Um fogo comprimido nos ossos
A história ensina que o mundo se riu de todos os que deram origem às grandes invenções. Foi assim com a eletricidade, com a bicicleta, com a energia solar… Primeiro riem-se, depois lutam contra e, por fim, aceitam como se fosse óbvio desde o início.
Aquele que tem dentro de si o fogo vence todos os dissabores e permanece na sua convicção até conseguir provar que tinha razão.
Nas coisas de Deus, não queremos provar nada; simplesmente oferecemos, gratuitamente, a água que pode saciar a humanidade e impedi-la de sucumbir pela sede.
LEITURA I Jr 20, 7-9
Vós me seduzistes, Senhor, e eu deixei-me seduzir;
Vós me dominastes e vencestes.
Em todo o tempo sou objeto de escárnio,
toda a gente se ri de mim;
porque sempre que falo é para gritar e proclamar:
«Violência e ruína!».
E a palavra do Senhor tornou-se para mim
ocasião permanente de insultos e zombarias.
Então eu disse: «Não voltarei a falar n’Ele,
Não falarei mais em seu nome».
Mas havia no meu coração um fogo ardente,
comprimido dentro dos meus ossos.
Procurava contê-lo, mas não podia.
O profeta expõe o seu drama pessoal. Vive consumido pela missão que a força irresistível de Deus lhe confiou. Jeremias sente um dor insuportável ao ver-se incompreendido e ridicularizado devido à dureza da sua mensagem, chegando ao ponto de tentar silenciar a voz divina para recuperar a paz. A Palavra de Deus, porém, é um «fogo ardente» que, uma vez aceso no coração, não pode ser contido, forçando o profeta a uma entrega total apesar de todo o sofrimento.
Salmo 62 (63), 2.3-4.5-6.8-9 (R. 2b)
O salmista expressa a sede profunda da alma que busca a Deus como o único bem capaz de saciar o coração humano. Através da imagem da terra árida e sem água descreve a sua própria situação, encontrando na oração e na contemplação do santuário o conforto da graça que é «melhor do que a própria vida».
LEITURA II Rm 12, 1-2
Peço-vos, irmãos, pela misericórdia de Deus,
que vos ofereçais a vós mesmos
como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus,
como culto espiritual.
Não vos conformeis com este mundo,
mas transformai-vos,
pela renovação espiritual da vossa mente,
para saberdes discernir, segundo a vontade de Deus,
o que é bom,
o que Lhe é agradável,
o que é perfeito.
Paulo convida os cristãos a transformarem a própria vida num sacrifício consciente e livre de si mesmos a Deus. Para isso, o apóstolo exorta à rutura com a mentalidade do mundo e à renovação interior, permitindo discernir o que é bom e agradável ao Senhor.
EVANGELHO Mt 16, 21-27
Naquele tempo,
Jesus começou a explicar aos seus discípulos
que tinha de ir a Jerusalém
e sofrer muito da parte dos anciãos,
dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas;
que tinha de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia.
Pedro, tomando-O à parte,
começou a contestá-l’O, dizendo:
«Deus Te livre de tal, Senhor! Isso não há de acontecer!».
Jesus voltou-Se para Pedro e disse-lhe:
«Vai-te daqui, Satanás.
Tu és para mim uma ocasião de escândalo,
pois não tens em vista as coisas de Deus, mas dos homens».
Jesus disse então aos seus discípulos:
«Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo,
tome a sua cruz e siga-Me.
Pois quem quiser salvar a sua vida há de perdê-la;
mas quem perder a sua vida por minha causa,
há de encontrá-la.
Na verdade, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro,
se perder a sua vida?
Que poderá dar o homem em troca da sua vida?
O Filho do homem há de vir na glória de seu Pai,
com os seus Anjos,
e então dará a cada um segundo as suas obras».
Imediatamente após a confissão de fé de Pedro, este Evangelho confronta-nos com o choque entre a lógica do poder humano e a sabedoria da cruz. Jesus revela que o Seu caminho messiânico passa pelo sofrimento e pela entrega da vida, repreendendo duramente Pedro por tentar desviá-lo da vontade do Pai. Ao traçar indicar os critérios de vida para os seus discípulos, Jesus ensina que a vida só é plenamente encontrada quando é doada por amor.
Compreender a Palavra
– O texto da primeira leitura faz parte da quinta e última “confissão” do profeta Jeremias. As confissões são textos autobiográficos onde o profeta revela as suas lutas interiores: nesta, em particular, manifesta a tensão entre a fragilidade humana e a força irresistível da vocação.
