Aprender a contar os dias
Desde o dia em que o testamento do pai foi lido, a paz de espírito desapareceu. Recorda bem os pedidos do pai para que tomasse conta do irmão e que nunca se desentendessem. No entanto, aquele documento transformou a sua vida num desassossego. O seu irmão, sempre fora tudo para ele, mas agora, o sentimento amargo de ter sido prejudicado está a destruí-lo.
Não consegue entender o critério usado pelo pai para repartir a herança, sentindo-se profundamente lesado. Aquele assunto consume-o, destruindo a sua paz interior. Evita o olhar do irmão, sente falta do seu abraço, mas o ressentimento afasta-o. Não precisa de dizer uma palavra; todos percebem que “já não é o mesmo”. E, compreensivos, desculpam-no: “Foi a morte do pai.”
LEITURA I Co (Ecle) 1, 2; 2, 21-23
Vaidade das vaidades _ diz Coelet _
vaidade das vaidades: tudo é vaidade.
Quem trabalhou com sabedoria, ciência e êxito,
tem de deixar tudo a outro que nada fez.
Também isto é vaidade e grande desgraça.
Mas então, que aproveita ao homem todo o seu trabalho
e a ânsia com que se afadigou debaixo do sol?
Na verdade, todos os seus dias são cheios de dores,
e os seus trabalhos cheios de cuidados e preocupações;
e nem de noite o seu coração descansa.
Também isto é vaidade.
Muito longe de ser um pessimista, Qohélet, é um homem consciente da realidade. As coisas deste mundo, mesmo as de maior valor, não são a segurança nem a garantia da nossa vida. Tudo o que é deste mundo é passageiro e termina na morte. A única garantia do homem, a única segurança, é Deus.
Salmo 89 (90), 3-6.12-14.17 (R. 1)
O salmista tem consciência, como Qohélet, que a vida é breve e se não cuidarmos desaproveitamos o pouco tempo que temos. Ele pede a Deus que o ensine a contar os seus dias e a aproveitá-los num trabalho digno e abençoado para não ser inútil a sua passagem pela terra.
LEITURA II Col 3, 1-5.9-11
Irmãos:
Se ressuscitastes com Cristo,
aspirai às coisas do alto,
onde Cristo está sentado à direita de Deus.
Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra.
Porque vós morrestes,
e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus.
Quando Cristo, que é a vossa vida, Se manifestar,
também vós vos manifestareis com Ele na glória.
Portanto, fazei morrer o que em vós é terreno:
imoralidade, impureza, paixões, maus desejos e avareza,
que é uma idolatria.
Não mintais uns aos outros,
vós que vos despojastes do homem velho com as suas ações
e vos revestistes do homem novo,
que, para alcançar a verdadeira ciência,
se vai renovando à imagem do seu Criador.
Aí não há grego ou judeu, circunciso ou incircunciso,
bárbaro ou cita, escravo ou livre;
o que há é Cristo,
que é tudo e está em todos.
Apesar de terem passado pelo batismo, continua diante dos colossenses a possibilidade de viverem como homens espirituais ou como homens terrenos. Já nasceram como homens novos, a sua vida já “está escondida com Cristo em Deus”, mas permanece a possibilidade de se manifestar neles o homem velho. Por isso, exorta: “fazei morrer o que em vós é terreno”
EVANGELHO Lc 12, 13-21
Naquele tempo,
alguém, do meio da multidão, disse a Jesus:
«Mestre, diz a meu irmão que reparta a herança comigo».
Jesus respondeu-lhe:
«Amigo, quem Me fez juiz ou árbitro das vossas partilhas?».
Depois disse aos presentes:
«Vede bem, guardai-vos de toda a avareza:
a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens».
E disse-lhes esta parábola:
«O campo dum homem rico tinha produzido excelente colheita.
Ele pensou consigo:
‘Que hei de fazer,
pois não tenho onde guardar a minha colheita?
Vou fazer assim:
Deitarei abaixo os meus celeiros para construir outros maiores,
onde guardarei todo o meu trigo e os meus bens.
Então poderei dizer a mim mesmo:
Minha alma, tens muitos bens em depósito para longos anos.
Descansa, come, bebe, regala-te’.
Mas Deus respondeu-lhe:
‘Insensato! Esta noite terás de entregar a tua alma.
O que preparaste, para quem será?’.
Assim acontece a quem acumula para si,
em vez de se tornar rico aos olhos de Deus».
