Ano da Fé
 
O Espírito reúne em comunhão

Para quem conhece as coisas do amor, é óbvio que se depara com dois movimentos: um de calor e intimidade e outro de dom e abertura de coração. O Espírito Santo é ao mesmo tempo o fogo que abrasa e reúne e o vento de tempestade que impele para fora. Ele reúne a fim de projetar para os quatro cantos do mundo.

 
Os Sacramentos vida pelo Espírito

Sem o Espírito Santo, o que são os sacramentos? Ritos recebidos, tradicionais, muitas vezes folclóricos e sempre ineficazes. Ritualismo! Há tudo, matéria e forma. Inscreveu-se nos registos. Fez-se o que se devia! Sinais do velho instinto religioso mágico. 

 
Deus o exaltou

“Deus constituiu Senhor a Cristo, a esse Jesus que vós crucificastes” (Act 2,36). É Pedro quem fala aos judeus que acorreram quando do Pentecostes.

 
Sentado à direita de Deus

Que significa esta "exaltação", essa "glória do Filho unigénito"

Vejamos alguns pontos:

"Deus constituiu Senhor", isto é, esse homem Jesus é plenamente Deus igual ao Pai. O Filho eterno do Pai que se eleva para lá das nuvens era Deus desde sempre. "Ninguém subiu ao céu, a não ser aquele que desceu do céu, o Filho do Homem" (Jo 3,13). Mas precisamente, há dois mil anos, esse Filho de Deus desceu do céu para ser Filho do Homem. A Pessoa, o "Eu", que é Deus Filho desde toda a eternidade, deixou o seu "andar" divino para viver tudo como nós, exceto o pecado. Esse Jesus, através do acontecimento da Páscoa reentra no "andar" divino, mas agora, não apenas como Deus, também como homem, com a sua humanidade, espírito e corpo. Ao fazer-se homem "esvaziou-se de si mesmo" renunciando ao estatuto divino, para assumir "a condição de servo. Agora o homem, nele, é recriado, plenamente divinizado: Jesus de Nazaré deixa a nossa condição humana, terrena e mortal, para assumir, enquanto homem, a condição divina e se tornar semelhante a Deus.

 

 
Exaltado na cruz

Verdadeiramente, a ascensão começa na cruz. A morte livre de Jesus, suspenso entre o céu e a terra será para sempre o maior sinal do Amor: a grande manifestação do Amor do Filho por seu Pai, do Filho pelos irmãos pecadores, do amor de Deus, do amor do homem Jesus. É esse misto de dor e de morte que, por ser lugar de Amor, se torna explosão de ressurreição e glorificação. O caminho da Páscoa para o Pai é, conjuntamente, a cruz, a ressurreição e a glorificação: três aspetos, uma só realidade, um só momento, um só mistério.

 

 
Duas datas, um mistério

É preciso escolher os dois relatos da ascensão. A realidade do Mistério põe ambas as datas em perfeito acordo: elas não estão no mesmo nível. Mateus, Marcos e, em profundidade, Paulo e João colocam a "glorificação" do Senhor no próprio dia de Páscoa. No início, os primeiros teólogos identificaram Ressurreição e Ascensão. Efetivamente, é a única solução que convém. Uma vez ressuscitado, Jesus não é uma espécie de vagabundo superior que não sabe para onde ir: não fica à espera durante quarenta dias, numa gruta de Jerusalém, que a porta do céu se abra para ele. A partir do momento em que sai da morte, ele entra na Vida, junta-se ao Pai na Glória.

 

 
A Ascensão do Senhor

Apenas dois evangelhos, Marcos e Lucas, mencionam o facto visível da Ascensão de Jesus: "O Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, foi arrebatado ao céu e sentou-se à direita de Deus" (Mc 16,19). "Erguendo as mãos, abençoou-os. E enquanto os abençoava, distanciou-se deles e era levado ao céu" (Lc 24,51).

 

 
A Igreja crê

Paulo, o apóstolo das cartas, escreve na primeira carta aos Coríntios: "Lembro-vos, irmãos, o evangelho que vos anunciei, que vós recebestes, no qual permaneceis firmes e pelo qual sereis salvos, se o guardardes tal como eu vo-lo anunciei; de outro modo, teríeis acreditado em vão. Transmiti-vos, em primeiro lugar, o que eu próprio recebi: Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras; apareceu a Cefas e depois aos Doze. Em seguida, apareceu a mais de quinhentos irmãos, de uma só vez, a maior parte dos quais ainda vive, enquanto alguns já morreram. Depois apareceu a Tiago e, a seguir, a todos os Apóstolos. Em último lugar, apareceu-me também a mim, como a um aborto." (15,1-8).

 

 
Mistério de fé

Quando falamos da ressurreição de Cristo, não estamos a pensar que Jesus, depois de morrer, voltou à vida por mais um ano ou dois como aconteceu com todos os que ele ressuscitou. Jesus, pela ressurreição vence a morte de uma vez para sempre e nunca mais a mais tem poder sobre ele. A sua vida, agora, já não é deste mundo. Ressuscitou para a vida definitiva, que já não está ligada às leis da física e da biologia. Agora trata-se de vida eterna que está para além do poder da morte. Agora, escapa aos nossos olhos, aos nossos sentidos, mas ele continua a relacionar-se com este mundo e de modo ainda mais real e de forma mais profunda. Jesus ressuscitado torna-se presente e contemporâneo de todos os homens de todos os tempos e lugares.

 

 
Acontecimento central

A Ressurreição de Jesus é um acontecimento implantado no coração do mundo. Mais do que um acontecimento histórico ele é o centro da história. O acontecimento de onde nasceu o cristianismo.

 

O núcleo do Credo dos cristãos é o acontecimento da Páscoa. Ali está a origem e o ponto central permanente da nossa confissão de fé.

 

 
Morrer para si

Percebemos, uma vez mais, a nossa condição de criaturas de Deus. Quem não conhece o amor? Quem pode negar que o amor é um desejo de eternidade em favor daquele que amamos? “O amor, de uma forma ou de outra, cria uma certa imortalidade; mesmo nos seus esboços pré-humanos, ele orienta-se para a conservação da espécie. Isto não é algo de acessório no amor. Podemos inverter esta afirmação e dizer: a imortalidade procede sempre do amor e nunca do egoísmo que se basta a si mesmo” (J. Ratzinger).

 

 
O caminho da ressurreição

Não se entra na ressurreição, do mesmo modo que não se entra na existência. Só o amor dos pais pode fazer nascer, como só o amor de Deus pode fazer ressuscitar. A vida e a sobrevivência implicam os outros. Que outros?

 

 
Travessia do desespero

Entre os discípulos a esperança tinha desaparecido. “O Messias, o Reino, acabou…” Maria Madalena e uma companheira sentaram-se em frente do sepulcro porque o seu Amor está lá dentro. Mas elas, nada esperam. Unicamente esperam que termine o sábado para juntar os aromas aos que Nicodemos usou à pressa antes de sepultar Jesus. Todos estão voltados para o corpo morto de Jesus.

 

 
Foi sepultado

Seria necessário colocar no Credo a afirmação sobre Jesus que refere "foi sepultado"? Talvez. S. Paulo considera importante ao referir aquilo que era convicção dos apóstolos: "Transmiti-vos em primeiro lugar aquilo que eu mesmo recebi: Jesus morreu pelos nossos pecados, segundo as escrituras. Foi sepultado, ressuscitou ao terceiro dia, segundo as escrituras. Apareceu a Cefas e depois aos Doze" (1Cor 15,3s).

 

 
Aconteceu algo com a morte

A minha vida ninguém ma tira, sou eu que a dou livremente, diz Jesus (Jo 10,7). Chegou a hora… Jesus deu um grande grito – morte livre, morte corajosa, morte de amor – “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”. Inclinou a cabeça e morreu.

