conduz a sua vida, porque a Palavra do Senhor «ilumina e dá inteligência aos simples».
LEITURA II Rm 8, 28-30
Irmãos:
Nós sabemos que Deus concorre em tudo
para o bem daqueles que O amam,
dos que são chamados, segundo o seu desígnio.
Porque os que Ele de antemão conheceu,
também os predestinou
para serem conformes à imagem de seu Filho,
a fim de que Ele seja o Primogénito de muitos irmãos.
E àqueles que predestinou, também os chamou;
àqueles que chamou, também os justificou;
e àqueles que justificou, também os glorificou.
Paulo afirma a providência de Deus em favor do homem. A vida humana não é um acaso, mas um projeto no qual Deus ama primeiro; a resposta do homem a esse amor transforma-o na imagem de Cristo. Desta certeza nasce a confiança de que tudo, apesar do sofrimento e da fragilidade, concorre para o nosso bem, porque fomos chamados, predestinados e justificados, a fim de participarmos com Cristo na Sua glória.
EVANGELHO Forma longa Mt 13, 44-52
Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«O reino dos Céus é semelhante
a um tesouro escondido num campo.
O homem que o encontrou tornou a escondê-lo
e ficou tão contente que foi vender tudo quanto possuía
e comprou aquele campo.
O reino dos Céus é semelhante
a um negociante que procura pérolas preciosas.
Ao encontrar uma de grande valor,
foi vender tudo quanto possuía e comprou essa pérola.
O reino dos Céus é semelhante
a uma rede que, lançada ao mar,
apanha toda a espécie de peixes.
Logo que se enche, puxam-na para a praia
e, sentando-se, escolhem os bons para os cestos,
e o que não presta deitam-no fora.
Assim será no fim do mundo:
os Anjos sairão a separar os maus do meio dos justos
e a lançá-los na fornalha ardente.
Aí haverá choro e ranger de dentes.
Entendestes tudo isto?».
Eles responderam-Lhe: «Entendemos».
Disse-lhes então Jesus:
«Por isso, todo o escriba instruído sobre o reino dos Céus
é semelhante a um pai de família
que tira do seu tesouro coisas novas e coisas velhas».
Para Jesus o Reino dos Céus é o valor supremo que exige uma decisão radical e feliz, tal como o homem do campo e o negociante de pérolas. O cristão ao descobrir a fé em Jesus, “vende tudo” não por obrigação, mas pela alegria que descobriu e que relativiza todas as outras coisas. Entretanto o Reino de Deus acolhe todos, bons e maus, na esperança de que todos descubram o seu valor. No final será feita a seleção.
Reflexão da Palavra
O Primeiro Livro dos Reis situa-nos no início do reinado de Salomão. O texto proposto serve-se de um “sonho-revelação” para legitimar a soberania do filho de David como sucessor no trono de Israel, conferindo-lhe uma autoridade divina.
No diálogo com Deus, Salomão apresenta-se como «servo» e impreparado para a missão que lhe foi confiada. As suas palavras — que literalmente afirmam «não sei como sair e entrar», traduzindo-se por «não sei como proceder» — e a expressão «povo imenso e inumerável» revelam o peso da missão. Ao afirmar que este povo, de quem ele é rei, é o «Vosso povo», Salomão reconhece a pertença absoluta de Israel a Deus.
Consciente disto, Salomão pede um «coração que escuta». O coração é o lugar das decisões, da vontade e da inteligência; por isso, o pedido de Salomão significa a sua decisão de escutar a Vontade de Deus para governar o povo que a Ele pertence. O objetivo de Salomão é governar com justiça, distinguindo o bem do mal — aquele conhecimento que Adão e Eva quiseram usurpar pela desobediência para serem como Deus, mas que Salomão acolhe como dom para servir e não para obter poder pessoal.
Com esta petição, Salomão alinha o seu coração com o de Deus. Por isso, obtém não apenas o que pediu, mas também o que não pediu: vida longa, riqueza e poder.
Salmo 119 (118), o maior de todo o Saltério, está construído por vinte e duas estrofes — tantas quantas as letras do alfabeto hebraico — de oito versos cada uma. O salmo começa com uma bem-aventurança: «Felizes os que seguem o caminho da retidão e vivem segundo a Lei do Senhor. Felizes os que cumprem os Seus preceitos e O procuram de todo o coração». O salmo é, todo ele, um elogio da Lei Divina e um compromisso no seu cumprimento.
O salmista fala da Lei como de uma herança, pois a sua segurança não está nos bens materiais, mas na Lei do Senhor, que vale mais que «milhares de moedas de ouro e prata» e oferece ao homem a orientação para uma vida reta. O amor à Lei do Senhor torna o caminho da mentira insuportável, porque ela ilumina o coração e dá inteligência aos simples. Na Lei do Senhor habita a misericórdia.
As palavras do salmista estão em consonância com a oração de Salomão e revelam que a verdadeira sabedoria está na capacidade de conformar a vida com a Vontade de Deus.
Paulo apresenta o último pilar da esperança: «Deus concorre em tudo para o bem dos que O amam», conforme referimos na reflexão do domingo passado. Com esta afirmação, Paulo adverte que é Deus quem faz acontecer o bem; não são as coisas que, por si mesmas, o produzem.
Paulo descreve o percurso desta ação divina em cinco etapas: o Conhecimento Amoroso, que significa afeto, ou seja, Deus amou-nos primeiro; a Predestinação, no sentido de que o homem foi pensado para participar no Amor Divino, ser imagem de Cristo e viver da Sua vida eternamente; o Chamamento, que aponta para a Encarnação do Verbo e para o momento em que Deus entra na vida de cada homem; a Justificação, pela qual o homem pecador se torna justo, não pelos seus méritos, mas graças à Paixão de Cristo; o “Já” e o “Ainda não”, na medida em que todos os quatro passos anteriores já foram realizados por Deus, mas, para nós, ainda se estão a concretizar.