Jesus pergunta sobre o que nos move nas decisões de cada dia. Se o que nos move é a cobiça das coisas deste mundo, ser grandes e ricos aos olhos dos homens, então, somos insensatos, porque vai chegar o momento em que teremos que deixar todas essas coisas. Se o que nos move é o olhar de Deus sobre nós, então, devemos preocupar-nos em ser ricos a seus olhos.
Reflexão da Palavra
Qohélet é um crente que “estudou, investigou e compôs numerosas sentenças” e “ensinou a ciência ao povo” (Ecl 12,9-10). O seu livro começa e termina com as mesmas palavras “vaidade das vaidades: tudo é vaidade”. Não se trata de vaidade moral, mas de um modo de ver o mundo e a vida, no sentido de ilusão, miragem, aparência. O homem pode viver nesta ilusão, cego para o que está à sua frente, convencido de algo que não é verdadeiro, colocando a confiança no que é efémero.
Qohélet tem diante de si, como fonte de reflexão a vida do rei Salomão, um sábio que alcançou glória e poder e se tornou motivo de inveja para muitos reis do seu tempo. Ninguém alcançou tanta glória como Salomão, no entanto, pergunta Qohélet, para que serviu tudo isso? No final ele próprio caiu na idolatria e por fim, na morte, e teve que deixar tudo a outro, ao filho Absalão que deitou tudo a perder.
Qohélet tira uma conclusão “vaidade das vaidades: tudo é vaidade”, que aplica a todas as atividades do homem, para dizer no final, que tudo isto é inútil, é como “correr atrás do vento” (2, 26), se não houver algo definitivo, verdadeiro e seguro. Para ele, seguro é Deus e o que Deus faz, “reconheci que tudo o que Deus faz é para sempre, sem que se possa acrescentar nada ou tirar nada” (3, 14). Esta é a verdadeira sabedoria que todos devem procurar. Portanto, todas as coisas serão inúteis se não servem para procurar a Deus: “Que aproveita ao homem todo o seu trabalho e a ânsia com que se afadigou debaixo do sol?”.
O salmo 89 contém uma introdução, uma meditação e uma súplica. O salmista reflete sobre a gradeza de Deus e a pequenez do homem. Deus é Deus “desde sempre”, desde antes da terra, do mundo e das montanhas. Com uma única palavra pode fazer o homem voltar ao pó da terra. Ele é Senhor do tempo e da eternidade.
O homem é apenas pó, um suspiro, como a erva do campo, de existência breve, está exposto diante de Deus com a sua miséria, o seu pecado e à mercê da sua ira.
Que resta ao homem senão esperar no Senhor? Que ele o ensine a usar o tempo da sua vida para “chegar ao coração da sabedoria”, que Deus atue nele para que o trabalho das suas mãos alcance o fruto desejado e possa “cantar e exultar todos os dias”.
Para Paulo há uma forma de viver a que devem aderir aqueles que ressuscitaram com Cristo. Trata-se de uma vida espiritual, centrada nas coisas do alto. A partir do batismo tudo se transforma para o cristão porque encontra em Cristo a sua inspiração. O mundo continua a ser o lugar onde vivem cristãos e não cristãos. A sociedade tem as suas normas e exigências e cada um tem na sociedade e no mundo um papel a desempenhar e o batismo não anula o estatuto de cada um. O que muda com o Batismo é o modo como cada um vive neste mundo.
Pelo batismo o cristão tornou-se um homem novo e, por isso, abandonou os critérios do mundo para assumir os critérios do Espírito. Agora, todos, judeus ou gregos, circuncisos ou incircuncisos, bárbaros ou citas, escravos ou livres, homens ou mulheres, todos são irmãos porque, o que os define é a vida nova em Cristo e não as questões da natureza, da sociedade, da cultura e dos costumes. Por isso, Paulo exorta os cristãos a morrer para o que é terreno, a retirar a importância às coisas deste mundo, porque isso é próprio dos que não conhecem a Cristo, e a revestirem-se do homem novo à imagem do Criador.
A propósito do pedido de um homem que está preocupado porque o irmão não quer fazer as partilhas, Jesus ensina uma nova atitude sobre a posse e o uso das riquezas: “a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens”. E, para deixar bem clara a sua posição, conta uma parábola que tem no centro um homem rico que coloca nos seus bens a segurança e garantia da sua vida. Este homem diz a si mesmo: “Minha alma, tens muitos bens em depósito para longos anos. Descansa, come, bebe, regala-te”. Esta atitude, porém, revela insensatez, pois, como diz Qohélet, até o comer, beber e o bem-estar vêm da mão de Deus (Ecl 2,24) e não dos bens que se possuem. Pelo contrário, os bens são fonte de cuidado e preocupação (Ecl 2,26). Também Jesus diz “arranjai um tesouro inesgotável no céu, onde o ladrão não chega e a traça não rói. Onde estiver o vosso tesouro, aí estará o vosso coração” (Lc 12,33-34).