 

 
Deus morreu

Conta Jean Guitton que: Quando criança, ousei perguntar à minha mãe o que era a morte. Ela abriu o evangelho de são João e leu: ‘Sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus… amou-os até ao fim…’ – ‘Passar para o Pai, amar até ao fim, morrer é isso’, diz-me ela. E eu não fazia mais perguntas.”

 

 
Redenção de amor

Por causa de ti, estamos expostos à morte o dia inteiro, fomos tratados como ovelhas destinadas ao matadouro. Mas, em tudo isso, somos mais do que vencedores, graças àquele que nos amou. Estou convencido de que nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os principados, nem o presente nem o futuro, nem as potestades, nem a altura, nem o abismo, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus que está em Cristo Jesus, Senhor nosso."Rey-Mermet, A fé explicada aos jovens e adultos.

 

 
A vitória sobre o ódio

Todo o poder humano é pecado se não for o poder do amor. Se Jesus tivesse promovido uma luta contra as formas de opressão do seu tempo, contra a arrogância dos poderes humanos, religiosos e políticos que o mataram, não teria atacado o mal na sua raiz, tinha provocado mais opressão, mais poder, mais ódio. A luta contra a ditadura fabrica novas ditaduras e a luta contra o mal fomenta novas formas e manifestações do mal.

 

 
O mistério da redenção

"Foste imolado e, pelo teu sangue, regataste para Deus homens de toda a tribo, língua, povo e nação". É este o cântico nosso do apocalipse, em honra do Cordeiro de Deus, Jesus imolado na sua paixão.

 

 
O pecado do mundo

Jesus é condenado pelos poderes deste mundo. Condenado porque pretende ser livre e libertar os oprimidos. O pecado do mundo é sobretudo o poder que esmaga o fraco e condena o inocente, o poder que domina em vez de amar. Cada um de nós é, muitas vezes, um poder privado. Exercemos o poder esmagador sobre aqueles que estão perto de nós e se mostram mais fracos.

 

 
Ele deve morrer

Jesus não sofreu uma morte qualquer por qualquer motivo. Foi preso, julgado, condenado, executado por motivos concretos e por autoridades conhecidas. Se o Espírito Santo, por meio dos Evangelhos, nos relata essas circunstâncias, é porque elas não são indiferentes ao sentido da encarnação e da redenção, é porque constituem, para a Igreja militante, uma orientação fundamental para a sua vida e o seu combate na terra. De facto, as razões pelas quais Jesus entra em conflito com as autoridades do tempo é porque, a sua vida e a sua palavra, denunciam o pecado do mundo.

 

 
Viver é amar; amar é morrer

"Salvar a vida" é viver com Cristo da própria vida de Deus. Essa vida eterna já começou, é para já… mas experimentamos o sofrimento e a morte.

 

 
O mistério pascal: morrer para viver

A existência humana não pode acontecer sem essa marca da morte. "Se o grão de trigo não morrer…" O cristão sabe que as dores de quem sofre são dores de parto de um mundo novo (Rm 8,22). As dores de parto de uma mãe são dores que lhe concedem um filho, são a condição para poder ter nos braços o filho desejado. As grandes conquistas do homem só se realizam mediante o sofrimento que as faz nascer.

 

 
Era necessário que Cristo sofresse

Ao entrar no mundo como um de nós, Jesus, está a dizer, em nome de Deus, que o mundo foi feito para o homem e não contra o homem.

 

 
O sofrimento em Cristo

Perante o sofrimento, qual a resposta de Jesus? Ele, que é justo, não dá a menor justificação para o sofrimento e para a morte. A sua atitude é de quem luta contra um e outro para os destruir. A revolta dos homens é também a sua revolta. Curar os doentes, ressuscitar os mortos, lutar a favor dos oprimidos, perdoar os pecados e, finalmente destruir a morte com a própria vida, essa é a atitude de Jesus. Aos inimigos diz: "Perdoai"; aos agressivos: "Amai". Ele dá o exemplo: "Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem".

 

 
Escândalo e maldição

O sofrimento é um escândalo. A televisão, a rádio, o jornal, a própria vida mostram ao homem, diariamente, uma dose substancial de sofrimento, de desgraças e catástrofes. O próprio homem se vê envolvido no sofrimento da doença, da corrupção, da injustiça, da fome... humilhado, caluniado, enganado, abandonado, torturado, desesperado. Escândalo! Maldição!... “Se Deus existe…”

 

 
A Cruz do sofrimento

A cruz, tanto a de Cristo como a de qualquer condenado é um escândalo, uma loucura. É S. Paulo que o escreve (1Cr 1,23). Pior: ela é uma maldição: "Maldito todo aquele que é suspenso no madeiro" (Gl 3,13).

 

 
Gloriar-se na cruz

A cruz supõe um tempo de sofrimento, como uma "passagem subterrânea" para a Páscoa. A cruz é o auge do Amor: a obediência ao Pai até ao extremo. Sexta-feira santa é o dia do Amor.

 

 
Ressuscitou

"A vida de Jersus tem dois lados distintos, o da cruz e o da glorificação. "A cruz não teria qualquer sentido se fosse cruz de um Deus morto. A ressurreição é o fruto do madeiro, qual árvore do paraíso, da cruz. Árvore do conhecimento de Deus. Foi a cruz que nos permitiu conhecer a Deus até aos limites, saber até onde ela era capaz de ir: até à ressurreição." (P. Talec).

 

 
Anunciamos Cristo crucificado

O Símbolo dos Apóstolos faz-nos passar diretamente do nascimento para a paixão e morte de Jesus. Se passou rápidamente sobre a vida de Jesus, agora demora-se com lentidão sobre os acontecimentos dessa dolorosa e derradeira caminha. "… padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, desceu à mansão dos mortos…". Porquê esta preocupação em especificar cada detalhe?

 

 
… Da Virgem Maria… Pôncio Pilatos

"Nasceu da Virgem Maria e padeceu sob Pôncio Pilatos".

Depois de concebido no seio da Vrigem Maria, o Credo dá um salto, para a sua morte sob Pôncio Pilatos. Paece que não aconteceu nada durante a sua vida. Depois chama a atenção o facto de aparecerem dois nomes, Maria e Pilatos, os únicos nomes que aparecem no Credo e praticamente ao lado um do outro.

 

 
Mãe de Deus

A conceção virginal de Jesus deve ser compreendida como ela é: a marca da iniciativa total do Pai. Jesus, o Filho de Deus, é plenamente homem, plenamente da nossa raça, "nascido de uma mulher" (Gl 4,4,), mas não tem outro pai além de Deus.

 

 
A Virgem Maria

Em todos os Símbolos da fé cristã, Jesus nasceu de uma Virgem. Infelizmente, uma certa cegueira deixou ver apenas essa virgindade; e, ainda por cima, mal compreendida: Maria seria aquela que não foi manchada pela sexualidade. Do mesmo modo que a especialidade de Santo António é fazer aparecer objetos perdidos, a especialidade de Maria, para muitos, é a de nos fazer viver sem perdermos a "pureza".

 

 
Deus desceu ao rés-do-chão

Durante os anos da vida de Jesus, Homem-Deus, as suas palavras e os seus gestos eram palavra e gestos de Deus. Descendo do céu, aquele que ia ser o Filho do Homem não perdeu nada da sua qualidade de Filho de Deus. No entanto, renunciou às vantagens que o ser Deus lhe dava.

 

 
O Verbo fez-se carne

Jesus de Nazaré nasce do "sim" da Virgem Maria, é "o Senhor" no sentido divino da palavra: ele é Iahweh como o seu Pai.

 

 
A Imaculada

 

São Paulo escreve aos efésios: Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo escolheu-nos em Cristo, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis na sua presença, no amor" (Ef 1,3s). "Irrepreensíveis", "imaculados", isto é, sem máculo, sem pecado, sem vestígio de egoísmo, como Cristo, por Cristo. É o futuro de todos nós, pois somos programados por Deus. Mas não é o nosso passado, nem o nosso presente: com toda a espécie humana, nascemos fora da vida divina e no "não" ao plano de Deus e à nossa vocação ao Amor. Viemos ao mundo, enquanto homens, "encerrados no pecado", "encerrados na desobediência".