O profeta fala de «sedução», uma força irresistível usada por Deus para o convencer a aceitar a missão. Jeremias sente-se, de certa forma, enganado; pois nas palavras que o Senhor lhe dirigiu no momento do convite, não se adivinhava que a missão viria a ser tão difícil e dolorosa como realmente é. O profeta reconhece que Deus foi mais forte: «vós me seduzistes, Senhor, e eu deixei-me seduzir; fostes mais fortes do que eu e vencestes». Aquele que Deus toca fica vencido; deixa de pertencer a si mesmo e passa a dedicar-se exclusivamente à missão.
A causa do sofrimento do profeta é a natureza da palavra que ele é chamado a anunciar: «sempre que falo é para gritar e proclamar: “violência e ruína!”». Se anunciasse boas notícias, a sua vida seria mais tranquila e não seria alvo de chacota. Contudo, a realidade é outra: «sou objeto de escárnio, toda a gente se ri de mim». Sente-se ridicularizado e ultrajado na sua dignidade por causa da Palavra de Deus: «a palavra do Senhor tornou-se para mim ocasião permanente de insultos e zombarias».
Diante disso, ele toma uma decisão firme: «não voltarei a falar nele!». No meio do sofrimento, o profeta crê que encontrará paz se desistir da missão. No entanto, a Palavra de Deus é como um fogo que arde até aos ossos e que ele não consegue conter. O sofrimento que sente ao reprimir a Palavra é mais doloroso do que suportar o escárnio da multidão.
– O Salmo 62 é reconhecido como um salmo místico de forte componente existencial. O salmista sente-se como uma «terra árida, sequiosa, sem água». Não se trata de uma sede física, mas de uma sede de Deus. É todo o seu ser que experimenta a ausência do Senhor: «a minha alma tem sede de vós, o meu corpo vos deseja». Sem Deus, o homem definha, tal como se morre de sede num deserto.
No meio desta ausência, o salmista vive das experiências passadas, de quando subia ao Templo do Senhor «para vos contemplar». Este passado é o alimento do presente, nutrindo a esperança de poder voltar a ver a Glória do Senhor. Para o orante, uma existência sem Deus não tem valor nem significado; é carente de razão, pois, como afirma: «a vossa graça vale mais que a vida».
No dia em que for possível o pleno reencontro com Deus, o salmista antecipa: «A minha alma será saciada como de finos manjares». Poderá, então, elevar as mãos em sinal de louvor. Entretanto, ele refugia-se à «sombra das vossas asas» e procura manter-se intimamente unido ao Senhor: «A minha alma está unida a vós».
– O texto da segunda leitura, tem início a segunda parte da Carta aos Romanos, marcada por uma profunda exortação à vida cristã. Paulo começa com um apelo aos romanos para que respondam adequadamente à Misericórdia de Deus, oferecendo a própria vida como sacrifício. Trata-se de um sacrifício que não implica a morte física, mas a vida quotidiana vivida segundo o Evangelho. É, nas palavras do Apóstolo, um «culto espiritual» que transcende os rituais externos e se realiza na obediência a Deus.
Esta resposta sacrificial exige uma renúncia à mentalidade do mundo, de modo a permanecer fiel ao Senhor através da renovação da mente. Trata-se de aprender a ver como Deus vê. Desta forma, toda a realidade passa a ser alvo de um discernimento constante, para distinguir o que é bom, agradável e perfeito aos olhos da Deus, separando-o daquilo que é contrário à sua vontade.
– Após a confissão de fé de Pedro, Mateus apresenta o primeiro anúncio da Paixão. Com ele, Jesus dá início à apresentação do caminho do discípulo que segue o Mestre até à cruz. A vida de Jesus é apresentada pelo evangelista como uma correspondência permanente ao projeto de Deus. Por essa razão, afirma-se que Jesus «tinha de» ir, não por fatalidade, mas para ser fiel à vontade do Pai. Jesus tem plena consciência do que acontecerá em Jerusalém: «vai sofrer, ser morto e ressuscitar».
Pedro, que tinha acabado de ser considerado «feliz», reage ao anúncio do sofrimento em sentido contrário à vontade do Pai. Para ele, a felicidade não passa pela cruz. Contudo, Jesus não pode permitir que o espírito do mundo entre no grupo dos Seus e influencie o rumo da sua vida; por isso, coloca Pedro no seu lugar: «vai para trás de mim!». O lugar do discípulo é atrás do Mestre, pois é Jesus quem determina o caminho. Pedro, naquele momento, não vê como Deus, mas segundo a mentalidade do mundo.
