Saciar-vos-ei de pão
Na sua mesa, havia sempre um pedaço de pão. Todos os dias, renovava com pão fresco o pedaço que sobrara da véspera se, por acaso, não tivesse aparecido ninguém a precisar de se sentar à mesa.
Sentia alegria por poder dar o pouco que tinha; e sentia alegria, também, quando comia o pedaço da véspera, sinal de que ninguém tinha passado necessidade. Nos seus olhos, havia abundância; e nas suas mãos, sempre abertas, o pão de cada dia.
LEITURA I Is 55, 1-3
Eis o que diz o Senhor:
«Todos vós que tendes sede, vinde à nascente das águas.
Vós que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei.
Vinde e comprai, sem dinheiro e sem despesa, vinho e leite.
Porque gastais o vosso dinheiro naquilo que não alimenta
e o vosso trabalho naquilo que não sacia?
Ouvi-Me com atenção e comereis o que é bom;
saboreareis manjares suculentos.
Prestai-Me ouvidos e vinde a Mim;
escutai-Me e vivereis.
Firmarei convosco uma aliança eterna,
com as graças prometidas a David.
Deus apresenta-Se ao Seu povo como o anfitrião que nos convida a participar num banquete, onde podemos saciar a nossa sede mais profunda. Aceitar este convite significa confiar que o vinho e o leite que Ele oferece gratuitamente valem mais do que tudo o que podemos adquirir com o nosso esforço e o nosso dinheiro. Para participar, basta escutar e confiar.
Salmo 144 (145), 8-9.15-16.17-18 (R. cf. 16)
O Salmo canta a bondade de Deus para com todas as criaturas. Ele é clemente e compassivo, paciente e misericordioso. Na Sua bondade, está próximo de todos e abre a todos, generosamente, as Suas mãos, para saciar a fome de todos os seres vivos.
LEITURA II Rm 8, 35.37-39
Irmãos:
Quem poderá separar-nos do amor de Cristo?
A tribulação, a angústia, a perseguição,
a fome, a nudez, o perigo ou a espada?
Mas em tudo isto somos vencedores,
graças Àquele que nos amou.
Na verdade, eu estou certo de que nem a morte nem a vida,
nem os Anjos nem os Principados,
nem o presente nem o futuro,
nem as Potestades nem a altura nem a profundidade,
nem qualquer outra criatura
poderá separar-nos do amor de Deus,
que se manifestou em Cristo Jesus, Nosso Senhor.
Paulo afirma a vitória de Jesus sobre todas as forças adversas que nos poderiam impedir de permanecer no Amor de Cristo. Vencidas todas as adversidades por «Aquele que nos amou», já nada nem ninguém nos pode separar de Cristo e do Seu amor. A nossa união a Cristo é indestrutível, graças àquele que nos amou primeiro.
EVANGELHO Mt 14, 13-21
Naquele tempo,
quando Jesus ouviu dizer que João Batista tinha sido morto,
retirou-Se num barco para um local deserto e afastado.
Mas logo que as multidões o souberam,
deixando as suas cidades, seguiram-n’O por terra.
Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão
e, cheio de compaixão, curou os seus doentes.
Ao cair da tarde, os discípulos aproximaram-se de Jesus
e disseram-Lhe:
«Este local é deserto e a hora avançada.
Manda embora toda esta gente,
para que vá às aldeias comprar alimento».
Mas Jesus respondeu-lhes:
«Não precisam de se ir embora; dai-lhes vós de comer».
Disseram-Lhe eles:
«Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes».
Disse Jesus: «Trazei-mos cá».
Ordenou então à multidão que se sentasse na relva.
Tomou os cinco pães e os dois peixes,
ergueu os olhos ao Céu e recitou a bênção.
Depois partiu os pães e deu-os aos discípulos,
e os discípulos deram-nos à multidão.
Todos comeram e ficaram saciados.
E, dos pedaços que sobraram, encheram doze cestos.
Ora, os que comeram eram cerca de cinco mil homens,
sem contar mulheres e crianças.
Num gesto que nos recorda a Eucaristia, como sacramento onde saciamos a fome de Deus, Jesus desafia os discípulos a acreditar que é possível, se partilharmos o pouco que somos e temos, saciar a fome a toda a humanidade. Os verdadeiros milagres não acontecem por magia, nem por capacidade económica ou técnica; acontecem pela disponibilidade de colocar todo o nosso ser ao serviço da Vontade de Deus. E Ele, que é generoso, faz acontecer o que para nós é impossível.
