Terça-feira da Semana II do Tempo da Quaresma

Isaías 1, 10.16-20

Escutai a palavra do Senhor, chefes de Sodoma; dai ouvidos à lei do nosso Deus, povo de Gomorra: «Lavai-vos, purificai-vos, afastai dos meus olhos a malícia das vossas ações, deixai de praticar o mal e aprendei a fazer o bem. Respeitai o direito, protegei o oprimido, fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva. Vinde então para discutirmos as nossas razões, – diz o Senhor. Ainda que os vossos pecados sejam como o escarlate, ficarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como a púrpura, ficarão brancos como a lã. Se fordes dóceis e obedientes, comereis os bens da terra. Mas se recusardes e fordes rebeldes, sereis devorados pela espada». Assim falou a boca do Senhor.

Compreender a Palavra

O povo chegou a uma situação de vazio diante de Deus. Realizam sacrifícios e holocaustos, oferecem cordeiros e bois, realizam assembleias e reuniões mas têm as mãos manchadas do sangue dos pobres e dos oprimidos. De facto, Deus recusa-se a aceitar estes sacrifícios enquanto eles não significarem a justiça para com os pobres, as viúvas e os órfãos. O culto sem a justiça social não significa nada aos olhos de Deus. Muitos oprimiam os pobres, exploravam os fracos e vinham depois oferecer sacrifícios a Deus. A resposta de Deus, através do profeta, é um chamamento à conversão: “deixai de praticar o mal e aprendei a fazer o bem. Respeitai o direito, protegei o oprimido, fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva. Vinde então para discutirmos as nossas razões”. O auxílio aos oprimidos abre as portas da misericórdia divina. Por isso, “Ainda que os vossos pecados sejam como o escarlate, ficarão brancos como a neve”.

Meditar a Palavra

Hoje como ontem, o coração de Deus bate ao ritmo do lamento dos pobres e oprimidos. Prestar culto a Deus há de significar aprender a misericórdia porque de nada servem os atos religiosos, os sacrifícios, penitências e renúncias, se não significarem a ação libertadora dos oprimidos. A oração é importante, a celebração litúrgica é até imprescindível mas têm que ser consequência do bem realizado em favor dos últimos, dos esquecidos e dos marginalizados. A fé tem uma responsabilidade social que não pode ser esquecida nem camuflada pelas práticas religiosas. Converter-se significa vencer a indiferença e abrir o coração aos irmãos. 

Rezar a Palavra

“Lavai-vos”. Esta é a tua palavra para hoje, Senhor. O meu afastamento dos irmãos, as mãos fechadas para o pobre, o coração esquecido dos que sofrem, essa é a injustiça de que falas e que esvazia as minhas orações, as minhas celebrações, o culto que pratico. Lava-me, purifica-me, ensina-me a misericórdia para que meus pecados sejam lavados no bem que faço aos meus irmãos.

Compromisso

Hoje quero tocar a carne daquele que sentem na pele a injustiça dos homens para nele me encontrar com a misericórdia de Deus.


Evangelho: Mt 23, 1-12

Naquele tempo, Jesus falou à multidão e aos discípulos, dizendo: «Na cadeira de Moisés sentaram-se os escribas e os fariseus. Fazei e observai tudo quanto vos disserem, mas não imiteis as suas obras, porque eles dizem e não fazem. Atam fardos pesados e põem-nos aos ombros dos homens, mas eles nem com o dedo os querem mover. Tudo o que fazem é para serem vistos pelos homens: alargam as filactérias e ampliam as borlas; gostam do primeiro lugar nos banquetes e dos primeiros assentos nas sinagogas, das saudações nas praças públicas e que os tratem por ‘Mestres’. Vós, porém, não vos deixeis tratar por ‘Mestres’, porque um só é o vosso Mestre e vós sois todos irmãos. Na terra não chameis a ninguém vosso ‘Pai’, porque um só é o vosso pai, o Pai celeste. Nem vos deixeis tratar por ‘Doutores’, porque um só é o vosso doutor, o Messias. Aquele que for o maior entre vós será o vosso servo. Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado».

Compreende a Palavra

Jesus recomenda à multidão e aos discípulos o cumprimento do que está prescrito na Lei de Moisés exigido, agora, pelos escribas e fariseus. Mas recomenda simultaneamente a verdade na acção. Que as palavras correspondam às acções e estas revelem perfeita adesão às palavras. Esta verdade é interior e profunda e não mera fachada ou aparência. Não se trata de um título que se traz ao peito mas de uma vida encarnada na humildade e no serviço. 

Meditar a Palavra

Fixo-me facilmente no exterior, na aparência, nas vestes, na posição social, nos títulos que identificam as pessoas. Desejo muitas vezes esta importância que é dada aos homens. Dá gosto ser importante e receber o trato correspondente. A humildade não parece atrair mas é o que Jesus me propõe hoje. Nada de títulos honoríficos, nada de vestes deslumbrantes, nada de lugares de relevo. Se quero ser o maior tenho que me tornar servo, se quero ser exaltado tenho que me humilhar. Preciso de aprender a alegria do serviço e da humilhação.

Segunda-feira da Semana II do Tempo da Quaresma

Daniel 9, 4b-10

Senhor, Deus grande e terrível, que sois fiel à aliança e à misericórdia para com os que Vos amam e observam os vossos mandamentos! Nós pecámos, cometemos injustiças e iniquidades, fomos rebeldes, afastando-nos dos vossos mandamentos e preceitos. Não escutámos os profetas, vossos servos, que em vosso nome falavam aos nossos reis, aos nossos chefes e antepassados e a todo o povo da nação. Em Vós, Senhor, está a justiça; em nós recai a vergonha que sentimos no rosto, como sucede neste dia aos homens de Judá, aos habitantes de Jerusalém e a todo o Israel, aos que estão perto e aos que estão longe, em todos os países para onde os dispersastes por causa das infidelidades que contra Vós cometeram. Sobre nós, Senhor, recai a vergonha que sentimos no rosto, sobre os nossos reis, chefes e antepassados, porque pecámos contra Vós. No Senhor, nosso Deus, está a misericórdia e o perdão, porque nos revoltámos contra Ele e não escutámos a voz do Senhor, nosso Deus, seguindo as leis que nos dava por meio dos profetas, seus servos.

Compreender a Palavra

O livro de Daniel situa-nos num ambiente de grande sofrimento provocado pela dispersão do povo que foge das perseguições ou é levado para o exílio de Babilónia. O capítulo nove apresenta, em concreto, uma oração na qual se descreve a situação geral de calamidade e em que o autor se mostra em comunhão com todo o povo. Ao contrário do que poderia ser previsível, a culpa dos acontecimentos dramáticos não é atribuída a Deus mas ao pecado do povo. Deus é grande e terrível, fiel e misericordioso, mas o povo não deixou a Deus outra alternativa, porque o povo pecou, foi infiel, injusto e rebelde e não escutou a voz dos profetas. Deus, pelo contrário, é misericórdia e perdão.