A garantia da vida do homem está, portanto, na mão de Deus, o único que decide sobre a alma, “esta noite terás de entregar a tua alma”. Prevenindo para que as riquezas não façam definhar a alma, Jesus convida a ser “rico aos olhos de Deus”.
Meditação da Palavra
Diante dos nossos olhos está a palavra de Jesus: “que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida? (Mt 16,26). Julgar que, por ter muitos bens o homem está seguro e tem garantida a vida para muitos anos, bons e felizes, é uma ilusão.
Vendo a preocupação daquele homem a quem o irmão impede de participar na herança do pai, Jesus alerta todos os presentes para o perigo das riquezas. A possibilidade e o direito a possuir bens terrenos, seja por via de um trabalho honesto ou por herança familiar, não pode sobrepor-se à liberdade interior de quem reconhece “a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens”. A decisão mais importante não está nas mãos do homem, mas na mão de Deus. Por isso Jesus alerta para a possibilidade de nos acontecer o mesmo que ao homem da parábola que, depois de ter recolhido bens em abundância, diz a si mesmo “tens muitos bens em depósito para longos anos. Descansa, come, bebe, regala-te’”, mas nessa noite, chegará sempre uma noite, em que “terás de entregar a tua alma”.
Qohélet apresenta o exemplo de Salomão, o mais poderoso e sábio de todos os reis e, apesar disso, também ele foi insensato, porque não vigiou sobre o seu coração e caiu na idolatria. Também ele foi insensato porque, como todos, teve que “deixar tudo a outro que nada fez”.
A ilusão de julgar que os bens são a segurança da vida, impede o homem de ver o perigo das riquezas, pois, diz Qohélet, Deus dá ao pecador o “cuidado de recolher e acumular bens” (ECl 2,26) que se tornam para ele numa inquietação permanente “nem de noite o seu coração descansa”. Na posse dos bens deste mundo esconde-se a ilusão de poder comer, beber e gozar sem restrições. Mas, diz Qohélet, até isso vem das mãos de Deus e lhe pode ser retirado a qualquer momento, como reconhece o salmista ao dizer: “Tu podes reduzir o homem ao pó, dizendo apenas: “Voltai ao pó, seres humanos”.
Se a riqueza torna o homem insensato, a brevidade da vida deve fazê-lo pensar em usar bem o pouco tempo que lhe é dado, recolhendo o ensinamento do salmista que pede a Deus “Ensinai-nos a contar os nossos dias, para chegarmos à sabedoria do coração”.
De que modo se pode aproveitar o tempo da vida? Qohélet pergunta-se “que aproveita ao homem todo o seu trabalho e a ânsia com que se afadigou debaixo do sol?” querendo dizer que o trabalho, a preocupação, o acumular riqueza e prestígio são uma ilusão, uma inutilidade, é “correr atrás do vento”. E propõe que procuremos as coisas de Deus que permanecem, porque “tudo o que Deus faz é para sempre” (Ecl 3,14). Paulo, aos cristãos Colossenses, convida a afeiçoarem-se “às coisas do alto e não à da terra”, a fazer morrer “o que em vós é terreno” e a revestirem-se “do homem novo… à imagem do Criador”.
Jesus convida a ser rico aos olhos de Deus, acumulando “um tesouro inesgotável no céu, onde o ladrão não chega e a traça não rói” porque, “onde estiver o vosso tesouro, aí estará o vosso coração”.
O sentido da vida, uma vida segura, com garantia permanente, independentemente da sua duração e dos trabalhos e fadigas por que se tenha que passar, parece ser uma vida gasta na buca de Deus, como diz Qohélet, “na busca do coração da sabedoria”, como afirma o salmista, numa experiência espiritual, como exorta Paulo, e acumulando tesouros no céu, como conclui Jesus.
Rezar a Palavra
Ensina-me, Senhor, a sabedoria do coração para que os trabalhos de cada dia e a ânsia de felicidade não consumam todas as minhas energias, ao ponto de colocar no fruto das minhas mãos todo o sentido da minha vida. Ensina-me a viver do teu Espírito, para traduzir em mim as atitudes do homem novo, à imagem do criador, acumulando tesouros no céu.
Compromisso semanal
Aprendo a usar os bens deste mundo com liberdade de coração.






