Deus livre para amar

O amor de Deus é gratuito e incondicional. Como todo o amor paterno ou materno.

Os pais que o são de verdade trazem o seu filho nos sonhos da sua ternura muito antes de poderem contemplar o seu rosto. É extraordinário esse amor. O filho é sonhado, depois esperado sem ser conhecido, mas sempre amado. Não conhecem o rosto, nem a personalidade, nem o caráter, nem o futuro, mas amam-no porque vai ser o seu filho, é o seu filho. É um amor maravilhoso que não espera por conhecer o outro para o amar. É um amor assegurado de ante mão, independentemente de todas as coisas, para lá de qualquer merecimento, nada desencoraja um pai de amar um filho. Deste modo, e muito além deste amor, é o amor do Pai Deus. Nada em nós pressupõe merecermos ser amados, nada temos para oferecer que justifique este amor e, no entanto, Ele ama-nos assim, incondicionalmente. Não espera que eu o ame para me amar, ama-me antes que eu o conheça e ainda que eu o não ame. Nenhum amor se pode comparar com este amor.

 

Deus Pai é um mendigo do amor. A sua omnipotencia no amor torna-o omnimendigo, omnipobre. E na sua omnipobreza espera o meu amor. Pobreza levada ao infinito, do pai que tem filhos ingratos, mas que nem por um momento os deixa de amar. Pai que respeita a liberdade com que nos criou. A liberdade de não o querermos, de não desejarmos conhecê-lo, de não o amarmos.

 

Se ele fosse um “Deus todo-poderoso” dobraria a nossa arrogância até ao ponto de satisfazermos o seu desejo, a sua vontade e nos obrigar a amá-lo e a servi-lo. Deus não é todo-poderoso deste jeito. Ele é todo-poderoso no amor e, por isso, respeita a nossa vontade, a nossa decisão e a nossa liberdade. Lembremos o pai do filho pródigo (Lc 15).

Um Pai que confia arriscando, permanentemente, tudo o que é e tudo o que tem, os seus bens, o seu nome, a sua honra e o seu trabalho, entrega tudo nas mãos do filho. O que fará o filho com tudo o que o Pai lhe deu? Pode esbanjar, estragar, destruir. É o preço da liberdade. Um homem não pode ser menos que liberdade.

 

Diz-se: “Se Deus é bom, porque existe o mal no mundo? Porque não impede Ele que este e aquele façam tais atrocidades? Queremos um Deus que pode fazer tudo e pode impedir-nos de fazer mal.

 

Deus é um Pai todo-poderoso mas não como nós queremos. Ele é poderoso porque pode e deve deixar o filho partir e esbanjar e destruir porque respeita o filho, respeita a sua liberdade. Porque é omnipotente pode ter paciência diante do joio semeado entre o trigo. Por amor criou homens livres e por amor aceita o mau uso da liberdade que lhes deu.

Sartre, num dos seus livros, põe na boca de um personagem esta afirmação: “Se o homem é livre, Deus não existe”. Precisamente, esse Deus todopoderoso que não respeita a liberdade do homem, não existe. Mas o Deus que é Pai todo-poderoso, esse sim, esse existe e respeita o homem na sua liberdade. E o homem é livre porque este Deus, Pai, existe.

 

Deus mostra que aquele que mais ama é o que mais depende do outro. O que mais ama é o que mais sofre. Deus é infinitamente rico, mas rico de amor, infinitamente livre, mas livre de amar.

 

 

Adaptação de: Rey-Mermet, A fé explicada aos jovens e adultos