Deus morreu

No século XVI deu-se uma revolução artística, literária, científica e política a par da descoberta da imprensa. O aristotelismo foi ultrapassado pelo desenvolvimento da ciência e rejeitado pela filosofia e pela política.

 

A Igreja, habituada a explicar a sua doutrina com conceitos aristotélicos tem dificuldade em dialogar com a nova cultura, com a ciência, com a filosofia e com a política. Esta dificuldade, que não era recusa, criou a ideia de que a Igreja está contra a ciência e contra o pensamento. No século XVIII assistimos a uma hostilidade contra a Igreja sem qualquer motivo nem justificação. Esta atitude, junto com a ideia de que a Igreja não está com a ciência, persistem até aos nossos dias.

 

Dá-se a Revolução Francesa que não era anti-cristã, mas que se viu obrigada a sê-lo porque a Igreja se uniu ao regime e contra a república. Estava, ou parecia estar do lado dos senhores contra o proletariado e não aceitava as novas teorias como foi o caso do evolucionismo e o método histórico-crítico.

 

Porque o cristianismo se apresentava como quem fala em nome de Deus, as correntes do “progresso” científico, filosófico e político, manifestaram-se contra a Igreja e contra Deus. Não nos podemos admirar, portanto, que Nietzche (1844-1900) tenha resumido o pensamento do seu tempo com o famoso grito: “Deus morreu! Nós matámos Deus!”. Que Deus seria este de que falava Nietzche?

 

Como aconteceu em outros momentos da vida da Igreja, também nos finais do século XIX e inícios do século XX, apareceram homens corajosos e de grande valor como Duchesne, Laberthonnière, Maurice Blondel, Lagrange, Bergson, Pouget, Teilhard de Chardin, para citar alguns, que reanimaram o pensamento cristão na filosofia, na teologia, na política, nas ciências, nos estudos bíblicos.

 

Nas suas lutas, iluminados pelo Espírito, procuraram sempre levar por diante um pensamento cristão sobre o mundo, a natureza, a criação, a história, o homem, a sociedade, a economia e a política, a Palavra de Deus, o futuro do homem, a liberdade, o amor do Deus Amor.

 

Foi isso que levou mais tarde o Concílio Vaticano II a dizer: “Na origem do ateísmo, os crentes podem ter uma parte de culpa não pequena na medida em que, por negligência na educação da sua fé, por apresentações enganosas da doutrina, deles se pode dizer que escondem o rosto autêntico de Deus (GS). De modo que “alguns ateus imaginam ao rejeitar Deus não estão a rejeitar o Deus revelado no evangelho, mas um Deus deformado pelos crentes nas suas representações e afirmações”.

 

Esse “Deus morto”, esse Deus no qual já não se pode crer será realmente o nosso Deus, o da Bíblia, o de Jesus Cristo? Na medida em que aquele que morreu, segundo Nietzche, é o Deus de Platão ou de Aristóteles, o nosso Deus não é atingido. Sem dúvida que é mais fácil crer no Deus cristão quando não se confunde com o Deus dos filósofos. Um incrédulo dizia recentemente: “Eu não poderia interessar-me por um Deus que não tivesse morrido por nós”.

 

 

 

Adpatação de Rey-Mermet, A fé explicada aos jovens e adultos