Meditar a Palavra

A situação do povo retratada por Daniel é bem a situação de cada um de nós. Pecadores a necessitar de conversão neste tempo de Quaresma, percebemos, ao escutar atentamente a voz de Deus, que as nossas decisões ultrapassaram todos os limites do razoável e colocámos Deus numa situação difícil, entre a sua misericórdia e a nossa rebeldia. Precisamos enfrentar a realidade, reconhecer os nossos pecados, não sacudir as culpas para cima dos outros nem da situação geral, como se fossemos inocentes. É tempo de assumir a nossa culpa, pessoal e coletiva, perceber a profundidade e extensão do nosso pecado, para que a misericórdia de Deus venha sobre nós e nos salve. O primeiro passo é mesmo ouvir a voz de Deus que fala nos profetas.

Rezar a Palavra

“Senhor, pequei contra o céu e contra ti, já não mereço ser chamado teu filho, trata-me como um dos teus trabalhadores”. Como pródigo, maltratado pelas minhas decisões erradas, despojado da dignidade pelas opções de liberdade assumida, em solidão por causa da minha obsessão em viver só para mim, vejo-me caído, faminto, despojado e desprotegido. Caminho para ti cansado. Nem sempre convicto de que quero voltar, nem sempre certo de que vou ser recebido, abraçado, beijado por ti, Senhor. Dá-me vontade e coragem para enfrentar o teu olhar. Pequei, abandonei o teu amor, desviei-me dos teus mandamentos… tem piedade de mim, Senhor.

Compromisso

Preciso de fazer com urgência um exame de consciência que me coloque diante do olhar de Deus.

 


Evangelho: Lc 6, 36-38

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso. Não julgueis e não sereis julgados. Não condeneis e não sereis condenados. Perdoai e sereis perdoados. Dai e dar-se-vos-á: deitar-vos-ão no regaço uma boa medida, calcada, sacudida, a transbordar. A medida que usardes com os outros será usada também convosco».

Compreender a Palavra

Jesus adverte os seus discípulos para uma disciplina de vida. Quem quiser identificar-se com o coração do Pai tem que ser misericordioso como Ele. O hábito da crítica condenatória não destrói apenas o outro mas volta-se contra nós, porque receberemos na medida do que dermos aos outros. Por isso, Jesus aconselha a ser misericordioso, a perdoar e a repartir, se queremos ser tratados com benevolência.

Meditar a Palavra

A mesma medida, diz Jesus aos seus discípulos. A consciência de que recebo na medida em que dou e a partir daquilo que dou. Gasto a minha vida com críticas, julgamentos, condenações, receberei críticas, julgamentos e condenações. Gasto a minha vida a perdoar e a repartir, receberei perdão e verei as minhas mãos encherem-se de dádivas. Cem vezes mais promete Jesus e cem vezes mais posso eu experimentar na realidade

Rezar a Palavra

Não me julgues, Senhor, pelos meus pecados. Não recordes as minhas faltas. Na minha miséria vem em meu auxílio com a tua misericórdia e salva-me perdoando os meus pecados. Que eu possa estar na tua presença com tranquilidade de coração e encontrar em ti acolhimento e aprender de ti que és manso e humilde de coração, sempre pronto a compadecer-te de mim.

Compromisso

Hoje, quero experimentar a grandeza da misericórdia usando de misericórdia para com os irmãos que me tornam a vida mais difícil.

Enquirídio dos Documentos da Reforma Litúrgica

Enquirídio dos Documentos da Reforma Litúrgica

 

Há muito que se pensava na publicação dum volume com os principais documentos da reforma litúrgica. Em 1998 publicámos o Enquirídio dos Documentos da Reforma Litúrgica [EDREL] na intenção de servir em primeiro lugar os professores e alunos de liturgia, e de maneira mais alargada a pastoral litúrgica a todos os níveis. Dezasseis anos volvidos sobre a primeira edição, entretanto esgotada, foi com alegria e sentido de serviço à Santa Mãe Igreja e à sua Liturgia, que preparámos esta segunda edição.

É sabido que, após a promulgação da Constituição Sacrosanctum Concilium, teve início uma grande reforma da liturgia romana, concretizada nos livros litúrgicos actuais e nas muitas centenas de documentos, publicados numa primeira fase pelo «Consilium» e posteriormente pela Congregação do Culto Divino.

O acesso aos livros litúrgicos não é difícil. Basta procurá-los, por exemplo, em cada igreja paroquial. Mas já não pode dizer-se o mesmo em relação a outros documentos, dispersos por várias publicações, e alguns deles nunca traduzidos nem publicados entre nós. O Enquirídio vem proporcionar o seu conhecimento, facilitar a leitura e tornar mais cómoda a consulta, pois reúne, num único volume, a documentação fundamental da reforma.

Dada a extensão dos documentos, e para tornar mais fácil o modo de os citar e a procura dos temas, pôs-se uma numeração seguida à margem e organizou-se um índice analítico que esperamos venha a ser uma boa ajuda na consulta do Enquirídio.

Esta segunda edição tem diferenças tão grandes em relação à anterior, que bem se lhe pode chamar “nova”:
a) os documentos vão ordenados por datas de publicação, desde a Constituição sobre a sagrada Liturgia, do Vaticano II (04-12-1963), à Exortação Apostólica A alegria do Evangelho, do Papa Francisco (24-11-2013);
b) a primeira edição incluía noventa e dois títulos, a segunda duzentos e vinte e oito;
c) os respectivos números de referência ao longo de todo o livro passaram de 3657 para 6874 e as páginas de 1184 para 2480;
d) o texto de grande parte dos novos documentos foi expressamente traduzido ou preparado para esta edição;
e) dada a importância que a Constituição Sacrosanctum Concilium tem para a Liturgia, fez-se uma nova tradução, simultaneamente fiel ao original e em linguagem agradável e clara;
f) actualizaram-se os dados estatísticos referentes aos livros litúrgicos entretanto reeditados ou reimpressos, quer em latim quer em português;
g) procurou melhorar-se a apresentação gráfica de cada página do novo Enquirídio;
h) completou-se o índice analítico com as novas referências que se impunham, mas simplificando-as;
i) eliminaram-se, por terem deixado de se justificar, as Tabelas de concordância entre a numeração do Edrel e do Edil.

