Deus manifestou-se

 

Se Deus é a razão de um anseio universal da humanidade, é porque ele se revelou. Blaise Pascal atribuía a Deus esta expressão: "Tu não me buscarias se não me tivesses encontrado". De facto, o homem tem fome de Deus porque ele (Deus) está presente no homem. E até mesmo o homem que nega Deus procura sempre alguém maior que ele, o Homem, a Humanidade… alguém que o tire da mediocridade e alguém que a mediocridade dos homens crentes não lhe permite identificar, mas que não é outro senão Deus, ainda que lhe chame outra coisa.

Ora, os cristãos dizem, esse Alguém manifestou-se, revela-se continuamente desde sempre; ilumina, fala, responde à pergunta que mora no coração do homem. Deus revela-se.

 

A revelação é a Palavra que Deus dirige ao homem para se dar a conhecer.

 

Deus é Pessoa. E toda a pessoa é mistério. Porque toda a pessoa é única, com os seus pensamentos, os seus projetos, os seus gostos, o seu passado, o seu amor.

 

Deus é mistério. Não se conhece se não se revelar.

 

Mas Deus também é amor. Amor para os homens. E quando amamos, comunicamos, confiamos e revelamo-nos. Não há amor sem confidência, sem revelação. Deus revela-se na sua criação. Todo o universo das coisas visíveis nos fala de Deus: são sinais de inteligência, de beleza, de amor. Muitos chegam a Deus através da beleza das coisas criadas. Descobrem por detrás desta beleza a força de um Amor infinito.

 

Mas Deus fala-nos, acima de tudo, na história, quer dizer, através da sua presença ativa na história dos homens. A história está cheia de gestos, palavra e manifestações do amor de Deus. A revelação (a Bíblia) é o relato dessa história de um Deus que convive com os homens. O Amor infinito que o homem percebe por detrás da beleza da criação é Alguém que passa na história. O maior sinal da presença de Deus na vida dos homens aconteceu com Jesus Cristo. Ele é Deus feito homem, Deus que pode ser tocado no seu corpo pelo próprio homem. Nele, dizia S. Paulo, "estava a plenitude da divindade". Portanto, já não se trata de crer em Deus, na sua existência, como quem o percebe por detrás da criação ou como quem o vislumbra na história. Trata-se crer a Deus, acreditar na sua ação, na sua revelação, nas suas palavras, no seu projeto de amor, na salvação que nos oferece.

Para crer em alguém (crer que existe) basta vê-lo ou que nos falem dele. Para crer a alguém, é preciso que esse alguém nos ame e seja por nós amado.

 

Essa presença de Deus na nossa história humana pode ter as suas etapas que podemos conhecer abrindo a Bíblia e lendo, porque aí encontramos a ação de Deus na sua revelação ao homem. Mas para crer a Deus não basta ler, é necessário abrir o coração. Se o coração aceitar abrir-se ao amor de Deus, então, temos fé. Esta fé é mais uma abraço permanente que Deus nos dá em amor e ao qual nós correspondemos, do que uma teoria muito bem elaborada sobre Ele. Deixar-se abraçar por Deus é ter fé e para chegar a ter fé é preciso dizer muitas vezes: "Eu quero esse abraço". Na força de o dizer cria-se em mim a sensibilidade necessária para crer.

 

Adaptação de: Rey-Mermet, A fé explicada aos jovens e adultos