Pai suspeito

As “filosofias da suspeita”
O que mais impressiona ao ler o Antigo Testamento é que Deus é uma Pessoa. Evidentemente, não podemos vê-lo, porque ele é um espírito. Porém, ele manifesta-se. Vemo-lo intervindo diretamente na história do povo, em conversa familiar com o homem, como alguém que diz aos amigos: “Sentemo-nos e falemos um pouco”. O Deus que a Bíblia nos revela é ao mesmo tempo majestoso e familiar.

 

Pois bem: “Deus Pai” é uma afirmação que se apresenta contraditória aos nossos ouvidos. Parece-nos inconcebível que O Deus todo-poderoso possa ser Pai, ou que o Pai, possa ser o Deus todo-poderoso.

Certos psicólogos modernos entendem que o símbolo do “pai” está cheio de ambiguidades sobretudo quando se aplica a Deus.

 

Hoje, aspiramos cada vez mais a uma linguagem clara. Queremos saber do que se fala, para saber como dominá-lo. Uma palavra para cada coisa e uma coisa para cada palavra.


É bom que assim seja, mas a verdade é que muitas vezes não acontece assim e mesmo os que mais pretendem a pureza da linguagem, acabam por cometer erros e provocar confusão. A verdade é que se acaba por ficar com o que mais agrada e não com a verdade. Todos sabemos que Skip, Presto e Ariel é tudo a mesma coisa, mas eu gosto mais do Ariel e pronto.

 

A verdade é que muitas vezes a linguagem clara não existe. Os “filósofos da suspeita” suspeitam em particular da linguagem da religião. Na sua opinião, o “Deus Pai” é apenas uma fórmula para esconder a exploração dos pobres pelos ricos (Marx), ou para enganar os fracos (Nietzche), ou para apaziguar os recalcamentos (Freud) ou para calar o vazio que existe em cada um (Althusser e os estruturalistas).

Precisamos deixar-nos questionar por estas análises. Elas são-nos úteis para chegarmos à fé pessoal, adulta, desinteressada, comprometida com as lutas a favor dos homens. Mas não podemos pensar que a religião em geral e o cristianismo em particular não passa de uma ilusão. Não! Não podemos deixar de falar de “Deus Pai”. O Amor foi-nos revelado com as nossas palavras humanas, as que podemos compreender; e essas palavras não são armadilhas, mas ao contrário, por serem simples e humildes revelam a bondade e a beleza de Deus.

 

Continuamos a dizer que “Deus é Pai” mas precisamos compreender bem que espécie de Pai é Deus.

 


*Adaptado de: Rey-Mermet,A fé explicada aos jovens e adultos