Deus desceu ao rés-do-chão

Durante os anos da vida de Jesus, Homem-Deus, as suas palavras e os seus gestos eram palavra e gestos de Deus. Descendo do céu, aquele que ia ser o Filho do Homem não perdeu nada da sua qualidade de Filho de Deus. No entanto, renunciou às vantagens que o ser Deus lhe dava.

 

"Ao ler o evangelho somos constantemente ameaçados por uma ilusão que poderíamos chamar de ilusão ótica. Porque cremos que Jesus é o Filho de Deus e porque a sua existência fala da sua divindade, somos levados a pensar que Jesus vive em dois níveis, em dois andares sobrepostos. No andar inferior ele vive a sua existência humana, identica à nossa, carregando o peso dos dias. Mas, porque é Deus, ele continua também no andar de cima a viver uma exist~encia feliz, sem sobressaltos nem inquietações.

 

 

Chegamos assim, ao coração do mistério de Cristo. Esta visão não é correta no que diz respeito à existência humana de Jesus.É verdade que Cristo homem permanece Deus; é verdade que ele permanece unido ao Pai, numa proximidade e certeza absolutas, que se percebe numa relação de amor permanente com o Pai, que a sua união com o Pai está para lá da relação de qualquer pessoa com Deus. A ilusão começa quando fazemos desta realidade existêncial de Jesus, um segundo andar onde ele caminha sem qualquer contrariedade." (Jacques Guillet).

 

 

Tratar-se-ia de um estratgema para nos iludir do amor de Jesus por nós e do seu sofrimento. A Revelação não diz isso que o Verbo habitou num homem, diz que o "Verbo se fez carne e habitou entre nós". O Verbo torna-se homem, vive a nossa existência de homem sem restrições sem permanecer no céu como segundo residência. Ele desceu ao ré-do-chão para viver a mesma experiência que nós com todas as limitações.

 

 

Cristo "aniquilou-se", diz Paulo, "esvaziou-se a si mesmo" para assumir a nossa condição de homem (Fl 2,6s)

 

 

Portanto, já não vive no andar de cima, mas no rés-do-chão "até à morte e morte de cruz". Perdeu a situação de glória com que vivia junto do Pai e por isso pede ao Pai que lhe devolva essa condição que antes tinha junto dele. "Glorifica-me, Pai, junto de Ti com a glória que eu tinha antes que o mundo existisse" (Jo 17,5).

 

 

Depois de ressuscitar adquiriu não só a glória que tinha junto do Pai, como o direito de introduzir na sua glória toda a humanidade, para ali, participarmos na sua natureza divina. (2Pd 1,4).

 

 

Tornando-se homem, Deus mostra a sua omnipotência no Amor.

 

 

Adptado de: Rey-Mermet, A fé explicada aos jovens e adultos.