Resta-nos agradecer particularmente ao Padre Sebastião Faria, S.J., que traduziu grande parte dos novos textos seleccionados, ao Padre Pedro Lourenço Ferreira, OCD, Director do Secretariado Nacional de Liturgia, pela confiança que em nós depositou, ao colega que, de Roma, nos sugeriu a inclusão de documentos de interesse, mas que, por falta de atenção, teriam ficado esquecidos, e ao Delfim Machado, que paginou a obra e nela trabalhou com gosto e afinco inexcedível.

Aos futuros leitores e utilizadores deste livro desejamos que nele encontrem respostas esclarecedoras ao que aí procurarem. A sua preparação deu-nos muito prazer, por pensarmos no serviço que poderá prestar aos que amam a Liturgia, a celebram, a estudam ou por ela se interessam. Foram precisos milhares de horas para levar a cabo este trabalho, na primeira e agora nesta segunda edição. A liturgia, que é actualização permanente das bênçãos de Deus Pai, exercício da função sacerdotal de Cristo (SC 7) e pedagogia com que o Espírito conduz o povo de Deus à santidade, merece tudo isso e muito mais.

 

José de Leão Cordeiro

 

Sábado da Semana I do Tempo da Quaresma

DEUTERONÓMIO 26, 16-19

Moisés falou ao povo, dizendo: «O Senhor, teu Deus, ordena-te hoje que cumpras estas leis e mandamentos. Tu os guardarás e cumprirás com todo o teu coração e com toda a tua alma. Hoje obtiveste a promessa do Senhor de que Ele seria o teu Deus; e tu deves seguir os seus caminhos, cumprindo os seus mandamentos, leis e preceitos, e escutando a sua voz. E hoje o Senhor obteve de ti a promessa de que serás o seu povo, como Ele tinha declarado, e cumprirás os seus mandamentos. Ele te elevará pela glória, fama e esplendor, acima de todas as nações que formou, e serás um povo consagrado ao Senhor, teu Deus, como Ele prometeu.

 

Compreender a Palavra

A ideia geral do texto contém o fundamental da relação de Deus com o seu povo: cumprirás os mandamentos, eu serei o teu Deus e tu serás o meu povo. Esta relação, assente na obediência a Deus e na solicitude de Deus pelo seu povo será razão de glória, prestígio e fama. Esta é a grande promessa que Deus faz ao seu povo e que ele cumprirá.

Meditar a Palavra

“O Senhor teu Deus ordena-te hoje…”. Com esta afirmação inicial o texto de Deuteronómio torna-se uma palavra actual. Deus fala-me, hoje, a mim. A sua palavra é uma ordem porque ele, o Senhor, cumpre as suas promessas e espera que eu cumpra a minha parte. Eu sou aquele que pode falhar, também sou o súbdito, o servo, por isso, é  o Senhor quem ordena e eu quem obedece. Hoje, a promessa é entre mim e o Senhor, pelo que o Deus de Moisés, o Deus de Israel, é também o meu Deus. Alvo da promessa de Deus sou chamado a seguir os seus caminhos, a cumprir os seus mandamentos, leis e preceitos e a escutar também eu a voz do Senhor. Este é o caminho da glória e da fama. Não por mim mas porque o Senhor, meu Deus, que me aceitou como seu “povo” me eleva acima da minha condição e me faz sua propriedade, quer dizer, da sua condição divina. Eu também sou “Povo de Deus”.

 

Rezar a Palavra

Tu, Senhor, elevas-me acima da minha pequenez e revelas em mim o teu poder divino pela escolha que fizeste para pertencer-te. Por mim nada sou entre todos os homens, entre todos os povos. Mas tu olhaste para mim, enamoraste-te da minha pobreza e fizeste-me sentar entre os grandes. Aos olhos dos poderosos manifestaste em mim o teu poder e diante dos ricos mostraste a tua riqueza que é misericórdia e perdão. Ensina-me os teus caminhos e mostra-me os teus mandamentos para que se cumpra sempre em mim a tua promessa.

 

Compromisso

Vou escutar a voz do Senhor para seguir os seus caminhos.

Sexta-feira da Semana I do Tempo da Quaresma

Ezequiel 18, 21-28

Assim fala o Senhor Deus: «Se o pecador se arrepender de todas as faltas que cometeu, se observar todos os meus mandamentos e praticar o direito e a justiça, certamente viverá e não morrerá. Não lhe serão lembrados os pecados que cometeu e viverá por causa da justiça que praticou. Será porventura a morte do pecador que Me agrada? – diz o Senhor Deus – Não é antes que se converta do seu mau proceder e viva? Mas se o justo se desviar da justiça e praticar o mal, imitando as abominações dos pecadores, porventura viverá? Não mais será recordada a justiça que praticou; por causa da prevaricação em que caiu e do pecado que cometeu, ele morrerá. E vós dizeis: ‘O modo de proceder do Senhor não é justo’. Escutai, casa de Israel: Será o meu modo de proceder que não é justo? Não será antes o vosso modo de proceder que é injusto? Quando o justo se afastar da justiça, praticar o mal e vier a morrer, morrerá por causa do mal cometido. Quando o pecador se afastar do mal que tiver realizado, praticar o direito e a justiça, salvará a sua vida. Se abrir os olhos e renunciar às faltas que tiver cometido, certamente viverá e não morrerá».

Compreender a Palavra

Ezequiel recorda que Deus quer que o pecador se arrependa e viva. Deus não quer a morte do homem. No entanto, a justiça de Deus não parece agradar ao homem. Deus salva aquele que se arrepende, mesmo que tenha pecado toda a vida, mas deixa morrer aquele que, tendo praticado sempre o bem, acaba por pecar e não se arrepende. Parece ao homem que o bem e o mal deve ser pesado na balança, mas Deus não pensa assim porque para Deus o que conta é o presente. O passado condiciona muitas vezes o presente, mas o homem pode superar esse passado, mudar a sua vida e é isso que conta para Deus. Deus quer salvar o homem e este é um princípio que não pode ser alienado. Nesta vontade de Deus cabe o justo e o pecador porque os dois têm possibilidade de se arrepender.

Meditar a Palavra

Deus dá-me a possibilidade de mudar a minha vida. A decisão de enfrentar a verdade, reconhecer o pecado e arrepender-me é só minha. Não posso atirar para os outros a culpa do meu pecado, as razões que me levaram a decidir, ou as consequências do mal que eu fiz. Não posso desculpar-me com os outros nem justificar-me com as minhas impossibilidades. Deus vê o meu coração e conhece os meus pensamentos. Ele sabe se assumo os meus atos, se sou capaz de discernimento frente ao mal e se me arrependo. Escolher a vida implica a decisão da conversão, do arrependimento e da reconciliação. “Se abrir os olhos e renunciar às faltas que tiver cometido, certamente viverá e não morrerá”.