 

 
Superabundou a graça

Lemos no capítulo 5 versículo 12 da carta aos Romanos: "Assim como em Adão todos pecaram, assim também em Cristo, todos recebem a graça…" Esta é um a grande notícia e uma verdade que está longe de ser conhecida e entendida por muitos cristãos, mas não é toda a verdade. A verdade revelada é ainda mais bela: O pecado não tem poder sobre a graça e a graça é maior que o pecado.

 
Um só

O personagem do capítulo 3 de Génesis é Adão. Ora, Adão não é o nome próprio de uma pessoa. Adão, significa "o homem". É usada esta palavra 539 vezes ao longo da Bíblia no sentido colectio de "homem", mais precisamente de "terráquio", foi tirado da terra. A tradução da Bíblia conhecido por "Os setenta", realizada nos séculos III-II a. C. não apresenta a tradução desta palavra mas insere-a simplesmente no texto grego. Daí em diante foi compreendida como o nome de alguém que teria existido ao início da humanidade. Jesus nunca fala de Adão, nem do pecado de Adão. O mesmo acontece com "Eva" que significa "a vivente".

 

 
A experiência de pecado

O povo da Bíblia fez uma experiência de pecado, sob mil formas, como acontece em muitos povos, grupos e coletividades. Um povo nomada, caminha de terra em terra, atravessa culturas e civilizações, percebe a riqueza de uns povos e a pobreza de outros. Experimenta a hostilidade da terra, do clima, das feras, das doenças, da morte. Reflete. Procura uma razão para essa ruptura universal e arrasadora para o homem. A divisão do homem com o outro homem, do homem com os animais, do homem com a natureza, consigo mesmo. Procura em Deus uma resposta. No final encontra uma resposta inspirada que fica consignada nos primeiros capítulos de Génesis.

 

 
Uma confusão

A catequese popular fez de Cristo e da sua encarnação o contrário do pecado original. Quer dizer que o Acontecimento maior que explicava tudo e tudo comandava, não era o Amor de Deus revelado em Cristo mas o pecado original. O Plano de Deus teve que ser mudado porque o homem (Adão e Eva) com o pecado falharam o plano inicial.

 

 
O mistério do "pecado original"

À luz de Cristo, protótipo do Homem é que podemos tentar esclarecer o mistério daquilo a que chamamos o "pecado original". Sob esta expressão, confundem-se habitualmente, duas coisas:

 

 

- O pecado das origen, o pecado voluntário dos primeiros homens, os pecados que abriram a série negra, "o pecado de Adão", como se costuma dizer.

 

 

- A condição "pecadora" de todos os homens quando nascem. Quer dizer, os homens não nascem na amizade com Deus nem a participação na Vida divina é uma realidade adquirido no nascimento.

 

 
Quem é o homem?

Estamos no domínio das ciências humanas. Filósofos, psicólogos e sociólogos procuram “o homem, esse desconhecido”, para desmontar o mecanismo e compreender os seus mistérios.

 

 
Predestinados

É a "passagem", a Páscoa, do Homem a Deus por seu Filho que, "quando for exaltado na cruz e na glória, atrai tudo a ele", para tudo introduzir no seio da Família trinitária.

 

 
Primogénito de toda a criação

S. Paulo diz que Cristo "é a imagem do Deus invisível, o primogénito de toda a criatura; porque foi nele que todas as coisas foram criadas, nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis, os Tronos e as Dominações, os poderes e as autoridades, todas as coisas foram criadas por Ele e para Ele. Ele é anterior a todas as coisas… Ele é o princípio… porque nele aprouve a Deus fazer habitar toda a plenitude" (Cl 1,15-19).

 

 
Cabeça e corpo

Na relação com a Igreja a autoridade de Cristo tem um carácter diferente do que acontece na relação com o universo das coisas criadas. A relação entre Cristo e a Igreja é uma relação pessoal. Da parte de Cristo a autoridade é ternura, afeto e dom que vai até ao sacrifício de si mesmo; da parte da Igreja é obediência.

 

 
Ele é a Cabeça

O império de Cristo é universal, engloba tudo o que foi criado. Tudo foi criado, tudo é continuamente conservado por ele. “Tudo foi criado por ele e para ele. Ele é anterior a todas as coisas e por ele tudo subsiste” (Cl 1,16-17).

 

 
Um só senhor

Não basta dizer que Jesus é “o Senhor” nem que ele é “o nosso Senhor”. Porque nenhuma destas expressões impede que haja outros senhores. Portanto, é necessário afirmar que só Jesus é o Senhor, o único Senhor e não há outro.

 

 
Nosso Senhor

Deus é o Senhor de toda a terra. Ele é o Deus Altíssimo que fez os céus e a terra (Gn 14,19); é o Deus dos deuses, o Senhor dos senhores (Sl 136,2-3).

 

 
Kyrios, nome divino

Após a Páscoa os discípulos são iluminados pelo Espírito Santo que desce sobre eles no dia de Pentecostes. É o Espírito Santo quemlhes revela toda a verdade sobre Jesus, a quem eles conheciam como homem extraordinário, Messias, Senhor.

 

 
Jesus é o Senhor

"Jesus Cristo, vosso Filho, nosso Senhor" é a súplica da Igreja que estamos habitiados a fazer na liturgia. "Senhor" é um título de honra, autoridade, dominio. É senhor de um lugar, aquele que é o dono desse lugar, aquele que tem poder sobre as pessoas e os bens. Por isso, "o Senhor" com artigo e maiúsculo, é Deus, porque dele são todas as coisas e todas as pessoas.

 

 
As três Pessoas

O Filho "procede do Pai". Por isso foi o Pai que enviou o seu Filho ao mundo. Foi o Filho que encarnou, em obediência ao Pai e pelo poder do Espírito Santo. O Espírito Santo "procede do Pai e do Filho". Por isso é que o Pai e o Filho enviaram o Espírito sobre os fiéis no Pentecostes. O Espírito é que foi dado à Igreja no Pentecostes; é ele quem anima o coração dos cristãos para neles suscitar a fé e a oração que sobe ao Pai através do Filho.

 

 
Um amor na terceira pessoa

Eis-nos chegados ao fundo da revelação mais perturbadora: Deus ensinou-nos que ele é família; Pai, Filho e Espírito Santo. A família humana coloca-nos no caminho: ela é “o homem à imagem e semelhança de Deus”; é o mais belo espelho vivo de Deus-Trindade.

 

 
Uma terceira Pessoa

 

 

 

Ser um é o profundo impulso de todo o amor. Mas este impulso tem sempre uma barreira. "Trata-se de um desejo mais que de uma realidade. De certo modo, permanecemos sempre exteriores ao que amamos. Não podemos dar-lhe plenamente o nosso ser, nem tornar-nos absolutamente ele próprio. Aqui na terra, há no amor uma espécie de exílio em relação ao ser que amamos, porque ele permanece sempre no exterior. É um sofrimento inevitável" (M. Zundel). Essa muralha ainda se torna mais forte por causa de uma impotência radical. "Com efeito, qualquer que seja a perfeição da reciprocidade entre ambos, essa reciprocidade no fundo, escapa-lhes. Só parcial e superficialmente ela é percebida por meio de indícios. O apaixonado conhece o amor do ser amado pelas palavras que ele profere, pelos gestos que faz, pelo conjunto do seu comportamento. Mas não vê o amor em si. É por isso que o amor humano não tem repouso: busca incessantemente um além impossível de atingir. "Ela vê-o; ele Vê-a; ninguém vê o amor" (Santo Agostinho)" (F. Varillon).

 

 

 
Vários na igualdade

Se o “eu” e o “tu” permanecem bem distintos no amor, desaparece, em compensação, o “meu” e o “teu”. “Tudo o que é meu é teu”. Num casal unido tudo se partilha.

 

 
Continuando a ser vários…

Em Deus há união sem confusão!