Compreender a Palavra
Ao povo desanimado e prestes a desistir do regresso de Babilónia — tentado a render-se à vida de exilado —, Isaías convida a participar no banquete da aliança eterna que Deus quer fazer com ele: «Vinde, comprai, comei». A vida em abundância que Israel via com os seus olhos na sociedade babilónica era uma ilusão perante a abundância de Deus.
Os dons de Deus possuem um valor que o homem não pode pagar; por isso, se diz: «Vinde e comprai, sem dinheiro e sem despesa». Os dons de Deus só podem ser recebidos como graça, pois são absolutamente gratuitos. Que dons são estes? A Água que sacia (e não apenas a água da sobrevivência) e o Vinho e o Leite, símbolos da Terra Prometida, onde o povo entrará quando o próprio Senhor o libertar do exílio.
Cansado de esperar, o povo deixa-se seduzir pela vida em Babilónia, pela sua cultura e idolatria. Por isso, o profeta insiste: «Porque gastais o vosso dinheiro naquilo que não alimenta?». O vazio que sentem no seu interior não se preenche com ilusões nem com falsas seguranças.
O profeta, em nome de Deus, convida o povo: «Ouvi-Me com atenção», «Prestai-Me ouvidos», «Escutai-Me». A Palavra de Deus é o verdadeiro alimento da esperança. Na Sua Palavra, o Senhor renova a aliança feita a David, alargando-a a todo o povo. Se atenderem à Voz do Senhor, poderão «comer o que é bom, saborear manjares suculentos» e viver para testemunhar o Seu poder diante das nações.
O Salmo, construído em forma alfabética, é um hino de louvor a Deus pelos Seus atributos e pelas Suas obras. Deus é Rei do Seu povo e de todos os povos da terra. Ele é grande e digno de louvor; a Sua grandeza é insondável e a Sua majestade, esplendorosa.
Apesar da Sua grandeza, Ele é um Deus próximo, que está perto de todos os que O invocam. É um Deus clemente e compassivo, paciente, misericordioso e justo; é bom e faz tudo com ternura. Ele ergue os que caem, reanima os abatidos, dá alimento aos que têm fome e abre as mãos generosamente.
Na Carta aos Romanos, Paulo anima os que vivem no meio de uma sociedade pagã e experimentam toda a espécie de obstáculos à fé em Jesus. O texto começa com uma interrogação fundamental: «Quem poderá separar-nos do amor de Cristo?». Segue-se uma série de sete obstáculos muito concretos — que o próprio Apóstolo experimentou — e que poderiam ser invocados como razões para alguém se afastar do Senhor: tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo e espada.
Na resposta, Paulo deixa claro que a nossa união a Cristo não depende do nosso amor vacilante, mas do Seu amor inabalável por nós; por isso, não há nada a temer pois ninguém nos pode separar d’Ele: «Em tudo isto somos vencedores, graças n’Aquele que nos amou». Graças ao Seu amor, é possível manter a união com Cristo, apesar das situações de sofrimento a que estamos sujeitos. Somos, por isso, antecipadamente vencedores.
Se somos vencedores perante as forças negativas deste mundo, somo-lo também em relação às forças cósmicas, que o Apóstolo organiza em pares e hierarquias: «Morte e Vida», «Presente e Futuro», «Anjos, Principados e Potestades», «Altura e Profundidade». Cristo está acima de todas estas forças.
Depois da morte de João Batista, Mateus refere que os seus discípulos foram informar Jesus do sucedido. «Tendo ouvido isto», Jesus faz o que entendemos como natural: retira-Se «para um lugar deserto», tal como fizera ao receber a notícia da prisão de João. Jesus compreende na sorte de João a Sua própria sorte; contudo, não foge, mas aproveita o isolamento para discernir os passos a dar de acordo com a Vontade de Deus.
No silêncio do deserto, a resposta de Deus não se faz esperar. Como no Êxodo, uma multidão caminha a pé pelo deserto e ocupa o silêncio de Jesus. Qual novo Moisés, movido pela compaixão, Jesus é chamado a curar e a dar à multidão o alimento necessário, consciente da Sua missão messiânica.
