Experiência de fé

Crentes e não crentes falam de uma experiência. Mas há experiência e experiência.

 

Cada um possui a experiência de si mesmo, direta e intimamente. “Existo, vivo, sinto-me bem ou mal, física ou moralmente, por esta ou aquela razão. Gosto, detesto ou é-me indiferente. Penso nisto ou naquilo…” É a intuição. Ela é dificilmente comunicável. Corre o risco de se concentrar num ponto. Mas também pode abrir-se, lançar-me para os outros, para Deus… chamá-los, acolhê-los. Todo esse domínio interior é demasiado particular, demasiado pessoal, para ser o da ciência. No entanto, ele é, dentro de cada um, o primeiro domínio da certeza. Ele constitui, para todos, a experiência inicial.

 

Cada um possui, também, a experiência das coisas, dos objetos, dos acontecimentos. Ela principia no homem com a exploração das coisas íntimas, elementares, pela boca, pelas mãos, pelos olhos. Alcança a perfeição na experimentação científica. Examina então com minúcia as coisas, analisa a composição química e determina o comportamento físico das mesmas. Tratando-se dos homens, permite tratar esses homens quase como coisas e também apelar para uma experiência universal. Esse domínio dos objetos o domínio exclusivo da ciência, o domínio do acaso e da necessidade, com suas leis universais. Não é o domínio das pessoas, que são livres e singulares.

 

 

Cada um possui, finalmente, a experiência dos outros, das pessoas. Vivem-se encontros, travam-se conhecimentos, simpatiza-se, fazem-se visitas; ou vive-se junto a alguém, marido, esposa, pais, filhos… Encontros amigáveis, presenças amorosas, sentidos através dos indícios. Porém, esses indícios não são provas; diante deles fica-se livre. É o domínio da fé religiosa ou simplesmente humana: Crê-se” – e isso pode constituir uma certeza – crê-se com base na experiência pessoal ou no ouvir dizer de pessoas dignas de fé. É a história, a grande História e a minha pequena história que é tão segura como a ciência, mas noutro nível, e que é tão importante para crentes como para não crentes. Um amor não se explica.

 

É como uma carta de amor… A ciência poderá determinar o peso, a estatura, o grupo sanguíneo, a ficha médica daquele ou daquela que a escreveu; poderá fazer a análise química do papel e da tinta; poderá inclusive tentar um estudo grafológico, etc. Mas é incapaz de elevar-se ao nível das pessoas, o único nível em que esta carta é interessante e importante: o nível do amor, da liberdade, da fé. A ciência é incapaz de dizer quais o sentimentos, as decisões que a carta contém e aqueles que vai provocar. Irá dar, ou não, em casamento? Estamos no nível da fé, aquele no qual tanto os não crentes como os crentes gastam as suas vidas.

Ora, se todos os homens vivem e procuram o amor humano, também em todos late permanentemente uma questão que surge como certeza e como incerteza no coração: Estou sozinho? Tenho que suportar tudo sozinho, sofrimento, pecado e morte?

Esta é a questão que pergunta por Deus. De modo mais consciente ou mais inconsciente esta pergunta aparece.

 

 

Adaptação de: Rey-Mermet, A fé explicada aos jovens e adultos