 

 

"O amor sipõe que aquele que se dá e aquele a quem se dá permaneçam distintos: a condição do amor é que os seres continuem sendo vários, embora sejam um só. O dom de si mesmo não deve consistir na destruição do outro a quem se ama nem daquele que ama, mas na plenitude de ambos" (Maurice Zundel). Ficar repleto do outro permanecendo na sua própria identidade, ser tudo para o outro continuando com plena posse de si mesmo e, por outro lado, amar suficientemente o outro para acolhê-lo sem o absorver, amá-lo o bastante para querer que ele permaneça na sua plena identidade, distinto de si, diferente de si, como ele é – isso é amar.

 

 
Ser apenas um…

 

Qual é o desejo natural do amor?

 

Em primeiro lugar, é sair de si para dar-se, para perder-se… É um impulso do "eu" todo em direção ao outro – e simultaneamente um acolhimento do "outro" todo dentro de si.

 
Num espelho

"Agora vemos num espelho e de maneira confusa, mas, depois veremos face a face. Agora o meu conhecimento é limitado, mas, depois conhecerei como sou conhecido" (1Cor 13,12).

 

 
O diálogo e o “Verbo”

A palavra “diálogo”, característica de toda a pessoa, vai ajudar-nos a compreender o título de Cristo que o evangelho de João nos apresenta: “O Verbo fez-se carne e habitou entre nós”.

 

 
Deus é pessoa

Deus, já vimos anteriormente, revela-se como Alguém e não como um conjunto de forças vagas e diluídas na natureza; tem encontros com Abraão e Moisés; possui um nome próprio. Numa palavra, ele é uma "pessoa".

 

 
Sobre a vida só podemos balbuciar

Quando se trata de Deus é natural que não sejamos capazes de dizer muitas coisas. Afinal, das nossas vidas apenas podemos suspeitar do mistério que as envolve, não as dominamos.

 

 
Conhecimento aproximado

De Deus, apenas podemos ter um conhecimento aproximado. O teólogo Henri Bouillard, a propósito das Pessoas da Santíssima Trindade e do conhecimento que podemos ter delas, diz assim:

 

 
A Igreja e a Trindade

 

Da ressurreição do Filho, da efusão do Espírito, nasceu a Igreja. Ela partiu sob o impulso do mandato de Jesus: "Ide e fazei discípulos em todas as nações, batizando em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo" (Mt 28,19).

 

 
Jesus revela o Pai e o Espírito

 

Feito homem, o Verbo, a Palavra do Pai, Jesus não se preocupa com a linguagem técnica da filosofia que procura explicar com termos conplicados e confusos - como natureza, pessoa, essência, substância – para falar do Deus Trinitário. Muito simplesmente, Jesus, viveu como vivemos todos nós. Vive tal como é. Vive como Filho único. Abrindo o Evangelho percebemos que Jesus tem apenas uma preocupação que é fazer a vontade do Pai, pensar no Pai, falar com o Pai. Há, entre Jesus e o Pai, uma relação familiar, um parentesco que é visível na sua vida e na sua palavra.

 

 
Família divina, a Trindade vive-se

Não encontraremos em parte nenhuma da Bíblia uma fórmula que diga “um só Deus em três pessoas”. No entanto, desde as primeiras páginas de Génesis que temos a presença de um grnade Amor afirmado em forma plural – Elohim, o nome de Deus – esse Amor, Deus criador fala consigo próprio no plural: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”, numa cena em que várias pessoas entram em acordo para a criação do homem. Fazendo o homem “à sua semelhança”, ele criou homem e mulher e com capacidade para ter filhos, cria-os também em trindade. Uma trindade – pai, mãe, filho – “imagem e semelhança de Deus”: o Deus único é, portanto, Trindade.

 

 
Trindade, natureza, pessoa

Antes de mais é necessário dizer que Jesus nunca falou de “Santíssima Trindade” e os evangelhos também não fazem esta afirmação. No entanto, quando vemos a liturgia dos primeiros séculos, percebemos que, bem cedo, os cristãos começaram a rezar ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Estas orações mostram que a unidade das três Pessoas divinas, reveladas por Cristo, era uma consciência da Igreja desde o início. Os primeiros cristãos admitiram implicitamente e de modo espontâneo a Trindade das Pessoas na unidade da natureza divina.

 

 
A família não se ensina, vive-se

 

Antes de mais é necessário dizer que Jesus nunca falou de “Santíssima Trindade” e os evangelhos também não fazem esta afirmação. No entanto, quando vemos a liturgia dos primeiros séculos, percebemos que, bem cedo, os cristãos começaram a rezar ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Estas orações mostram que a unidade das três Pessoas divinas, reveladas por Cristo, era uma consciência da Igreja desde o início. Os primeiros cristãos admitiram implicitamente e de modo espontâneo a Trindade das Pessoas na unidade da natureza divina.

 

 
Eu estou no Pai e o Pai está em mim

Jesus é Deus… Jesus é homem… e é uma única e mesma pessoa…

 

Porque se fez homem esse Deus?

 

Diz Jesus: "Tudo me foi dado por meu Pai e ninguém conhece o Filho senão o Pai e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar" (Lc 10,22).

 

 
Eu estou no Pai e o Pai está em mim

Jesus é Deus… Jesus é homem… e é uma única e mesma pessoa…

 

Porque se fez homem esse Deus?

 

Diz Jesus: "Tudo me foi dado por meu Pai e ninguém conhece o Filho senão o Pai e ninguém conhece o Pai senaõ o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar" (Lc 10,22).

 

 
Filho de Deus, Filho do homem

"Tu és o Filho de Deus vivo", diz Pedro no evangelho de Mateus. É esta a fé da Igreja primitiva e a nossa fé. No entanto, Jesus nunca se afirma como "Filho de Deus". Porque será? Já explicámos que, para os judeus Iahweh era o Pai do seu povo e todo o Israel é "filho de Deus". Portanto, se Jesus dissesse que era filho de Deus isso não revelava que Ele é o "Filho único de Deus" como os cristãos depois reconhecem.

 

 
O mestre e a lei

Jesus apresenta-se frequentemente, e em público, como mestre da Lei de Moisés, que é a Lei de Deus… Jesus nunca pôs em causa a Lei do Sábado, mas fez críticas às interpretações legalistas que a tornavam impossível de cumprir e conduziam a uma visão negativa de Deus.

 

 
O perdão dos pecados

O primeiro paralítico de Cafarnaum, ouve estas palavras: "Os teus epcados estão perdoados". Depois, é a pecadora na casa de Simão (Lc 7,48); mais tarde, de forma equivalente, Levi, Zaqueu, a mulher adúltera, o ldrão.

 

 
Os milagres

Os apóstolos fizeram um itinerário que passou pelos milagres de Jesus.

 

Os milagres de Jesus não foram apenas uma admiração, eles significaram muitas vezes a deceção. Lembremos que os judeus são um povo que tem na sua história grandes milagres: As dez pragas do Egipto, a divisão do mar Vermelho, o Maná caído do céu, as muralhas de Jericó a cair ao som das trombetas, o sol parado durante a batalha. Estes sim são milagres e nada comparados com a cura de um doente ou a ressurreição de uma menina. Os milagres de Jesus, ao pé dos milagres de que o povo ouviu falar que aconteceram na sua história passada, não são nada. Quando Jesus multiplicou os pães eles queriam mais. Foram ao seu encontro e disseram algo como "Não está mal o que fizeste, mas Moisés fez cair o Maná do céu e tu o que fazes? Que milagres fazes tu, para que acreditemos em ti?". Moisés fez coisas extraordinárias e não era Deus, como é que poderáimos ver Deus presente naqueles milagres de Jesus?

 

 
Filho de Deus

- Quem dizem os homens que eu sou?

- Uns dizem que és João Batista; outros, que és Elias; outros, Jeremias ou um dos profetas.

- E vós, quem dizeis que eu sou?

- Tu és o Messias, diz Pedro.