Rezar a Palavra

Uma vez mais, colocas diante de mim o caminho da vida e o caminho da morte. Posso escolher o bem ou o mal e posso sempre escolher o arrependimento depois de ter praticado o mal. Dá-me, Senhor, o dom do discernimento para escolher o bem e desejar o arrependimento se praticar o mal. Não tenhas em conta as minhas faltas e dá-me a alegria da tua salvação.

Compromisso

Quero reconhecer os meus pecados e pedir humildemente perdão.


Evangelho: Mt 5, 20-26

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Se a vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos Céus. Ouvistes que foi dito aos antigos: ‘Não matarás; quem matar será submetido a julgamento’. Eu, porém, digo-vos: Todo aquele que se irar contra o seu irmão será submetido a julgamento. Quem chamar imbecil a seu irmão será submetido ao Sinédrio, e quem lhe chamar louco será submetido à geena de fogo. Portanto, se fores apresentar a tua oferta sobre o altar e ali te recordares que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar, vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão e vem depois apresentar a tua oferta. Reconcilia-te com o teu adversário, enquanto vais com ele a caminho, não seja caso que te entregue ao juiz, o juiz ao guarda, e sejas metido na prisão. Em verdade te digo: Não sairás de lá, enquanto não pagares o último centavo».

Compreender a Palavra

Jesus convida os discípulos a “superar”, a ir “mais além” que o comum das pessoas. A sociedade está estruturada por leis que tentam garantir e preservar o bem de cada um, mas Jesus apresenta “um mais” que está para além da lei. Trata-se do amor. O amor ao irmão, que pode ter alguma coisa contra mim e tirar valor à oferta que apresento no altar. Jesus convida os discípulos a ir “primeiro” reconciliar-se com o irmão. “Primeiro” é o mais importante, o mais urgente, o mais necessário. “Primeiro” é aquilo diante do qual tudo é secundário, tudo fica relativo.

Meditar a Palavra

Jesus propõe-me um caminho de felicidade que está para lá das alegrias deste mundo. A sua proposta implica também um esforço suplementar, uma exigência maior na minha relação com os outros. Jesus começa por me dizer que o outro é meu irmão e que este irmão tem influência em todas as coisas da minha vida, também na minha relação com Deus. Se quero amar a Deus, então, tenho que inserir nesse amor a solicitude pelo irmão mesmo que ele tenha alguma coisa contra mim. Se assim não for, o amor a Deus é um amor estéril que nada produz na minha vida.

Rezar a Palavra

Se eu não superar, Senhor, como posso ser feliz? Se eu não sair de mim mesmo e não for mais além, até à porta do meu irmão, como posso alcançar o reino dos céus? Se eu não me reconciliar com quem não olha de frente para mim, como pode o meu olhar alcançar-te? O meu irmão é a porta por onde posso entrar no reino, é o caminho por onde posso ir ao teu encontro, é a janela pela qual posso ver o teu rosto. Ensina-me a amar os meus irmãos mesmo que sejam simultaneamente meus inimigos.

Compromisso

Talvez haja alguém com quem não estou bem. Talvez hoje mesmo alguém me prejudique. Vou aproximar-me mais destes que estão prestes a apagar-se da minha vida para lhes chamar “irmãos” através de um gesto ou de uma palavra de acolhimento e simpatia.

Livro: Sementes de Evangelho: Ano B

Livro: Sementes de Evangelho: Ano B

 

Graças à presente publicação estão reunidos os textos que, durante o Ano B, foram publicados no semanário da Diocese de Bragança-Miranda, Mensageiro de Bragança, sob o título “Sementes de Vida”, e difundidos pelas vias da internet como “Página de União”. Esta iniciativa vem em linha de continuidade com a publicação Sementes de Evangelho, Ano A.

A centralidade da Palavra na vida e na missão da Igreja é indiscutível, e o primado cabe à coragem da escuta da Palavra. A audição da Palavra de Deus constrói a Igreja e encontra em Cristo a sua plenitude.

Mas esta escuta é tanto mais fecunda quanto é feita no contexto da comunidade que se reúne no Nome de Jesus, pois aqui Ele assegura a sua presença. Tal ambiente abre-nos às dimensões do Cenáculo, espaço percorrido pelo fogo santificador e esclarecedor daquele mesmo Espírito que nos “ensinará toda a verdade” (Jo 14, 26), Aquele mesmo que faz sair a Igreja do limite das suas próprias fronteiras. Não há pastoral sem a espiritualidade que nasce da Bíblia e da Liturgia.

A Igreja é a casa da Palavra, porque é comunidade chamada pela voz do seu Senhor. De facto, a Igreja escuta, proclama e vive a Palavra, sendo a liturgia o lugar privilegiado para essa comunicação: «Considerando a Igreja como ‘casa da Palavra’, deve-se, antes de tudo, prestar atenção à Liturgia sagrada, que constitui, efectivamente, o âmbito privilegiado onde Deus nos fala no momento presente da nossa vida: fala hoje ao seu povo, que escuta e responde» (Verbum Domini 52).

O Leccionário, e em particular o Evangeliário, assume-se como uma das mesas da Celebração da Eucaristia, alvo de particular veneração, no qual a Igreja sempre viu a presença viva do Senhor que nos fala como a amigos e convive connosco para nos convidar à comunhão com Ele.

O Leccionário permite fazer o percurso do Ano Litúrgico, «para alimentar devidamente a piedade dos fiéis com a celebração dos mistérios da redenção cristã, sobretudo do mistério pascal» (SC 107). E cada domingo representa o ritmar semanal deste fluxo onde palpita a presença e a voz de Deus, coração da espiritualidade cristã.

Ouvir, é sempre o primeiro passo para dialogar. O homem escuta Deus, mas quando fala tem também a certeza de que Deus o ouve, como aconteceu com Abraão (Gn19,17ss). Temos, contudo, a necessidade de alguém que nos ajude a compreender que é Deus quem fala, tal como aconteceu a Samuel (1Sm 3,7-10).

Pretende-se assim que esta publicação possa ser um apoio para todos os cristãos que, na caminhada semanal, desenvolvida entre pressas e dispersões, entre fadigas e contrariedades, lutas e esperanças, se predispõem a preparar uma participação mais fecunda e frutuosa nas celebrações do Domingo, encontrando um nutritivo alimento da sua vida espiritual no miolo da Liturgia da Palavra que é o Evangelho.

Com o Evangelho segundo S. Marcos, o luzeiro deste Ano B, podemos também nós responder no coração à pergunta «quem é Jesus?» e narrar a alegria do encontro.

