Travessia do desespero

Entre os discípulos a esperança tinha desaparecido. “O Messias, o Reino, acabou…” Maria Madalena e uma companheira sentaram-se em frente do sepulcro porque o seu Amor está lá dentro. Mas elas, nada esperam. Unicamente esperam que termine o sábado para juntar os aromas aos que Nicodemos usou à pressa antes de sepultar Jesus. Todos estão voltados para o corpo morto de Jesus.

 

Nesse sábado se ausência de Deus, ouve-se ainda o grito de Nietzche, prolongado na história, “Deus morreu!... E fomos nós que o matámos!” Desde então, o abismo de silêncio do sábado está em vias de envolver todos os homens no seu sudário: “Deus impotente, Deus silencioso, Deus ausente… Nossos costumes, nossas leis, nossas instituições, nossa literatura, nossos vídeos, nossas famílias liquidaram – ou quase – do nosso universo Deus e o seu Cristo… Vamos para o tempo do “Deus no túmulo” com uma pesada pedra em cima.

 

Num mundo de católicos que se contam aos milhões, quantos creem de verdade na ressurreição? A Igreja continua a satisfazer a procura dos ritos, batizados, casamentos, funerais, mas não será apenas o reflexo de uma vida que passou?

 

Entretanto os discípulos retiram-se para Emaús com o coração em desespero. Sem verem que aquele que os homens sepultaram caminha no meio deles, vivo. Sem compreenderem ainda que aquilo que eles choram devia morrer: uma certa imagem de Deus por eles elaborada, uma certa religião tradicional e gasta, uma certa igreja esclerótica que faz perguntas e respostas, mas não tem respostas para as perguntas dos homens deste tempo.

 

Entretanto, Jesus caminha connosco, mas os nossos olhos, não o veem, não podem reconhecê-lo. Sábado é a véspera da Páscoa! Porém, não haverá Páscoa se permanecermos no que já foi sem passar à novidade de Cristo. Ele está vivo e vai à nossa frente para a Galileia, “lá o vereis”, mas aqui no túmulo, não está.

 

Adptado de: Rey-Mermet, A fé explicada aos jovens e adultos.