 

Este é o famoso diálogo de Cesareia de Filipe (Mc 8,27-29). Segundo o evangelho de Mateus a resposta de Pedro foi ainda mais explícita: "Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo".

 

 
As tentações de Jesus

“Tu és para mim Satanás”. Foram estas as palavras de Jesus a Pedro quando ele o tentava desviar do caminho da cruz e orientar para o caminho do sucesso humano. As tentações que os evangelistas nos apresentam condensadas num episódio no princípio da vida pública, são tentações que estão presentes ao longo de toda a vida de Jesus. Diante das mais variadas solicitações a que estava exposto durante a sua vida pública, Jesus teve que lutar contra a tentação de reduzir a sua missão às espetativas das pessoas. Foi uma grande luta interior, como cada um de nós pode perceber tendo em conta a nossa própria experiência.

 

 
O mal-entendido

O facto de Jesus não querer o caminho do Messias revolucionário fez com que as multidões o abandonassem, apesar de terem visto a multiplicação dos pães. Jesus era o Messias, mas não aquele Messias que eles imaginavam. Mesmo os Doze ficaram com Ele por pouco. É Pedro quem salva a situação e quem depois, em Cesareia, declara "Para nós, tu és o Cristo, o Messias". No entanto, Pedro e os outros discípulos também estão a pensar num Messias conquistador e não num Messias sofredor. Pensam num rei de Israel que os coloca à frente das pastas ministeriais. Foi por isso que Jesus, depois de lhes dizer para não revelarem a sua messianidade, começou a ensinar-lhes que era necessário que ele sofresse muito e fosse rejeitado e morto. Nesse momento, Pedro considera que Jesus ultrapassou toda a capacidade de compreensão e recusou essa possibilidade. Por isso Jesus lhe diz: "Afasta-te de mim, Satanás!".

 

 
Jesus é o Messias?

Israel esperava ansiosamente o Mesias. Diante de Jesus, as multidões, interrogavam-se se ele não seria o Messias. A própria Samaritana, ao falar com ele, pressentiu que ele seria um profeta e quando o anuncia às pessoas da aldeia diz: “Vinde ver um homem que me disse tudo o que fiz. Não será ele o Cristo?” (Jo 4,29). Da mesma forma, os judeus que participavam na Festa das Tendas ao ouvirem Jesus diziam “Este é, verdadeiramente, o profeta” diziam outros “É este o Cristo!”. Mas alguns diziam “porventura pode o Cristo vir da Galileia? A Escritura diz que o Cristo será da linhagem de David e virá de Belém, a cidade de onde era David” (Jo 7, 40-42).

 

 
Messias quer dizer Cristo

Jesus de Nazaré é "o Cristo". "Cristo" não é um nome, como acontece com "Jesus". "Messias" também não é um nome de Jesus. "Cristo" é a tradução em grego do adjetivo aramaico "Messias". Nos evangelhos identifica-se Jesus com o Cristo ou o Messias. No evangelho de João 1, 41 André vai ter com o seu irmão Simão e diz-lhe: "Encontrámos o Messias" e acrescenta "que quer dizer Cristo".

 

 
Os contemporâneos de Jesus

Os contemporâneos de Jesus, em particular os apóstolos, fizeram um caminho diferente do nosso. Nós partimos do conhecimento de Jesus como Deus e depois percebemos a sua humanidade. Eles, pelo contrário, conheceram-no primeiro como homem. Dele, sabiam que tinha nascido em Belém, que era filho de Maria e de José, descendente de David. José, que pensavam ser o pai, era carpinteiro. Foi circuncidado na presença de testemunhas, Simeão e Ana. Tinha primos (que são chamados de irmãos), Tiago, José, Judas e Simão.

 

 
A nossa tentação

A nossa tentação é a de esquecermos a humanidade de Jesus. Para nós ele é Filho de Deus, é Deus e pronto, esquecemos que também é homem. Esta tentação não é de hoje, muitos, ao longo dos séculos cairam nesta tentação e fabricaram uma ideia errada, uma heresia, sobre Jesus, na qual diziam que Jesus era Deus, mas não era verdadeiro homem.

 

 
Jesus de Nazará, o homem

“Jesus de Nazaré, Homem acreditado por Deus junto de vós, … este (homem), vós o matastes, cravando-o na cruz…”. É Pedro quem “de pé com os Onze” assim fala no dia de Pentecostes.
“Jesus de Nazaré, o homem…”

 

 
Jesus Cristo está no centro

Se Deus não fosse Trindade, não seria Criador, porque não seria Amor. Deus nem sequer existiria, pois o verdadeiro Deus é Amor e só pode sê-lo por ser Trindade: não se ama quando não se tem ninguém para amar.

 

 
O mistério revelado

Os artigos do Credo seguem a ordem da revelação histórica de Deus: Criação, encarnação, Pentacostes. Deus, Jesus Cristo, o Espírito Santo com a sua ação na Igreja. É uma revelação progressiva em três passos fundamentais. Muitas vezes temos a tentação de seguir estes passos para uma apresentação de Deus. Quando vemos uma casa ao longe e nos aproximamos, primeiro vemos o telhado, depois o andar de cima, a seguir o andar de baixo e só mais tarde a cave. No entanto, ninguém segue esta visão para começar a construir uma casa pelo telhado. Também nós não podemos querer compreender o mistério de Deus sem colocar Jesus no centro. Uma teologia começada pelo telhado afirma que Deus existe e é único, que é distinto do mundo, existe antes do mundo, é inteligente e todopoderoso. Deus é um ser pessoal. Infinitamente perfeito, sábio, justo, santo, etc. Criou do nada o mundo e os homens. Um abismo infinito separa Deus das suas criaturas e as criaturas aumentaram este fosso com o pecado. O homem, pela inteligência é capaz de tirar estas conclusões.

 

 
O Filho revela o Pai

Quando olhamos para Jesus Cristo, Filho de Deus, Deus entre nós, verificamos que as descobertas dos filósofos estão fora da objetiva de Deus.

- Os filósofos dizem: "Deus é um puro espírito, invisível". Jesus diz: "Tocai-me e entendei que um espírito não tem carne nem ossos, como estais a ver que eu tenho" (Lc 24,39).

 

 
Creio em Jesus Cristo

O Credo desenrola-se em três fases: "Creio em Deus… Creio em Jesus Cristo… Creio no Espírito Santo…".

Já terminámos a reflexão sobre a primeira parte. Chegamos, agora, à segunda, a mais importante:

 

 
Criado como filho

"À imagem de Deus criador", portanto, o homem foi chamado a ser também criador. Isso define as suas relações com o mundo e a sua colaboração com Deus, uma relação de trabalho em que o homem põe mãos à obra, estendo os braços para o universo, para o transformar.

 

 
Imagem de Deus criador

Imagem de Deus criador, será que estou a ser criador à sua imagem? Esforço-me por ter uma ideia pensada por mim? Uma palavra que não seja repetir o que outros disseram? Uma opinião política pessoal, da qual apresento justificação? A minha criatividade está adormecida ou vigilante? Em que dimensão da minha vida estou a ser criador? Não haverá na minha vida algum canteiro que não está a ser semeado? Tenho iniciativas junto dos outros, na minha família, no meu trabalho, ou deixo isso para os outros? O homem que não tem iniciativa, que não é capaz de criar algo por si mesmo, não é homem, é máquina.

 

 
O homem à sua imagem

É Dostoievski, no romance "os irmãos karamazov, quando Ivan se encontra mal, faz dizer a Aliocha: "Ama a vida: basta que ames a vida. Depois procurarás o sentido para ela".

É que amar a vida é já presentir essa graça que nos faz pressentir que só em Deus podemos existir e ser felizes. É este o sentido da expressão "Deus criou o homem à sua imagem".

 

 
O universo visível e invisível

Os autores inspirados têm a revelação de que o universo é muito mais rico do que podemos ver. Falam de um universo invisível, de um cosmos de puros espíritos. É o mundo espiritual dos anjos e dos demónios. Por isso o Credo de Niceia, que proclamamos na Missa do domingo diz: “Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis”.