José Manuel Garcia Cordeiro
Bispo de Bragança-Miranda

Introdução

Caros amigos e caras amigas, a aventura da sementeira continua! O divino Semeador não cessa de apostar nos nossos corações, campos de textura diversa, onde não faltam pedras, aves vorazes, até espinhos manhosos e, sem dúvida, muita terra arável.

Depois da publicação “Sementes de Evangelho – Ano A”, voltamos a arriscar um novo percurso, desta vez na companhia de Marcos, o Evangelista do essencial. Continuamos a recolher os artigos publicados no “Mensageiro de Bragança”, que semanalmente voam e se multiplicam pelos meandros da internet, como um verdadeiro milagre da multiplicação do Evangelho. É o milagre da comunhão, que se desenrola numa cumplicidade entre buscadores, tanto quanto quem escreve, como quem expressa e lê… quem se alimenta e vive.

O Evangelho de Marcos é de uma descrição elementar, que nos descentra do supérfluo e nos encaminha a busca, entre o deserto e a expectativa, sempre com uma interrogativa acerca da identidade de Jesus.

Todavia, não é uma definição o que vos propomos, antes um encontro. Desejamos que este compêndio de reflexões sobre os Evangelhos dos Domingos do Ano B, possa ir de encontro ao convite do Papa Francisco: “Convido todo o cristão (…) a renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, de O procurar dia a dia sem cessar” (EG 3). Que esta leitura possa, como aos discípulos, provocar-nos uma curiosidade, embotada à beira de tantas praias sem peixes, que apenas entretêm o nosso tédio, e convidar-nos a outros sonhos, a outras navegações. Que possamos deixar cruzar o olhar com o deste homem que conhece a composição das nossas lágrimas, porque elas também correm no seu rosto, que sorri e acaricia, também percorrido pela ira do chicote e pela espontaneidade que acarinha uma criança ao colo, que questiona rituais vazios e desvenda segredos tão simples; um Jesus cansado e esgotado, onde nos podemos rever, de olhos enevoados com a poeira do caminho e perturbado pela dor dos encontros, que se deixa tocar, que sente apertar-se-lhe o coração e facilmente se comove e se compadece. Um homem que se arrisca a ser tomado como glutão, ébrio e demasiado tolerante, escandalosamente acolhedor, mas cuja filiação divina até os demónios temem e as vozes impuras dos pagãos conseguem vislumbrar.

Que ousemos peregrinar por esta história, assumindo-a como nossa. Sentindo-nos confiantes para apresentar-lhe as nossas lepras, cegueiras e febres, aquela crosta de egoísmo que ainda prospera na gangrena da solidão, feridas abertas, transportadas em enxergas, para depois levarmos, nós mesmos, para casa (qualquer casa!) as enxergas cheias de vida, a fim de a derramar em outras feridas que desconhecem a fonte da alegria.

Com Marcos, surpreendamos tantos encontros de Jesus, os inopinados e os marcados com os amigos, cujo carinho é também bálsamo para cansaços e desilusões. Que nos fique na vontade sermos nós os destinatários deste encontro, até nos atrevermos a penetrar no segredo da sua intimidade, quando Ele se retira para o silêncio, a fim de se refazer sob o olhar amoroso do Pai.

Marcos radiografa o coração de Deus, no coração humano de Jesus, que vem com uma autoridade nova, questionada até à exaustão. A Palavra de Deus educa-nos! É significativo que o Evangelho de Marcos se desenrole a partir da aridez do deserto, e depois fique aberto à borda de um sepulcro vazio, a olhar uma rota ascendente até à consumação dos céus… Nele há sempre um espaço, uma pista que nos encaminha para a essência da vida, como a página em branco que incentiva a nossa escrita. Marcos revela-nos que, perante Jesus, há uma resposta a dar, que Ele alvoroça todo o ambiente, que inexoravelmente nos interroga e provoca uma atitude comprometedora: de que lado estamos?

Domingo, após Domingo, num ritmar semanal, possa este percurso provocar em nós o fascínio do discípulo, e o perfume de uma vida deslumbrada pelo Esposo.

Aquele que nos permite este mergulho na Palavra, certamente que também desafia cada um de nós a tornar-se uma semente de Evangelho.

Mons. José Fernando Caldas Esteves
Ir. Maria da Conceição Afonso Borges
Ir. Maria José Diegues de Oliveira

Quinta-feira da Semana I do Tempo da Quaresma

Ester 4, 17 n. p-r. aa-bb.gg-hh

Naqueles dias, a rainha Ester, tomada de angústia mortal, procurou refúgio no Senhor e fez esta súplica ao Senhor, Deus de Israel: «Meu Senhor, nosso único Rei, vinde socorrer-me, porque estou só e não tenho outro auxílio senão Vós e corre perigo a minha vida. Desde criança, ouvi dizer na minha tribo paterna que Vós, Senhor, escolhestes Israel entre todos os povos e os nossos pais entre os seus antepassados, para serem a vossa herança perpétua, e cumpristes tudo o que lhes tínheis prometido. Lembrai-Vos de nós, Senhor, e manifestai-Vos no dia da nossa tribulação. Fortalecei-me, Rei dos deuses e Senhor dos poderosos. Ponde em meus lábios palavras harmoniosas, quando estiver na presença do leão, e mudai o seu coração, para que deteste o nosso inimigo e o arruíne com todos os seus cúmplices. Livrai-nos com a vossa mão; vinde socorrer-me no meu abandono, porque não tenho ninguém senão Vós, Senhor».

Compreender a Palavra

Este pequeno texto do livro de Ester, apresenta a rainha num momento de aflição e angústia. No meio da sua provação experimenta a solidão e só pode contar com o Senhor. A única saída é a oração. Depois de invocar o Senhor e suplicar o seu auxílio, recorda o que Deus fez no passado e lhe foi contado pelos seus antepassados “desde criança, ouvi dizer…”. Tudo o que Deus disse ele o fez cumprir-se em favor do seu povo. Esta garantia dá à rainha motivo para confiar a sua causa às mãos de Deus: “Lembrai-Vos de nós, Senhor, e manifestai-Vos no dia da nossa tribulação… Livrai-nos com a vossa mão… vinde socorrer-me no meu abandono”. Por fim, uma última súplica que é reconhecimento de incapacidade “não tenho ninguém senão vós, Senhor”.

Meditar a Palavra

Hoje, no lugar da rainha, estou eu. No meio das minhas aflições humanas, materiais ou espirituais, encontro-me só, debilitado, incapaz de responder diante das forças adversas que me impedem a liberdade, a vida, a alegria. Na solidão de quem não tem forças para enfrentar o inimigo que se apresenta mais forte e poderoso, só tenho uma saída. O Senhor é o meu auxílio. Esta certeza é-me dada pelo testemunho de muitos que antes de mim confiaram no poder de Deus contra as adversidades. Os meus pais, os que me transmitiram a fé, os que receberam a graça de se verem salvos das suas aflições, eles contaram-me o que o Senhor fez nas suas vidas. Essa certeza leva-me a confiar e a dizer: o Senhor vai libertar-me dos meus inimigos.