Toda a ação divina se orienta para a afirmação de que Jesus, o Seu Filho, é o Primogénito, no sentido de que é o centro de uma nova família em que todos participam d’Ele e seguem o Seu caminho. Assim, compreendemos que não estamos à deriva, mas nas mãos de um Deus que «concorre em tudo» para que nos tornemos imagem de Cristo.
Mateus oferece, este domingo, um conjunto de parábolas sobre o Reino de Deus: o agricultor que encontra um tesouro, o negociante de pérolas, a rede lançada ao mar e o pai de família. Todas as parábolas colocam o acento na urgência de uma decisão, independentemente da circunstância em que se dá o encontro com o Reino.
Na primeira parábola, o encontro foi casual. O agricultor anda a lavrar num terreno alheio quando, de repente, encontra um tesouro. Perante este achado, ele tem de tomar uma decisão entre o tesouro descoberto e tudo o que possui. Terá ele capacidade para avaliar o tesouro que encontrou? Deixar-se-á levar pelo apego ao que já tem?
Na segunda parábola, deparamo-nos com alguém que procura. O Reino não apareceu por acaso na sua vida; ele teve de o procurar e, agora que o encontrou, saberá avaliar entre as pérolas que já acumulou e esta que acaba de descobrir?
A parábola da rede fala do Reino como uma pesca na qual o pescador lançou a rede e não interfere, permitindo que nela entre tudo: o bom e o mau. Depois, o pescador tem de se sentar e avaliar o que veio na rede, distinguindo o que vale do que não vale a pena guardar. Este trabalho pertence a Deus e será realizado pelos Anjos no final, tal como na parábola do joio.
A quarta parábola surge após a interrogação de Jesus aos discípulos sobre a compreensão das parábolas. Em conclusão, Jesus afirma que eles — e todos os judeus que se convertem e têm o Antigo Testamento como riqueza no seu tesouro — precisam de saber discernir, a partir do Evangelho, o conteúdo presente na Escritura, de modo a que não haja contradição entre o novo e o antigo.
Meditação da Palavra
No caminho da nossa vida, «Deus concorre em tudo para o bem dos que O amam», mas as decisões fundamentais permanecem sob a nossa responsabilidade. Fomos predestinados, chamados e justificados, o que significa que o tesouro do Reino está ao nosso alcance, plenamente à nossa disposição. Não importa como o descobrimos — seja num acaso da vida, fruto de uma busca persistente ou por termos sido simplesmente «apanhados na rede» — o que realmente conta é a decisão que tomamos após o encontro. Sabemos, no entanto, que nada é puramente acidental: é a ação de Deus que nos proporciona as oportunidades para alinharmos o nosso coração com o Seu projeto.
A Palavra de Deus recorda-nos que, por vezes, escolhemos mal porque nos falta a sabedoria do coração. Muitos deixam-se deslumbrar por realidades secundárias, como a longevidade, a riqueza ou o poder, transformando estes meios nos alicerces de uma suposta felicidade. Salomão, contudo, ensina-nos que o verdadeiro alicerce reside na sabedoria que faz da vida um serviço aos outros. Ao pedir este dom, ele revela um discernimento que frequentemente nos falta: a capacidade de distinguir entre o Reino e as seguranças passageiras. Vale a pena «vender tudo» pela pérola preciosa ou estaremos a viver uma ilusão?
Na sua juventude, Salomão entendeu que, por si só, não seria capaz de cumprir o essencial da sua missão: governar com justiça. Da mesma forma, sem essa Sabedoria Divina, teremos dificuldade em avaliar o que traz à nossa vida a verdadeira alegria. O salmista reforça esta lição ao professar que a felicidade reside no cumprimento da Vontade de Deus. Amar a Sua Lei ilumina o caminho: «Felizes os que seguem o caminho da retidão e vivem segundo a Lei do Senhor. Felizes os que cumprem os Seus preceitos e O procuram de todo o coração».
Afeiçoar o coração ao Senhor significa adquirir uma sensibilidade que percebe o Reino não como um fardo de renúncias, mas como uma descoberta jubilosa. Quem descobre que o Reino vale «mais do que milhares de moedas de ouro», decide com alegria. Para nós, cristãos, o Evangelho é a escola desta sabedoria; é nele que confrontamos os nossos critérios e aprendemos a discernir, no tesouro da nossa fé, o que é eterno do que é supérfluo.
Que a liturgia deste domingo nos ajude a redefinir prioridades. Mais do que soluções imediatas para os nossos problemas, peçamos o Espírito de Sabedoria. Pois, ao possuirmos Cristo — o nosso Tesouro e a nossa Sabedoria — possuímos tudo o que realmente importa. Quem encontrou este Tesouro não teme perder o resto, pois sabe que está nas mãos d’Aquele que faz tudo concorrer para o nosso bem. Não permitamos que o essencial nos passe ao lado por falta de sabedoria.
Rezar a Palavra
Dá-me, Senhor, a sabedoria do coração, para que eu seja capaz de Escutar-Te e discernir a Tua vontade nas grandes decisões da minha vida. Dá-me a graça de reconhecer que o Teu Reino é o tesouro escondido e a pérola preciosa, pelos quais vale a pena entregar tudo com profunda alegria. E que o Teu Espírito me transforme à imagem de Cristo, dando-me a segurança de que Tu fazes com que todas as coisas concorram para o meu bem. Ámen.
Compromisso semanal
Imploro ao Senhor a docilidade de Salomão para confiar que a sabedoria do coração vale mais que milhões em ouro e prata.