 

 
O rio

No segundo relato bíblico da criação, o mais antigo, um rio brota do Paraíso terrestre e irriga o Jardim. Nesta nascente revela-se a grandeza de Deus Amor: Deus não é um solitário egoísta que vive voltado para si mesmo, mas alguém que, como uma fonte, jorra transbordante de generosidade e de amor. A criação brota como um rio da nascente.

 

 
Uma pergunta para mim

Hoje, como há três mil anos, quando dizemos que a nossa fé está alicerçada na Escritura, queremos dizer que aceitamos que a nossa vida seja interrogada pela Escritura. Na Palavra encontramos resposta para a vida e a nossa vida é uma resposta à Palavra.

 

 
Uma pergunta para mim

Hoje, como há três mil anos, quando dizemos que a nossa fé está alicerçada na Escritura, queremos dizer que aceitamos que a nossa vida seja interrogada pela Escritura. Na Palavra encontramos resposta para a vida e a nossa vida é uma resposta à Palavra.

 

 
Uma moral

O autor de Génesis quer dizer a todos que:

Estamos em casa: somos responsáveis pela criação, devemos protegê-la: é o lugar onde os homens habitam. Aqui tudo se partilha porque é de todos. Fomos criados com capacidade para trabalhar, podemos e devemos melhorar a criação, as condições da nossa casa comum. O trabalho ajuda o homem a ser homem e, mesmo quando é difícil e não apetece, não pode ser entendido como um castigo. Trata-se de uma vocação.

 

 
Criação, uma reflexão

Os primeiros capítulos da Bíblia são uma reflexão que revela verdades essenciais e necessárias ao homem, mas ignora elementos menos importantes, a que hoje se dá muita importância. Quer dizer que a intuição do autor sobre Deus e a sua obra nos é revelada através de determinadas imagens que facilmente entendemos, mas o autor não tem noção de algumas descobertas científicas realizadas muitos séculos depois, nem tinha que ter. No século XV d.C. ainda se julgava que a terra era plana e entretanto hoje todos sabemos que a terra é redonda. Ninguém pode falar do que não sabe, mas pode transmitir o que sabe e o autor sabe que Deus é a origem de todas as coisas que existem.

 

 
Deus origem da vida

O homem está aí, no mundo. A primeira coisa que ele percebe é que não deu a vida a si mesmo. Ela não está na origem da sua existência. Então, onde está a origem? Os seus pais? E antes? Não é esta também a experiência mais forte que cada um de nós é chamado a fazer? Esta é uma pergunta fundamental.

 

 
Ser pai é ser criador

As primeiras páginas da Bíblia põem em cena a origem do mundo e do homem. Porém, a sua descrição, suscita problemas. Por exemplo: Como é que o autor de Génesis podia saber o que aconteceu no momento da criação? Como conciliar as afirmações bíblicas com a ciência que afirma: Adão e Eva nunca existiram porque o homem apareceu por evolução? Como acreditar numa criação feita em seis dias? E quem é esse Deus oleiro que tira o homem do barro? Como entender esse Deus cirurgião que tira a mulher da costela de Adão? Mas, esses relatos, pretendem ser a resposta para as perguntas do homem sobre a criação.

 

 
Deus livre para amar

O amor de Deus é gratuito e incondicional. Como todo o amor paterno ou materno.

Os pais que o são de verdade trazem o seu filho nos sonhos da sua ternura muito antes de poderem contemplar o seu rosto. É extraordinário esse amor. O filho é sonhado, depois esperado sem ser conhecido, mas sempre amado. Não conhecem o rosto, nem a personalidade, nem o caráter, nem o futuro, mas amam-no porque vai ser o seu filho, é o seu filho. É um amor maravilhoso que não espera por conhecer o outro para o amar. É um amor assegurado de ante mão, independentemente de todas as coisas, para lá de qualquer merecimento, nada desencoraja um pai de amar um filho. Deste modo, e muito além deste amor, é o amor do Pai Deus. Nada em nós pressupõe merecermos ser amados, nada temos para oferecer que justifique este amor e, no entanto, Ele ama-nos assim, incondicionalmente. Não espera que eu o ame para me amar, ama-me antes que eu o conheça e ainda que eu o não ame. Nenhum amor se pode comparar com este amor.

 

 
Deus é amor

“Deus é amor”. Esta é a definição de Deus, da sua natureza. Querer falar de Deus de outra forma é falar de um falso deus, porque Deus não se explica se não afirmarmos que Ele é amor.

 

 
A omipotência desarmada

Esta linguagem sobre Deus é muitas vezes um quebra-cabeças para as pessoas. Temos dificuldade em entender as formulações teológicas que explicam o que dizemos no Credo. Deus é bem mais simples do que a nossa linguagem. A omnipotência de Deus é um desses temas que dificilmente entendemos teoricamente mas que Deus explica muito facilmente na prática. “Deus amou tanto o mundo que lhe deu seu próprio Filho” (Jo 3,16). Esta é a atitude de Deus na encarnação de Jesus que veremos na segunda parte do Credo. Ali, em Jesus, explica-se muito do que Deus é e que as palavras não são capazes de nos fazer entender.

 

 
Pai todo-poderoso

Ao revelar que Deus é Pai, a Bíblia e o Evangelho, mostram-nos um Deus despojado da sua majestade. Podemos chamar a Deus “Pai bom”, não por dizer, mas por ser verdade: “Vede que amor tão grande o Pai nos concedeu, a ponto de nos podermos chamar filhos de Deus; e, realmente, o somos” (1Jo 3.1). Esta afirmação é, por si só, motivo para transbordarmos de alegria.

 

 
Deus do universo

O “Deus Todo-poderoso” é o “Deus do universo”. Não ao jeito das religiões pagãs que adoravam as forças celestes, mas ao jeito bíblico que reconhece o poder de Deus que cria e ordena todo o universo. Mas também no sentido de Deus estar acima do universo dos reis da terra, dos chefes das nações e de todos os senhores deste mundo. Deus é soberano dos reis da terra, de todas as coisas e de todas as pessoas.

 

 
Pai dos incrédulos

A preocupação com o dia de amanhã não deveria existir, nem para o incrédulo, pois Deus é também Pai dos incrédulos. Há um provérbio que diz: “Não se devem tomar os filhos do bom Deus por patos bravos”. Pois bem, apesar disso, os que são “patos bravos” no plano da fé e da moral são, tanto quanto os outros, “filhos do bom Deus”: o negro e o branco, o árabe e o judeu, o bandido e o santo, o crente e o não crente, e até mesmo o incrédulo, são tratados por Deus como filhos, amados como filhos, com o mesmo coração paternal:

 
Pai de cada homem e de todo o homem

Entretanto, Deus, o grande pedagogo, ainda só levantou uma ponta do véu do mistério infinito da sua paternidade: através da história do Antigo Testamento, apenas se revelou como Pai de um pequeno grupo – Israel.

 

 
Pai de todos e de cada um

Pai de Israel

“Deus Pai todo-poderoso” disse o seu nome na sarça ardente. Mas, onde foram buscar os Apóstolos este nome para o colocar no Credo? Abrindo a Bíblia que é a experiência de um povo e o Evangelho que é a experiência dos Apóstolos encontraremos esse Deus permanentemente em atitude de Pai, no meio dos seus filhos.

 

 
Só existe um Pai: Deus

Todos corremos o risco de contemplar a Deus como Pai, a partir da nossa deficiente ideia de pai. Não é a imagem da paternidade humana, por muito perfeita que seja, que se verifica em Deus. No princípio está Deus, a sua paternidade e não o homem com a sua paternidade. Deus Pai é modelo e fonte de toda a paternidade no céu e na terra, como diz Paulo em Ef 3,5. Por outras palavras, “Deu Pai” não é imagem do “homem pai”; pelo contrário é o homem que é criado à imagem de Deus. Deus é infinitamente mais Pai que o melhor dos seres humanos. “Ninguém é tão pai quanto Deus”.