Rezar a Palavra

Senhor, Deus de meus pais, que de tantas formas te fizeste presente nas suas vidas e de modos tão diversos te manifestaste a eles libertando-os nas suas angústias, vem em meu auxílio, sê, hoje, também para mim, o salvador, pois só em ti ponho a minha confiança.

Compromisso

Vou transmitir aos que experimentam a fragilidade como eu, a confiança no Senhor que salva os corações atribulados.

 

 

Evangelho: Mt 7, 7-12
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Pedi e dar-se-vos-á, procurai e encontrareis, batei à porta e abrir-se-vos-á. Porque todo aquele que pede recebe, quem procura encontra e a quem bate à porta abrir-se-á. Qual de vós dará uma pedra a um filho que lhe pede pão, ou uma serpente se lhe pedir peixe? Ora, se vós que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai que está nos Céus as dará àqueles que Lhas pedem! Portanto, o que quiserdes que os homens vos façam fazei-lho vós também: esta é a Lei e os Profetas».

Compreender a Palavra
O texto de hoje faz parte do Sermão da Montanha. Jesus incentiva os discípulos à confiança. Vale a pena bater à porta de Deus porque Ele nos atende como um pai atende um filho. O segredo é uma vida activa: pedi, procurai, batei.

Meditar a Palavra
Vejo-me muitas vezes a querer tudo feito, sem trabalho, sem esforço, sem preocupação. Entendo que Deus devia fazer por mim, para que eu não sofra nem passe por dificuldades que me complicam a vida. Outras vezes encho-me do orgulho de quem não precisa de ninguém e não peço nada. Não preciso, eu faço, eu consigo sozinho, eu sou capaz. Jesus pede-me a dedicação de quem procura e a humildade de quem pede porque o Pai não rejeita aqueles que lhe batem à porta.

Rezar a Palavra
Diante de ti, Senhor, como filho que confia, e à tua porta como pedinte que estende a mão. É assim que me encontro hoje. Olho-me na minha pobreza humana e reconheço que preciso de ti porque me faltam a túnica, o anel, as sandálias e o beijo. Mas vejo-me também na minha condição de filho e sinto-me amado na tua casa e saciado à tua mesa. Dá-me, Senhor a alegria da tua salvação.
Compromisso
Com humildade vou pedir ao Pai os dons espirituais de que mais necessito para fazer uma verdadeira conversão.

Quarta-feira da Semana I do Tempo da Quaresma

Jonas 3, 1-10

A palavra do Senhor foi dirigida a Jonas nos seguintes termos: «Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive e apregoa nela a mensagem que Eu te direi». Jonas levantou-se e foi a Nínive, conforme a palavra do Senhor. Nínive era uma grande cidade aos olhos de Deus; levava três dias a atravessar. Jonas entrou na cidade e caminhou durante um dia, apregoando: «Daqui a quarenta dias, Nínive será destruída». Os habitantes de Nínive acreditaram em Deus, proclamaram um jejum e revestiram-se de sacos, desde o maior ao mais pequeno. Logo que a notícia chegou ao rei de Nínive, ele ergueu-se do trono e tirou o manto, cobriu-se de saco e sentou-se sobre a cinza. Depois foi proclamado em Nínive um decreto do rei e dos seus ministros, que dizia: «Os homens e os animais, os bois e as ovelhas, não provem alimento, não pastem nem bebam água. Os homens e os animais revistam-se de sacos e clamem a Deus com vigor; afaste-se cada um do seu mau caminho e das violências que tenha praticado. Quem sabe? Talvez Deus reconsidere e desista, acalmando o ardor da sua ira, de modo que não pereçamos». Quando Deus viu as suas obras e como se convertiam do seu mau caminho, desistiu do castigo com que os ameaçara e não o executou.

Compreender a Palavra
Conhecemos, ainda que em traços gerais, o livro de Jonas. Nem todos os autores entendem que se trate de um profeta. Muitos crêem tratar-se mais de uma parábola que pretende transmitir uma mensagem do que de um profeta que fala em nome de Deus. Nínive é uma cidade pagã, situada num lugar longe de Israel, a terra do povo eleito. Era impensável para um profeta ser enviado por Deus a uma terra estrangeira anunciar a conversão. A dificuldade de anunciar a palavra de Deus na sua própria terra e ao seu povo já era missão suficientemente espinhosa. Deus, no entanto, envia Jonas a uma cidade estrangeira. Nínive era uma cidade muito grande, levava três dias a atravessar, marcada pelo pecado. Tudo fazia adivinhar não só a dificuldade da missão como a inutilidade. Este povo nunca iria converter-se. Depois de tentar a fuga inútil ao chamamento de Deus, o profeta vê-se no meio da cidade, de má vontade, a anunciar o arrependimento e a conversão como meio para fugir ao castigo eminente. Perante o olhar incrédulo de Jonas, os habitantes da cidade convertem-se, fazem penitência e são perdoados.

Meditar a Palavra
A misericórdia de Deus manifesta-se na sua solicitude pelo homem pecador. Para Deus não há raças nem nações. Todo o homem pode receber a palavra da verdade e acolher o convite à conversão. O Arrependimento está ao alcance de todos. Aos nossos olhos parece muitas vezes impossível que esta ou aquela pessoas chegue a mudar a sua vida e por isso guardamos a palavra que salva, para nós. Mas Deus que é misericórdia e amor não desiste nunca do homem, mesmo de um estrangeiro, de um pagão ou de um pecador. Deus quer que o homem se converte e se salve. Por isso, “quando Deus viu as suas obras e como se convertiam do seu mau caminho, desistiu do castigo com que os ameaçara e não o executou”.

Rezar a Palavra
Senhor, faz-me acreditar que ainda é possível converter o meu coração à tua vontade, pois sabes que sou um homem pecador. Faz-me igualmente acreditar que os meus irmãos, que segundo o meu olhar são pecadores incorrigíveis, homens afastados da tua presença, também podem mudar as suas vidas se eu lhes anunciar a tua palavra. Dá-me um coração como o teu, livre de preconceitos e uma vontade generosa para com todos.

Compromisso
Quero acreditar nos meus irmãos e no poder da palavra de Deus que lhes anuncio.