Diante da realidade de estarem num lugar deserto e com a multidão faminta, os discípulos tomam a iniciativa: «Manda embora toda esta gente, para que vá às aldeias comprar alimento», dizem a Jesus. Esta, que parecia a solução lógica, é apenas o despertar de uma oportunidade que eles ainda não veem, mas que Jesus já discerniu. É possível saciar toda aquela gente: «Dai-lhes vós de comer». Mas como, se apenas têm cinco pães e dois peixes? Ao reconhecerem a pobreza do pouco que possuem, os discípulos abrem as portas para a ação de Deus, para quem nada é impossível.
Neste episódio, Mateus evoca não apenas o maná do deserto, onde o Senhor diz ao povo: «Saciar-vos-eis de pão e conhecereis que Eu sou o Senhor» (Ex 16, 12), mas também a partilha realizada por Eliseu num tempo de fome (2Reis 4, 42-44), usando os vinte pães de cevada das primícias para saciar a fome a cem pessoas. A desproporção aqui é ainda maior: com Eliseu era de vinte para cem; com Jesus é de cinco para cinco mil. Eliseu confiou e disse: «Comerão e ainda sobrará»; Mateus revela a confiança de Jesus quando narra que Ele «ergueu os olhos ao Céu e recitou a bênção». O resultado dessa entrega é visível: «Todos comeram e ficaram saciados. E, dos pedaços que sobraram, encheram doze cestos». Cumpriu-se, assim, a Palavra de Deus: «Vós abris, Senhor, as Vossas mãos e saciais a nossa fome».
Meditação da Palavra
O resultado da generosidade de Deus é incomparável ao resultado do esforço humano. Deus abre as Suas mãos e sacia generosamente todos os seres vivos; o Seu alimento tem o poder de saciar os anseios mais profundos — mesmo aqueles de que já nos desiludimos, por nos sentirmos incapazes de acreditar na sua concretização.
Não são poucas as vezes em que nos sentimos como Israel no exílio, rendidos às condições em que nos encontramos: ora porque as nossas decisões erradas nos empurraram para ali, ora porque o poder dos mais fortes nos fez recuar, ou simplesmente porque a vida nos obrigou a seguir esse caminho. Por vezes, acreditamos ser impossível que algo aconteça e nos faça sair do fosso da desesperança.
Como os cristãos de Roma, sentimos que o ambiente e as forças cósmicas estão contra nós e nos impedem de permanecer firmes na fé. Tudo parece concorrer para nos afastarmos de Deus, para nos desligarmos do Amor de Cristo, para nos calarmos diante do mundo e nos reduzirmos à nossa experiência interior, no silêncio de nós mesmos. Esquecemos, porém, que já somos vencedores em Cristo. Graças ao Seu amor inabalável, também somos vitoriosos. Em nós, assiste-nos a fraqueza e a incapacidade de permanecer; mas a nossa segurança está naquele que nos amou primeiro, e não em nós mesmos.
Confiar que Deus, quando abre as Suas mãos, tem para nós o pão, a água, o vinho e o leite que saciam mais do que tudo o que conseguimos com o nosso esforço, é o segredo para atravessarmos o deserto ao Seu encontro. Ali, onde todos somos igualmente famintos e não esperamos de mais ninguém o alimento que sacia a sede que trazemos dentro de nós, só nos resta erguer os olhos ao Céu e esperar pela bondade de Deus.
E não ficamos desiludidos. Se os homens não compreendem que na partilha está a solução para a fome do mundo, Deus faz acontecer, com o pouco que somos e temos colocado nas mãos de Jesus, o milagre de que precisamos: a alegria de sermos saciados pelo verdadeiro alimento, o Pão Descido do Céu. Nas Suas mãos, o pão partido, abençoado e distribuído tem o sabor da eternidade, onde a mesa está sempre posta.
Rezar a Palavra
«Dai-lhes vós de comer». O Teu desafio, Senhor, desperta todos os sentidos da minha alma. Ao olhar a imensidade do mundo, sinto-me insignificante; quando analiso os dramas da humanidade, sinto-me impotente; quando escuto os desabafos dos irmãos, fico paralisado.
O que fazer, Senhor, se tudo é maior do que eu? Deixa que Te entregue o pouco que sou, para que, comigo, possas repartir por todos o que a cada um é mais urgente, e que assim, Assim, a minha vida se encha da Tua bondade. Ámen.
Compromisso semanal
Coloco o meu pão de cada dia nas mãos de Jesus para que ele abençoe, e reparta por todos.






