Uma terceira Pessoa

 

 

 

Ser um é o profundo impulso de todo o amor. Mas este impulso tem sempre uma barreira. "Trata-se de um desejo mais que de uma realidade. De certo modo, permanecemos sempre exteriores ao que amamos. Não podemos dar-lhe plenamente o nosso ser, nem tornar-nos absolutamente ele próprio. Aqui na terra, há no amor uma espécie de exílio em relação ao ser que amamos, porque ele permanece sempre no exterior. É um sofrimento inevitável" (M. Zundel). Essa muralha ainda se torna mais forte por causa de uma impotência radical. "Com efeito, qualquer que seja a perfeição da reciprocidade entre ambos, essa reciprocidade no fundo, escapa-lhes. Só parcial e superficialmente ela é percebida por meio de indícios. O apaixonado conhece o amor do ser amado pelas palavras que ele profere, pelos gestos que faz, pelo conjunto do seu comportamento. Mas não vê o amor em si. É por isso que o amor humano não tem repouso: busca incessantemente um além impossível de atingir. "Ela vê-o; ele Vê-a; ninguém vê o amor" (Santo Agostinho)" (F. Varillon).

 

 

Vejamos dois jovens, Pedro e Madalena, por exemplo. Construiram um lar. Com o sonho de serem dois em um… Vem a desilusão de verificar que, por mais que se amem com todas as forças, continuam distintos e distantes um do outro… Porém, acontece que mutuamente se dão um filho. Esse filho é ela toda inteira, é ele todo inteiro, fundidos num só, - esse filho é o comum amor tornado pessoa, seu amor que se implanta aím diante deles e diante do mundo, distinto deles e tão eles, - o seu amor comum pode ser visto e tocado e já não simplesmente adivinhado através de indícios. Eram dois; queriam ser apenas um; e acabam por ser três. Sozinhos só poderiam girar em torno de si próprios, no "tudo para mim". A dois, corriam o risco de desfrutar egoisticamente um do outro. Mas eis que o seu amor explodiu "para a frente" nessa terceira pessoa que é o seu próprio amor, na qual cada um dos dois se encontrar inteiro, na qual cada um acha o outro igualmente inteiro, fundidos em "um" nessa terceira pessoa. A família tornou-se trindade de pessoas distintas, porém mais unidas que nunca.

 

 

Adptado de: Rey-Mermet, A fé explicada aos jovens e adultos