 

 

Evangelho: Lc 11, 29-32
Naquele tempo, aglomerava-se uma grande multidão à volta de Jesus e Ele começou a dizer: «Esta geração é uma geração perversa: pede um sinal, mas nenhum sinal lhe será dado, senão o sinal de Jonas. Assim como Jonas foi um sinal para os habitantes de Nínive, assim o será também o Filho do homem para esta geração. No juízo final, a rainha do sul levantar-se-á com os homens desta geração e há-de condená-los, porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão; e aqui está quem é maior do que Salomão. No juízo final, os homens de Nínive levantar-se-ão com esta geração e hão-de condená-la, porque fizeram penitência ao ouvir a pregação de Jonas; e aqui está quem é maior do que Jonas».

Compreender a Palavra
Jesus olha as pessoas que se juntam à sua volta e percebe que as motivações que trazem não são as mais genuínas. São muitas as intenções, mas nem todas são válidas para o procurar. Por isso Jesus recorda-lhes que os ninivitas fizeram uma mudança radical nas suas vidas ao ouvir Jonas e a rainha do sul fez grandes sacrifícios e percorreu grandes distâncias para ouvir Salomão. Mas Ele, Jesus, é mais do que Jonas e maior do que Salomão e as suas palavras não estão a ser levadas tão a sério que provoquem a mudança da vida.

Meditar a Palavra
A curiosidade e o interesse são facilmente alimentados por coisas banais e até desedificantes. Mas nem sempre sou capaz de usar das mesmas forças para o que é realmente importante. Sinto que Jesus fala para mim nesta passagem do evangelho. Sinto que me chama a atenção para o facto de nem sempre levar a sério a sua palavra e nem sempre usar as minhas capacidades para converter a minha vida. Fico na superfície da minha relação com Ele porque vivo na periferia da sua palavra.

Rezar a Palavra
Tu és mais do que todos os reis e profetas que têm lugar na minha vida, Senhor. Todos eles podem ser importantes e vale a pena ouvi-los, mas nenhum deles tem palavras de vida eterna. Nenhum deles merece que empenhe toda a minha vida. Posso encontrar muitos modelos mas nenhum será o verdadeiro caminho da minha vida. Desperta em mim, Senhor, a consciência da força libertadora da tua palavra para que a deseje como o verdadeiro alimento que me sustenta.

Compromisso
Vou saborear a palavra de Deus dando algum do meu tempo à leitura da Bíblia.

Terça-feira da Semana I do Tempo da Quaresma

Isaías 55, 10-11
Assim fala o Senhor. «A chuva e a neve que descem do céu não voltam para lá sem terem regado a terra, sem a haverem fecundado e feito produzir, para que dê a semente ao semeador e o pão para comer. Assim a palavra que sai da minha boca não volta sem ter produzido o seu efeito, sem ter cumprido a minha vontade, sem ter realizado a sua missão».

Compreender a Palavra
O profeta percebe que Deus está acima do homem e é preciso procurá-lo com uma mentalidade nova. Os pensamentos de Deus estão distantes dos nossos pensamentos. Para entender o mistério de um Deus que sendo maior que o homem está próximo dele, é necessária a acção da palavra. A palavra de Deus tem a força da realização. O profeta apresenta o exemplo da chuva que cai e fecunda a terra. A palavra de Deus vem à história dos homens, à vida de cada um e torna-se vida, acontecimento, porque realiza o que diz. Perante as promessas de Deus o homem questiona-se se será possível a sua realização. A palavra de Deus é Deus na sua palavra agindo e fecundando o coração da história.

Meditar a Palavra
A conversão é mais uma ação de Deus do que nossa. A palavra escutada, acolhida, abraçada, mastigada no coração, como a semente que se esconde no interior da terra, é fecundada pela chuva do amor divino gerando o homem novo nascido da vontade de Deus. É um mistério, sim, pensar que, o que sou, pode ser transformado pela palavra que escuto da boca de Deus. É um mistério pensar que as minhas opções, critérios e valores podem ser transformados em potencial de graça e santidade. É maior do que eu tudo o que Deus realiza em mim com a sua palavra. Mas aí está a força da vontade de Deus que se manifesta na palavra por ele pronunciada.
Rezar a Palavra
Faz soar em mim a tua palavra, Senhor, como chuva de bênçãos e recria-me no mesmo amor com que me fizeste surgir do nada. Alimenta-me com a palavra da esperança que a tua vontade torna realidade e fecunda-me no amor que me transforma em lugar da tua presença salvadora.

Compromisso
Vou ser atualizador da palavra de Deus para os meus irmãos.

 

 

Evangelho: Mt 6, 7-15
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Quando orardes, não digais muitas palavras, como os pagãos, porque pensam que serão atendidos por falarem muito. Não sejais como eles, porque o vosso Pai bem sabe do que precisais, antes de vós Lho pedirdes. Orai assim: ‘Pai nosso, que estais nos Céus, santificado seja o vosso nome; venha a nós o vosso reino; seja feita a vossa vontade assim na terra como no Céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje; perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido; e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal’. Porque se perdoardes aos homens as suas faltas, também o vosso Pai celeste vos perdoará. Mas se não perdoardes aos homens, também o vosso Pai não vos perdoará as vossas faltas».

Compreender a Palavra
Jesus fala aos discípulos sobre a oração. O caminho da oração de Jesus não é o dos pagãos. Jesus coloca-se diante do Pai com plena confiança e em atitude de acolhimento dos sentimentos e da vontade do Pai. Esta oração é um escutar o coração de Deus e não um desfiar de palavras apaziguadoras da ira da divindade como faziam os pagãos. Jesus, é muito claro, quer nas palavras quer na sua atitude diante de Deus.

Meditar a Palavra
A minha oração é muitas vezes uma oração pagã. Começo por pensar que Deus não me ajuda e permite que me aconteçam desgraças, e depois coloco-me diante dele numa atitude pagã de desfiar palavra para que Ele me escute e atenda. Falta-me esta atitude de confiança e de escuta. Preciso de aprender com Jesus a escolher as palavras fundamentais que revelem o meu coração a Deus e me revelem o coração de Deus. Preciso de aprender o silêncio que permite que Deus venha a mim e me ensine os seus sentimentos de confiança e de perdão.

Rezar a Palavra
Senhor, ando absorvido com o que hei-de comer e vestir, preocupado com o dia de amanhã. Não tenho a paz interior de quem sabe que tu não permites que nada me falte. Ensina-me, Senhor, a pedir o pão de hoje para mim e para os meus irmãos numa partilha justa de bens. Ensina-me a partilhar também os bens espirituais do perdão e do amor misericordioso, que aceita o outro na sua debilidade, e faz-me experimentar alegria nessa atitude tranquila de filho diante do Pai.

Compromisso
Sinto desejo de rezar as palavras do Pai-Nosso com uma atitude nova e sinto o apelo a repartir o pão que tenho com o meu irmão. Será esse o meu compromisso de hoje.