 

 
O assassino do Pai

Devemos começar por perceber que, hoje, falar de Deus como “Pai” não é nada correto tendo em conta as lutas que as novas gerações têm travado com o poder paternal. Os mais novos estão marcados pelas revoluções, pela psicanálise, pelo espírito científico e rejeitam todo e qualquer paternalismo. Estão no momento da vida em que querem garantir o seu espaço, afirmar-se frente aos adultos e aos pais em particular. A afirmação de si próprio requer a anulação do outro. Ora, falar de Deus como Pai e um Pai todo-poderoso, não soa nada correto aos ouvidos da juventude. A rejeição do Pai significa aqui a rejeição de Deus.

 

 
Pai suspeito

As “filosofias da suspeita”
O que mais impressiona ao ler o Antigo Testamento é que Deus é uma Pessoa. Evidentemente, não podemos vê-lo, porque ele é um espírito. Porém, ele manifesta-se. Vemo-lo intervindo diretamente na história do povo, em conversa familiar com o homem, como alguém que diz aos amigos: “Sentemo-nos e falemos um pouco”. O Deus que a Bíblia nos revela é ao mesmo tempo majestoso e familiar.

 

 
Pôr-lhe-ás o nome de Jesus

Passaram-se os séculos, durante os quais Israel invoca a Deus como “Iahweh”, esquece “Iahweh” – Eu sou – para adorar “os que não são”, volta para “Iahweh”, louva “Iahweh” que faz maravilhas… é como um adolescente na relação com o pai.

 

 
Alguém que está presente

Alguns pensaram que Deus quando disse “Eu sou Aquele que sou” estava a dar uma definição de si mesmo, como podemos encontrar nos dicionários: “Deus é um Ser”, “o Ser absoluto que subsiste em si”. Os comentadores da Escritura são unânimes em recusar esta possibilidade.

 

 
Deus é um dos nossos

Precisamos de refletir sobre o mistério do nome.

 

Que é um nome? Que entendemos do facto de Deus nos dar a conhecer o seu nome?

 

 
O nome do teu Pai?

Durante seiscentos anos os descendentes de Abraão tornam-se um grande povo. Um povo que agora é escravo no Egito.


Deus vai revelar-se mais profundamente. Vai dizer o seu nome e aplicar um grande golpe. As duas coisas ao mesmo tempo. Um gesto para gravar o nome para sempre no coração do homem e um nome associado a um acontecimento grandioso.

 

 
Um Deus que fala

O nosso “Deus Pai” revelou-se por meio das suas intervenções na nossa história. Desde sempre e de muitas maneiras, Deus foi-se manifestando progressivamente, vem-se aproximando de nós. Revelou-se a uma pessoa, a uma família, a um povo, a todos os povos, a fim de que todos os homens vivam relações filiais com ele que é Pai. É uma história que não está terminada.

 

 
“Deus Pai todo-poderoso”

Para passar do “deus desconhecido” ao conhecimento do verdadeiro Deus, é preciso acolher a Revelação que este Deus faz de si mesmo através da história, em Jesus Cristo e na Igreja. É preciso assumir o nosso Credo: “Creio em Deus Pai todo-poderoso”. “Todo-poderoso” é um daqueles nomes que nos fazem temer. Parece que Deus há de ser terrível, temível, fulminante, inflexível. A verdade, no entanto, revela ser outra a face de Deus. Por outro lado, parece bom crer num Deus todo-poderoso. Fizemos uma grande descoberta.

 

 
Deus... Pai

Imagine que numa visita a um museu o guia pergunta às pessoas do grupo: "Na sua opinião, quem é Deus? – Que aconteceria? Respostas das mais variadas? Silêncio? Espanto?

 

 
O dinheiro

O “Creio em Deus” coloca um “não categórico ao absolutismo do poder. De qualquer poder, mesmo religioso. Um “não” categórico à adoração da força dos grandes, sejam eles quais forem: “Derrubou os poderosos de seus tronos”. Está abolida de uma vez para sempre a pretensão totalitária de todo o poder.

 

 
“Ateus” para ser livres

A confissão da fé de Israel – Iahweh teu Deus é o Deus único” – repetida nos lábios e na vida dos cristãos, é uma declaração de guerra à tríplice idolatria:

 

 
A fome, o amor e o poder

“Creio em um só Deus”: esta profissão básica da fé é também como um pano de fundo do nosso Credo. Ela significa, para nós e para os judeus, a recusa efetiva dos deuses dos povos vizinhos. Não se trata de uma opinião teórica, mesmo correta, que repetimos todos os domingos. Deve ser uma opinião vital, uma opção vivida diariamente, uma escolha existencial, uma escolha presente nos acontecimentos, nas ações, na vida. O nosso “Creio” é um Creio para ser vivido, não um Creio para ser recitado.

 
Em um só deus

“Creio em Deus”. Este primeiro artigo do Símbolo Apostólico, do Credo, não quer dizer simplesmente: “Creio que existe um deus ou deuses”; mas com maiúscula: “Creio que Deus existe”, isto é: “Creio em um só Deus”.

 

 
Deus está vivo

É no Deus vivo que devemos crer. O Deus de Abraão, de Isaac, de Jacob, o Deus de Jesus Cristo.

Ora, o Deus da revelação é um Deus vivo. Não é um astro imóvel, uma ideia fixa no céu da filosofia. É um Deus que mexe – a vida consiste no movimento – um Deus de ontem, de hoje e que continua amanhã. Um Deus histórico que caminha connosco na nossa história, no meio de nós, sobre a terra. Se cedermos à tentação de afastar Deus para um lugar distante a que chamamos céu; se, ao chamá-lo transcendente, o situamos fora do mundo e longe da história, a nossa fé será rejeitada como uma ideologia: uma teimosia de um grupo sem qualquer objetivo. O homem de hoje não espera que o definam a ele mesmo ou que lhe definam Deus em termos abstratos – “o homem é composto de um corpo e de uma alma”; “Deus é um espírito puríssimo” – o homem reclama que lhe digam para onde vai a história, se a vida tem um significado, um sentido. O homem do século XXI só tem ouvidos e coração para uma Igreja, para um Deus, em ação no mundo que passa e no qual se passa alguma coisa.

 

 
Deus morreu

No século XVI deu-se uma revolução artística, literária, científica e política a par da descoberta da imprensa. O aristotelismo foi ultrapassado pelo desenvolvimento da ciência e rejeitado pela filosofia e pela política.

 

 
Metamorfose do mundo, do pensamento, da linguagem

Nos últimos cem anos a humanidade sofreu uma enorme metamorfose. Talvez a mais profunda metamorfose de todos os tempos. Tudo é essencialmente igual: é a mesma humanidade e o mesmo Deus, mas tudo está mudado. É a mesma humanidade mas numa espantosa evolução. É o mesmo Deus, mas ele quer ser conhecido por essa humanidade; quer uma purificação das fórmulas antigas, por não dizerem ao seu povo quem Ele é verdadeiramente. Neste momento da humanidade torna-se imperativo irrecusável uma adaptação da linguagem para que a mensagem sobre Deus seja bem entendida pela cultura, pela sociedade, pelo homem de hoje. Que fazer para tornar Deus compreendido?

 

 
Mas qual Deus?

Quando queremos conhecer alguém falamos com a própria pessoa. Escutamo-lo bem e ficamos a saber mais do que alguém nos podria dizer sobre essa pessoa. Da mesma forma só se conhece Deus ouvindo o que ele tem para dizer e não por ouvir outros falarem. Na Bíblia, nos Evangelhos encontramos tudo o que Deus nos quer dizer.

 

Precisamos saber ler a Bíblia, entender aquela linguagem, abrir o coração ao que Deus nos quer dizer, mais do que à palavra material através da qual Deus nos fala.

 

 
Mas Deus é mistério

Deus é um mistério. “Deus é um espírito puríssimo, infinitamente perfeito, eterno, omnipotente, criador e soberano, senhor de todas as coisas”, diziam os nossos catecismos. Essas palavras, não as entendíamos. Elas, nada podiam dizer, a não ser que Deus é mistério.

