Razões para crer em Deus

Onde estão as raízes desta experiência religiosa que faz germinar em nós o sentido de Deus?

Em primeiro lugar, temos a experiência da condição humana. A sua pequenez, finitude e precariedade, a sua fraqueza. A aspiração ao ilimitado, impossível de satisfazer. A nossa ignorância e a nossa impotência, as nossas angústias e os nossos impasses, o maior dos quais é a morte. Toda essa insuficiência natural apela para um salvador. Quem me liberta dos meus limites? O homem desde sempre pensou que podia realizar-se superando-se a si mesmo e sentiu sempre que só se poderia superar estabelecendo uma relação com o Outro, infinitamente maior que ele. Claro que o homem do século XXI segue mais pelo caminho da teimosia do que pelo caminho da oração. Uma teimosia que consegue alguns resultados mas não resolve de todo o seu problema.

 

Aqueles que experimentaram uma vida em plenitude – riqueza, saúde, beleza, grandeza, juventude, inteligência, sucesso, amor – sempre tiveram a consciência de que o deviam a “alguém”. Sentiram que a fonte dessa vida plena estava algu-res, vinha de um lugar distinto deles, de mais longe, de além das realidades des-te mundo. Procuram incansavelmente aquele a quem devem um agradecimento.

 

A solidão humana, é companheira tão frequente, que nem o ambiente mais calo-roso consegue apagar totalmente e as multidões das grandes cidades só a conse-guem aumentar. A solidão foi sempre um dos lugares essenciais para o encontro com Deus. A solidão, o vazio interior, a insatisfação, levam o homem a procurar algo mais e esse algo mais é Deus. O homem não está constituído para o isola-mento, para o solitário, carece de um “tu”. Mas no encontro com o “tu” terrestre percebe-se que esse encontro é apenas um convite e que nem todos os “tu” do mundo juntos conseguem superar o desejo interior de presença. O homem busca um “TU” maior do que ele e maior do que todos os que são do seu tamanho.

 

O homem está situado diante do mundo. Diante dessa imensidade de corpos, de vida, de elementos. Diante dessas forças temíveis que é preciso enfrentar. A beleza do cosmos e a sua plenitude por um lado e o seu lado trágico e misterioso por outro, revelam ao homem uma omnipotência transcendente. É verdade que o homem na sua teimosia passa muitas vezes pela tentação de se julgar capaz de vencer a força da natureza.

 

Alfred Kastler, prémio Nobel da Física serve-se da seguinte parábola:
“Supondo que num dos próximos voos lunares se explore a face oculta da lua, isto é, aquela que nos é oposta, mas que os astronautas podem atingir. Supondo que eles tenham a surpresa de cair numa fábrica automatizada que produza alu-mínio: existem atualmente na terra fábricas inteiramente automatizadas. Veriam, de um lado, pás revolvendo a terra e juntando o alumínio; de outro lado, as barras de alumínio que vão saindo. Encontrariam aparelhos de Física, processos de eletrólise. Por outras palavras, após terem examinado essa fábrica verificavam que apenas se passam fenómenos normais, perfeitamente explicáveis pelas leis da causalidade. Concluiriam que o acaso criou essa fábrica ou que seres inteligentes pousaram um dia na lua antes deles e a montaram? Existem ambas as possibilidades de explicação. Mas, pergunto, seria lógico pensar que o acaso reuniu moléculas de forma a criar semelhante fábrica automatizada? Ninguém aceitaria essa interpretação. Ora, num ser vivo encontramos um sistema infinitamente mais complexo de fábrica automatizada. Querer admitir que o acaso criou isso parece-me absurdo. Se existe um programa, não concebo pro-grama sem programador.”

 

Enfim, há caminhos que só se explicam pelo encontro com Deus. Olhamos para os homens e percebemos que não seriam possíveis sem Deus. Seria absurdo pen-sá-los sem Deus.