Segunda-feira da Semana I do Tempo da Quaresma

Lectio

Levítico 19, 1-2.11-18

O Senhor dirigiu-Se a Moisés, dizendo: «Fala a toda a comunidade dos filhos de Israel e diz-lhes: ‘Sede santos, porque Eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo. Não furtareis, não direis mentiras, nem cometereis fraudes uns com os outros. Não prestarás juramento falso, invocando o meu nome, pois profanarias o nome do teu Deus. Eu sou o Senhor. Não oprimirás nem expropriarás o teu próximo. Não ficará contigo até ao dia seguinte o salário do jornaleiro. Não insultarás um surdo nem colocarás tropeços diante de um cego, mas temerás o teu Deus. Eu sou o Senhor. Não cometerás injustiças nos teus julgamentos: não prejudicarás um pobre, nem darás preferência ao poderoso; julgarás o teu próximo segundo a justiça. Não caluniarás os teus parentes, nem conspirarás contra a vida do teu próximo. Eu sou o Senhor. Não odiarás do íntimo do coração os teus irmãos, mas corrigirás o teu próximo, para não incorreres em falta por causa dele. Não te vingarás, nem guardarás rancor contra os filhos do teu povo. Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor’».

Compreender a Palavra
O capítulo dezanove de Levítico apresenta, como o próprio título indica, um conjunto de normas de conduta, morais e religiosas. Estas normas estão inspiradas nos dez mandamentos que, são aqui aprofundados para serem postos em prática com mais exatidão. É interessante verificar que o princípio geral é o convite à santidade “sede santos, porque eu, o Senhor, sou santo”. Este princípio, porém, tem na relação com os irmãos a sua principal fonte. Ninguém é santo se não for como Deus. A santidade de Deus manifesta-se na preocupação e dedicação ao homem, a santidade do homem passa pelo cumprimento dos preceitos de Deus que propõem diversas formas de relação com o próximo. A justiça e a caridade são princípios fundamentais no caminho da santidade, “amarás o próximo como a ti mesmo”.

Meditar a Palavra
Uma relação com Deus que esqueça ou exclua a relação com o próximo é uma relação incompleta. Para Deus, a santidade não é apenas uma meta, mas um caminho que passa pelos outros. Pensar que a santidade se atinge pelo amor a Deus e pelo cumprimentos de preceitos abstratos é cair no fechamento interior, no egoísmo, que não deixa ver o outro nem reconhece-lo como o próximo a quem se deve amar. Cumprir preceitos é, não matar, não roubar, não caluniar… embora difícil, é sempre possível cumpri-los de alguma maneira. Ver no outro o próximo a quem se deve amar é perguntar-se o que podemos fazer pelo outro que ele por si mesmo não consegue fazer e o torna infeliz. Amar o próximo é, portanto, estar atento a ele e ao serviço da sua felicidade.

Rezar a Palavra
Tu és o Senhor. O teu olhar está atento à minha vida para me construíres no amor que me torna feliz. Ensina-me o caminho do irmão, para que também eu, no amor ao outro me transforme em construtor da felicidade de todos os que por si mesmos ou por causa do peso da vida, só encontram tristeza, desilusão, infelicidade.

Compromisso
Quero ser santo amando os pobres, os infelizes e os pecadores.
Evangelho: Mt 25, 31-46
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Quando o Filho do homem vier na sua glória com todos os seus Anjos, sentar-Se-á no seu trono glorioso. Todas as nações se reunirão na sua presença e Ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos; e colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda. Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Vinde, benditos de meu Pai; recebei como herança o reino que vos está preparado desde a criação do mundo. Porque tive fome e destes-Me de comer; tive sede e destes-Me de beber; era peregrino e Me recolhestes; não tinha roupa e Me vestistes; estive doente e viestes visitar-Me; estava na prisão e fostes ver-Me’. Então os justos Lhe dirão: ‘Senhor, quando é que Te vimos com fome e Te demos de comer, ou com sede e Te demos de beber? Quando é que Te vimos peregrino e Te recolhemos, ou sem roupa e Te vestimos? Quando é que Te vimos doente ou na prisão e Te fomos ver?’. E o Rei lhes responderá: ‘Em verdade vos digo: Quantas vezes o fizestes a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes’. Dirá então aos que estiverem à sua esquerda: ‘Afastai-vos de Mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e os seus anjos. Porque tive fome e não Me destes de comer; tive sede e não Me destes de beber; era peregrino e não Me recolhestes; estava sem roupa e não Me vestistes; estive doente e na prisão e não Me fostes visitar’. Então também eles Lhe hão-de perguntar: ‘Senhor, quando é que Te vimos com fome ou com sede, peregrino ou sem roupa, doente ou na prisão, e não Te prestámos assistência?’ E Ele lhes responderá: ‘Em verdade vos digo: Quantas vezes o deixastes de fazer a um dos meus irmãos mais pequeninos, também a Mim o deixastes de fazer’. Estes irão para o suplício eterno e os justos para a vida eterna».

Compreender a Palavra
A definitividade é o tema desta parábola de Jesus. No final, quando tudo estiver consumado e já não haja mais possibilidade de mudança, o Senhor surgirá sentado no seu trono e julgará. Olhará para as suas ovelhas identificando nelas os sinais das suas vidas que as apresentam como filhos de Deus. O grande sinal é o amor ao próximo traduzido em gestos quotidianos. Aqueles em quem estes sinais não sejam visíveis é porque preferiram outros caminhos. Tiveram todas as oportunidades e não se compadeceram. Continuarão por outro caminho.

Meditar a Palavra
“Quantas vezes o fizestes a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes”. Esta identificação impede-me qualquer razão. Não é possível uma justificação na minha vida. Afinal está ao meu alcance realizar tudo quanto me é proposto. Não tenho que ir longe, nem são coisas superiores a mim. Aqui mesmo, na minha vida, no meu dia-a-dia, posso tornar realidade o desejo de Jesus. Eu posso ser, hoje, para o meu irmão, a sua presença salvadora.

Rezar a Palavra
Quero vencer a minha mediocridade e ultrapassar as minhas limitações. Sinto que muitas vezes estou atado interiormente por correntes que não me deixam realizar gestos de salvação para o meu irmão que sofre. Sei que nesses momentos sou medíocre, sei que sou pequeno no amor. Eu quero vencer esta mediocridade, esta pequenez e chegar à tua estatura, Senhor. Liberta-me, Senhor, para que possa ser gesto libertador para os meus irmãos.

Compromisso
Hoje quero pensar nos outros e não em mim. Ao longo do dia vou ter oportunidade de realizar um gesto gratuito para alguém que precisa, vou estar atento e responder com generosidade.