O assassino do Pai

Devemos começar por perceber que, hoje, falar de Deus como “Pai” não é nada correto tendo em conta as lutas que as novas gerações têm travado com o poder paternal. Os mais novos estão marcados pelas revoluções, pela psicanálise, pelo espírito científico e rejeitam todo e qualquer paternalismo. Estão no momento da vida em que querem garantir o seu espaço, afirmar-se frente aos adultos e aos pais em particular. A afirmação de si próprio requer a anulação do outro. Ora, falar de Deus como Pai e um Pai todo-poderoso, não soa nada correto aos ouvidos da juventude. A rejeição do Pai significa aqui a rejeição de Deus.

 

Não há pai ideal aos olhos dos filhos, e quando se fala de Deus como Pai surge aquela imagem natural do próprio pai que foi um fraco ou um autoritário, um sortudo ou um azarento, um bonacheirão ou um bruto, arrogante ou discreto, distante ou sempre presente, encorajador ou “cortador de asas”. Do mesmo modo a figura da mãe.


É necessário entender que Deus não é “Pai” como os nossos pais. Jesus quando fala do Pai, não nos recorda a nossa experiência de filhos em relação aos pais. Não diz: “Lembra-te do teu pai, Deus é como ele”. Pelo contrário, fala a partir da nossa experiência de adultos, da nossa condição de pais e de mães em relação aos nossos filhos.

 

“Pode uma mãe esquecer o próprio filho, não se enternece pelo fruto das suas entranhas? Pois bem, ainda que a mãe pudesse esquecer o seu filho, eu não me esquecerei de ti “ (Is 49,15). “Quem de vós, sendo pai, se o filho lhe pedir um peixe, em vez de peixe dar-lhe-á uma serpente?... Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do céu dará o Espírito Santo aos que lho pedirem” (Lc 11,11-13). Pode ler-se também (Lc 15,11s).

 

A imagem de Pai que nos é apresentada pela linguagem bíblica, não pode ser entendida a partir do lado errado, do lado do filho que eventualmente vive ressentimentos em relação ao pai. Deve ser visto do lado certo, o dos pais, que inquestionavelmente, sempre amam os filhos, amor que os filhos irão experimentar um dia quando também eles forem adultos.

 

Balzac coloca na boca do seu pai: “Quanto a mim, foi quando me tornei pai que passei a compreender o que podia significar ser Deus”.

 

 

Adaptado de: Rey-Mermet, A fé explicada aos jovens e adultos