Jesus expõe, então, os critérios de vida do verdadeiro discípulo: renuncia a si mesmo para centrar a vida no Mestre; aceita da cruz e as consequências da fidelidade ao Evangelho; e segue-o, imitando os seus passos. Esta opção é oposta à do mundo, e Jesus torna-o claro ao afirmar que, para ganhar, é preciso perder. Proteger-se ou guardar-se por medo de arriscar é perder o próprio sentido da existência. É uma visão medíocre da realidade, uma incapacidade de discernimento que avalia mal o valor das coisas: diante da vida eterna, todos os bens temporais são insignificantes.
Meditar a Palavra
Ainda soam aos nossos ouvidos as palavras que, no domingo passado, Jesus disse a Pedro: «és feliz, Simão!», depois de este ter confessado a sua filiação divina. A verdade é que não demorou muito para que Pedro revelasse não estar ainda preparado para assumir o desafio que a fé em Jesus implica. Parece-nos ver nele a mesma desilusão sentida pelo profeta Jeremias.
Jesus fala, pela primeira vez, da sua Paixão, morte e ressurreição, e Pedro revela-se incapaz de aceitar o desprestígio que isso significa. Por isso, reage intempestivamente, querendo impor a Jesus um outro final: «Deus te livre de tal, Senhor! Isso não há de acontecer!». De «rocha» segura, na qual todos podem confiar, Pedro transforma-se em pedra de tropeço que tenta impedir o Senhor de seguir pelo caminho da vontade do Pai. Por essa razão, escuta de Jesus as palavras mais severas de todo o Evangelho: «vai-te daqui, Satanás!».
Entre Jesus e Pedro existe uma distância infinita: Jesus pensa como o Pai e Pedro pensa como o mundo. Na lógica de Pedro, sofrer e morrer não faz sentido; na lógica de Jesus, esse é o caminho para a verdadeira vida. Para Pedro, a Paixão é um escândalo; para Jesus, é salvação. Pedro não age por mal, mas o seu modo de pensar não faz bem, porque não tem em conta a vontade divina, «o que é bom, o que agrada a Deus, o que é perfeito». Ele ainda não se deixou renovar ao ponto de discernir que «quem quiser salvar a sua vida há de perdê-la» e «quem perder a sua vida por Minha causa, há de encontrá-la». Ainda não entendeu que a sua vida deve, como a de Jesus, estar ao serviço da salvação, o que implica oferecer-se a si mesmo como sacrifício vivo, como ensina Paulo aos romanos.
Por vezes, pensamos que esta lógica da vida como sacrifício é apenas para alguns, para Cristo e para uns poucos eleitos. Mas Jesus faz questão de ensinar que o caminho é para todos os que querem ser Seus discípulos. Não se pode ganhar o mundo inteiro e, simultaneamente, ganhar a vida; é preciso escolher o que tem mais valor: o mundo ou a vida eterna. Os discípulos de Cristo colocam em primeiro lugar as «coisas de Deus», e isso implica renunciar a si mesmos, tomar a sua cruz e seguir o Mestre.
Esta disponibilidade só faz sentido quando se compreende que a vida vivida para si mesmo, na busca egoísta da própria segurança, acaba por se esvaziar. Pelo contrário, a vida que se «perde» por amor a Cristo e aos outros é a única vida com sentido. Tal opção pode ser alvo de incompreensão e chacota, como sucedeu com Jeremias, mas conhecer a vontade do Pai e não a pôr em prática provoca um sofrimento ainda maior. Como o próprio profeta revela: «havia no meu coração um fogo ardente, comprimido dentro dos meus ossos. Procurava contê-lo, mas não podia».
Tentar apagar este fogo é travar uma luta desigual, porque Deus é mais forte e não cede. Ele quer dar-nos o bem maior: a renovação da nossa mente, para que queiramos o que ele quer e sigamos pelo único caminho que sacia a sede mais profunda do nosso coração, que é a sede de Deus.
Rezar a Palavra
Senhor Jesus, ajuda-nos a superar a lógica do mundo que foge do sacrifício, para que não sejamos pedras de tropeço, mas discípulos que pensam segundo o teu coração. Concede-nos a coragem de renunciar ao egoísmo e de tomar a nossa cruz, compreendendo que só quem perde a vida por teu amor a encontrará verdadeiramente. Renova a nossa mente para discernirmos a tua vontade e que o teu Espírito seja em nós esse fogo ardente que não podemos conter, impulsionando-nos ao serviço e à entrega. Ámen.
Compromisso semanal
Renovo em mim a alegria inicial com que decidi seguir Jesus como seu discípulo sem reservas nem condições.