 

 
Razões para crer em Deus

Onde estão as raízes desta experiência religiosa que faz germinar em nós o sentido de Deus?

Em primeiro lugar, temos a experiência da condição humana. A sua pequenez, finitude e precariedade, a sua fraqueza. A aspiração ao ilimitado, impossível de satisfazer. A nossa ignorância e a nossa impotência, as nossas angústias e os nossos impasses, o maior dos quais é a morte. Toda essa insuficiência natural apela para um salvador. Quem me liberta dos meus limites? O homem desde sempre pensou que podia realizar-se superando-se a si mesmo e sentiu sempre que só se poderia superar estabelecendo uma relação com o Outro, infinitamente maior que ele. Claro que o homem do século XXI segue mais pelo caminho da teimosia do que pelo caminho da oração. Uma teimosia que consegue alguns resultados mas não resolve de todo o seu problema.

 

 
"O Filho unigénito o deu a conhecer"

É verdade, jamais alguém viu a Deus. Mas se nós, cristãos, acreditamos, é porque Deus falou. Deus tomou a palavra na história. Deus interpelou o homem para lhe dizer que existe, para lhe revelar o seu nome e para lhe desvendar o seu amor e os seus projetos.

 

 
“Deus sensível ao coração”

Por ser invisível Deus não se pode ver. Há muitas coisas que nós não vemos mas não têm que ser invisíveis. Os astros não estão ao alcance dos nossos olhos, mas não são invisíveis. Deus não é assim. Ele é invisível mas não está longe como os astros. Deus é invisível como é invisível o meu próprio espírito, como o amor que tenho dentro de mim, do qual sinto a vida e a força, mas não posso vê-lo. Invisível como força vital que faz bater o meu coração noite e dia.

 

 
Ninguém jamais viu a deus

A avaliar pelos nossos sentidos, Deus não existiria. Alguns pensam que se Deus existisse, a sua existência saltaria à vista, serie evidente. É o que pensa o astronauta soviético, Gagarin, quando diz que a sua nave espacial não se cruzou com Deus na atmosfera. Muitos como ele eliminam Deus das suas vidas porque não o encontram na rua ou no canto de uma capela ou convento. Outros, os crentes, pensam que qualquer pessoa honesta pode conhecer a Deus sem hesitação nem dificuldade. Daí concluem que os ateus, os “sem Deus”, ou são imbecis ou desonestos.

 

 
"Em Deus…" porquê?

Dezembro de 1968. Uma cápsula espacial habitada contorna pela primeira vez a lua. O mundo inteiro pode ver. O mundo inteiro está à escuta…

 

 
Deus manifestou-se

 

Se Deus é a razão de um anseio universal da humanidade, é porque ele se revelou. Blaise Pascal atribuía a Deus esta expressão: "Tu não me buscarias se não me tivesses encontrado". De facto, o homem tem fome de Deus porque ele (Deus) está presente no homem. E até mesmo o homem que nega Deus procura sempre alguém maior que ele, o Homem, a Humanidade… alguém que o tire da mediocridade e alguém que a mediocridade dos homens crentes não lhe permite identificar, mas que não é outro senão Deus, ainda que lhe chame outra coisa.

 
Experiência de fé

Crentes e não crentes falam de uma experiência. Mas há experiência e experiência.

 

Cada um possui a experiência de si mesmo, direta e intimamente. “Existo, vivo, sinto-me bem ou mal, física ou moralmente, por esta ou aquela razão. Gosto, detesto ou é-me indiferente. Penso nisto ou naquilo…” É a intuição. Ela é dificilmente comunicável. Corre o risco de se concentrar num ponto. Mas também pode abrir-se, lançar-me para os outros, para Deus… chamá-los, acolhê-los. Todo esse domínio interior é demasiado particular, demasiado pessoal, para ser o da ciência. No entanto, ele é, dentro de cada um, o primeiro domínio da certeza. Ele constitui, para todos, a experiência inicial.

 

 
Creio…

Todas as pessoas creem e todos são incrédulos. O famoso “creio só no que vejo” é falso e, aliás, contraditório. Comprovo que estou de pé, que são seis horas, que está a chover ou a fazer sol, que o meu amigo está a sorrir, que a sopa está quente… trata-se de factos que se impõem aos meus sentidos e, portanto, não “creio” neles porque os vejo. Mas, para além das certezas imediatas desse género, crentes e não crentes comprometem a sua vida e a sua liberdade em muitas coisas que não veem. “Crê-se” na ciência, no jornal, no dinheiro, na meteorologia, no marido, na esposa, no médico, mais do que se conhece. Não pode ser de outra forma.

 

 
Os gestos de Deus

É de vida que se trata quando falamos de Credo: da vida de Deus e da vida dos homens. Aquele que recita o Credo não segue ideias abstratas: Deus, criação, encarnação, redenção, ressurreição, ascensão, escatologia. Muito pelo contrário, trata-se de evocar Pessoas, factos, uma história, os “gestos de Deus” desde a criação até ao fim dos tempos, com verbos ativos cujo sujeito é Deus: “Creio em Deus Pai… e em Jesus Cristo, que nasceu, padeceu, foi morto, ressuscitou, subiu aos céus… Creio no Espírito Santo…”. Três Pessoas que se manifestam no mesmo Deus, através de um ritmo histórico de compromisso divino a favor dos homens a quem ama.

 

 
Um credo baptismal

O nosso Símbolo Apostólico é um “Credo batismal”. Quer isto dizer que, desde os primeiros séculos até aos nossos dias, ele constitui a profissão de fé do povo fiel que a Igreja vai batizar, “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”. É, portanto, um Credo inicial: um Creio de principiante.

No decorrer da Quaresma, após cinco semanas de instrução, os catecúmenos, candidatos ao baptismo, “recebem o Símbolo”. Essa entrega do Símbolo acontecia durante uma cerimónia solene. O bispo recomendava-lhes que o aprendessem de cor:

 

 
O Credo (símbolo dos apóstolos)

O nosso Credo é chamado também “Símbolo dos apóstolos” por ser o sinal de reconhecimento e de unidade entre os cristãos dos primeiros séculos. Chama-se “Símbolo dos apóstolos” porque as verdades aí proclamadas têm a sua origem nos apóstolos.

 

 
Conhecimento de deus

Existe uma ciência da religião cristã, como há uma ciência das outras religiões. É possível saber muitas coisas sobre o Deus dos cristãos, ou dos muçulmanos, ou dos budistas. Há até uma ciência das religiões. Mas, atenção, a fé cristã não é uma questão de conhecimentos. A fé cristã não consiste no conhecimento de coisas mas conhecimento de alguém.

 

 
Dossier ou encontro?

“Deus… Jesus Cristo”… Trata-se de Pessoas. A fé, portanto, não é uma lista de afirmações dogmáticas; ela é o encontro com Alguém; é a participação num Mistério.

 

É que um mistério não é uma porta fechada na qual se esbarra. Ao contrário, ela é uma porta aberta, uma revelação, mas para algo que nunca se chega a conhecer totalmente por causa da sua grandeza. É como se quiséssemos atravessar o mar a nado.

 

 
Aos homens de hoje

“Aos homens de hoje”, porque necessariamente a fé se exprime em fórmulas vinculadas à cultura de uma época. Pelo menos assim deveria ser. Infelizmente, para expormos a nossa fé cristã, estamos presos a palavras, a fórmulas herdadas de um passado distante; para falarmos do Deus vivo, muitas vezes apenas sabemos utilizar uma linguagem morta. Resultado: o homem do século XXI não compreende.

 

 
UMA PERGUNTA

No fundo do coração, no centro da vida e da morte, no recôndito mais íntimo do mundo e da sua história, existe uma fome angustiante: Para quê viver? Para quê amar? Para quê morrer? Para quê o mundo e o homens e as suas lutas?